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terça-feira, 5 de agosto de 2014

O NÚCLEO (Caps. 14 e 15)

14 - Nagara

            Em lugar escuro e apertado, uma mulher urizeniana, com os seus três e meio a quatro metros de altura, despertou. As paredes metálicas do contêiner apertavam-na, o ar parecia pouco, e as mãos e os pés estavam gelados e desnudos enquanto a roupa resumia-se a uma manta e uma espécie de calçola.
Alguma coisa a incomodava perto da orelha esquerda. Ela tocou, com dificuldades em alcançar, e percebeu se tratar de um implante. 
            Uma voz soou direto em seu ouvido direito, em intercosmos:

- Sua missão está cumprida. Seu corpo foi usado em prol do grande Rama, e sua semente já nasceu. Você chegará a Urizen em poucas horas, através da Estação Ur.

            Ela começou a ficar sonolenta, sem poder pensar direito, e adormeceu.


***


            N’Stal era o homem de confiança do Prelado da Defesa, mesmo não pertencendo a uma casta superior, o que poderia ser percebido pela natureza de seu sobrenome. Como Assistente Supremo, em meio a Estação Ur, que fica orbitando o planeta-matriz, em seus duzentos e seis anos de vida, nunca vira nada igual. Um contêiner alienígena estava próximo, ele autorizou o recebimento daquilo, e, quando no Laboratório Central, aquilo foi aberto, uma desaparecida.

- Quarenta e sete anos desde a última mensagem daquela missão… - disse, inadvertidamente, N’Stal, depois de uma longa teleconferência com o Ministro, que iria pessoalmente para lá, ainda que atrasadamente.

            Na sala ampla, repleta de monitores, telas holográficas, imensos discos rígidos em cristais diversos, ordenados em estantes de metal por assunto, estava o homem de confiança do Prelado da Defesa, frente a um mistério. Ele pesquisava ali mesmo, tentando achar mais detalhes daquilo, tendo acesso a todos os dados secretos possíveis. Mas, muito havia sido destruído.
           
- Sub-Prelado? – disse uma voz feminina. 

- Uhn… Entre Dorna. O espécime acordou?

- É para isso que eu vim. O senhor falou para avisar-lhe pessoalmente, sem intermediários.

- Então, vamos.

            Eles se ausentaram dali, atravessaram um vasto corredor. Em mais alguns metros estava o Laboratório Central. Ele tinha muito o que descobrir com a desconhecida que se dizia chamar “Nagara N’Kebeker”.
***


Nagara estava agora em sua terra-natal, feliz, mesmo sabendo da passagem de anos. Deitada em uma cama do seu tamanho, ela era escaneada sem perceber, pois, se havia algo importante para os gigantes de Urizen, eram os dados de radiações extra-dimensionais, um conjunto de informações que poderiam dar pistas exatas sobre o que houve e para onde ir.
O Sub-Prelado apareceu sozinho, pediu para que ela se sentasse na cama, se pudesse, e tentou iniciar um interrogatório com tom de conversa, enquanto um robô oval, flutuante, e do tamanho de um punho humano fechado, registrava tudo. Em determinado momento, ela pôde revelar o caso dos akashes e da superinteligência Rama, sobre sua missão e sobre seu seqüestro e suposto filho. Tudo contado em um período de dias.
Mais tarde, as informações, bem como as medições de resíduos de radiação extra-dimensional no corpo de Nagara, foram levadas até o Triunvarato e ao Prelado (o equivalente a “General”) de Defesa.

***


            Meses urizenianos correram rapidamente. Nagara estava restabelecida e pronta para assessorar uma nova missão.

- Com a tecnologia adquirada ao longo das últimas décadas e baseado nas medições que tiramos das radiações presentes no corpo de nossa assessora militar, devidamente restituída ao cargo, sabemos, agora, para onde ir com a nossa “Imperatriz”, a primeira nave de grande porte capaz de ultrapassar realidades alternativas e chegar onde queremos: a Terra 1. – disse, confiante, o comandante Mosten N’Kshima, ao lado da Prelada Arpoor Tdida, proveniente de uma nação amiga também comandada pelo Triunvirato.

            O auditório estava repleto, e Nagara, ao lado de sua filha adulta, a oficial Maren N’Kebeker e seus longos cabelos ruivos curtíssimos  em um corpo de medidas bem distribuídas em seus três metros e noventa e oito de altura. O último discurso havia sido encerrado. Eles iriam partir no dia seguinte sem esquecer do objetivo: encontrar Kosnow, os akashes, e, se possível, o adimensional que Nagara chamava de “Murion”. Pretendiam lucrar alguma coisa – além de motivos para inaugurar aquela nave – com essa investida, científica e estrategicamente frente a entidades tão poderosas em guerra, além de, presumivelmente, impedir um suposto desastre entre universos diferentes: o nosso, possuidor de inúmeras realidades alternativas, e o dos akashes. Ou – não se sabia bem -, se não fosse uma colisão, algum tipo de “contaminação” a gerar perdas enormes em todas as realidades alternativas daquele mesmo saco de galáxias. Tudo isso girava na cabeça de Nagara, que – depois de se despedir de amigos, da filha e de mais de um quilômetro de corredores e elevadores -, agora, via-se de volta ao seu quarto. Teria apenas mais oito horas de sono antes de começar a trabalhar.
No dia seguinte, engenheiros e cientistas atuavam num vasto canteiro de obras, ao lado de máquinas estranhas repletas de controles, poucos fios, um cheiro de ozônio, robôs-operários de aspecto humanóide, tudo interligado por um mestre-de-obras, um engenheiro, e uma física idosa especializada em desdobramentos interrealidades. Eles tinham suas características próprias, seus nomes, sua hierarquia, e, acima de tudo, seguiam os comandos da Central, dominada por vinte e cinco pilotos, oito taifeiros, o casal de médicos jovens Arnuk e Terzia N’Shoek, e cinco engenheiros, sendo dois em comunicações, e três de função genérica.

- Comandante N’Kshima, estamos prontos. – avisou o interfone. Ele daria a ordem a uma viagem que seria ao mesmo tempo física e transdimensional.

Tecnicamente, seria um vôo só de 930 mil anos-luzes facilitado por forças extra-dimensionais, a levá-los diretamente à realidade e à localidade física onde estaria o sistema solar do que eles chamavam de “Terra 1”.

- Pronto, agora! – indicou o Comandante, apertando um botão vermelho ao mesmo tempo que os profissionais do andar de baixo acionavam os motores.

A Imperatriz, partindo da Estação Ur, afastou-se por poucas horas-luzes e, em seguida, após um desfoque rápido em seu semblante arredondado como um planetóide, sumiu no ar.


***


Pareceu não ter acontecido nada. Apenas segundos que se passaram e uma vertigem quase imperceptível. Nagara estava em seu escritório, durante o que deveria ser uma longa viagem, e percebeu quando as luzes piscaram. Ela acionou com um pensamento-senha um minúsculo intercomunicador implantado nela, pedindo informações. Só estática.
            Preocupada, e ainda cansada do que passou nos últimos dias, ela mal percebeu a abertura da porta de seu escritório. Eram guardas.

- O comandante precisa de sua presença. É urgente.

            A estática continuava, e ela se viu obrigada a seguir os dois guardas. E assim as coisas se passaram, com pensamentos acelerados, por uma visão caótica de robôs médicos, taifeiros, assistentes diversos tentando manter a ordem. O pior foi andar a pé, sem nenhum tipo de transporte tecnológico, por mais de seiscentos metros, considerando que aquelas pessoas, fora os guardas, não estavam preparadas para um mundo sem benesses técnicas.
            Finalmente, após uma longa escadaria, com a gravidade flutuando entre a leveza e o peso, os três passaram pelo corredor principal e chegaram à Central. Todos estavam alvoroçados, tentando acertar uma forma de suprir a falta das antenas, e em meio àquilo tudo, o Comandante, sendo rapidamente atendido por Arnuk, enquanto tentava trabalhar com um primitivo papel de cristal e uma caneta para telas sensíveis. Acima daquele objeto, imagens em 3D e 4D (mostrando diferentes fases temporais do último salto intergaláctico e interdimensional e a parte estrutural bem como as variações energéticas da nave). O médico afastou-se e seguiu para outro setor, enquanto o comandante Mosten aproximava-se dela, que já avistava a vinda da Prelada. Quando a Prelada, por trás, com outros guardas, chegou perto, o líder da missão falou:

- Vou direto ao ponto: estamos na órbita de um gigante gasoso. E vai demorar para sairmos daqui. Tivemos algumas falhas de ordem secundária, mas, diante desse imprevisto… penso em formarmos uma equipe que vá até uma base avançada da Terra, em uma dessas luas.

            Parece que esse seria o caminho que iriam seguir.

- A equipe a ser formada só terá o equivalente a três dias terrestres para encontrar o alvo. - ele concluiu, antes de conversar os detalhes.

            Quando as coisas se acalmaram, Nagara e seis pessoas foram escolhidas.





15 – Terra e arredores


            “Ele não conseguiu o que queria, mas isto aqui está muito próximo disso”, pensava Kosnow, em uma sala alcochoada, com grilhões invisíveis impedindo que ele chegasse muito perto da porta.
             Ele havia sido achado como único sobrevivente do desastre ocorrido em Arquimedes IV, balbuciando sobre alienígenas, em total estado de choque. Levado de volta a Terra, mais precisamente para uma clínica nos arredores de Nova São Paulo, permaneceu as últimas semanas sob os cuidados do Estado. E ele mesmo, Antônio Kosnow, questionava se tudo aquilo não havia passado de loucura de sua parte. De qualquer forma, comportar-se-ia bem para, em breve, nos próximos dias, pudesse ser transferido para uma ala mais moderada, onde, ao invés de viver de paisagens oníricas trazidas por um telão que mal se escondia perto do teto de sua cela que lhe indicava se era dia ou noite, encontraria a realidade.
            Kosnow esperava, alimentava-se, era levado ao banheiro, almejava a paz, quando as luzes se apagaram naquele fim de tarde. Era ele, o que se dizia ser filho de Nagara com Rama! Antônio Kosnow ficou apavorado e se encolheu no fundo de sua cela. A ajuda teria que vir da sorte ou de seu Deus.


***


            Aquele homem adimensional, que pouco sabia de seu passado, tinha desistido, e estava prestes a se mudar para alguma realidade alternativa onde haveria a presença de uma Estação abandonada e cheia de comida até ele achar uma forma de sair dali e voltar para casa ou morrer. E, de fato, ele chegou a voltar à velha Estação, na realidade alternativa original, mesmo que não a sua própria realidade, a qual a Terra nunca havia existido.
            Foi naquilo que seria uma manhã que ele, vasculhando a central daquela Estação alienígena, com seus consoles adaptados a mãos parecidas com as patas de uma ave, que ele viu uma tela ser acesa, com um letreiro incompreensível. Mas, ele logo soube: uma nave cilíndrica, dos exekers, pequena, esverdeada, nos arredores, suportando toda a pressão das forças físicas que, em polvorosa, manifestavam-se naquele espaço na periferia do que seria o centro do universo. Aqueles seres que seguiam os akashes parece que tinham como localizar os rastros dos três, com a ajuda de sua própria tecnologia tão antiga quanto desconhecida.
            Cuidadoso, ele abandonou aquele lugar, com sua roupa de astronauta alienígena, e, após longas horas de infinito cuidado, aliviado, colocou-se num ambiente mais saudável, com atmosfera própria naquelas medidas apertadas, e uma voz que anunciava em intercosmos, logo após ele ter entrado na nave exeker: “Esta é a MÓDULO, enviada segundo parâmetros de extrema urgência. É capaz de suportar um único vôo de alguns bilhões de anos-luzes até o destino desejado. Porém, ao chegar ao local desejado, o seu motor ultra-luz principal não poderá ser reutilizado, o que tornará a MÓDULO uma nave comum. Esperamos que você, Kosnow, Nagara, ou Murion, e, sobretudo, os akashes, aceitem esse presente satisfatoriamente”. O som desapareceu, enquanto Murion mudava de traje, examinava a pequena nave cilíndrica, até, em um dado momento, respirar fundo e acionar os dados, e pensou para onde Kosnow foi levado, e o que ocorreu com ele. Murion sentia que seu parceiro estava vivo, mas era só suposição. De qualquer forma, concentrando-se bem, decidiu: iria para a versão do asteróide Hollins, sua casa, daquela realidade alternativa a dele. Iria para o sistema solar da Terra, para o Cinturão de Kuiper, mudaria para a sua realidade original e, lá, com seus ciclocomputadores, poderia analisar melhor os resquícios de radiação deixados pelo filho de Nagara e sua vítima.
            E foi isso que fez. Programou tudo e acionou. Seriam semanas de viagem, talvez meses terrestres, mas ele chegaria.  


***



            Passos podiam ser ouvidos nos arredores em meio a um alvoroço de vozes, ou era a imaginação de Kosnow que estava aflorada. De qualquer forma, os gritos pareciam verdadeiros. Aquilo durou longos minutos, até que os passos, os gritos, tudo parou. Ele parecia estar só, ou quase.
            No meio da escuridão, uma voz:

- Finalmente, estamos juntos outra vez.

            Uma mão vinda de bem alto, e forte, pegou em seu ombro e o fez se sentar ao lado da entrada do banheiro. O brasileiro estava quase em pânico, e se sentia compelido a obedecer.

- Como você sabe, sou o filho de Rama, venho de outra linha temporal de uma realidade alternativa e… bem, estou entre obedecer a minha programação matando-o ou preferir o livre-arbítrio. Mas, que tal um pouco dos dois?

            Kosnow resolveu falar, como que sussurrando:

- Você não é real.

- É claro que sou real. Aquelas coisas em suas costas, aqueles akashes é que nunca foram reais. Pois você, meu caro, é o próprio akashe perdido, inserido no corpo de uma criança, modificando o seu cérebro, e revelando efeitos colaterais bem negativos!

- Saia daqui.

- Vai me fazer sair como?

            Nesse momento, aquela mão imensa, no mais profundo escuro, pegou o seu pescoço e o levantou. Quase sufocado, Kosnow, antes de desmaiar, ainda teve que ouvir:

- Por que? Por que eu teria que obedecer a programação de meu pai? É melhor conversarmos melhor fora daqui…

- Tudo vai ficar bem, companheiro. Eu cheguei. - Murion surpreendeu, visível apenas por sua voz, após o deslocamento de ar.

            Imediatamente, ele agarrou o filho de Rama pela cintura e os dois desapareceram. As luzes voltaram a se acender, em tom vermelho, não havia sobreviventes naquele recintos, jogados por uma terrível força telecinética de um filho de uma superentidade cósmica maluca.
            Kosnow nunca esteve tão só.


***



            Numa Terra pós-apocalíptica, Murion via-se nas ruínas de uma clínica psiquiátrica, respirando com seu próprio tubo de oxigênio. O filho de Rama estaria por perto, e ele tinha que se preparar para qualquer eventualidade, inclusive à eventualidade daquele louco voltar para terminar o serviço.
           
- Ok, vamos conversar. Por favor. - disse uma voz. Era ele.

            Debaixo daquele sol cáustico vindo através da ausência de teto, apareceu o gigante, filho de Rama com Nagara.

- Vamos só conversar, certo?

- O que você quer?

- Deixar de ser um escravo de meu pai. Entendeu?! Eu tenho esta… esta programação em minha mente, para matar o seu amigo. Mas eu só quero voltar a minha realidade e ficar longe de meu pai. Se isso não for possível, que o akashe me mate. Você não consegue.

- Talvez não. Mas, que akashe seria esse?

- Você não percebeu? Mesmo com tantos séculos de existência, você não percebeu? Ah,ah,ah.

- Não percebi o quê? Fale!

- Ele, Antônio Kosnow, é o único akashe! Ele, Antônio Kosnow, é um exemplo de transmigração de almas que o tornou uma fusão entre um akashe e um humano. Só ele pode me matar, desde que ele se redescubra como aquilo que ele é! Por isso, vou dar um tempo a vocês, um tempo para que ele descubra, pois, da próxima vez, você não me impedirá de matá-lo, de fazer Rama triunfar e permitir um possível choque entre universos.

- Como é que é?

            Era tarde, o estranho sumiu. Murion aproveitou para retornar e ver como Kosnow estava. Para sua surpresa, porém, Kosnow não estava mais lá, mas uma equipe de elite de humanos, eram muitos, cheios de equipamentos, e usavam alguma coisa… alguma coisa que prendia Murion ao solo.

- Alpha? Temos o espécime. Estamos prontos para a fase seguinte.

            Ele, Murion, pela primeira vez em séculos, estava preso por aqueles primatas da Terra. Não podia se mexer. Em seguida, um dardo…


***



            Os seis urizenianos viam a Terra de longe, dos seus monitores. Nagara e o cosmopsicólogo Liabanor, um velho de aparência jovial, dividiam as operações de rotina.

- Temos seis horas, horário local. - avisou o piloto.

- Seis horas para sermos descobertos… Vamos pousar logo no quadrante indicado, então. - disse Nagara.
           
            Liabanor ficou em silêncio.
            Meia hora depois, no Estado de São Paulo, numa zona de matagais, Nagara e Liabanor estavam prontos, disfarçados, e prestes a ir até a clínica onde se encontrava Kosnow.

- Esperem. Detectamos uma barreira. - disse uma jovem técnica.

- Barreira? - indagou Nagara.

- A estrada vicinal que leva ao alvo está repleta de homens e mulheres estranhos, com objetos que trancam a passagem de algum eventual carro.

- Certo. Pessoal, vamos ter que usar o inseto.

            Ao redor de uma caixinha, algo valioso estava guardado. Eles sabiam do que se tratava: um verme interdimensional invisível para os olhos humanos secretava insetos parecidos com mosquitos, programáveis para espionar qualquer coisa. Nagara permitiu a saída de um único minúsculo inseto voador, tendo o trabalho de, antes, usar a caixa para programá-lo, para criar uma direção reta e bem determinada para ele sobrevoar, imiscuir-se nos prédios, e morrer sem retornar.
            Foi o que aconteceu: as imagens vieram em instantes.

- Parece que eles não são tão tolos assim, senhora. - disse a jovem técnica para Nagara.

- Capturaram Murion e Kosnow… Temos que voltar. Vamos planejar uma ação e acabar com isso de vez.

            O cosmopsicólogo tentou falar alguma coisa, expor sua opinião, mas, aparentemente, Nagara tinha mais informações do que ele. Eles voltariam para a nave maior e comunicariam os fatos ao comandante e a outros especialistas.


***


            Com a Imperatriz há horas fora de perigo, e orbitando saudavelmente Júpiter sem ser detectada, os funcionários da central de comando estavam menos estressados. O comandante observava uma telona em três dimensões, ao lado de um técnico.

- Você confirma?

- Sim, comandante.

            N’Kshima via, bem à sua frente, aquele objeto cilíndrico estranho, brilhando em verde naquela tela. O técnico, um urizeniano magérrimo, continuou:

- Entramos em contato com algum tipo de inteligência artificial. Ela se identifica como sendo a “MODULO”, mas só.

- Sei…

- Comandante? - surgiu outro auxiliar naquela central.

- O que foi?

- A equipe voltou…

- Mande-os para meu escritório. Eu vou já para lá.

            Ao chegar ao seu escritório, silenciosamente, o comandante sentou-se em sua cadeira e olhou fixamente para os seus. Depois, deu o aval para que Nagara relatasse:

- Kosnow e Murion foram capturados pelos terranos. Não conseguimos chegar à tempo, comandante. Porém, temos informações sobre onde eles estão sendo mantidos…

- E o tal “filho de Rama”?

- Não o encontramos. - disse Nagara.

            Agora de pé, N’Kshima ordenou que todos deixassem o escritório, menos Nagara. Ponderado, o comandante falou:

- Parece que só você é útil por aqui… Preciso te informar algo: encontramos a nave de onde veio Murion. E peço para que você e quatro militares experientes invadam essa nave e tentem obter mais informações. Você terá doze horas de descanso. Dispensada.


            Nagara voltou aos seus aposentos. Queria que aquilo tudo terminasse logo, que seus companheiros fossem encontrados, que os problemas com a superentidade terminassem, que os akashes fizessem alguma mágica. Mas, acima de tudo, desejava por horas de banho, refeição e sono.


***


            O renomado médico Nestor Veras, foi interrompido de suas férias no interior da Bahia com um simples bip de seu telefone celular ultrafino. Naquela madrugada, ele não pôde terminar sua habitual meditação, olhou para o celular feito de células de energia luminosa variável, e viu que tinha que atender. Era o governo. “Urgência” vinha escrito na mensagem textual. Ao lado de sua mansão, quase imediatamente, aquele médico um pouco acima do peso, com seus dentes amarelos e cabelos grisalhos que desciam por bochechas rosadas, endireitou suas costas e foi observar a luz que vinha por detrás das cortinas de um quarto no primeiro andar de sua mansão. Seu helijet, como o combinado para casos urgentes, começou a flutuar, e seu celular novamente ficou tocando… só iria parar quando ele estivesse no helijet.
            Triangular, preto, e sem asas, o helijet esbanjava elegância. Era prático, rápido, útil. Nestor sabia disso, mas só conseguia pensar no que seria essa urgência. A viagem foi tranqüila, seguida por dois outros helijets que vinham ao longe a partir da fronteira sul da Bahia, na macro-zona do Nordeste. Eram veículos oficiais que o acompanhavam. Passou a segui-los até uma mata escura e distante no interior do Tocantins. Pousou ali, num chão de cimento batido.
            Desceu, viu o desajeitado Benítez, vestido de verde-escuro e uma gravata com enfeitado com traços de camuflagem de exército do século XX. Com seus típicos óculos miúdos, escondendo olhos asiáticos escuros e inquisidores.
            Ao se aproximarem, nada de apertos de mão. Ele só disse:

- Sem celular.

            Depois:

- Siga-me e não fale nada.

            Eles foram até um edifício de aspecto humilde, uns cinco andares, e uma imensa recepção com apenas uns dez guardas e oficiais diversos fazendo coisas secretas. Foram até o elevador. Benítez apertou o botão touchscreen mais abaixo. Logo, já não estavam mais ao nível do mar. Durante aqueles momentos de silêncio, porém, o oficial asiático apenas perguntou:

- Você tem formação em “ciência fronteiriça”, não?

- Sim, senhor.

- Ótimo.   

Chegaram. Mais adiante, passando por diversas salas fechadas, adentraram um laboratório moderníssimo. Os dois foram recebidos por dois outros homens.


- General Marco Antônio. Vossa Excelência Maurício Sforza Pedroso. - nomeou Benítez.

            Após mais algumas rápidas apresentações, Nelson foi informado que passaria a comandar tudo aquilo. Seria o titular. Qual era o caso? Ele viu. Aparentemente dois homens, mas, segundo a informação corrente eram dois alienígenas.
            O que podemos dizer sobre o que ocorreu após aquelas chegada? Um mês de trabalho duro para o doutor Nelson Veras.


***
             

            A garagem da Imperatriz, uma nave com seus largos quinze quilômetros de extensão, estava cheia de trabalho, com suas naves auxiliares e jets estacionados até segunda ordem. As luzes pareciam fazer aquele lugar gigantesco um imponente teatro luxuoso, cheio de detalhes sob a forma de luzes pequenas, fios, robôs não-humanóides, operários, e as alas dos jets, das naves auxiliares, e, mais adiante, o local onde os satélites-robôs eram guardados.

- Informação. - pediu Nagara a um computador de mão, antes da chegada do engenheiro, ladeada por quatro militares armados até os dentes. Ela era a autoridade máxima naquela missão.

Um texto surgiu na tela: “Barl N’niaska, o engenheiro de naves da guarnição de expedições, já está na plataforma de lançamentos F-22.”

- Ótimo. Vamos.

            Eles seguiram por mais duzentos metros até acharem aquele homem baixinho, de apenas três metros e noventa, com cabelos loiros, olhos claros, e aspecto bronzeado.
            Saudaram-se formalmente.

- O “Príncipe” está pronto. - brincou o engenheiro, ao se referir a uma nave menor, de apenas trezentos metros, com a maior parte do espaço ocupado por engrenagens, cujo nome real é um código urizeniano impronunciável.

            Ninguém riu. Todos entraram. Minutos depois, o piloto automático fez uma suave arrancada, sem falhar - e, mesmo que falhasse, todo oficial e engenheiro de naves tinha que ter conhecimentos suficientes para pilotar uma espaçonave daquela classe. Partiram até a órbita de Mercúrio, desviaram-se dos satélites e da Estação Internacional da Terra, seguindo silenciosamente. Em menos de uma hora, no telão, aparecia os traços de um insólito cilindro na órbita de Mercúrio, era a MODULO.


***

            Guardados, em coma induzido, em duas celas hermeticamente fechadas, com oxigenação e climatização próprias, dois estranhos tecnicamente humanos. Um deles, Antônio Paiva Kosnow, possui um alto nível de súbita radiação aparentemente gama, mas que, todavia, concentra-se nele mesmo, sem fazer nenhum mal perceptível a ele mesmo nem a outros. O segundo prisioneiro, sem registro, tem um corpo com traços de uma vida muito longa e um cérebro de fisiologia diferenciada. Ambos com saúde razoável, mais ou menos próximos da meia-idade e um código genético que ora dá um resultado totalmente humano, e ora dá um resultado de pelo menos 0,2 a 0,3% inumano. Havia, ainda, um terceiro homem, não capturado, em um contexto de seqüestro ou fuga, e tentativa de recaptura em uma clínica psiquiátrica isolada.
            O doutor Nelson Veras, apesar das várias possibilidades contextuais, tinha que se ater ao básico, ao que ele tinha ali, trabalhado pela sua equipe, e com olheiros europeus e norte-americanos, além do controle do próprio governo brasileiro. O que ele não esperava, porém, ele talvez nunca tenha ficado sabendo: em algum momento, Kosnow despertou. Nenhum “alarme”, estranhamente, foi soado. O tempo parecia ter parado. E ele, sem nenhuma novidade, estava confuso.
            O cheiro e ambiente assépticos contrastavam com a mente cheia de pensamentos de Kosnow. Com medo de ter caído numa armadilha de seu perseguidor, ele saiu de si mesmo, flutuou pelo laboratório e, alarmado, começou a procurar Murion sem saber ao certo o que lhe ocorria e como ele podia fazer aquilo.
            Em um certo momento, vagando por aquele laboratório que parecia estar em descanso, veio algo em sua mente: “Não há centro nem limites do universo, nem há fora nem dentro”. Uma voz sussurrante que parecia ser a dele mesmo. Ele não sabia o que era aquilo, mas começava a entender, era algo de sua memória: enquanto ele esteve naquela estação espacial, supostamente localizada nas bordas do centro do universo, enquanto ele ainda estava cego, não havia percebido um detalhe fundamental. A estação espacial alienígena não estava próxima ao centro do universo, mas ao largo de um centro do universo simulado. Porém - ele indagava -, Murion estava lá… Subitamente, em meio àqueles pensamentos, naquele estranho sonho onde ele circulava fora de seu próprio corpo, um banho de luz! Parecia que o mesmo evento que ocorrera em Arquimedes IV estava acontecendo outra vez.


***
           

- Assessora Nagara? Permite que eu fale?

- Sim, Barl. O que é? - disse ela, já tendo conhecido, informalmente, sua fama de intrometido.

- Como poderiam haver outros universos físicos, materiais, “fora” do nosso? Afinal, é o que toda essa história dos tais akashes nos trouxe…

- Eu não sei. Só sei o que me disseram. Eles podem ter os seus motivos para não dizerem toda a verdade.

            A atmosfera da nave auxiliar estava seca, mas suportável. Nagara continuou:

- Vamos ver até onde isso vai dar. Talvez, o nosso universo não passe mesmo de uma espécie de “super-galáxia” mais complexa que qualquer uma que tenhamos conhecido.

- Chegamos. – encerrou Barl, mostrando a MODULO na tela, uma nave sem nenhum tipo de disfarce.

            De repente, Barl mudou o tom:

- O que é isso…?

***


            Subitamente, sem barulho, uma onda de luz e pressão explodiu toda a base secreta onde estavam Murion e Kosnow. Entretanto, daquela vez, alguma coisa protegeu a vida dos homens e mulheres que trabalhavam naquele lugar. Nenhuma vítima mortal.
            Murion despertou desorientado, não viu nada. Enquanto isso, os dois eram transportados para a MODULO por algum mecanismo ligado aos poderes akashes, um tubo luminoso que os levou da Terra até onde estava a nave cilíndrica. Uma viagem que durou segundos.
            O adimensional, um pouco depois, abriu os olhos, deitado naquele chão gelado. Kosnow o sacudia freneticamente.

- Amigo, acorde! Estamos salvos! Fui eu, eu sou um akashe!

- O quê? - disse Murion, totalmente desperto, tentando se levantar na central daquela nave exeker.

- Sou um constructo, na verdade. Uma fusão entre um akashe e Antônio Kosnow. O coma induzido me… me despertou! As coisas se passam desabaladamente pela minha cabeça… Você está bem?

- Sim… - Murion ainda não acreditava naquilo, mas tinha que dar algum crédito. Realmente, juntando as peças… - Sim, pode ser verdade. Ok. Eu já deveria ter percebido, mas, deixe-me assumir esta nave.

            Retomando os controles da MODULO, o adimensional descobriu a aproximação de uma nave estranha. Era uma nave auxiliar urizeniana. Nagara, finalmente!


***


            Estavam os três novamente reunidos, comunicando-se via rádio. Murion, após as primeiras explicações, esboçou:

- Como devemos proceder agora, Nagara? Esse seu “filho” continua a andar por aí. Ele parece confuso entre sua programação e seu livre-arbítrio.

- Como você sabe, estou com meu povo, e não posso mais seguir vocês. Voltaremos logo para a nossa realidade própria. Quanto a isso, acho que você mesmo sabe o que fazer. Espere essa… essa criatura. Quando ela aparecer… eu já disse, você sabe o que fazer. Preciso encerrar e partir agora. Espero que dê tudo certo para vocês. Adeus.

            Nagara mal desligou o comunicador, querendo se livrar daquela missão, quando todas as luzes de sua nave apagaram. Nenhum som.

- Mãe?

            Ela deixou sua velha pistola de balas de luz mais próxima de si. Por puro instinto, afinal, aquilo não o mataria. Ela respondeu com o silêncio.


***


            Ela corria pelos corredores escuros de sua nave auxiliar, sem ninguém para ajudá-la. Corria de passos lentos, porém eficazes. Parou.

- Por que você não fala comigo?

            Uma luz surgiu, e aquele rosto saliente, magro, contorcendo a própria realidade, preparava-se para algum tipo de ataque. Só podia ser algum tipo de ataque.

- Você não é meu filho. Você é uma reprodução artificial produzida por Rama. Meu código genético foi usado… Por favor, não me mate.

- Eu não posso controlar!

            A luz revelou-se como uma bola de energia azul, que foi se tornando vermelho, ameaçando incinerar Nagara, quando, subitamente, uma arma de projéteis da Terra, com uma bala provinda da escuridão atrás, atingiu a nuca do filho de Rama. Não aconteceu nada, entretanto. Mesmo assim, ao tentar contra-atacar Kosnow, Murion apareceu rapidamente, o agarrou, e o fez sumir.
           

***

            Horas mais tarde, antes de voltar sozinha para a sua nave principal, após uma recuperação rápida da nave auxiliar, Nagara, com o olhar, naquele túnel entre a MODULO e a sua nave, questionou.

- Nos encontraremos, talvez, algum dia. Espero por isso. Quanto a ele… eu o mandei para o horizonte de eventos de um buraco negro, para uma realidade alternativa onde, no lugar do sistema solar… - disse, Murion.

            Kosnow, seguro de si, ouviu de Nagara:
           
- Você realmente é um akashe?
- Uma projeção, uma amálgama… minha mente é tanto humana quanto alienígena. O que importa é que vamos vencer. – respondeu Kosnow.

            Em alguns minutos, Nagara estava longe. Em algumas horas, havia chegado a sua realidade de origem. Sua única preocupação agora: seu relatório.


Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem os próximos capítulos.

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