14 - Nagara
Em
lugar escuro e apertado, uma mulher urizeniana, com os seus três e meio a
quatro metros de altura, despertou. As paredes metálicas do contêiner
apertavam-na, o ar parecia pouco, e as mãos e os pés estavam gelados e desnudos
enquanto a roupa resumia-se a uma manta e uma espécie de calçola.
Alguma coisa a incomodava perto da
orelha esquerda. Ela tocou, com dificuldades em alcançar, e percebeu se tratar
de um implante.
Uma voz soou direto em seu ouvido
direito, em intercosmos:
-
Sua missão está cumprida. Seu corpo foi usado em prol do grande Rama, e sua semente
já nasceu. Você chegará a Urizen em poucas horas, através da Estação Ur.
Ela começou a ficar sonolenta, sem
poder pensar direito, e adormeceu.
***
N’Stal era o homem de confiança do
Prelado da Defesa, mesmo não pertencendo a uma casta superior, o que poderia
ser percebido pela natureza de seu sobrenome. Como Assistente Supremo, em meio
a Estação Ur, que fica orbitando o planeta-matriz, em seus duzentos e seis anos
de vida, nunca vira nada igual. Um contêiner alienígena estava próximo, ele autorizou
o recebimento daquilo, e, quando no Laboratório Central, aquilo foi aberto, uma
desaparecida.
-
Quarenta e sete anos desde a última mensagem daquela missão… - disse,
inadvertidamente, N’Stal, depois de uma longa teleconferência com o Ministro,
que iria pessoalmente para lá, ainda que atrasadamente.
Na sala ampla, repleta de monitores,
telas holográficas, imensos discos rígidos em cristais diversos, ordenados em
estantes de metal por assunto, estava o homem de confiança do Prelado da
Defesa, frente a um mistério. Ele pesquisava ali mesmo, tentando achar mais
detalhes daquilo, tendo acesso a todos os dados secretos possíveis. Mas, muito
havia sido destruído.
-
Sub-Prelado? – disse uma voz feminina.
-
Uhn… Entre Dorna. O espécime acordou?
-
É para isso que eu vim. O senhor falou para avisar-lhe pessoalmente, sem
intermediários.
-
Então, vamos.
Eles se ausentaram dali,
atravessaram um vasto corredor. Em mais alguns metros estava o Laboratório
Central. Ele tinha muito o que descobrir com a desconhecida que se dizia chamar
“Nagara N’Kebeker”.
***
Nagara estava agora em sua terra-natal,
feliz, mesmo sabendo da passagem de anos. Deitada em uma cama do seu tamanho,
ela era escaneada sem perceber, pois, se havia algo importante para os gigantes
de Urizen, eram os dados de radiações extra-dimensionais, um conjunto de
informações que poderiam dar pistas exatas sobre o que houve e para onde ir.
O Sub-Prelado apareceu sozinho, pediu
para que ela se sentasse na cama, se pudesse, e tentou iniciar um interrogatório
com tom de conversa, enquanto um robô oval, flutuante, e do tamanho de um punho
humano fechado, registrava tudo. Em determinado momento, ela pôde revelar o
caso dos akashes e da superinteligência Rama, sobre sua missão e sobre seu
seqüestro e suposto filho. Tudo contado em um período de dias.
Mais tarde, as informações, bem como as
medições de resíduos de radiação extra-dimensional no corpo de Nagara, foram
levadas até o Triunvarato e ao Prelado (o equivalente a “General”) de Defesa.
***
Meses urizenianos correram
rapidamente. Nagara estava restabelecida e pronta para assessorar uma nova
missão.
-
Com a tecnologia adquirada ao longo das últimas décadas e baseado nas medições
que tiramos das radiações presentes no corpo de nossa assessora militar,
devidamente restituída ao cargo, sabemos, agora, para onde ir com a nossa
“Imperatriz”, a primeira nave de grande porte capaz de ultrapassar realidades
alternativas e chegar onde queremos: a Terra 1. – disse, confiante, o
comandante Mosten N’Kshima, ao lado da Prelada Arpoor Tdida, proveniente de uma
nação amiga também comandada pelo Triunvirato.
O
auditório estava repleto, e Nagara, ao lado de sua filha adulta, a oficial
Maren N’Kebeker e seus longos cabelos ruivos curtíssimos em um corpo de medidas bem distribuídas em
seus três metros e noventa e oito de altura. O último discurso havia sido
encerrado. Eles iriam partir no dia seguinte sem esquecer do objetivo:
encontrar Kosnow, os akashes, e, se possível, o adimensional que Nagara chamava
de “Murion”. Pretendiam lucrar alguma coisa – além de motivos para inaugurar
aquela nave – com essa investida, científica e estrategicamente frente a
entidades tão poderosas em guerra, além de, presumivelmente, impedir um suposto
desastre entre universos diferentes: o nosso, possuidor de inúmeras realidades
alternativas, e o dos akashes. Ou – não se sabia bem -, se não fosse uma
colisão, algum tipo de “contaminação” a gerar perdas enormes em todas as realidades
alternativas daquele mesmo saco de galáxias. Tudo isso girava na cabeça de
Nagara, que – depois de se despedir de amigos, da filha e de mais de um
quilômetro de corredores e elevadores -, agora, via-se de volta ao seu quarto.
Teria apenas mais oito horas de sono antes de começar a trabalhar.
No dia seguinte,
engenheiros e cientistas atuavam num vasto canteiro de obras, ao lado de
máquinas estranhas repletas de controles, poucos fios, um cheiro de ozônio,
robôs-operários de aspecto humanóide, tudo interligado por um mestre-de-obras,
um engenheiro, e uma física idosa especializada em desdobramentos
interrealidades. Eles tinham suas características próprias, seus nomes, sua
hierarquia, e, acima de tudo, seguiam os comandos da Central, dominada por vinte
e cinco pilotos, oito taifeiros, o casal de médicos jovens Arnuk e Terzia
N’Shoek, e cinco engenheiros, sendo dois em comunicações, e três de função
genérica.
- Comandante N’Kshima, estamos prontos.
– avisou o interfone. Ele daria a ordem a uma viagem que seria ao mesmo tempo
física e transdimensional.
Tecnicamente,
seria um vôo só de 930 mil anos-luzes facilitado por forças extra-dimensionais,
a levá-los diretamente à realidade e à localidade física onde estaria o sistema
solar do que eles chamavam de “Terra 1”.
- Pronto, agora! – indicou o Comandante,
apertando um botão vermelho ao mesmo tempo que os profissionais do andar de
baixo acionavam os motores.
A Imperatriz,
partindo da Estação Ur, afastou-se por poucas horas-luzes e, em seguida, após
um desfoque rápido em seu semblante arredondado como um planetóide, sumiu no
ar.
***
Pareceu não ter
acontecido nada. Apenas segundos que se passaram e uma vertigem quase
imperceptível. Nagara estava em seu escritório, durante o que deveria ser uma
longa viagem, e percebeu quando as luzes piscaram. Ela acionou com um
pensamento-senha um minúsculo intercomunicador implantado nela, pedindo
informações. Só estática.
Preocupada,
e ainda cansada do que passou nos últimos dias, ela mal percebeu a abertura da
porta de seu escritório. Eram guardas.
- O comandante precisa de sua presença.
É urgente.
A
estática continuava, e ela se viu obrigada a seguir os dois guardas. E assim as
coisas se passaram, com pensamentos acelerados, por uma visão caótica de robôs
médicos, taifeiros, assistentes diversos tentando manter a ordem. O pior foi
andar a pé, sem nenhum tipo de transporte tecnológico, por mais de seiscentos
metros, considerando que aquelas pessoas, fora os guardas, não estavam
preparadas para um mundo sem benesses técnicas.
Finalmente,
após uma longa escadaria, com a gravidade flutuando entre a leveza e o peso, os
três passaram pelo corredor principal e chegaram à Central. Todos estavam
alvoroçados, tentando acertar uma forma de suprir a falta das antenas, e em
meio àquilo tudo, o Comandante, sendo rapidamente atendido por Arnuk, enquanto
tentava trabalhar com um primitivo papel de cristal e uma caneta para telas
sensíveis. Acima daquele objeto, imagens em 3D e 4D (mostrando diferentes fases
temporais do último salto intergaláctico e interdimensional e a parte
estrutural bem como as variações energéticas da nave). O médico afastou-se e
seguiu para outro setor, enquanto o comandante Mosten aproximava-se dela, que
já avistava a vinda da Prelada. Quando a Prelada, por trás, com outros guardas,
chegou perto, o líder da missão falou:
- Vou direto ao ponto: estamos na órbita
de um gigante gasoso. E vai demorar para sairmos daqui. Tivemos algumas falhas
de ordem secundária, mas, diante desse imprevisto… penso em formarmos uma
equipe que vá até uma base avançada da Terra, em uma dessas luas.
Parece
que esse seria o caminho que iriam seguir.
- A equipe a ser formada só terá o
equivalente a três dias terrestres para encontrar o alvo. - ele concluiu, antes
de conversar os detalhes.
Quando
as coisas se acalmaram, Nagara e seis pessoas foram escolhidas.
15
– Terra e arredores
“Ele
não conseguiu o que queria, mas isto aqui está muito próximo disso”, pensava
Kosnow, em uma sala alcochoada, com grilhões invisíveis impedindo que ele
chegasse muito perto da porta.
Ele havia sido achado como único sobrevivente
do desastre ocorrido em Arquimedes IV, balbuciando sobre alienígenas, em total
estado de choque. Levado de volta a Terra, mais precisamente para uma clínica
nos arredores de Nova São Paulo, permaneceu as últimas semanas sob os cuidados
do Estado. E ele mesmo, Antônio Kosnow, questionava se tudo aquilo não havia
passado de loucura de sua parte. De qualquer forma, comportar-se-ia bem para,
em breve, nos próximos dias, pudesse ser transferido para uma ala mais
moderada, onde, ao invés de viver de paisagens oníricas trazidas por um telão
que mal se escondia perto do teto de sua cela que lhe indicava se era dia ou
noite, encontraria a realidade.
Kosnow
esperava, alimentava-se, era levado ao banheiro, almejava a paz, quando as
luzes se apagaram naquele fim de tarde. Era ele, o que se dizia ser filho de
Nagara com Rama! Antônio Kosnow ficou apavorado e se encolheu no fundo de sua
cela. A ajuda teria que vir da sorte ou de seu Deus.
***
Aquele
homem adimensional, que pouco sabia de seu passado, tinha desistido, e estava
prestes a se mudar para alguma realidade alternativa onde haveria a presença de
uma Estação abandonada e cheia de comida até ele achar uma forma de sair dali e
voltar para casa ou morrer. E, de fato, ele chegou a voltar à velha Estação, na
realidade alternativa original, mesmo que não a sua própria realidade, a qual a
Terra nunca havia existido.
Foi
naquilo que seria uma manhã que ele, vasculhando a central daquela Estação
alienígena, com seus consoles adaptados a mãos parecidas com as patas de uma
ave, que ele viu uma tela ser acesa, com um letreiro incompreensível. Mas, ele
logo soube: uma nave cilíndrica, dos exekers, pequena, esverdeada, nos
arredores, suportando toda a pressão das forças físicas que, em polvorosa,
manifestavam-se naquele espaço na periferia do que seria o centro do universo.
Aqueles seres que seguiam os akashes parece que tinham como localizar os
rastros dos três, com a ajuda de sua própria tecnologia tão antiga quanto
desconhecida.
Cuidadoso,
ele abandonou aquele lugar, com sua roupa de astronauta alienígena, e, após
longas horas de infinito cuidado, aliviado, colocou-se num ambiente mais saudável,
com atmosfera própria naquelas medidas apertadas, e uma voz que anunciava em
intercosmos, logo após ele ter entrado na nave exeker: “Esta é a MÓDULO,
enviada segundo parâmetros de extrema urgência. É capaz de suportar um único
vôo de alguns bilhões de anos-luzes até o destino desejado. Porém, ao chegar ao
local desejado, o seu motor ultra-luz principal não poderá ser reutilizado, o
que tornará a MÓDULO uma nave comum. Esperamos que você, Kosnow, Nagara, ou
Murion, e, sobretudo, os akashes, aceitem esse presente satisfatoriamente”. O
som desapareceu, enquanto Murion mudava de traje, examinava a pequena nave
cilíndrica, até, em um dado momento, respirar fundo e acionar os dados, e
pensou para onde Kosnow foi levado, e o que ocorreu com ele. Murion sentia que
seu parceiro estava vivo, mas era só suposição. De qualquer forma,
concentrando-se bem, decidiu: iria para a versão do asteróide Hollins, sua
casa, daquela realidade alternativa a dele. Iria para o sistema solar da Terra,
para o Cinturão de Kuiper, mudaria para a sua realidade original e, lá, com
seus ciclocomputadores, poderia analisar melhor os resquícios de radiação
deixados pelo filho de Nagara e sua vítima.
E
foi isso que fez. Programou tudo e acionou. Seriam semanas de viagem, talvez
meses terrestres, mas ele chegaria.
***
Passos
podiam ser ouvidos nos arredores em meio a um alvoroço de vozes, ou era a
imaginação de Kosnow que estava aflorada. De qualquer forma, os gritos pareciam
verdadeiros. Aquilo durou longos minutos, até que os passos, os gritos, tudo
parou. Ele parecia estar só, ou quase.
No
meio da escuridão, uma voz:
- Finalmente, estamos juntos outra vez.
Uma
mão vinda de bem alto, e forte, pegou em seu ombro e o fez se sentar ao lado da
entrada do banheiro. O brasileiro estava quase em pânico, e se sentia compelido
a obedecer.
- Como você sabe, sou o filho de Rama,
venho de outra linha temporal de uma realidade alternativa e… bem, estou entre
obedecer a minha programação matando-o ou preferir o livre-arbítrio. Mas, que
tal um pouco dos dois?
Kosnow
resolveu falar, como que sussurrando:
- Você não é real.
- É claro que sou real. Aquelas coisas
em suas costas, aqueles akashes é que nunca foram reais. Pois você, meu caro, é
o próprio akashe perdido, inserido no corpo de uma criança, modificando o seu
cérebro, e revelando efeitos colaterais bem negativos!
- Saia daqui.
- Vai me fazer sair como?
Nesse
momento, aquela mão imensa, no mais profundo escuro, pegou o seu pescoço e o
levantou. Quase sufocado, Kosnow, antes de desmaiar, ainda teve que ouvir:
- Por que? Por que eu teria que obedecer
a programação de meu pai? É melhor conversarmos melhor fora daqui…
- Tudo vai ficar bem, companheiro. Eu
cheguei. - Murion surpreendeu, visível apenas por sua voz, após o deslocamento
de ar.
Imediatamente,
ele agarrou o filho de Rama pela cintura e os dois desapareceram. As luzes
voltaram a se acender, em tom vermelho, não havia sobreviventes naquele
recintos, jogados por uma terrível força telecinética de um filho de uma
superentidade cósmica maluca.
Kosnow
nunca esteve tão só.
***
Numa
Terra pós-apocalíptica, Murion via-se nas ruínas de uma clínica psiquiátrica,
respirando com seu próprio tubo de oxigênio. O filho de Rama estaria por perto,
e ele tinha que se preparar para qualquer eventualidade, inclusive à
eventualidade daquele louco voltar para terminar o serviço.
- Ok, vamos conversar. Por favor. -
disse uma voz. Era ele.
Debaixo
daquele sol cáustico vindo através da ausência de teto, apareceu o gigante,
filho de Rama com Nagara.
- Vamos só conversar, certo?
- O que você quer?
- Deixar de ser um escravo de meu pai.
Entendeu?! Eu tenho esta… esta programação em minha mente, para matar o seu
amigo. Mas eu só quero voltar a minha realidade e ficar longe de meu pai. Se
isso não for possível, que o akashe me mate. Você não consegue.
- Talvez não. Mas, que akashe seria
esse?
- Você não percebeu? Mesmo com tantos
séculos de existência, você não percebeu? Ah,ah,ah.
- Não percebi o quê? Fale!
- Ele, Antônio Kosnow, é o único akashe!
Ele, Antônio Kosnow, é um exemplo de transmigração de almas que o tornou uma
fusão entre um akashe e um humano. Só ele pode me matar, desde que ele se
redescubra como aquilo que ele é! Por isso, vou dar um tempo a vocês, um tempo
para que ele descubra, pois, da próxima vez, você não me impedirá de matá-lo,
de fazer Rama triunfar e permitir um possível choque entre universos.
- Como é que é?
Era
tarde, o estranho sumiu. Murion aproveitou para retornar e ver como Kosnow
estava. Para sua surpresa, porém, Kosnow não estava mais lá, mas uma equipe de
elite de humanos, eram muitos, cheios de equipamentos, e usavam alguma coisa…
alguma coisa que prendia Murion ao solo.
- Alpha? Temos o espécime. Estamos
prontos para a fase seguinte.
Ele,
Murion, pela primeira vez em séculos, estava preso por aqueles primatas da
Terra. Não podia se mexer. Em seguida, um dardo…
***
Os
seis urizenianos viam a Terra de longe, dos seus monitores. Nagara e o
cosmopsicólogo Liabanor, um velho de aparência jovial, dividiam as operações de
rotina.
- Temos seis horas, horário local. -
avisou o piloto.
- Seis horas para sermos descobertos…
Vamos pousar logo no quadrante indicado, então. - disse Nagara.
Liabanor
ficou em silêncio.
Meia
hora depois, no Estado de São Paulo, numa zona de matagais, Nagara e Liabanor
estavam prontos, disfarçados, e prestes a ir até a clínica onde se encontrava
Kosnow.
- Esperem. Detectamos uma barreira. -
disse uma jovem técnica.
- Barreira? - indagou Nagara.
- A estrada vicinal que leva ao alvo
está repleta de homens e mulheres estranhos, com objetos que trancam a passagem
de algum eventual carro.
- Certo. Pessoal, vamos ter que usar o
inseto.
Ao
redor de uma caixinha, algo valioso estava guardado. Eles sabiam do que se
tratava: um verme interdimensional invisível para os olhos humanos secretava
insetos parecidos com mosquitos, programáveis para espionar qualquer coisa.
Nagara permitiu a saída de um único minúsculo inseto voador, tendo o trabalho de,
antes, usar a caixa para programá-lo, para criar uma direção reta e bem
determinada para ele sobrevoar, imiscuir-se nos prédios, e morrer sem retornar.
Foi
o que aconteceu: as imagens vieram em instantes.
- Parece que eles não são tão tolos
assim, senhora. - disse a jovem técnica para Nagara.
- Capturaram Murion e Kosnow… Temos que
voltar. Vamos planejar uma ação e acabar com isso de vez.
O
cosmopsicólogo tentou falar alguma coisa, expor sua opinião, mas,
aparentemente, Nagara tinha mais informações do que ele. Eles voltariam para a
nave maior e comunicariam os fatos ao comandante e a outros especialistas.
***
Com
a Imperatriz há horas fora de perigo, e orbitando saudavelmente Júpiter sem ser
detectada, os funcionários da central de comando estavam menos estressados. O
comandante observava uma telona em três dimensões, ao lado de um técnico.
- Você confirma?
- Sim, comandante.
N’Kshima
via, bem à sua frente, aquele objeto cilíndrico estranho, brilhando em verde
naquela tela. O técnico, um urizeniano magérrimo, continuou:
- Entramos em contato com algum tipo de
inteligência artificial. Ela se identifica como sendo a “MODULO”, mas só.
- Sei…
- Comandante? - surgiu outro auxiliar
naquela central.
- O que foi?
- A equipe voltou…
- Mande-os para meu escritório. Eu vou
já para lá.
Ao
chegar ao seu escritório, silenciosamente, o comandante sentou-se em sua
cadeira e olhou fixamente para os seus. Depois, deu o aval para que Nagara
relatasse:
- Kosnow e Murion foram capturados pelos
terranos. Não conseguimos chegar à tempo, comandante. Porém, temos informações
sobre onde eles estão sendo mantidos…
- E o tal “filho de Rama”?
- Não o encontramos. - disse Nagara.
Agora
de pé, N’Kshima ordenou que todos deixassem o escritório, menos Nagara.
Ponderado, o comandante falou:
- Parece que só você é útil por aqui…
Preciso te informar algo: encontramos a nave de onde veio Murion. E peço para
que você e quatro militares experientes invadam essa nave e tentem obter mais
informações. Você terá doze horas de descanso. Dispensada.
Nagara
voltou aos seus aposentos. Queria que aquilo tudo terminasse logo, que seus
companheiros fossem encontrados, que os problemas com a superentidade
terminassem, que os akashes fizessem alguma mágica. Mas, acima de tudo,
desejava por horas de banho, refeição e sono.
***
O
renomado médico Nestor Veras, foi interrompido de suas férias no interior da
Bahia com um simples bip de seu telefone celular ultrafino. Naquela madrugada,
ele não pôde terminar sua habitual meditação, olhou para o celular feito de
células de energia luminosa variável, e viu que tinha que atender. Era o
governo. “Urgência” vinha escrito na mensagem textual. Ao lado de sua mansão,
quase imediatamente, aquele médico um pouco acima do peso, com seus dentes
amarelos e cabelos grisalhos que desciam por bochechas rosadas, endireitou suas
costas e foi observar a luz que vinha por detrás das cortinas de um quarto no
primeiro andar de sua mansão. Seu helijet, como o combinado para casos
urgentes, começou a flutuar, e seu celular novamente ficou tocando… só iria
parar quando ele estivesse no helijet.
Triangular,
preto, e sem asas, o helijet esbanjava elegância. Era prático, rápido, útil.
Nestor sabia disso, mas só conseguia pensar no que seria essa urgência. A
viagem foi tranqüila, seguida por dois outros helijets que vinham ao longe a
partir da fronteira sul da Bahia, na macro-zona do Nordeste. Eram veículos
oficiais que o acompanhavam. Passou a segui-los até uma mata escura e distante
no interior do Tocantins. Pousou ali, num chão de cimento batido.
Desceu,
viu o desajeitado Benítez, vestido de verde-escuro e uma gravata com enfeitado
com traços de camuflagem de exército do século XX. Com seus típicos óculos
miúdos, escondendo olhos asiáticos escuros e inquisidores.
Ao
se aproximarem, nada de apertos de mão. Ele só disse:
- Sem celular.
Depois:
- Siga-me e não fale nada.
Eles
foram até um edifício de aspecto humilde, uns cinco andares, e uma imensa
recepção com apenas uns dez guardas e oficiais diversos fazendo coisas
secretas. Foram até o elevador. Benítez apertou o botão touchscreen mais
abaixo. Logo, já não estavam mais ao nível do mar. Durante aqueles momentos de
silêncio, porém, o oficial asiático apenas perguntou:
- Você tem formação em “ciência
fronteiriça”, não?
- Sim, senhor.
- Ótimo.
Chegaram. Mais
adiante, passando por diversas salas fechadas, adentraram um laboratório
moderníssimo. Os dois foram recebidos por dois outros homens.
- General Marco Antônio. Vossa
Excelência Maurício Sforza Pedroso. - nomeou Benítez.
Após
mais algumas rápidas apresentações, Nelson foi informado que passaria a
comandar tudo aquilo. Seria o titular. Qual era o caso? Ele viu. Aparentemente
dois homens, mas, segundo a informação corrente eram dois alienígenas.
O
que podemos dizer sobre o que ocorreu após aquelas chegada? Um mês de trabalho
duro para o doutor Nelson Veras.
***
A
garagem da Imperatriz, uma nave com seus largos quinze quilômetros de extensão,
estava cheia de trabalho, com suas naves auxiliares e jets estacionados até
segunda ordem. As luzes pareciam fazer aquele lugar gigantesco um imponente
teatro luxuoso, cheio de detalhes sob a forma de luzes pequenas, fios, robôs
não-humanóides, operários, e as alas dos jets, das naves auxiliares, e, mais
adiante, o local onde os satélites-robôs eram guardados.
- Informação. - pediu Nagara a um
computador de mão, antes da chegada do engenheiro, ladeada por quatro militares
armados até os dentes. Ela era a autoridade máxima naquela missão.
Um texto surgiu
na tela: “Barl N’niaska, o engenheiro de naves da guarnição de expedições, já
está na plataforma de lançamentos F-22.”
- Ótimo. Vamos.
Eles
seguiram por mais duzentos metros até acharem aquele homem baixinho, de apenas
três metros e noventa, com cabelos loiros, olhos claros, e aspecto bronzeado.
Saudaram-se
formalmente.
- O “Príncipe” está pronto. - brincou o
engenheiro, ao se referir a uma nave menor, de apenas trezentos metros, com a
maior parte do espaço ocupado por engrenagens, cujo nome real é um código
urizeniano impronunciável.
Ninguém
riu. Todos entraram. Minutos depois, o piloto automático fez uma suave
arrancada, sem falhar - e, mesmo que falhasse, todo oficial e engenheiro de
naves tinha que ter conhecimentos suficientes para pilotar uma espaçonave
daquela classe. Partiram até a órbita de Mercúrio, desviaram-se dos satélites e
da Estação Internacional da Terra, seguindo silenciosamente. Em menos de uma
hora, no telão, aparecia os traços de um insólito cilindro na órbita de
Mercúrio, era a MODULO.
***
Guardados,
em coma induzido, em duas celas hermeticamente fechadas, com oxigenação e
climatização próprias, dois estranhos tecnicamente humanos. Um deles, Antônio
Paiva Kosnow, possui um alto nível de súbita radiação aparentemente gama, mas
que, todavia, concentra-se nele mesmo, sem fazer nenhum mal perceptível a ele
mesmo nem a outros. O segundo prisioneiro, sem registro, tem um corpo com
traços de uma vida muito longa e um cérebro de fisiologia diferenciada. Ambos
com saúde razoável, mais ou menos próximos da meia-idade e um código genético
que ora dá um resultado totalmente humano, e ora dá um resultado de pelo menos
0,2 a 0,3% inumano. Havia, ainda, um terceiro homem, não capturado, em um
contexto de seqüestro ou fuga, e tentativa de recaptura em uma clínica
psiquiátrica isolada.
O
doutor Nelson Veras, apesar das várias possibilidades contextuais, tinha que se
ater ao básico, ao que ele tinha ali, trabalhado pela sua equipe, e com
olheiros europeus e norte-americanos, além do controle do próprio governo
brasileiro. O que ele não esperava, porém, ele talvez nunca tenha ficado
sabendo: em algum momento, Kosnow despertou. Nenhum “alarme”, estranhamente,
foi soado. O tempo parecia ter parado. E ele, sem nenhuma novidade, estava
confuso.
O
cheiro e ambiente assépticos contrastavam com a mente cheia de pensamentos de
Kosnow. Com medo de ter caído numa armadilha de seu perseguidor, ele saiu de si
mesmo, flutuou pelo laboratório e, alarmado, começou a procurar Murion sem
saber ao certo o que lhe ocorria e como ele podia fazer aquilo.
Em
um certo momento, vagando por aquele laboratório que parecia estar em descanso,
veio algo em sua mente: “Não há centro nem limites do universo, nem há fora nem
dentro”. Uma voz sussurrante que parecia ser a dele mesmo. Ele não sabia o que
era aquilo, mas começava a entender, era algo de sua memória: enquanto ele
esteve naquela estação espacial, supostamente localizada nas bordas do centro
do universo, enquanto ele ainda estava cego, não havia percebido um detalhe
fundamental. A estação espacial alienígena não estava próxima ao centro do
universo, mas ao largo de um centro do universo simulado. Porém - ele indagava
-, Murion estava lá… Subitamente, em meio àqueles pensamentos, naquele estranho
sonho onde ele circulava fora de seu próprio corpo, um banho de luz! Parecia
que o mesmo evento que ocorrera em Arquimedes IV estava acontecendo outra vez.
***
- Assessora Nagara? Permite que eu fale?
- Sim, Barl. O que é? - disse ela, já
tendo conhecido, informalmente, sua fama de intrometido.
- Como poderiam haver outros universos
físicos, materiais, “fora” do nosso? Afinal, é o que toda essa história dos
tais akashes nos trouxe…
- Eu não sei. Só sei o que me disseram.
Eles podem ter os seus motivos para não dizerem toda a verdade.
A
atmosfera da nave auxiliar estava seca, mas suportável. Nagara continuou:
- Vamos ver até onde isso vai dar.
Talvez, o nosso universo não passe mesmo de uma espécie de “super-galáxia” mais
complexa que qualquer uma que tenhamos conhecido.
- Chegamos. – encerrou Barl, mostrando a
MODULO na tela, uma nave sem nenhum tipo de disfarce.
De
repente, Barl mudou o tom:
- O que é isso…?
***
Subitamente,
sem barulho, uma onda de luz e pressão explodiu toda a base secreta onde
estavam Murion e Kosnow. Entretanto, daquela vez, alguma coisa protegeu a vida
dos homens e mulheres que trabalhavam naquele lugar. Nenhuma vítima mortal.
Murion
despertou desorientado, não viu nada. Enquanto isso, os dois eram transportados
para a MODULO por algum mecanismo ligado aos poderes akashes, um tubo luminoso
que os levou da Terra até onde estava a nave cilíndrica. Uma viagem que durou
segundos.
O
adimensional, um pouco depois, abriu os olhos, deitado naquele chão gelado.
Kosnow o sacudia freneticamente.
- Amigo, acorde! Estamos salvos! Fui eu,
eu sou um akashe!
- O quê? - disse Murion, totalmente
desperto, tentando se levantar na central daquela nave exeker.
- Sou um constructo, na verdade. Uma
fusão entre um akashe e Antônio Kosnow. O coma induzido me… me despertou! As
coisas se passam desabaladamente pela minha cabeça… Você está bem?
- Sim… - Murion ainda não acreditava
naquilo, mas tinha que dar algum crédito. Realmente, juntando as peças… - Sim,
pode ser verdade. Ok. Eu já deveria ter percebido, mas, deixe-me assumir esta
nave.
Retomando
os controles da MODULO, o adimensional descobriu a aproximação de uma nave
estranha. Era uma nave auxiliar urizeniana. Nagara, finalmente!
***
Estavam
os três novamente reunidos, comunicando-se via rádio. Murion, após as primeiras
explicações, esboçou:
- Como devemos proceder agora, Nagara?
Esse seu “filho” continua a andar por aí. Ele parece confuso entre sua
programação e seu livre-arbítrio.
- Como você sabe, estou com meu povo, e
não posso mais seguir vocês. Voltaremos logo para a nossa realidade própria.
Quanto a isso, acho que você mesmo sabe o que fazer. Espere essa… essa
criatura. Quando ela aparecer… eu já disse, você sabe o que fazer. Preciso
encerrar e partir agora. Espero que dê tudo certo para vocês. Adeus.
Nagara
mal desligou o comunicador, querendo se livrar daquela missão, quando todas as
luzes de sua nave apagaram. Nenhum som.
- Mãe?
Ela
deixou sua velha pistola de balas de luz mais próxima de si. Por puro instinto,
afinal, aquilo não o mataria. Ela respondeu com o silêncio.
***
Ela
corria pelos corredores escuros de sua nave auxiliar, sem ninguém para
ajudá-la. Corria de passos lentos, porém eficazes. Parou.
- Por que você não fala comigo?
Uma
luz surgiu, e aquele rosto saliente, magro, contorcendo a própria realidade,
preparava-se para algum tipo de ataque. Só podia ser algum tipo de ataque.
- Você não é meu filho. Você é uma
reprodução artificial produzida por Rama. Meu código genético foi usado… Por
favor, não me mate.
- Eu não posso controlar!
A
luz revelou-se como uma bola de energia azul, que foi se tornando vermelho,
ameaçando incinerar Nagara, quando, subitamente, uma arma de projéteis da
Terra, com uma bala provinda da escuridão atrás, atingiu a nuca do filho de
Rama. Não aconteceu nada, entretanto. Mesmo assim, ao tentar contra-atacar
Kosnow, Murion apareceu rapidamente, o agarrou, e o fez sumir.
***
Horas
mais tarde, antes de voltar sozinha para a sua nave principal, após uma
recuperação rápida da nave auxiliar, Nagara, com o olhar, naquele túnel entre a
MODULO e a sua nave, questionou.
- Nos encontraremos, talvez, algum dia.
Espero por isso. Quanto a ele… eu o mandei para o horizonte de eventos de um
buraco negro, para uma realidade alternativa onde, no lugar do sistema solar… -
disse, Murion.
Kosnow,
seguro de si, ouviu de Nagara:
- Você realmente é um akashe?
- Uma projeção, uma amálgama… minha
mente é tanto humana quanto alienígena. O que importa é que vamos vencer. –
respondeu Kosnow.
Em
alguns minutos, Nagara estava longe. Em algumas horas, havia chegado a sua
realidade de origem. Sua única preocupação agora: seu relatório.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem os próximos capítulos.


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