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sábado, 30 de agosto de 2014

Livro: A EMBARCAÇÃO DIVINA // TRECHO 1

                                              
    1-

             As nuvens mal começavam a aparecer, em suas formas desagregadas. Era um céu de poucas cores, ainda no meio do conflito entre um astro que partia e outro que assumia. Abaixo, havia o mesmo, onde pouco surgia algumas tocas, e uma ideia sobrepunha-se à outra. A visão pobre, de um, não muda. Lugar em que uma loucura era resumida, distante de uma paisagem escondida pela neblina da própria mente.
             Estava pronto para o último dia da semana. Mais um dia pertencente a qualquer mês, vivenciado por um morador naquele quarto rústico e escuro. Havia uma pequena lâmpada de luz fraca contrastando com o pouco de luminosidade que vinha da grande janela de vidro, com vista para aquela manhã nublada e para os telhados de outras casas.
            Chuviscava, em seu último dia naquele lugar. Sai de seu quarto e entra no curto corredor silencioso. Observa a porta do recinto de seu avô, que trabalhava à noite e ainda não havia retornado. Nunca o via.
            No extremo esquerdo do corredor, de alguém ainda fixo à porta de um quarto trancado, estava uma pequena sala ligada à cozinha. Na casa vazia e escura, chega ao cômodo principal. O lugar sempre o assustara, desde a infância. Aqueles blocos em preto e branco às vezes faziam-no tonto, o chão parecia imenso como em seus pesadelos, e muitas vezes tudo virava de cabeça para baixo, e ele estava no teto. Pesadelos.
             Passa rapidamente pela sala, fazia frio, o dia havia nascido há muito pouco. Abre a porta e sente alguns pingos na cabeça. O ar era mesmo poluído, era denso, vivia próximo a um conjunto de fábricas onde seu avô trabalhava. E os telhados das outras residências? Todos podres, em seus lugares, trancados. Havia apenas um gato preto que o olhava fixamente de onde estava, em cima de um dos telhados vizinhos.
             Desce pelas escadas mal construídas e sem corrimão, único por ser o outro lado fixo à construção. Primeiro grande medo: o segundo andar daquelas três casas mal construídas, postas umas sobre as outras. A morada estava fechada, e havia um mau cheiro próximo. Não olha, desce mais um pouco e vê-se à frente da porta do primeiro andar.
              O lugar era menos mórbido, mesmo com aquele velho latido, que vinha de dentro do andar, não soando naquele dia. Um som que superava o silêncio pesado do segundo andar. Havia ainda o mesmo cheiro medonho daquele encanamento há muito intocado, aquele chão de barro à frente de uma porta velha, numa escadaria de cimento, externa e sem segurança, passando por aquela construção quase abandonada, com os olhos do que deveria ser um gato tão próximo à espreita, e o frio.
               Chega ao térreo, naquele beco escuro. Parecia noite. Dava graças ao fato de nunca ter aparecido alguém mal encarado em todo seu percurso de toda sua rotina, nenhum criminoso que o abordasse. Ainda assim o beco causava medo, era muito estranho e sem iluminação. Observa, em seguida, uma das janelas trancadas do térreo, que dava ao beco. Desde quando criança nunca mais havia visto a proprietária e seu filho adulto, viviam trancados no térreo.
                Formava-se… Era uma rua curta, cinzenta, toda esburacada, sem carros que corressem, e completamente vazia de vida e pessoas, na extensão de seus quarteirões, salvo ele. Já havia pensado se todos não haviam feito como faria naquele dia, fugir daquela atmosfera tão feia. Alguns fugiram sim, porém de outra maneira, por ele impensável. De vez em quando dava para supor alguns casos de suicídio, era possível.
                 Um lugar deprimente, desprovido de progresso; a maior parte das casas haviam sido deixadas por seus donos, não sabia quando. Defronte sua residência, dotada apenas de um sistema fraco de água e de luz, após o leito de um quarteirão esburacado, havia um grande muro que dividia o bloco residencial daquele conjunto de fábricas. Era o que parecia.
                   À direita, havia três casarões fechados e quase a desabar, e mais um, que cerrava o que deveria ser uma grande extensão descuidada por uma autoridade inexistente, com algumas poucas torres elétricas; onde morava uma só pessoa, que ele nunca vira. E à esquerda além de mais duas moradas velhas e aparentemente desabitadas? O que parecia ser uma avenida, que cortava duas ruelas formadoras de um péssimo sistema de urbanização, onde casas velhas ocupavam o lugar de entradas de ruas. Não via nem ouvia nada nem ninguém próximo, debaixo daquele céu nublado.
                    Quase nunca falava, como os poucos habitantes da ilha. Quando tentava conversar com alguém, ou não respondiam ou havia apenas monólogos em olhares rudes ou tristes. Sempre pensou ter nascido num pesadelo de alguém, não sabia se isso era só na ilha, localidade na qual mudara-se com o avô, quando era muito pequeno. Nem imaginava o que havia fora daqueles limites. Com o passar dos anos, as coisas foram piorando.
                    Era calmo por fora e agitado por dentro, brincava com esses pensamentos antes de atravessar a avenida, antes de se deparar com seu Segundo grande medo. Olha para os dois lados com cuidado, sempre havia aqueles motoqueiros malucos, em um caminho sem carros. Corre, a estrada parecia querer tremer. Não olha mais, avança com força. Os sons surgiam, aproximavam-se aceleradamente.
                    Chega ao outro lado e eles passam. Estava seguro agora. Aqueles homens, pois deveriam ser homens, passavam pela avenida toda vez que ele tinha de atravessar. Usavam calças e tênis pretos, viviam cobertos por um casaco de couro e um capacete, além das luvas, também de couro. Nunca falavam, nunca os vira fazer nada que não fosse, durante duas vezes ao dia, tentar atropelá-lo.
                      No outro quarteirão, via mais dois estudantes que compunham a mesma sala que a sua, e que saíam de suas casas. Ninguém se falava, era a educação que todos recebiam sempre através da indiferença. Os três, bem distantes de si, atravessam outra grande rua que os separava da rodoviária. A chuva cai de vez. Tanta chuva causada pelos danos ambientais naquela terra de ninguém.
                      Onde estudava ficava mais longe daquelas fábricas e do bloco residencial, em sua maioria formado por inúmeras casas desertas, além de tantas outras construções que caíam aos pedaços, em ruas vazias, escuras e frias, esburacadas, formadoras de um sistema de urbanização completamente desorganizado. Tudo era silencioso naquelas ruas. Entrava ele, correndo para se abrigar na rodoviária.
                         Era imensa, a construção sem nome, e era sem nome pois a placa que lhe denominava havia perdido o sentido de tão velha, as letras haviam sumido. A rodoviária era grande, de poucas pessoas e sem manutenção. Havia apenas ele, poucos estudantes e… gente esquisita.
                         Gente esquisita? Ele esperava aquela meia hora apreensivo, mas fugiria... Quando? Naquele dia. Ao seu lado, havia um homem de seu tamanho e moreno; à sua frente, um velho que dormia num banco; há meses era assim. Não esquecer de um deficiente que esmolava há alguns metros de onde se encontrava.

                         O velho sempre dormia naquele lugar. Normal? Não naquele dia. Enquanto o ônibus certo não estava à disposição, percebe que havia algo de estranho em relação àquele senhor, que perambulava ao redor dos ônibus, criatura sempre cheia de moscas. O rapaz levanta-se, aproxima-se do ancião, toca-o, estava morto!

CONTINUA...


Autor: João Batista Firmino Júnior

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Obs.: O texto é do ano 2001. Há, certamente, erros, como existiram no livro O NÚCLEO, anteriormente disposto no presente blogue. Ainda assim, não são erros que impeçam o entendimento básico da obra. 



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O Multiverso de Perry Rhodan

Já expus aqui, neste blog, que, no passado, organizei-me e atingi o intento de publicar uma edição de fanzine da série literária Perry Rhodan.

Buscando as coisas da época, deparei-me com meu modo de organização das partes da revista que criei. A partir dela, vou dispondo como o multiverso da série pode ser resumido, para podermos mapear a série e entender a relação dos elementos do universo fictício que define e preenche a maior série literária de ficção-científica de todos os tempos, que está prestes a se tornar bastante conhecida também no Brasil com as publicações que os fãs atuais já conhecem. Vejamos a esquematização:

Multiverso Perry Rhodan:

1- Civilizações e Povos;
2- História;
3- Grandes Ciclos;
4- Tecnologia e Conceitos.
5- Galáxias e outros lugares;
6- Personagens;
7- Objetos Sacralizados.

Civilizações e Povos:

1.1- Conforme lugar de origem;
1.2- Conforme aspectos físicos;
1.3- Conforme aspectos psíquicos e/ou sociais;
1.4- Aspecto Lógico ou de Inteligência;
1.5- Línguas e Idiomas;
1.6- Ideologias;
1.7- Conforme estágio evolutivo.

História.

Grandes Ciclos.

Tecnologia e Conceitos:

4.1- Tipos de Naves;
4.2- Tipos de Armas - Defensivas, Estratégicas ou de Ataque (armas manuais, para naves ou para fortalezas);
4.3- Tipos de Uniformes e Vestimentas;
4.4- Fortalezas e Estações;
4.5- Prisões, Cassinos e Shoppings estelares;
4.6- Zoológicos Espaciais (com espécies animais da Terra e de outros planetas);
4.7- Energia Psiônica;
4.8- Tipos de Radiação;
4.9- Outras energias ou influências;
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SABERES: 

- Ciências e Especialidades
- Classificação e Conceituação de Inteligências Segundo Inteligências;
- Fenômenos Científicos;

Espaço:

   Galáxias e Universos:

- Ganesh;
- Via-Láctea;
- Andrômeda;
- Mini-Galáxias;
- Outros Universos (como o dos Druufs);
- Cidades Fantásticas ou Simplesmente politicamente estratégicas;
- Planetas, Estações, Bases, Naves ou demais espaços estratégicos;
- Espaços Interestelares e outros.

Personagens:

- Conforme importância ocasional;
- Conforme espécie, civilização, raça, cultura ou etnia;

MUTANTES:

             - Tipos de Poderes;
             - Gênese e evolução dos poderes;
             - Explicação Científica sobre os poderes;
             - Graus de poderes.

SERES EM GERAL: 

- Superinteligências;
- Seres energéticos;
- Seres entre o inorgânico e o orgânico;
- Mortais e Imortais.

OBJETOS OU LOCAIS E CONCEITOS SACRALIZADOS:

- Ativadores;
- Planetas de Origem com funções nada "profanas";
- Trajes;
- Naves;

- Conceitos Sacralizados (como o do Caso Harmonia).

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Importante considerar que o natural desenvolvimento da série se deu e se dá através de décadas e de diferentes equipes e apoios técnicos com o passar do tempo. Por outro lado, tecnologicamente, há associações que não fazem sentido tecnologicamente: como a existência de fitas magnéticas ou a ausência da Internet (considerando que ela já existia, sob a forma de um projeto quando a série surgiu, sendo possível apostar ao menos na ideia geral de união virtual de dados e informações entre computadores e uso de aparelhos que equivaleriam a computadores, ainda que seus usos práticos fossem além... pequenos aparelhos, cérebros positrônicos ambulantes, fragmentos... mas, isso é discutível, talvez tendo faltado apenas um aprofundamento).

Quanto à minha esquematização, baseei-me apenas na série clássica. Na época, desconhecia a iniciativa de uma reatualização de Perry Rhodan. 

Voltando à série como um todo, ela parece possuir uma Síndrome de Demiurgo muito sadia, e cujo detalhamento só não é maior para não tornar seu tamanho e complexidade ainda maiores. Falta-lhe, até onde li, porém, um adensamento psicológico dos principais personagens. Eles não parecem apresentar (por exemplo: Perry Rhodan) uma explícita e específica evolução psicológica em milhares de anos de existência. E há os personagens que somem subitamente, ou que desaparecem por muito tempo, sem referências possíveis.

Em suma, espero que essa esquematização que fiz, e que qualquer um que conheça a série pode fazer tranquilamente, sirva como uma semente para a concretização de um fanzine da série por qualquer um que realmente a aprecie. Eu consideraria um matriz mista: começar explanando a série e suas diferenças internas, suas categorias, através da cronologia... até um dado momento; em seguida, considerando a evolução não mais cronológico-linear, mas das categorias envolvidas, num ir e vir constantes.

As bases categóricas de Rhodan, também devemos considerar, são extremamente úteis para dar ideias a novos escritores que queiram construir seus próprios universos ficcionais. São bases úteis e que não permitem por elas mesmas nenhum tipo de plágio. São contornos capazes de criar referências em nossas mentes, em mentes tanto de leitores como de escritores, permitindo nos orientar e... criar, a partir deles.


Assinado: João Batista Firmino Júnior.

sábado, 23 de agosto de 2014

O Absoluto (poema não metrificado)

Vila augusta de todos os santos,
Desperta vagamente,
Com suas casas sem Sol,
Com suas mudas decaídas.

O quarteirão é o único ponto de terra
Que cobre com pó de serra
A imensidão do Vale do Escuro
Que cobre cada trabalho meticuloso das formigas negras,
Que escondem os corpinhos fervilhantes de vinte centímetros,
O dobro em terra vermelho-escura.

Vago como um corvo
Em meu voar esmolambado,
Verificando de longe, o sono retumbante de cada Ser
Que descreve e cala a vila.

Cada casa é pintada de terra,
Bem como aquela onde pouso.
Lá ao fundo estou na sala,
Mais adiante vejo um corredor
Que segue até uma cozinha-horizonte,
Um pedaço de parede com um terço de pia,
Com baratas ralas e alguns cupins
Apontando uma das bordas do quarteirão
Que termina no sopé de um dos lados rochosos do vale...

O som é nenhum, pois não venta.
O corvo vai para o topo da casa vizinha, e tenta
Enxergar o céu escuro e sem estrelas,
E não há mais gente, nenhum fantasma do passado.
Mas, no silêncio absoluto eu canto,
E o canto é o sereno fim das Eras,
O Tempo que termina sempre
Quando o Espaço também termina
Naquele fim de mundo.

E o canto enxerga o fim da tridimensionalidade
Das formas em-terra de cada leve casa.
E a trilha do quarteirão se despede,
O vento não reaparece,
Só minha voz se despede.
E o canto segue, vaga, torce o horizonte
E mergulha-o na mais profunda escuridão.


Ao cantar vou libertando inúmeros olhos vermelhos
Lá do canto mais escuro de uma semi-casa perto de pedras,
E esses inúmeros olhos viram um só par que silva para mim,
E silva cada vez mais gravemente,
Despertando desorientação no corvo…
É quando a fome atinge-me por fim.
Faz a Morte satisfeita.
E cada Forma sem cheiro ou som se desvanece em linhas...
E todas as linhas viram Horizonte,
Mas logo se tornam pontos enfileirados de escuridão na Noite,
E se tornam um só Ponto

                               que se despede...


Autor: João Batista Firmino Júnior.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Dois Mundos (Conto)

Bord voava sobre a relva macia, sentindo o vento e o odor das plantas e da terra molhada. Nuvens e mais nuvens avançavam, encobriam-no, e o abandonavam. Foi tudo tão rápido… finalmente, chegou ao topo de Onenhanga.
            O frio tiritava, e ele seguiu andando, reagrupando suas asas e aproveitando-se de sua natural plumagem. Ele avançou pela gruta do topo, soturna, com suas estalagmites antigas e sua escadaria majestosa. Foi a hora de descer.
           
- Bordenave…

            Um sussurro vago. Era o Perpétuo. Ele, chamado, se apressou, repuxando seu saiote, e adentrou-se mais e mais. Chegou a um ponto, um corredor.

- Estou aqui! - ele gritou.

            O corredor era curto, mas bem iluminado com tochas de luzes negras em meio àquela claridade cegante. E o chão, liso, aconchegante, para aqueles pés visitantes. Silvos e silvos tilintavam de algum lugar ao redor. À frente, o som das águas.
            Bord chegou. Após a passagem por Onenhanga, um píer descolorado para o Abismo. Ele virou-se para uma torneira, ao lado, e molhou seu bico, rosto, olhos. O Perpétuo também voava, estava por perto. Era pura voz.

- Pule e comece a pensar. Imagine. Seu trabalho com os signatários da William Blake foi aceitável. Precisamos, agora, de novas ideias.

            Bord abriu suas asas, na base do píer, e pulou. Aquela força penetrou-o como se ele fosse puro ar, e ele tentou imaginar.


***


- Duzentos e nove anos de trabalho não resolvem tudo! – dizia um dos dois homens que andavam pela Aeroviária Phir, a principal de Montevideo.

- Não resolvem tudo, Chagall, mas adiantam muito. Os nódulos peridimensionais podem parecer seguros hoje, mas, a cada dia, hackers vão se aproximando…

- O boato da chave-mestra… claro, mas não será em nossa geração. Vamos entrando?

            Os dois homens, perto dos sessenta anos e de impecáveis ternos, embarcaram numa cápsula que foi lançada como uma bala magnética.

- Theodor, meu amigo…

- Ei, Chagall, – Ele interrompeu-o. - por que será que ainda usamos o magnetismo para este tipo de transporte? Sei que não é o mesmo tipo de magnetismo de antigamente, mas…
- Certamente porque venceu, aparentemente, a “seleção natural” da usabilidade tecnológica.

- Ah, claro.

            Chagall sumiu, após o que parecia ser uma pistola ser usada contra o próprio crânio de Theodor. A cápsula parou depois que os sensores perceberam o sumiço da batida cardíaca do único homem que estava naquele transporte, imaginando um outro.

***

            Ele sentia o vento sob suas asas, a adrenalina ora aumentando, ora se estabilizando, um voo nem para cima nem para baixo. O Perpétuo continuou a enviar mensagens para a mente de Bord, para que ele se concentrasse. E assim foi feito, como sempre foi feito. Havia um lugar em mente.


***

            Oito horas depois, o Inspetor David Tenerife estava diante do que ele e seu contratante (que não era apenas o Estado) achavam que era um falso suicídio.

- Theodor? Apenas Theodor?

- Ele foi registrado assim, senhor. Sem sobrenomes. – respondia um assistente, pelo microtel em um dos ouvidos do Inspetor, que o desligou abruptamente.

- Esse foi o nono… em dois anos. – disse a oficial Clara Montepio, ao seu lado.

- É, e eu terei que avisar à PeriCorp antes que os metidos da… da outra Divisão barrem tudo.

            Ao virar-se, ele sentiu uma mão em seu ombro. Ainda era a oficial. Tinha algo a dizer. Distante dos outros, eles se olharam com paixão, e ela disse:

- Você promete que não vai agir fora das regras?

            Ele não respondeu, por um momento. Até dizer:

- Só uma tentativa. Só para ter certeza… Você sabe que o foco de toda essa história não somos nós. Isto aqui não tem começo nem fim realmente claros… Devemos partir de acordo com essa falta aparente de lógica. De qualquer forma, será só uma tentativa de entendermos o outro mundo para entendermos o que se passa aqui.



***


            Bordenave percebeu-se, depois de um tempo infinito, de pé sobre um lamaçal quente, um cheiro de merda, uma paisagem desolada de fogo e miasma. Atrás de uma rocha de seu tamanho, porém, ele encontrou um chão limpo e uma chave dourada com asinhas de metal da mesma cor. Ele a pegou e virou-se para uma fechadura na rocha. Sim, o sonho do Perpétuo poderia dar certo, enquanto o programa chamado “Bordenave” agia como uma perfeita ferramenta. O que seria esse sonho? Perpétuo dissera a ele, quando de sua criação, que se tratava do acesso a todas as mentes humanas conectadas aos aparelhos da PeriCorp. Só faltava uma última confirmação de seu mestre para a ação final.
           


***


            A Fundação estava em ordem, vista do alto daquela cúpula geodésica cujo ponto mais alto afigurava-se a novecentos metros acima do chão e a dois quilômetros e cem metros do nível do mar. Ao lado de um homem alto e calvo, de pé e à frente da janela-espelho que pairava como uma lente espessa e grandalhona, um telefone toca. O viva-voz é acionado.

- Senhor Sigurd? Presidente Sigurd Kaesta?

- Sim?

- O lançamento ao público da quinta versão do PeriSoft foi um sucesso.

- Ótimo. Alguma novidade sobre o planeta Apsan?

- …

- Alguma novidade?

- É melhor falarmos da cura pessoalmente. Podemos nos encontrar esta noite em seu escritório?

- Feito. Venha daqui a seis horas.

            Nove horas e meia depois, a polícia estava diante de um corpo. Um aparente suicídio. A vítima: o Presidente da PeriCorp Sigurd Honor Kaesta. Morto, aparentemente, apenas por sua esquizofrenia, naquele afã por uma cura que nunca era completa mesmo naqueles tempos de milagres técnicos.


***


            “Ok, Ok, Bord, mas onde está o algoritmo? A chave, por si só, não abre nada.”, pensou o ser alado. Enquanto isso, no mundo real, o Inspetor procurava, para aquele caso reaberto, a ajuda de alguém especial, uma hacker.
            Nervoso, diante daquela porta de madeira sintética, ele apertou a campainha. Sua sobrinha, com a qual ele já tinha falado por telefone, atendeu.

- Dóris?

- Entre, tio.

            Tudo já havia sido informado, menos alguns detalhes.

- Trouxe o que pedi? – questionou ela, diante de suas luvas, que a cobriam até os cotovelos.

            O Inspetor tirou do bolso um estojo e, dele, uma pastilha. Cuidadosamente, Dóris, uma bela ruiva de cara fechada, sentada em uma poltrona feita especialmente para perinautas, em um quartinho após a sala de estar, fixou aquele material em uma entrada parecida com uma USB do início do século XXI. O material da poltrona, em seu braço direito, sugou aquilo como num gole.

- O que você quer que eu procure exatamente?

            O Inspetor respondeu com uma pergunta:

- Você conhece o boato sobre o Perpétuo, não?

- Sim, claro. Uma espécie de “mestre dos mestres”, que devassa tudo. Está em ação há dois, três anos…

- Correto. Desde que os crimes começaram. Você sabe que estou agindo por palpite. Não quero ser derrotado neste caso. Não será desta vez… não mesmo.

            Ela se concentrou, enquanto o tio ficava numa cadeira próxima, perto da janela, tomando seu lact, uma bebida cheirosa a base de leite misturada a alguma coisa alcóolica.


***


            A rede de “satélites” quânticos, ou peri-servidores, estendia-se da atmosfera da Terra, perpassando seus subterrâneos e concluindo-se em um manto dimensional cuja acessibilidade se dava, parcialmente, pelos sonhos ou por algum estado de consciência alterado que, diferentemente do que se pensava antigamente, nada mais era que uma janela a um novo espaço fora dos padrões rígidos da velha Física. Um novo espaço sem uma correlação linear entre os diferentes nódulos, cofres ou nós distribuídos pelo sombra supostamente “espiritual” do universo. Uma dimensão normalmente chamada de “Perimundo”, onde estariam reunidas almas que nada mais eram que “HDs” contendo praticamente todos os saberes – e todos os deleites inúteis – da atual e da antiga Humanidade.
            Quem nos traz essa informação? Os rastros de Bordenave. Ou melhor, aquilo que Bordenave tinha que saber para agir.
            Voltemos a Doris. Ela, ex-funcionária da PeriCorp, agindo sem autorização oficial, apertava-se num carro-moto que singrava aquela “apoteose de todos os desertos”. Algoritmos passavam pela mente dela, um tanto quanto diferente por ter nascido em Apsan (boatos diziam que os filhos dos experimentos daquele planeta possuíam um segundo cérebro)… Bem, pensamentos demais, como esses, povoavam a mente daquela mulher. Sua concentração tinha de ser devotada totalmente aos algoritmos e à lógica ilógica de toda aquela “dimensão paralela” (como diriam os leigos).
            Finalmente, em um mundo iluminado, mas sem sóis nem nuvens, ao largo de pedregulhos que mais pareciam ovos marrons, erguia-se um castelo gótico. Ela pensou: “Isso não está no Programa”. De qualquer forma, era hora de acessar aquela pastilha, entregue pelo seu tio. Acessar virtualmente aquilo que já estava contido na poltrona, em ligação com suas luvas que tocavam aquela ferramenta feita para relaxar e para conectar mentes a novos mundos. Foi quando uma luz intensa apareceu da torre mais alta, e desceu. Perpétuo apareceu.

- Você! O que é você?! – ele bramiu, em seu manto azul-claro e seus olhos parecidos com safiras em uma cabeça de… abóbora.

            Dóris descobria tragicamente: Perpétuo não era um hacker, mas “algo”, um ser vivo daquele peri-mundo, daquela sombra dimensional, daquele vislumbre distorcido do nosso próprio mundo perceptível, utilizado como uma nova fronteira para uma nova Internet (aquela ferramenta de milênios esquecidos). Todavia, voltemos ao fato: Perpétuo era quem fazia a pergunta que ela queria fazer, e cuja resposta seu suposto cérebro secundário já havia encontrado diante da ausência de algoritmos.

- Quero ter acesso ao seu rastreador… - disse ela, temerosa.

            O silêncio se fez presente.

- Preciso dele, preciso parar com isso. Inocentes estão morrendo há anos por alguma coisa relacionada a isto aqui.

            O Perpétuo acessou a mente da inquilina. Sim, sim… um ser orgânico com uma identidade peculiar, com apenas uma camada de algoritmos que constituíam a ilusão de roupa e de carro-moto, bem como de rosto, corpo, braços.

- Acho que você entende.

            Ele, finalmente, retornou a falar:

- Você é uma filha de… nasceu em Apsan, que parece ser o mundo que alterou seus cérebros… você é orgânico, mas não é totalmente como “eles”. Ah, agora entendo… eu me alimento do que seus cérebros secundários produzem neste mundo quando se utilizam desses equipamentos. Você acha mesmo que pode comigo?

            O Perpétuo parecia menor, comportava-se como humano, ou quase. Havia se tornado semelhante demais a ela, com o tempo, para poder se comunicar melhor.

- Eu tenho algo que você quer. - ela insistiu.

- E o que seria?

            Naquele mundo, a pastilha, ou o que parecia ser um chip de platina das gerações tecnológicas mais antigas, aparecia como um gato alado.

- Eu sempre pensei que isto fosse o que em nosso mundo chamavam de sua localização geográfica codificada, sua identidade humana. – Dóris parecia mais segura.

- Mas não. – prosseguiu – Isto que te foi roubado há semanas, conforme o tempo de meu mundo, por pessoas que eu desconheço, não é a chave de sua identidade, cujo uso não pôde ser feito devido à complexa codificação. Aqui não passa de seu animal de estimação, sua companhia… Enfim, vamos negociar: apresente o seu Programa que ele te será devolvido.

            Perpétuo ainda tentou se mexer, atraindo mentalmente seu animal. Ele sentia a fonte. Era real. Não era engodo. Mas… aquela amostra nada mais era que uma amostra ilusória.

- Traga-me o original! Traga-me meu querido Moceros! Eu o quero agora!

- Então – disse ela – traga-me seu programa-espião!

            Perpétuo cedeu e fez com que Bordenave aparecesse. O ser alado estava exausto, com uma chave em uma de suas mãos tortas por baixo das asas.

- Tome, tome, tome! Mas, por favor, traga-me Moceros de volta! – disse Perpétuo.

            O trato foi cumprido.


***


            Há quinze anos nenhuma morte daquela natureza se repetira. Aparentemente, o Perpétuo arranjou outra fonte de alimento. Dizem que, eventualmente, algum jovem jogador que se utilizava dos mundos virtuais morria, talvez acidentalmente… mas, ninguém poderia dizer se havia um culpado real do “outro lado”. O que importa é que Dóris agora participava da cremação do seu tio, sozinha, e refletia sobre o passado para entender o seu futuro. Ela, a nova Presidente da PeriCorp, provavelmente estava satisfeita com suas novas patentes. O mundo de conhecimentos que ela conseguiu de um ser inorgânico ingênuo abriu seus horizontes. Não havia sido difícil chegar até onde ela chegou, desde que fora readmitida. 
Uma pequena nave de luxo a esperava do lado de fora. Havia um segredo que ela não contou do trato. Aqueles sentimentos, piegas, foram deixados de lado, ela voltou calmamente ao seu jet e, ao motorista eletrônico, apenas ordenou:

- Casa.



Autor: João Batista Firmino Júnior.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O que poderia ser um sonho (mini-conto)

Na rotina de sempre, acordo ao primeiro despontar do sol. Naquela cama de velhas molas, levanto-me num frio desconfortável, mas não congelante. Da cama que range, o gigantesco guarda-roupas mofado, com suas roupas bem uniformes – apenas uniformes e pijamas.

O sol não vem. Entretanto, uma garoa. Uma garoa gelada como gilete cortando, formando lágrimas nas sinuosidades de minha janela de ferro e vidro. Antiquíssima janela. Grandiosa, nunca mostra o horizonte, apenas borrascas que, com o sono pesado de quem acorda muito cedo, traz dores de cabeças e uma dormência repentina por sobre meus olhos. De vez em quando, porém, surge um vago horizonte, uma mansão do fim da rua, a mirar-me.

Calçando meus uniformes sapatos, com minha farda escolar, bato de leve, enquanto amarro os cadarços, em um azulejo quebrado, e sinto as pedras que há por baixo. Levanto-me. Pego a mochila pesada, toco naquela fechadura enferrujada, e saio do meu quarto.

É um corredor. Curtíssimo. À frente de meu quarto, a porta dura, de madeira-de-lei, onde dorme meu avô. Ele trabalha à noite na zona de fábricas, e passa o dia dormindo, enquanto eu estou fora. Há quantos anos é assim?

Em meio a azulejos quebrados e empoeirados, bebo rapidamente minha água, em uma caneca amassada de metal, direto de uma torneira anormalmente não quebrada. Vou para a sala. O chão xadrez me tonteia, em meio àqueles sofás de um couro berrantemente rasgado em alguns pontos, sujo, e malcheiroso. Chego à porta, e ela range.

O lado de fora era ainda mais abafadamente frio. Vivia no terceiro andar de um amontoado de moradas, e, por anos incontáveis, tudo era pago para a família – mãe e filho – do térreo. Comecei a descer aquelas escadas de cimento, escorregadia com suas poças, vendo, acima de tudo, os casarões velhos, de vários andares, e a rua molhada, sem ninguém, com suas torres elétricas de ferro quebradas.

Tenho medo da porta do segundo andar. De madeira sem qualidade, em seu azul-claro, dava para ouvir miados grotescos, de gatos gordos e deformados e de bolas-de-pêlo putrefantes, e aquele cheiro horrível, de podridão, saindo pelo buraco da porta de madeira puída, perto do chão. E dava para ver... o escuro mais abominável, um negrume pesado como uma nuvem abismal.

Desço mais e vou até o fim.

Casas velhas, casarões, substituindo entradas de ruas, com um muro imenso para a zona de fábricas, além de torres de metal dando choques, e as poças pelo chão, a farda, a mochila pesada, e a primeira travessia de rua.

A garoa continuava, tal qual o meu medo de ser atropelado por aquelas motos que sempre passavam por lá, em alta velocidade, pela manhã. E aconteceu de eu imaginar motoqueiros sem rostos, sem sentido, sem caminho, apenas passando rápido por pura exibição desprovida de sentido.

Atravessei. Na segunda rua, vejo apenas dois estudantes, como eu, que nem acenam. Sigo até uma não tão longe estação rodoviária. Porém, resolvo, sim, dar um basta. Aquilo tudo era muito irreal. Não lembrava quantos anos eu tinha, nem meu nome, nem sobre meu avô, nem o porquê de seguir aquela rotina sete dias por semana.

Caminhei de volta para casa. Já era grande demais para portar uma farda estudantil. Não fazia sentido. Subi os degraus com força, joguei fora a mochila. Ainda passei temeroso pela frente da porta do segundo andar sem moradores, mas, como sempre, sem nenhum medo (ou consideração) do primeiro apartamento, e entrei em casa. Minha ideia: ir, direto, para o quarto todo-poderoso do meu suposto avô.

Tentei abrir a porta com meu molho de chaves. Achei a chave certa, mas... a quebrei na fechadura. Fui batendo com o corpo, tentando arrombar, por horas. Consegui. E a escuridão daquele quarto era total!

Mofo, chão sujo, pedaços de madeira e pedras (?) jogadas em meio a um chão de terra batida. A porta fechou-se atrás de mim. Entrei em pânico, escorreguei em algo, e caí no buraco que havia naquele chão, de um quarto sem móveis. Metade do meu corpo estava no quarto do suposto avô; a outra metade dava para o temível segundo andar.

Passei anos ali. Anos naquela posição. Um dia, porém, a porta se abriu, e uma voz disse:

- Ou você vem para a luz do corredor, ou será tragado pela escuridão do segundo andar!

Mas, parecia apenas eu mesmo ponderando. O fato é: estava morto. A carne, corroída, deixara-me mais "magro", não tinha forças para sair dali, e caí de vez.

O medo foi imenso, a boca me engolira, corri feito um louco com uma perna torcida, ferindo meus pés ossudos no pelo e no grito de gatos monstruosos, e eu só escorregava, perdia meu orgulho, e me vi rendido a toda sorte de monstros, medos, cheiros abafados, sons horríveis, e mais e mais coisas. Inferno? Não sei, só sei que me tornei um velho eremita preso àquele quarto, com parte do meu corpo fundido ao chão, às paredes, e ao negrume. E, com meu único olho vermelho, via, pedindo ajuda com minha voz que parecia a de gatos gordos e deformados, a um menino que sempre descia as escadas.


Autor: João Batista Firmino Júnior.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Perry Rhodan e seu retorno ao Brasil

A mais longa série literária de ficção-científica de todos os tempos passou dolorosos anos sem lastro no Brasil. A editora responsável, a SSPG, passou anos tentando se reerguer. Por algum tempo, veio o Projeto Traduções - que permanece em sua missão. Até que, há algum, tempo, tivemos o já sabido retorno da SSPG, com suas edições quinzenais em ebook.

Os bastidores desse retorno, todo o trabalho envolvido, envolve um conjunto de informações e experiências além do meu alcance. Sou um mero leitor, longe dos principais preparadores da série no Brasil. Não possuo condições para qualquer tipo de contribuição além do pagamento de cada ebook e o ato de evitar de minha parte qualquer tipo de pirataria.

Porém, posso falar dos rumos atuais da série. "Atuais" entre aspas, naturalmente, pois aqui no Brasil estamos muito distantes do rumo alemão, país de origem da série.

O Concílio foi um empreendimento opressivo, naturalmente, que durou tempo demais. E foi com muito custo e após anos que pude observar finalmente o desmonte desse tipo de empreendimento na história. Algo esperado, pois sabemos que a série na Alemanha continua bem avançada e já longe de se falar novamente em "Concílio" como algo presente na realidade verdadeiramente atual da série; todavia, nada esperado foi o "como".

A série manteve seu ritmo. E seu percurso marcado por desencontros entre personagens e partes diferentes, ou camadas diferentes de uma mesma narrativa. Temos, assim, um Rhodan e uma Humanidade às voltas com acontecimentos cósmicos, presentes na série desde o primeiro aparecimento do superser Aquilo, demonstrando-se que o antigo ex machina está presente de forma racional, explicada, através de uma Grande Mão por trás dos grandes acontecimentos e diante das situações universalmente mais graves, evitando sempre o pior.

Aquilo, Bardioc, a Imperatriz, entidades intermediárias, civilizações, indivíduos extraordinários (mutantes ou não), e, futuramente, até seres acima das superinteligências, demonstram uma sempre presente continuidade capaz de não apenas constituir uma rede de segurança para a Humanidade, mas também um conjunto de vetores para antagonismos diversos.

O "sal da terra", na série, está sempre na presença de - ou sua perspectiva - um Plano Harmonia, de algo que explique globalmente o conjunto dos acontecimentos, oferecendo a perspectiva de uma finalidade e de um propósito para certos pontos-chave.

O sacrifício pessoal para certos personagens é imenso. Vida longa e cheia de perigos, quebra-cabeças, desvios. O ganho se dá para a Humanidade, na manutenção de sua sobrevivência presente e na criação de salvaguardas para a sobrevivência futura. Também há um ganho para os povos humanóides, sobretudo, seres presentes na Via Láctea e descendentes da "humanidade antes da humanidade" - os lemurenses.

Venho, por fim, nestes dias, lendo tanto o Enxame como Bardioc, dois ciclos para mim interessantes. Ainda que eu venha a dar mais atenção à fase presente nas publicações da SSPG, como sinal de lealdade. São crises, catástrofes prolongadas, envolvendo grandes contextos - eis que um uso contínuo da série, os grandes contextos, que trazem benefícios (a história anda e revela-se extraordinária nas "grandes matizes") e perdas (perde-se em certo aspecto de realidade do comportamento humano ou equivalente ao comportamento humano, certas disputas tornam-se muito irrelevantes, pequenas e somem diante desses "contextos maiores").

Esperemos que a SSPG e o Projeto Traduções sigam firmes, leais, num crescente constante, de agora em diante. E que nossa comunidade de leitores se amplie, torne-se múltipla, fiel, e que nunca permita que a série no Brasil naufrague.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Ficções Interessantes


Passei por um período de longas leituras, acolhendo o que achei haver de melhor em autores como Isaac Asimov e os herdeiros de Frank Herbert.

Em Asimov, pude acompanhar desde o prelúdio da Fundação, com os detalhes sobre o início da psico-história (ciência fantástica criada para prever, estatisticamente, o comportamento da coletividade no decorrer de diversas gerações) através do jovem Hari Seldon.

Uma série de acontecimentos levou ao universo da trilogia original "Fundação", descrevendo os últimos séculos do Império, o surgimento das fundações, desdobrando-se até uma obra que corresponderia a uma "Fundação II".

Muita coisa aconteceu na trilogia original, levando a um período de paz após uma suposta derrota da Segunda Fundação, bem após a derrota do império do Mulo, um mutante dotado da capacidade de manipular e ler emoções. E tudo convergiu para o governo da prefeita Branno, em 498 pós-início da primeira Fundação, em Terminus, um planeta distante nos limites da Via Láctea.

A partir de uma rede de intrigas, Golan Trevize surge como uma autoridade expulsa de sua terra natal, ao lado de Janov, um historiador interessado na Terra, o planeta original da Humanidade e origem de todos os ecossistemas fabricados em cada uma das dezenas de milhões de planetas colonizados e terraformados.

Eles seguem arduamente numa nave gravítica, e a história se prolonga até "A Fundação e a Terra", com a lógica dos Siderais ou Espaciais envolvida (um agrupamento de colonizadores conhecidos desde a saga dos robôs presente através das lendas do detetive Elijah Baley, um terráqueo).

A saga dos robôs veio em seguida, para mim (apesar de cronologicamente localizada muitos milhares de anos antes), com a minha leitura de "As cavernas de Aço" e "O sol desvelado". Ela merecerá detalhamento em um futuro post deste blog.

                                                                                ***

Frank Herbert iniciou uma saga que também contempla a ideia de, em milhares de anos no futuro, existir um Império de milhões de planetas, mas agrupados em "casas" ou "clãs" e cujo poder é cortado por determinadas corporações ou ordens. O autor faleceu, e seu filho, aliado a outro escritor, prosseguiu com os escritos. Através dessa segunda fase, conheci a obra "A casa Atreides" e, atualmente, venho conhecendo "A casa Harkonnen". Há outras obras envolvidas, mais recentes.

                                                                                ***

"Além do Humano", de Sturgeon, para mim é uma obra difícil de entender. Estou acompanhando seu início, em uma publicação da LPM. Entendo, preliminarmente, que envolve acontecimentos com um conjunto de humanos especiais, boa parte deles mutantes, dotados de habilidades excepcionais. Porém, parece-me que esses seres humanos especiais não são tão válidos por suas capacidades. Nem é esse o ponto (a "pirotecnia"), o foco. Mas a forma de tratamento psicológico entre os personagens envolvidos, entre eles, e o ambiente. De qualquer forma, ainda estou iniciando.

                                                                               ***

Fora da ficção-científica, posso citar a saga das Brumas de Avalon, que se passa na época do Rei Artur. Um conjunto de obras interessantes da autora Marion Zimmer Bradley. Porém, só entrarei em detalhes depois. Atualmente, estou no terceiro livro da quadrilogia. Parei por um tempo. Retomarei depois. Quando finalizar, analisaremos particularidades.

                                                                              ***

Atualmente, venho lendo e pretendendo analisar uma obra de um amigo virtual meu. A obra se passa na Idade Média e me parece muito interessante.

                                                                               ***

Considerações sobre O NÚCLEO: esse meu ebook, nunca lançado e sem revisão formal, possui seus problemas, como alguns podem ter acompanhado. Ele requererá uma revisão melhor e, quem sabe, continuações, "aumentos", que realmente deem forma a um universo e que leve a um final mais definitivo e, acima de todo, inteligível.


Assinado: João Batista Firmino Júnior.



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Trecho finalizador de O NÚCLEO

23- Nuc-0, um estado de espírito


Tudo havia sumido. Roy agiu, mas, o tempo havia passado mais rápido na vida real. Ainda semi-desperto, ele podia ver, como um sonho, o seu primeiro despertar, o seu espanto devido à amnésia e por estar numa cela fechada. Tudo se repetia, mas ele estava dissociado de si mesmo.
Arnckott estava desativado. Mas, havia coisas mais inexplicáveis pela frente. Após a última viagem astral envolvendo o passado, ele sentiu seu corpo energizado, bípede, frente a um chão metálico, cheio de cabos e paralelepípedos escuros, e um vasto céu noturno, brilhante, com desde estrelas grandiosas, até estrelas em enxame, parecendo um pós diluído no meio do infinito.
Algo brilhava bem longe, à frente, e Roy tinha que andar.


***


            Roy…

            Um sussurro. Não vinha sob a forma de som. Era um sussurro que vinha de dentro da cabeça de Roy.

            Preste atenção…

            Imediatamente, Roy se viu aos pés de uma frondosa árvore em meio àquele cenário inextricável. Ele não sabia dizer que tipo era. Parecia antiqüíssima. Sem frutos.
            Perto dali, austero, um homem coberto por uma toga por cima do que parecia ser um terno sem gravata. O solitário aproximou-se do estranho… mais perto… e-ele, era idêntico a Roy. Fisicamente idêntico. E parecia sólido. Holograma ou não, aquele sujeito começou a falar com ele:

- Sente-se.

            Sentados embaixo da árvore, o sósia, transmudava-se em várias pessoas diferentes enquanto falava, sem relação com o conteúdo da fala que viria:

- Não esperávamos que você chegasse tão longe. Mas, você chegou. E, realmente, pode te parecer tentador acabar com todo esse pesadelo e esvair-se pelo vazio dimensional. Preciso dizer, porém, que este constructo espacial, esta atmosfera, guarda o que há de mais precioso após o Fim: a semente para novos mundos.

            Roy, porém, interrompeu:

- O que me importa é: as histórias, sonhos, relatos e delírios que eu tive ou ouvi, estão de acordo com a realidade?

- Você, como sempre, muito preocupado com a realidade… Nós, que você pode chamar de “Enoquianos”, nos cansamos disso. Por um tempo. Por um tempo tentamos manipular as coisas… Mas, o Universo permanecia maior, maior, maior!

“Quanto às histórias, delírios, sonhos, e relatos, quanto a tudo aquilo que lhe pareceu imaterial nesta sólida estação-universo, as únicas coisas reais, se é que você acreditará, são a Fonte das Almas e Arcanus. Mas, o Tempo foi feito para enganá-lo: os humanos nunca foram exterminados por uma epidemia nanonuclear nem coisa parecida. O que você viu em Arnckott, por exemplo, foi parte miúda do que sobrou de uma Estação de vinte mil anos após a sua época. Milênios, dezenas de milênios, humanos geneticamente adaptados, enfim…
Guarde bem essa informação: nós, enoquianos, cujo nome inventamos para melhor entendimento, somos a essência do que há bilhões de anos era a Humanidade e mais algumas dezenas de povos alienígenas familiarizados com os humanos. Somos seus descendentes.”


***


- Por que toda essa… essa farsa?! Por que estou aqui? Fui feito para quê? E como saio daqui? - Roy quase gritava.

- Você é um apsan, um andróide. Um dos TRÊS que criamos. Porém, o fundamental entre os três. Sua mente é o repositório de toda a História e sensações, e sonhos, e delírios, da parte humana do Universo moribundo, do universo que se findou. E, sim, criamos todo um simulacro para que sua mente seguisse um determinado padrão… um padrão a nos revelar a forma certa de programar a nossa própria e incontável energia. Quanto a sua vontade de sair… Você quer o quê, voltar para Arcanus? Arcanus nada mais é que o nome de um planeta sem vida, que usamos para simular uma infância, uma juventude, em sua mente, uma mente que é o que sobrou do universo. Você é um receptáculo inumano para guardar toda a humanidade, um ser que é reflexo central do repositório de toda a Crônica Humana do Universo moribundo. E está em uma dentre dezenas de milhares de estações-universo, ou um dos Núcleos de Realidade Estabilizada… O que importa é que você é o único que vale para tudo aquilo que possua correlação com o que você e nós, os enoquianos, compreendemos como humano.”

            Após uma pausa, ele continuou:

- Por favor, entenda a sua missão. Você só sairá daqui morto. E, em caso de morte, todas essas informações e sensações reproduziriam um novo universo, mesmo assim. Mas, um universo, uma realidade, conturbada, longe do que nós pretendemos criar. Um mundo limpo, uma realidade próxima à perfeição, talvez um multi-universo, um…

- Entendi. Entendi tudo. – dizia um enigmático Roy.

Sem que o enviado metamorfo dos enoquianos - e sem que os próprios enoquianos – percebesse, Roy pôs aquela bolinha de prata na boca e a engoliu. Em sua garganta, a bolinha revelou suas lâminas.

Não! Não! Não!

Os enoquianos estavam desesperados, tudo começava a estremecer, enquanto o emissário metamorfo tentava desengasgar Roy. Mas, havia algo de especial na bolinha, e houvera algo de especial em Karnak… talvez algo fundo na mente coletiva de Roy, algo que se materializou através de Karnak…
Aquela estação ou base, ou santuário espacial, começava a ruir. Sua matéria, construída no décimo-nono milênio e reconstruída bilhões de anos após por descendentes evoluídos da humanidade e de outras raças próximas, símbolo do medo da Morte, do medo do Fim, do medo do Apocalipse natural, hesitava em virar pó, estremecer, queimar, explodir sem base nas ultrapassadas leis da Física. Simplesmente passava a sumir, sumir, sumir.


EPÍLOGO

Singularidade


            Ele acordou. Por todo o ambiente, tocava Gnossienne n.1, uma música que parecia recobrir as paredes de energia daquele ambiente cujas dimensões alteravam-se conforme quem a visse.

- Olá?

            Quem falava para ele? Uma voz feminina, suave.
            Levantando-se parcialmente, assustado, da poltrona de energia moldável, o homem de aspecto cadavérico e olhos que brilhavam por meio de pupilas amarelas e dilatadas, estava muito surpreso. Suava, quase em pânico.

- Acalme-se. Estou aqui. Sou Memória.

            Era ela, sua companheira e irmã.

- O que houve? Onde está Kosnow?

            Apareceu, de repente, um pufe, onde ela, de vestido rendado que recobriam seus braços rosados naquele branco denso, sentou-se e, com um sorriso cálido, disse:

- Foi tudo um sonho. Nele, vocês morreram e Rama, naturalmente, venceu.

- Como? Não estou entendendo? Isto aqui é alguma armadilha de Rama!

- Calma, calma. Não se levante ainda. Tudo aqui é uma realidade muito frágil. Você sabe que a realidade costuma ser mais frágil que os sonhos…

- Não compreendo. Onde está Rama e Kosnow? Onde está a MODULO?

- Não existem. Entenda…

            Ela suspirou fundo, debaixo de seus longos cabelos ruivos, e explicou:

- Ouça minha voz e lembre a última coisa que ficou faltando: você nunca foi Murion, você nunca foi um adimensional ou o que quer que fosse… você é apenas um escritor… ou um arquiteto. Criado artificialmente, sinteticamente, nesse modelo. Seu nome é Roy Escotus.

            Roy teve a derradeira lembrança, enquanto a música tocava baixinha.

- Sim, eu, eu…

- Isto aqui, Roy, é o verdadeiro Núcleo. Aliás, você é o Núcleo. A partir do momento em que você tirou a sua própria vida, você se dissociou, enxergando a realidade como se fosse um sonho e vivendo um sonho como se fosse a realidade. Todos os Núcleos materiais (e você sabe que havia mais de um), ligados por você e suas cópias em cada um deles, partiram juntos. Não sobrou mais nada, a não ser isto.
            Roy entendia tudo, finalmente. Ele era parte do fim do Universo, do fim de tudo. Mesmo aquela base espacial que, em si, recriava um microuniverso com a reprodução das antigas leis da Física, ainda se mantinha por um resquício da Existência. Agora sim, contudo, não havia mais Nada. Aquele homem (ou “aquela ideia”) apenas agiu conforme o que sempre soubera: tudo tinha um Fim. E esse Fim chegou.
            As paredes se desfizeram, junto com a luz, o pufe e a poltrona. Memória sumiu. E tudo voltou a ser… Singularidade.






FIM



Autor: João Batista Firmino Júnior