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As nuvens mal começavam a aparecer, em suas formas desagregadas. Era um
céu de poucas cores, ainda no meio do conflito entre um astro que partia e
outro que assumia. Abaixo, havia o mesmo, onde pouco surgia algumas tocas, e uma
ideia sobrepunha-se à outra. A visão pobre, de um, não muda. Lugar em que uma
loucura era resumida, distante de uma paisagem escondida pela neblina da
própria mente.
Estava pronto para o último dia da semana. Mais um dia pertencente a
qualquer mês, vivenciado por um morador naquele quarto rústico e escuro. Havia
uma pequena lâmpada de luz fraca contrastando com o pouco de luminosidade que
vinha da grande janela de vidro, com vista para aquela manhã nublada e para os
telhados de outras casas.
Chuviscava, em seu último dia
naquele lugar. Sai de seu quarto e entra no curto corredor silencioso. Observa
a porta do recinto de seu avô, que trabalhava à noite e ainda não havia
retornado. Nunca o via.
No extremo esquerdo do corredor, de
alguém ainda fixo à porta de um quarto trancado, estava uma pequena sala ligada
à cozinha. Na casa vazia e escura, chega ao cômodo principal. O lugar sempre o
assustara, desde a infância. Aqueles blocos em preto e branco às vezes
faziam-no tonto, o chão parecia imenso como em seus pesadelos, e muitas vezes
tudo virava de cabeça para baixo, e ele estava no teto. Pesadelos.
Passa rapidamente pela sala, fazia
frio, o dia havia nascido há muito pouco. Abre a porta e sente alguns pingos na
cabeça. O ar era mesmo poluído, era denso, vivia próximo a um conjunto de
fábricas onde seu avô trabalhava. E os telhados das outras residências? Todos
podres, em seus lugares, trancados. Havia apenas um gato preto que o olhava
fixamente de onde estava, em cima de um dos telhados vizinhos.
Desce pelas escadas mal
construídas e sem corrimão, único por ser o outro lado fixo à construção.
Primeiro grande medo: o segundo andar daquelas três casas mal construídas,
postas umas sobre as outras. A morada estava fechada, e havia um mau cheiro
próximo. Não olha, desce mais um pouco e vê-se à frente da porta do primeiro
andar.
O lugar era menos mórbido, mesmo
com aquele velho latido, que vinha de dentro do andar, não soando naquele dia.
Um som que superava o silêncio pesado do segundo andar. Havia ainda o mesmo
cheiro medonho daquele encanamento há muito intocado, aquele chão de barro à
frente de uma porta velha, numa escadaria de cimento, externa e sem segurança,
passando por aquela construção quase abandonada, com os olhos do que deveria
ser um gato tão próximo à espreita, e o frio.
Chega ao térreo, naquele beco
escuro. Parecia noite. Dava graças ao fato de nunca ter aparecido alguém mal
encarado em todo seu percurso de toda sua rotina, nenhum criminoso que o
abordasse. Ainda assim o beco causava medo, era muito estranho e sem
iluminação. Observa, em seguida, uma das janelas trancadas do térreo, que dava
ao beco. Desde quando criança nunca mais havia visto a proprietária e seu filho
adulto, viviam trancados no térreo.
Formava-se… Era uma rua curta,
cinzenta, toda esburacada, sem carros que corressem, e completamente vazia de
vida e pessoas, na extensão de seus quarteirões, salvo ele. Já havia pensado se
todos não haviam feito como faria naquele dia, fugir daquela atmosfera tão
feia. Alguns fugiram sim, porém de outra maneira, por ele impensável. De vez em
quando dava para supor alguns casos de suicídio, era possível.
Um lugar deprimente,
desprovido de progresso; a maior parte das casas haviam sido deixadas por seus
donos, não sabia quando. Defronte sua residência, dotada apenas de um sistema
fraco de água e de luz, após o leito de um quarteirão esburacado, havia um
grande muro que dividia o bloco residencial daquele conjunto de fábricas. Era o
que parecia.
À direita, havia três
casarões fechados e quase a desabar, e mais um, que cerrava o que deveria ser
uma grande extensão descuidada por uma autoridade inexistente, com algumas
poucas torres elétricas; onde morava uma só pessoa, que ele nunca vira. E à
esquerda além de mais duas moradas velhas e aparentemente desabitadas? O que
parecia ser uma avenida, que cortava duas ruelas formadoras de um péssimo
sistema de urbanização, onde casas velhas ocupavam o lugar de entradas de ruas.
Não via nem ouvia nada nem ninguém próximo, debaixo daquele céu nublado.
Quase nunca falava, como os
poucos habitantes da ilha. Quando tentava conversar com alguém, ou não
respondiam ou havia apenas monólogos em olhares rudes ou tristes. Sempre pensou
ter nascido num pesadelo de alguém, não sabia se isso era só na ilha,
localidade na qual mudara-se com o avô, quando era muito pequeno. Nem imaginava
o que havia fora daqueles limites. Com o passar dos anos, as coisas foram
piorando.
Era calmo por fora e
agitado por dentro, brincava com esses pensamentos antes de atravessar a
avenida, antes de se deparar com seu Segundo grande medo. Olha para os dois
lados com cuidado, sempre havia aqueles motoqueiros malucos, em um caminho sem
carros. Corre, a estrada parecia querer tremer. Não olha mais, avança com
força. Os sons surgiam, aproximavam-se aceleradamente.
Chega ao outro lado e eles
passam. Estava seguro agora. Aqueles homens, pois deveriam ser homens, passavam
pela avenida toda vez que ele tinha de atravessar. Usavam calças e tênis
pretos, viviam cobertos por um casaco de couro e um capacete, além das luvas,
também de couro. Nunca falavam, nunca os vira fazer nada que não fosse, durante
duas vezes ao dia, tentar atropelá-lo.
No outro quarteirão, via
mais dois estudantes que compunham a mesma sala que a sua, e que saíam de suas
casas. Ninguém se falava, era a educação que todos recebiam sempre através da
indiferença. Os três, bem distantes de si, atravessam outra grande rua que os
separava da rodoviária. A chuva cai de vez. Tanta chuva causada pelos danos
ambientais naquela terra de ninguém.
Onde estudava ficava mais
longe daquelas fábricas e do bloco residencial, em sua maioria formado por
inúmeras casas desertas, além de tantas outras construções que caíam aos
pedaços, em ruas vazias, escuras e frias, esburacadas, formadoras de um sistema
de urbanização completamente desorganizado. Tudo era silencioso naquelas ruas.
Entrava ele, correndo para se abrigar na rodoviária.
Era imensa, a
construção sem nome, e era sem nome pois a placa que lhe denominava havia
perdido o sentido de tão velha, as letras haviam sumido. A rodoviária era
grande, de poucas pessoas e sem manutenção. Havia apenas ele, poucos estudantes
e… gente esquisita.
Gente esquisita? Ele
esperava aquela meia hora apreensivo, mas fugiria... Quando? Naquele dia. Ao seu
lado, havia um homem de seu tamanho e moreno; à sua frente, um velho que dormia
num banco; há meses era assim. Não esquecer de um deficiente que esmolava há
alguns metros de onde se encontrava.
O velho sempre dormia
naquele lugar. Normal? Não naquele dia. Enquanto o ônibus certo não estava à
disposição, percebe que havia algo de estranho em relação àquele senhor, que
perambulava ao redor dos ônibus, criatura sempre cheia de moscas. O rapaz
levanta-se, aproxima-se do ancião, toca-o, estava morto!
CONTINUA...
Autor: João Batista Firmino Júnior
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Obs.: O texto é do ano 2001. Há, certamente, erros, como existiram no livro O NÚCLEO, anteriormente disposto no presente blogue. Ainda assim, não são erros que impeçam o entendimento básico da obra.

