III.
Cosmonucleotídeo
Em uma época esquecida pelo Tempo e aniquilada pela miríade de forças do
atual pan-universo, numa época onde reinava um só universo, sem realidades
alternativas, havia um engenho, o maior e o mais importante já planejado pela
Humanidade com o auxílio de outros. E havia pessoas. E desejos. Tudo era uno,
único, original. Através das linhas do Infinito. Porém, eu, uma desconhecida
mente onisciente, conto um resíduo de história de como tudo se dividiu e, de
um, tornou-se muitos.
18
- Breve labirinto
Há
quanto tempo estava acordado? O terror noturno apenas iniciava, em meio àquela
escuridão, à cama macia, ao ar frio e parado e ao som de sua respiração
ofegante. A escuridão não era exatamente do lugar, mas da ausência de foco
daqueles olhos. Em alguns minutos, ele podia ver... Um quarto sem portas ou
janelas. Paredes de um prata claro, de um azul claro, com os cantos
arredondados. Tudo fechado, mas, mesmo assim, um ar que circulava de local
nenhum, uma cama de solteiro presa ao chão, uma pequena dor de cabeça, e uma
grande pergunta.
Roy
Agora de pé, ele sabia o seu nome. Mas, não sabia quem era. Usava uma calça de tecido leve e branco, uma espécie de meia que se confundia com calçado, e uma camisa comprida, sem botões.
Coração acelerado, e pensamentos inconstantes. O medo ia se tornando profundo. O Desconhecido era o quarto, a cama, a origem da luz ambiente, o ar que vinha de lugar nenhum, mas, principalmente, o medo de ser alguém que não sabe quem ou o que é.
Àquela altura, só sabia uma coisa: queria sair.
Roy
Agora de pé, ele sabia o seu nome. Mas, não sabia quem era. Usava uma calça de tecido leve e branco, uma espécie de meia que se confundia com calçado, e uma camisa comprida, sem botões.
Coração acelerado, e pensamentos inconstantes. O medo ia se tornando profundo. O Desconhecido era o quarto, a cama, a origem da luz ambiente, o ar que vinha de lugar nenhum, mas, principalmente, o medo de ser alguém que não sabe quem ou o que é.
Àquela altura, só sabia uma coisa: queria sair.
***
Com suas mão pálidas, Roy tateava cada centímetro daquelas paredes lisas. Com seus traços ligeiramente sul-americanos, esboçava uma angústia cada vez maior diante do desconhecido.
Não havia frio nem calor, na cela. Mas, em certo momento, uma variação mínima na corrente de ar, que partia de lugar algum. Uma variação que, salvo se tudo não passasse de mera ilusão, coincidia com o grau de luz que banhava aquele quarto.
Seja lá quem era ou de onde veio, Roy sabia que a resposta estava lá fora. Por outro lado, percebia que sua capacidade de raciocínio não deixava a desejar - somente a sua amnésia -, ao perceber o ritmo mínimo entre variação luminosa e corrente de ar. O ponto principal desse "ritmo" ele sentiu quando tateou, com a palma esquerda, o ponto central a oito passos da borda direita de sua cama sem lençóis. Sua mão afundou levemente na parece macia e levemente fria.
A parede descreveu uma depressão em forma de mão - uma palma exageradamente comprida. Um clique. E a porta, de quase três metros de altura, conforme a altura entre chão e teto, deslizou suavemente da direita para a esquerda. Enquanto isso, a escuridão do lado de fora ia diminuindo, e um corredor se revelava com um ar amornado, e paredes idênticas às da cela.
Roy ainda não vislumbrara toda a liberdade, mas, pelo menos, teria avançado em sua direção.
***
Nada mais que respiração e curiosidade. Nenhuma lembrança. E um longo caminho. Roy resolveu prosseguir, imaginando-se perdido em algum tipo de prisão, ou algo mais amplo do que isso.
O corredor iluminava-se a cada passo a frente, e escurecia a cada passo andado. Largo apenas em seus seis ou sete metros. Três metros do chão frio ao teto prateado, de cantos arredondados.
Enquanto caminhava, era como se toda a realidade se limitasse a visão de um telespectador escondido, uma visão de um ponto luminoso movente, por onde seguia um estranho com um candelabro imaginário, um "olho" luminoso a avançar pelo negrume infinito ao redor.
Aquilo, para Roy, definitivamente, era mais que uma mera prisão. Ele possuía pouquíssimas referências para raciocinar, mas, certamente, era capaz de supor estar em algum tipo de instalação científica. Não se viam entradas para outras celas, mas estas, que provavelmente existiam, deveriam fazer parte de algum experimento.
Quem observaria? Quem, como e por quê?
O ar permanecia calmo. Os sons limitavam-se a seus próprios passos e respiração. Roy não sabia quanto tempo já havia ocorrido, nem por quanto tempo se sentia seguido, mas, talvez não estivesse mesmo preparado e lidar com uma... bifurcação.
Aliás, não uma bifurcação, mas três caminhos, à frente, à esquerda, e à direita. Seu desespero retornara ao nível mais alto. E não voltaria.
De repente, um som sorrateiro, enquanto ele tentava pensar. Uma espécie de zumbido vindo de suas costas. E, no meio daquela escuridão, daquela que indicava o local de onde ele tinha vindo, um piscar verde, como se fosse algum tipo de ilusão visual. O ar ia se tornando ligeiramente mais agitado. E, finalmente, Roy se viu em meio a uma rede de corredores bem iluminados do nada - naquela luminescência aparentemente sem lâmpada -, destacando-se as paredes nuas de claro prateado.
Quatro corredores ao redor de um ponto de intersecção, como um ramalhete cuja base fosse o longo corredor do qual ele vinha. Seu chão, ao invés de feito de um prata metalizado, era de algum tipo de vidro azulado.
Novamente
aquela vibração, mais uma mudança na corrente de ar. O chão parecia brilhar de
leve. Em seguida, à altura das vistas de Roy, partindo de uma mente adormecida,
uma luz de lembrança… O estranho homem agora percebia que estava num lugar
chamado “NUC05”. Mas só captava o nome, e não a função nem a origem. Pigarreou
e sentou-se no chão frio, encostando-se em uma das paredes do corredor de onde
viera. Sentia-se como uma criança perdida, mas sem noção de quem seriam seus
pais.
Em
meio àquela tristeza, Roy resolvera olhar para o corredor de onde viera, a
ponto de enxergar a escuridão lá ao fundo, e, mais uma vez, uma “placa” surgia
em sua mente, uma lembrança rápida, uma memória esquecida, cujos dizeres eram
“Celas-Casa da FONTE” ou “Celas/Setor Central”. À sua esquerda, vinha-lhe a
mente “ZONA LABS1”; à direita “Elevadores/ALMOXARIFADO/Acesso para Núcleo de
Entretenimento”. Por fim, à frente, ainda vinham-lhe não “nomes”, mas a
informação em seu sentido mais essencial e grosseiramente traduzível por:
“caminho para a ponte”, que o levaria a Central de toda aquela instalação, em
algum lugar chamado NUC00, passando por outras quatro zonas.
Um
frio no estômago, uma vertigem, um sonho. Roy, então, pensa que “desperta”, já
decidido, após o rápido cochilo: a resposta estava mesmo após a “ponte”.
Mas,
além das luzes não se acenderem naquele corredor à frente, Roy, tateando,
percebeu que o ambiente estava barrado por um portal semi-arredondado, preto, e
frio como a mais profunda era glacial.
O
nosso personagem, então, opta pela zona que lhe poderia trazer maior
conhecimento sobre aquilo tudo, à sua esquerda, na “ZONA LABS1”.
***
Quase
trinta passos à esquerda, próximo ao fim daquele corredor afluente, sons
parecidos com vozes humanas. As luzes daquele corredor iam se acendendo,
mostrando, após uma porta destruída, feita de duas abas quebradas, amassadas,
trazendo um cheiro de queimado e um novo corredor, cujas luzes só se acendiam
parcialmente, levando a uma espécie de mini-central, a surgir após uma segunda
porta, que apenas deslizara, em meio a dois corredores mais estreitos.
O
padrão daquela sala de 50 metros de área sem nenhum tipo de sujeira e com
poucos móveis, seguia com controles feitos para mãos muito compridas e cadeiras
para uma grande altura, porém mais nenhuma voz humana nem qualquer resquício de
pessoas.
No
lugar de monitores, um grande console, com, intercaladamente, um “botão” de
vidro opaco, como que a fonte de algum tipo de monitor holográfico. Havia
também uma espécie de armário, preso à parede e próximo à porta que ainda
funcionava. E, novamente, na mente de Roy, uma palavra. Dessa vez era: “Óculos
para as Salas do Sonhar”. Mas, o armário sequer abria.
Essas
salas, pelo que Roy percebia, parecidas com as celas que ele vira
anteriormente, distribuíam-se por dois longos caminhos, escuros, daquele
corredor fino. Foi pensando em voltar àquela conjunção de corredores, e
desanimado por nada encontrar ali de humano, que uma mão tocou um dos ombros
dele. E uma voz:
-
Aqui!
***
A
tecnologia era o que menos importava. Aquilo já era como se fosse magia, e não
mera Física. Em meio àquele perfume suave e desconhecido, em meio àquela voz,
um homem imenso, magro, vestido com uma espécie de macacão aparentemente
fundido à pele ligeiramente azulada, e cabelos escuros desgrenhados. O que
importava é que aquilo era sólido e parecia muito real.
Roy
permanecia feito uma estátua, e o desconhecido, com a mão esquerda, após um
breve aceno irônico indicando “isso é real”, expondo-se como uma espécie de
holograma capaz de se tornar material e supostamente orgânico, voltou a falar:
-
Você se identifica como “Roy”, não?
-
Sim… onde estou? - questionou um sujeito mais frio, desconfiado, mas feliz,
intimamente, por haver algo ali que fizesse algum sentido ou que pudesse levar
a isso.
Em
seus sapatos brancos e silenciosos, aparentemente feitos de algum tipo de pano,
o gigante das mãos compridas, deu alguns passos para trás, sentou-se no chão, e
disse:
-
Por que você não descansa um pouco?
As
luzes ficam mais fracas e, num momento de desconcentração, Roy percebe que o
homem havia sumido. Bem, então, talvez houvesse mais gente como ele naquela
espécie de complexo científico, com mais conhecimentos, mas igualmente
submetidos a algum tipo de teste. Mesmo assim, para aquele homem de aspecto
desanimado e sem nome completo, a lembrança recente daquela voz grave, de uma
aparição que durou menos de um minuto, lhe trouxera um cansaço há muito
escondido, no lugar de fome ou de sede.
Roy
senta-se, de volta ao eixo de corredores, deita-se, dorme, e sonha.
Autor: João Batista Firmino Júnior
Aguardem os próximos capítulos.


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