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domingo, 28 de setembro de 2014

Uma neurose

Não sou bom em criar títulos. Apenas quero falar aqui sobre o que penso de muitos de nós homens heterossexuais e suas queixas envolvendo relacionamento afetivo, romantismo ou anti-romantismo, dilemas, casos, auto-estima baixa.

O que é obviamente visível, em primeiro plano, é uma série de homens pós-modernos, que se comportam felizes num simulacro de dores e prazeres em suas relações com as mulheres, temendo uma série de coisas, sentindo-se desprezados, desejando um controle de um jeito ou de outro, queixando-se das mulheres.

Em segundo plano, pessoas como eu, enxergando diferentes dimensões da vida cotidiana (ainda que isso não seja extraordinário), e que sentem um mundo repleto de neuroses, complexos, labirintos, simulacros, em que se vive a obsessão sobre o que as mulheres vão achar, medo de rejeição, ódios e amores.

Um homem saudável, e creio que também uma mulher saudável, não vive obcecado pelo jogo entre os sexos - nem no sentido de repudiar tudo e virar eremitas, nem no sentido de viverem prostrados diante de sua própria baixa auto-estima, seu desprezo auto-depreciativo, sua misoginia, no caso dos homens (que parece só fazer sentido numa mistura de atração e repulsa, nunca de uma repulsa absoluta). Um homem saudável busca uma série de dimensões na vida cotidiana na construção de seu bem-estar e de sua sobrevivência.

Você vive, deixa viver. O mais próximo de uma obsessão é construir algo realmente, construir um sustento profissional, fomentar projetos, criar algo maior que uma lista de conquistas amorosas e sexuais. Trata-se de enxergar um projeto de vida, natural e filosófico ou sobrenatural. Ao mesmo tempo, não repudia relacionamentos amorosos. Eventualmente, namora.

Um homem saudável, uma vez que, mesmo sem procurar, termine namorando, sabe que uma mulher também é um ser humano. Ela terá a oportunidade de ser e fazer diversas coisas simultaneamente, desde que respeite as leis da Física. Não há controle. Ele, se for saudável, sabe que sua auto-estima é autônoma, e não "acredita" ou assume como parte de sua identidade o que a companheira diz sobre ele (se ele é maravilhoso, é o que ela diz; se ele é desprezível, é o que ela diz... tal qual qualquer um poderia dizer). Pois, o que esse homem é realmente ele vai saber, é somente ele quem vai determinar. Somente ele cuidará de sua auto-estima, sabendo-se uma ótima pessoa ou não.

Mas, voltando a um ponto que creio ter delineado vagamente: a mulher não é uma categoria a parte. É uma pessoa, antes de ser "mulher", tal qual um homem é uma pessoa antes de ser "homem". A mulher também não é a mãe do sujeito, e nem a mãe de ninguém será alguém sobrenatural. Um homem saudável não segue uma dependência afetiva muito forte, ainda que sempre vá existir alguma, nem se deixa levar pelos estereótipos do que deveria ser uma mulher em sua vida e cultura, e do que deveria ser, enquanto homem, para as mulheres. Saudavelmente, ele viverá uma autonomia. Há pessoas, apenas. Projeto mesmo de vida, é quando você FAZ algo, algo todo seu, algo que independa de atração ou indiferença de mulheres "poderosas" sobre ele.

Eu mesmo, satisfaço-me com a ideia de ter autonomia em minha vida, de conseguir um emprego, de exercer uma carreira, de dominar o jogo da vida (e não as mulheres, que fazem parte da vida). Eu construo minha renda, meu patrimônio, minhas crenças sobre o mundo natural ou sobre um mundo sobrenatural todo meu (sem impor isso a ninguém, até porque ter crédito dos outros ou não sobre suas crenças não deveria interferir na auto-estima de ninguém). Eu construo meus textos, onde eu posso ser um demiurgo - imperfeito, mas ainda assim um criador. Eu vivo numa missão de exploração da vida, do cotidiano, espero pela morte não esperando por ela, e, após ela, quem sabe, tenha uma continuidade.

Eu, apenas, vivo em paz, sem tantas neuroses, sem tantos dilemas que são perdas de tempo. Eu assumo apenas os dilemas verdadeiros. Vivo melhor. Não dependo de me preocupar com apreço nem desapreço de ninguém. Não aumento nem diminuo as mulheres. Não quero nada de ninguém, salvo o que faz parte das trocas do dia a dia (e mesmo assim sem ser algo que me doa tanto).

Se eu estudo, eu não me distraio. Se eu trabalho, eu não penso em ninguém. Eu faço, eu existo, aproveito cada refeição. Não preciso ser amado, não preciso ser odiado. Se alguém, muito "zeloso" sobre minha pessoa, quiser olhar para meu exemplo, poderá, assim, talvez, me desprezar como um fracassado, ou me julgar como um complexado - mas somente à primeira vista. A segunda vista ideal é que esqueça de me analisar.

A verdadeira entrega no Amor não é eu me entregar totalmente a uma mera paixão (isso é capricho). Não é eu ser carne da carne de uma companheira. Não é eu "consumir", antropofagicamente, as mulheres que quero que me elogiem e que façam tudo o que quero e que adivinhem o que quero e façam. Mulheres são pessoas. Eu também sou uma pessoa, é o que importa. A verdadeira entrega no Amor é aproveitar o que possuir de autonomia em meus pensamentos e em minha vida. Observar o que puder observar, o que for interessante, sem que isso seja um peso para mim. Porque as pessoas "consomem" o mundo; não olham para ele. Eu quero olhar para o mundo, mas leve como uma pluma, sem "consumir" nada.


Assinado: João Batista Firmino Júnior. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Resenha: "A arma escarlate" de Renata Ventura



O livro, lançado em 2012, quase me passou despercebido. Não vinha acompanhando o panorama da literatura brasileira deste milênio. Após sua leitura, pensei em realizar uma resenha simples, em primeira pessoa, sobre o que li, sobre o que a obra me passou.
Basicamente, temos um espaço fictício, comandado pela Renata Ventura, que se posiciona no mesmo universo maior da saga Harry Potter de J. K. Rowling, donde se desenvolve um panorama completamente brasileiro. Isso lhe confere originalidade, a exposição do conjunto da cultura brasileira e sua atualidade – as referências ao nosso campo nacional em termos culturais, históricos e em termos sociais.
Idá/Hugo, personagem principal, é um garoto de 13 anos, morador da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, com a mãe e a avó. Eis, assim, um dos mundos em que ele vive, mundano, violento, sem milagres. Talvez uma esfera de existência mais parecida com as obras dos jornalistas Caco Barcellos e Zuenir Ventura. Traficantes, policiais corruptos, uma sociedade indiferente, refletem-se na obra.
Porém, há outro mundo. Um mundo que considera prioritário a condição de “bruxo”, independente das origens mundanas do escolhido ou escolhida, independente da raça, da formação educacional, da região brasileira, dos defeitos e das virtudes de qualquer um. Um mundo que, como um milagre, atravessa radicalmente a inércia do cotidiano brasileiro, e, tal qual um bilhete, atinge Idá/Hugo onde quer que ele vá e onde quer que ele esteja.
O personagem principal é uma mistura. Uma mistura de criança com jovem adulto, com boas e más intenções, mas repleto de vergonha por suas origens, por aquilo que ele é ou aparenta. Idá é colonizado e adota o nome “Hugo”. Não quer ser aquele indivíduo da favela, marginalizado, com um nome original de um dos principais povos que constituiu o Brasil. O reinado de uma terra distante e dominada pela Europa passa a ser, simbólica e verdadeiramente, repudiado por ele, que tenta emular a imagem de um garoto tipicamente brasileiro, de classe média e filho de bruxos. Sim, há esse outro preconceito, essa outra “vergonha”.
O cerne da história se dá na Nossa Senhora do Korkovado. Lá, ele tem que conciliar os dois mundos em uma escola que tenta ignorar sua brasilidade (de acordo com os ditames do Conselho). Esse cenário à parte envolve personagens que tipicamente representam adolescentes, alunos, interações que vão do bullying à amizade.
Toda a narrativa é centrada nesse conflito entre dois mundos: um mundo uniforme e pretensamente europeu, e um mundo brasileiro, não-bruxo, estampado nas páginas policiais. O conflito segue por diversas camadas, até explodir em algum ponto. O que realmente mantem a sanidade é a criação de um terceiro e pequeno universo: o mundo paralelo dos Pixies, grupo formado por Viny, Caimana, Índio e Capí – além de Hugo. Não esqueçamos do professor Atlas e sua associação com o grupo. Contra eles, o Conselho e o grupo formado pelos Anjos.
Esse jogo de espelhos ao mesmo tempo conflita e conflui o real e o virtual – ou, simplesmente, duas formas de realidade. Porém, sempre com os mesmos elementos brasileiros: pressente-se corrupção das autoridades dos dois mundos, policiais claramente corruptos, vilões… mas, também, mistura de diferentes origens étnicas, morais, de classe social etc. Todo esse “jardim” se mantém bem distribuído em cenários grandiosos e amplos, cenários que se refletem tanto no chão como no céu, para mim quase tão vivos e extraordinários quanto os cenários que imaginei ao ler O Silmarillion de Tolkien. As obras, naturalmente, não são as mesmas, entretanto, o modo de fazer que permite a imaginação dos leitores não está longe dessas referências.
Apreciei a escrita, que segue aproveitando diversos aspectos daqueles universos e de seus enigmas. Ela se subdivide nos dois semestres do ano letivo da escola. A narrativa é relativamente longa, não tendo sido possível resolver muitos pequenos enigmas, dentre eles o da origem da varinha escarlate de Hugo, os mais variados segredos da floresta, o porquê da diretora Zô ser tão aérea, o mistério sobre a morte da mãe de Capí e do filho de Atlas, a história de vida do gênio contador de histórias, ou o mistério da garota por quem Hugo se apaixona. Por isso, merece continuar em diversas outras obras.
 O único ponto que me chamou logo a atenção na forma de escrever a história, diz respeito ao uso de aspas no lugar de travessões para representar diálogos. No prosseguir da leitura, porém, percebi que diversas nuances na troca de falas e de pensamentos, com a representação das emoções, teriam ficado mais claras, com a troca de falas e de tipos de manifestações de pensamento mais bem delimitadas que através do uso dos travessões. Houve, no longo prazo, uma facilitação na compreensão dos pormenores dos personagens através desse recurso não muito comum.
Também é digno de nota observar o lado psicológico do personagem principal, seus medos, suas ambições, seus ódios, seus conflitos, tudo bem narrado, de forma a dar naturalidade àquele ser que conduz a história, com seus inúmeros defeitos e fraquezas.
Por outro lado, eu poderia apontar defeitos? Seria mais adequado numa resenha que, mesmo amadora, seja neutra. Defeitos técnicos eu não apontaria, porque não sou um especialista – exceto se esses defeitos fossem muito explícitos. Eu diria, apenas, que poderia discordar de um ponto ou outro do encaminhamento da história; ou que determinados acontecimentos, mesmo num contexto bruxo, não aconteceriam na vida real salvo por muita e improvável coincidência; ou que determinadas partes da obra teriam sido dispostas mais para ganhar páginas que para fazer a narrativa andar. Uma questão que eu chamaria de “irrealidade” é a fragilidade da sociedade bruxa brasileira, seus preconceitos, a ausência de denúncias contra determinadas formas de comportamento de integrantes do Conselho da Korkovado, e a possível ausência de muitas boas referências no mundo dos não-bruxos (azêmolas ou mequetrefes). Eu penso que, na vida real, algo daquela natureza (aquela sociedade bruxa, aquela escola etc), apenas por motivos comportamentais e sociais, desabaria em pouco tempo, ao invés de durar séculos. Mas, há uma crítica negativa forte e passível de ser inferida: se a obra pertenceria ou não à categoria nada original das “ficções de fã”.
Vejamos…
Diante de todas essas especificidades, e de tantas outras que não pude dispor aqui, não posso afirmar que meramente por se situar no mesmo universo maior em que se situa Harry Potter, a história possa ser resumida à categorização de “ficção de fã”. Há suficiente originalidade, há um universo menor (em relação ao mundo fictício que pode abranger diversas e diferentes obras literárias que envolvam bruxaria coexistindo com as sociedades cotidianas), mais voltado ao tipo de magia brasileira e capaz de inferir as diferenças dos diversos “mundos bruxos” conforme nações e continentes, que realmente caracteriza a obra. Não vemos personagens de Harry Potter, nem referências específicas que não sejam, meramente, indiretas e subalternas. Também não enxerguei qualquer tipo de plágio – não que não haja alguns conceitos existentes também na saga britânica. Não basta a narrativa ser situada no mesmo universo maior de outra obra ou saga, nem possuir um outro conceito equivalente ou idêntico: é preciso que tudo aquilo que a torne única só faça sentido com a obra ou saga original. E não foi esse o caso que eu vi. Se Harry Potter não existisse, as referências culturais, de mitos e lendas, e até de conceitos, seriam plenamente úteis à obra de Renata Ventura. Ela não “precisou” dos livros do bruxo britânico para construir a história de nosso bruxo da favela Santa Marta. Mesmo certos conceitos, partem de um suporte cultural anterior a qualquer obra ficcional envolvendo bruxos adolescentes.
            E, para finalizar, se ainda se insiste que esse livro de Renata Ventura “depende” de Harry Potter, ao menos posso dizer que cabe discussão, que ainda há um espaço para discutir isso. Nada é tão simples, tão taxativo, quando se constrói uma obra que necessariamente parte da subjetividade de uma escritora para a subjetividade de tantos leitores.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.

            

sábado, 13 de setembro de 2014

Interlúdio: texto de meu pai

Abaixo, disponibilizo texto de autoria do meu pai João Batista Firmino;

BREVE ENSAIO SOBRE O RACISMO, SOCIEDADE E EQUÍVOCOS CULTURAIS


Sou médico (clínico) há 34 anos e servidor público desde os idos de 1983. Na verdade, não sou o que a profissão indica. Acima e antes de tudo sou uma PESSOA nascida nesse pequenino planeta chamado Terra. Assim, um Terrano dotado de autoconsciência corresponde ao que denomino PESSOA. Não Pessoa Humana, pois esse termo vem da palavra Homem e na Terra também existem mulheres, não é verdade?
Um grande educador do século passado, Krisnhamurti, costuma dizer em suas palestras que as pessoas são induzidas desde a infância a absorver aquilo que a sociedade aceita como verdade inexorável.
Assim, pretendo emitir algumas considerações sobre racismo, homofobia e homossexualismo em função do atual momento que vive o Brasil com a “Lei das Cotas” e suas consequências entre outros temas correlatos.
Aprendi na escola pública (muito boa na época) que existem as raças brancas, amarela, vermelha e negra. Hoje, fala-se de afrodescendentes, indígenas, asiáticos e latinos. Uma confusão só. Os Estados Unidos se autodenominam América, embora o continente americano seja geograficamente dividido em sul, central e norte. Americanos, aprendi, são quem nascem nos Estados Unidos da América; temos sul-americanos, latinos, uma confusão só. Mas nunca contestei essas bobagens. Peço desculpas pela ligeira troca de foco, mas, no fundo, não fugi do tema original
Voltemos à questão racial: somos induzidos (verdadeira lavagem cerebral) a aceitar passivamente que uma única característica física (cor da pele) determina essa coisa esquisita denominada raça (negros, brancos etc.). É um equívoco monstruoso que há séculos vêm sendo vendido como verdade absoluta e inexorável com consequências lamentáveis relacionadas à escravidão, preconceitos, criação de leis desnecessárias muitas vezes já que nossa constituição já defende a não discriminação de sexo, raça, etc., etc..
Chega um momento em que aqueles que têm pele negra, que são negros, sentem-se discriminados e o são efetivamente, pois não são culpados da lavagem cerebral a que foram submetidos. Seria tão bom se nos bancos escolares fosse ensinado que somos pessoas nascidas no planeta Terra e cujos habitantes (terranos), ao longo dos anos, criaram fronteiras, separando o planeta em países, por exemplo, divididos por interesses comuns (idioma, religião, crenças, ou seja, cultura específica). Daí essas crianças tornar-se-iam adultos sem amarras raciais se é que estou me fazendo entender. Isso certamente contribuiria para evitar tantos conflitos...
Com relação à sexualidade, temos, do ponto de vista, anátomo-funcional, um certo número de pessoas do gênero compatível com a masculinidade se sentindo atraídas por pessoas do mesmo sexo (Gays e lésbicas), incluindo o grupo dos que se submetem à cirurgia de mudança de sexo. A essência do problema se encontra na assimetria física com a psique de tais pessoas o que levou a Medicina considerar o homossexualismo como uma doença mental até pelo número reduzido de pessoas que se declaravam homossexuais.
Já a homofobia nada mais é que uma intolerância doentia contra os homossexuais. O próprio termo aponta para patologia. Afinal de contas, por que são tratados os portadores, por exemplo, de aracnofobia, acrofobia, agorafobia, claustrofobia e não os homofóbicos que são criminalizados por lei equivocada nesse sentido específico. Os homofóbicos são um caso médico e não necessariamente de crime. Na verdade, considero o próprio “racismo” como uma doença mental de variados graus, porém, como nas demais fobias, há momentos em que tais pessoas devem ser tratadas e contidas nos surtos homicidas, por exemplo.
Atualmente, a OMS, considera como doenças as parafilias (pedofilia, fetichismo, sadomasoquismo, porém não mais enquadra o homossexualismo por considerá-lo uma opção de modo de vida por assim dizer).
Pessoalmente, entendo haver no homossexualismo uma dicotomia corpo/psique no aspecto sexual, visto que pessoas do mesmo sexo não podem procriar pela inviabilidade anatômica que a Natureza lhes proporcionou, todavia pelo princípio da tolerância, se tais pessoas se sentem bem nesse modo de vida e não interferem na vida do próximo, não importa, pois a doença mental para mim só se apresenta quando interfere gravemente nas relações entre as pessoas.
Todos somos portadores de neuroses (uma doença mental comum) em diversos níveis e não necessariamente precisamos  de tratamento para mudança de comportamento ou atitude diante da vida de relação.
Se numa determinada localidade a maioria das pessoas tivessem, por exemplo, um medo doentio de altura, aquelas sem tal medo, estas, sim, seriam as doentes.
Continuando, pela questão cultural (religiões, preconceitos os mais diversos, erros históricos, entre outros) as crianças foram criadas no entendimento que só há dois sexos (masculino e feminino). O grande choque atual é sobre o conceito de família. Um grupo entende família como sendo constituída necessária e obrigatoriamente por Mãe, Pai e Filhos (o cristianismo é grande exemplo, havendo até o dogma da Trindade Divina, da Sagrada Família, Maria, José e seu filho Jesus o que realmente é muito forte para incluir homossexuais casados civilmente como família no sentido cristão).
Sobre religião, não se pode discutir ou ousar fazer uma lei que faça um cidadão abolir de suas crenças, embora muitos casais homossexuais sigam uma religião e desejem se casar no cível e religioso. Conflitos e mais conflitos como já falava o Krisnhamurti.
 Independentemente de religião, todos desejamos Paz, Felicidade e Harmonia, mas tal desiderato é impossível já que seria necessária uma transformação individual de cada pessoa humana na tolerância, no amor ao próximo (inclusive a inimigos) e isso ficou restrito aos Santos pela educação e lavagem cerebral que recebemos desde a mais tenra infância.
Viver intensamente o espírito de tolerância com o próximo, na verdade, acontece com algumas pessoas anônimas e não apenas com Gandhi, Madre Tereza de Calcutá ou Francisco de Assis (o santo cristão) ou ainda o Chico Xavier e, mais além, Jesus, Buda e Alá.
Em suma, nos assuntos referentes à Cultura, Racismo e Sociedade fundamentadas em bases tão frágeis, a Paz tão sonhada não tem como prosperar; sempre haverá conflitos. Religião, fronteiras geográficas e culturas diversas dificilmente se fundirão numa só Sociedade Terrana de tolerância e respeito às individualidades, porquanto em nome de Deus ou em nome do respectivo nacionalismo, muitos inocentes morrem precocemente, continuam morrendo (vejam o exemplo da África e do ebola) e continuarão morrendo no planeta em que vivemos por causa do paradoxo da educação equivocada recebida por nós na infância, nós que, dessa forma, passamos a integrar essa mesma sociedade, ensinando os mesmos erros para nossos filhos num lamentável feedback negativo. Quem se habilita a desfazer o círculo vicioso: a Ciência, a Religião, a Filosofia ou nós mesmo após ampla reflexão dessas questões milenares?





JBFirmino – 13/09/14

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Trecho 2 do livro A EMBARCAÇÃO DIVINA

  Quando o desvira, surge um rosto com poucas carnes, visivelmente corroído. Por isso o cheiro ser tão ruim, sempre achara que era do lugar. Tenta falar com aquele homem que sentava ao seu lado, mas ele não o escuta e pega um dos ônibus. Tenta avisar a todos, mostrar que havia um cadáver, mas aquelas vinte pessoas ou não falavam ou pouco falavam, e nada faziam. Um dos estudantes olhou para ele com aparente desprezo.
              Havia apenas uma grande indiferença acompanhada por um conjunto de emoções negativas, ou pior, de emoção alguma. E o que diziam no pouco em que diziam? Mandavam-no manter-se distante, também não havia telefones funcionando no lugar. Parecia estar tudo morrendo. Todos os dias era assim, muitas vezes ele tinha de ignorar como todos. Deveria ter sido mais um caso de suicídio, mas não, fora inanição mesmo. Desiste.
              Pega o ônibus, um dos poucos que funcionava. Observava longe, saindo da rodoviária, como aquela construção se estendia, exagerada em tamanho, e possuidora de uma formação singular: projetava-se em arco, fechando o bloco residencial.
                 No último banco, via que, naquele dia, viajavam menos estudantes; uns onze, além dele. Havia o motorista de costas, e o familiar barulho que aquele velho transporte fazia. Apesar de sobreviver em um ambiente como aquele, a paisagem natural como sempre era bela. Passava por alguns campos com poucas árvores.
                O transporte seguiu por algum tempo até chegar a um ponto em que ele começava a avistar o seu Terceiro e último grande medo: o lugar onde estudava. Era uma antiga mansão, que passara por inúmeras reformas de ampliação, ainda mais extravagante que a rodoviária. Possuía um portão de madeira com ferro, uma muralha rachada, muito imponente e de larga espessura.           
                 Havia dez andares no prédio, porém apenas três eram usados para as aulas, em seis funcionava um centro de arquivos históricos, enquanto o último estava fechado e vazio. O ônibus pára. 
                 De um daqueles dois únicos transportes, que traziam poucos alunos à instituição de ensino, ele descia num ambiente sem chuva; e os transportes iam retornando. Os cerca de vinte e cinco estudantes, apenas eles, sobem alguns degraus e deparam-se, no Quadro de Avisos, ainda na entrada, com a seguinte mensagem: “Sigam todos para a sala 7.” e “As aulas serão conjuntas.”
                Como sempre, naquela recepção descuidada e sem funcionários, passam por aqueles ferros enferrujados no meio daquele salão, ferros de onde antigamente subiam e desciam elevadores arcaicos. Aquela recepção também o deixava tonto, principalmente quando olhava muito para o portão aberto  e de altura desproporcional.
                   Seguem todos silenciosos pela escada, tão necessária já que o prédio carecia de elevadores que funcionassem. Nos dois primeiros andares, surgia a imagem de quase sempre: luzes acesas por baixo das portas de acesso, luzes mornas de lugares silenciosos, aparentemente sem nenhum funcionário trabalhando. Não se preocupa com isso, vai subindo até a única sala aberta do terceiro andar.
                      Sentam-se os alunos, todos quietos, pareciam ser os únicos sobreviventes de uma ilha morta economicamente. Embora só ele soubesse que havia algo mais.
                       Depois de quase meia hora de espera, chega o que deveria ser o professor da hora seguinte, avisa rapidamente que aquela instituição sofria de alguns problemas em sua manutenção, mas que deveriam ser logo corrigidos. Também informa que daria as aulas de toda a manhã. Ninguém reclama. E o professor revisa.
                    Ao meio-dia, toca um pequeno sino e todos, organizadamente, dirigem-se até uma sala vizinha onde, devido ao ofício da maioria dos responsáveis, que lhes ocupava o tempo, recebiam o almoço na própria instituição de ensino. Após entregar a comida, a cozinheira, como sempre aborrecida, some.
                        De volta à sala de aula, retornava a chuva e outro professor, este não pertencia a sua turma. Traz mais avisos, de que alguns professores faltaram, talvez por estarem doentes, mas não demora muito e passa à aula. Para que muitos, pertencentes a outros graus de aprendizado, não se desviassem do que era dado, comunica que revisaria.
                      A tarde termina, e, chegada a hora, todos seguem até a biblioteca, no mesmo andar. O professor ficou por pouco tempo, saindo em direção a um compromisso inadiável, não sem antes pedir algo a ele. Era estranho como todos obedeciam à ordem de permanecerem na biblioteca até o horário de saída do terceiro turno, até as oito e meia daquela noite, isso por não haver ninguém para os impedir. Pesquisavam alguns pontos importantes para um trabalho recentemente proposto.
                       Pouco depois da partida do professor, o estudante faz o que ele havia ordenado: vai até a porta do último andar, onde ficava o gerador do prédio, levando a chave. Em um instante sobe, com um certo temor, abre rapidamente a porta e levanta uma alavanca próxima, em algum lugar onde nada era visível. Retorna, mais calmo, pelas escadarias fracamente iluminadas.
                       A biblioteca era imensa. Ele não lia, apenas observava sua imensidão, sem um pingo de admiração, e a única janela, que havia no recinto, do tamanho de uma pessoa grande. Estava localizada bem no fundo, obscurecida, entre duas estantes parecidas com dois grandes guardiões de uma suposta liberdade. Do lado de fora, o clima daquele inverno era ainda frio, as nuvens estavam ameaçadoras. A única imagem apresentada era conhecida pelo estudante, trazia apenas o breve pátio, uma visão distante de uma estrada mal asfaltada, com poucas matas paralelas naquele fim de mundo e, muito próximo, uma árvore bem alta.

                         Apenas pouco daquela biblioteca era iluminada, uma área próxima da saída. Sua maior parte permanecia coberta pela escuridão. Não utiliza a imaginação, não perderia energia, não poderia, pega um dos livros localizado naquela pilha e folheia. Não poderia, mas fez.


CONTINUA...
Autor: João Batista Firmino Júnior.