11 - Trocas
O centro comercial de um
longínquo planeta da galáxia Mrolen - próxima a Gangi, porém vinte e duas mil
vezes mais extensa - fervilhava de humanóides das mais variadas procedências. A
maioria não fruto de espécies ou raças específicas, mas da manipulação
genética, feita com o auxílio dos mensageiros da Rama.
Era essa informação que vinha à
mente dos três visitantes inusitados, que surgiram, de súbito, numa ruela vazia
no meio daquela noite de cinco belas luas laranjas e violetas, provocando um
certo deslocamento de ar.
-
Vocês também “ouviram” esses dados? - perguntou Murion.
Sim, todos haviam recebido aquelas
informações vagas, imprecisas, quase esquecendo do ponto principal: todos
aqueles estranhos daquele planeta sem nome, localizado nos confins de Mrolen,
tinham uma altura média entre 1,50 e 2,10 metros. Nagara teria que se esconder.
Mas isso não nos importa por
enquanto. Kosnow ainda queria aquelas explicações dos akashes, sobre o que eles
fizeram com os ramas. Da ruela até um beco cheio de vasos quebrados e ratos tão
pequenos quanto baratas da Terra, eles foram. Os akashes teriam que falar, que
tirar dúvidas que agora não eram só do brasileiro, mas de todos os três. E
começaram a falar, via pensamento, independente de toda a pressa e cuidados
para o grupo se manter escondido.
***
Explicaremos isso da seguinte forma:
os ramas nos descobriram, em um tempo que, para nós, é recente; mas, para
vocês, é muito antigo. Eram um povo e uma raça insetóide ilustre com um passado
questionável de conquistas para que toda uma espécie se resumisse a um só povo.
Levavam uma versão da seleção natural em todos os seus detalhes, e, apesar dos
seus aspectos positivos, de suas realizações, cultuavam um modo de pensar
arrogante. Só que, nós, os akashes, não estávamos interessados no que eles
queriam nos oferecer. Mesmo assim, fizemos trocas, até que o portal entre os
universos, entre a realidade deste universo e o nosso, começasse a falhar.
Nosso panteão sabia que isso terminaria
acontecendo. Construímos um reino equilibrado entre as diferentes forças
energéticas, entre diferentes seres que vocês considerariam ‘de penumbra’,
águas-vivas do cosmos, corpos formados por vácuo negro, numa pirâmide
harmônica, apontada para a manutenção de nosso próprio cosmossistema. Não
entendíamos as ambições dos ramas, nem entendíamos como seres tão selvagens,
tão solidificados, pudessem ser tão… teimosos.
Os ramas insistiram, com suas idéias
científicas erradas, calculando as leis físicas da relação entre os dois sacos
de galáxias como se fossem as deles, da maneira deles, sem terem o mínimo
sucesso ou vontade em pensar pelo ponto-de-vista de outras leis físicas, de
outras normas, de outras lógicas. Entretanto, havia algo pior. Dentre eles, uma
seita pseudo-científica, que nos cultuava como Anjos da Lógica.
A seita era dirigida por doze
‘mensageiros’, cujas identidades eram secretas pois muitos deles provinham da
mais alta casta científica. Eles sonhavam com a imortalidade, sabiam que
estavam enganando, sabiam fingir bem. Chegaram a uma teoria estranha que
envolvia explodir o portal criando uma rede de estrelas de prótons artificiais.
Fizeram isso. E tudo se fechou.
Tempos mais tarde, percebemos que o
portal, ainda aberto do nosso lado, vinha transmitindo uma radiação venenosa.
Isso nos aproximou, nos fez analisar melhor, e descobrimos algo pior: aquela
passagem está inchando, por algum motivo, podendo desaparecer e gerar forças
que atraiam os dois universos… Por isso, fomos enviados, e estávamos bem se não
fosse um ataque de Rama durante nosso percurso.
Ao
que parece, os doze mensageiros originais fizeram nascer um ser puramente
psiônico, a vagar perto do portal fechado deste lado, e a possuir um olho, o
Olho de Rama, no centro desta galáxia. Acrescentamos essa informação, e rogamos
que vocês tenham cuidado. Não será fácil passarem despercebidos por aqui. A
vantagem está na imensidão de Mrolen, na sua complexidade, a confundir um pouco
esse superinteligência, a atrasá-la. Mas, ela virá, ela vos descobrirá em algum
momento.
Os brilhos se tornaram mais débeis,
mesmo sem sumir de vez dos ombros de Kosnow. Os três estavam pensando no que
fazer, e os olhares foram para Nagara. Tinham que estudar aquele local.
***
A urizeniana permaneceria escondida
em um daqueles prédios temporariamente abandonados, da periferia de Cluzir - o
nome daquele lugar -, feitos de rochas e concretos sintéticos - detalhe
percebido por Murion. Aquela edificação parecia ser uma garagem com uns dois
andares e janelas em forma de círculo, recobertas por vidro opaco para quem
visse de fora.
Kosnow teve sucesso em pedir aos
akashes para que se tornassem invisíveis e disponibilizassem, no manto que os
encobria contra os microorganismos de planetas exóticos, um tradutor. E, tal
qual Murion, vestiu-se com um longo manto branco, roubado, bem como sapatos que
mais pareciam meias mais resistentes e higiênicas que meias comuns.
Uma daquelas ruas principais, de
terra batida, formava um núcleo, numa espécie de praça, onde cabanas vendiam
brinquedos eletrônicos inúteis, roupas, máscaras de oxigênio (e outros gases),
circuitos e aparelhagem nanoeletrônica, e, no horário certo, armas. Precisariam
comprar armas.
Circularam e conseguiram ração, água
purificada, baseado em trocas com objetos criados mentalmente pelos akashes. As
armas ficariam para mais tarde, quando a multidão fosse se dispersar.
O céu estava nublado, no cair do que
seria uma longa noite de trinta horas, quando os dois se dirigiram até um
minúsculo espaçoporto.
Com a tradução sendo mantida através
daquela verdadeira “magia” dos akashes, eles se dirigiram a um sujeito com pele
de leopardo, que vendia uma nave e uma maleta com um kit de sobrevivência.
Apenas Murion falou:
- Nat’amma!
-
Nat’ammark!
-
Quais as condições dessa maleta? E da nave?
Abrindo a maleta, o sujeito com pele
de leopardo descreveu:
-
Duas pistolas de gráviton, oito tiras de células de recarregamento, e um fuzil
de plasma negro sem necessidade de recarregamento…
Demonstrando pressa, pois faziam
muitas horas que eles estavam naquele planeta e tinham que fugir rápido, Kosnow
se intrometeu:
-
E a nave?
-
Fabricação conseguida da Aeronáutica do já desaparecido Reino de Murmud, com
design interno humanóide, mais de duas gerações de uso, porém ainda em pleno
funcionamento; é também capaz de manter até sete pessoas por até catorze
ciclos. São cento e vinte metros de diâmetro, e uma mistura de aço murmudiano
com stac’la, um material quase
certamente proveniente do que muitos chamam de “matéria negra”. Mas, vou ser
honesto: acho que há apenas o aço, e…
-
Quanto custa tudo? - perguntou Murion.
Eles conseguiram. Tudo saiu por
oitocentas células de energia e muito sal, duramente fabricados pelo poder dos
akashes. E Kosnow pensava em como eles não poderiam ser confundidos com deuses.
***
-
Quadrante 2. – disse Ippor’aka ao Caçador, um tal de Ov’praka, numa espaçonave
compacta, mediana, em seus novecentos metros de comprimento, cheia de
escaneadores, versões futurísticas de radares, dezenas de mercenários, oito
pilotos, dois engenheiros, um médico, vinte servo-robôs enfermeiros, dois
analistas científicos (um astrofísico e um especialista em comportamento
xenossociológico), e armamento dotado de inteligência artificial.
Sentado de costas naquela poltrona,
aquele hermafrodita atarracado, da mesma espécie e povo de Ippor’aka, seu
segundo-em-comando, tossiu, limpou a testa, sem nervosismo, e virou-se.
-
Essa informação veio do Olho de Rama?
-
Sim.
-
Então, é para lá que vamos. – ele sorriu, voltou-se aos controles, contatou
seus pilotos, e disse baixinho de forma a ser audível só por ele mesmo: “Por
Rama!”. Assim falava o rei da nave de guerra Secta.
12 – Passos de
uma caçada
Nagara, Kosnow e Murion, na noite
mais densa daquele planeta exótico e isolado, encontravam-se na imunda central
de uma nave comprada aparentemente por mais do que valia. Esperariam mais um
pouco antes de partir. O que eles não sabiam era sobre a entrada de um satélite
específico naquele sistema solar.
Ov tinha a sua própria versão para o
Olho de Rama, para aquele mistério cósmico resumido por mentes preguiçosas a
uma questão de fé em algo eficiente e real. Era uma sala cheia de monitores,
com as imagens de milhares de satélites, processadas pelo seu cérebro genial.
Ele podia passar horas ali sem se mexer nem alterar o ritmo de sua respiração.
E foi o que fez.
Não chegou a descobrir nada de
relevante naquele momento. Voltou para seu quarto, para sua cama, sentou-se sem
se trocar, passou as mãos pelos cabelos e tentou pensar no perfil daqueles três
estranhos. Vejamos…
O primeiro era um humano com uma
conexão especial, com uma ligação aos ditos tão poderosos e tão ameaçadores
akashes; o segundo era uma mulher forte e extremamente alta, de uma raça
desconhecida, treinada em estrategismo militar e possuidora de uma acurada
inteligência; o terceiro era uma incógnita, uma incógnita com poderes
estranhos. O que tinham em comum? Os akashes no comando e controle, os recursos
que cada um poderia prover, gêneros separados (“pobres seres incompletos”, na
mente de um hermafrodita), algum tipo de paixão por aventuras, um certo grau de
coerção para mantê-los unidos. Pontos fracos? Ele supunha uma indiferença ao
Universo por parte de um ser adimensional como Murion; supunha uma arrogância
de uma mulher muito alta e forte, com formação militar, em relação a Nagara,
fruto de uma civilização tecnologicamente intermediária; supunha uma mente
primária e confusa no caso de Kosnow, originário de uma civilização apenas um
pouco abaixo tecnicamente que a de Nagara. Como reordenar, como dar uma cor
àquela sopa de imagens mentais tão cara a Ov’praka?
Ele precisava dormir. Esquecer um
pouco aquelas milhares de imagens de seus satélites. Processaria melhor após um
sono tranqüilo. Deitou-se, fechou os olhos, e algo veio a sua mente… veio aos
poucos, sorrateiramente, o Quadrante 2, a lógica dos akashes ao escolher pontos
de teleportação. Ele dormiu um sono leve e sua mente começou a analisar melhor
cada imagem, cada correlação, em busca de uma resposta. Quando despertou, ele
já sabia para onde ir.
***
O Sistema Arkan’ustra possuía vinte
e três planetas, sem contar uns oito
planetóides isolados, e centenas de milhares de asteróides. Fora as gigantes
gasosas, aquela vasta rede de três sóis vermelhos era formada por pelo menos
seis planetas parecidos com Marte: rochosos, secos, avermelhados, porém
portadores de instalações antigas, em desuso, e uma rede subterrânea com silos,
armazéns de armas e uniformes, um verdadeiro conjunto de museus a céu aberto.
-
Nada aqui. – comentava, para si mesmo, Ov’praka, ou, simplesmente, Ov.
Ele enviou robôs e mercenários,
ex-militares, e chegou a vasculhar, pessoalmente, supostas construções
subterrâneas naquela rede de asteróides, com os melhores equipamentos que o
dinheiro podia comprar. Nada. O jeito seria focar nas medições de energias
retiradas das cordas dimensionais cósmicas. Não apenas filmas, mas, agora,
enxergar mais a fundo as peculiaridades deixadas por teleportações diversas. O
caçador improvisou um astrofísico para analisar os dados medidos, era o melhor
cientista que ele tinha e precisava usá-lo.
As instalações científicas daquela
nave eram humildes, mas eficientes. Através delas, as análises deram resultado,
uma semana depois. Ov lia o relatório pensando consigo: “Rota de ondas
desconhecidas através das cordas dimensionais com as seguintes
características:… Sinal partiu de Gamgi… Reação dos três sóis em… Resultando
em…”. Ele pesquisou mais um pouco, paralelo ao relatório, e chegou à seguinte
conclusão: “cinco sistemas solares, mas só um, dessa zona, contém um planeta
com vida inteligente… um entreposto comercial exótico… certo… aqui!”
E partiram rápido.
***
No início daquela manhã, após uma
longa noite, as condições meteorológicas pareciam melhores. Aquela simples nave
só havia sido transportada para um lugar mais seguro devido a muita
insistência. Gastaram mais por isso, o que deixou os akashes sem forças no
trabalho de criar matéria.
A central de comando não era grande,
nem tão bem iluminada. O sol fazia a maior parte do processo de iluminação,
vindo através de uma ampla tela dividida em dezesseis largas janelas
transparentes, convergindo para duas grandes ao centro. Salvo alguns botões
quebrados, os controle mostravam o início da criação de uma atmosfera local e a
configuração da gravidade artificial. Os três tripulantes já haviam verificado
circuitos e motores não muito diferentes dos da Terra e dos do planeta natal de
Nagara. Mesmo assim, passaram mais tempo fazendo ajustes que dormindo,
lavando-se, ou se alimentando. Mas, isso foi necessário.
-
Está amanhecendo. Não devemos esperar mais. A essa altura, nossos caçadores
devem estar próximos de onde estamos, se realmente forem bons. - disse Nagara.
Murion concordou, entretanto,
considerando que aquela nave só tinha uma autonomia de vôo inferior a mil
anos-luzes, colocando-os muito visíveis para os satélites espiões, o jeito
seria buscar alguma estrela imensa e solitária estrela próxima e se esconderem
por perto, de forma a atrapalhar a localização pelos aparelhos dos
perseguidores. O problema era se a nave agüentaria ficar tão perto de uma
estrela gigantesca.
-
Os akashes vão poder ajudar na proteção da nave, Kosnow? - a mulher do planeta
Urizen perguntou.
Kosnow se concentrou, depois fez que
sim com a cabeça, através do próprio fogo da estrela. Murion, em seguida,
advertiu:
-
Não esqueçam que teremos que nos livrar deles rápido e arranjar um ponto de
teleportação. Considerando o movimento de expansão do Universo, ainda estamos a
mais de cento e vinte bilhões de anos-luz da última fronteira, enquanto eles
nos caçam.
-
Sim, sei, precisamos nos apressar. - comentou Nagara, que se calou e começou a
mexer no console principal da nave.
Depois de duas horas de preparação,
e de terem encontrado, nos mapas celestes, uma estrela vinte e duas mil vezes
maior que o sol terrestre, de brilho amarelo, saíram daquela atmosfera, daquele
planeta incógnito. Quatrocentos e vinte anos-luzes depois, eles pararam por
algumas horas, depois seguiram por mais noventa anos-luzes, até que chegaram à
estrela. Ficariam naquela posição pelo equivalente a alguns dias terrestres,
pensando em como retaliar com toda aquela energia solar, ao mesmo tempo,
escapar.
***
A busca de Ov parecia dar
resultados, quando as últimas pistas levaram a um beco sem saída. Aquele
planeta, que servia de entreposto comercial, era o local certo onde a caça
deveria estar, porém, em algum momento, eles partiram numa nave e sumiram dos
radares.
-
Vamos vasculhar tudo. E enviaremos satélites para as estrelas mais próximas… -
anunciava Ippor’aka para os técnicos. Enquanto o chefe sabia que seria longa a
procura. Eles poderiam estar se escondendo por trás de qualquer estrela num
raio de quinhentos ou mil anos-luzes. E, como não utilizaram a teleportação dos
akashes para isso, ele não tinha como medir a energia usada.
Naquele universo psicológico
desesperado, Ov, preocupado, finalmente decidiu: iria, para se por a frente dos
oficiais que continuariam a busca, consultar o oráculo mais próximo, a sessenta
e nove mil anos-luzes e ir atrás das imagens e medições do Olho de Rama. Se
mesmo o Olho de Rama falhasse, ele não queria nem pensar o que aconteceria com
ele. Seria uma falha não só do Olho, mas dele também, o que arruinaria a sua
reputação e o posicionamento de seu povo frente a união de povos em que
consistia Tange.
Preparou uma nave auxiliar com os
melhores motores ultra-luzes, deixou o comando para Ippor’aka, e, temendo a
demora, colocou tudo em potência máxima, através daquele pequeno console, e
partiu até Mazida, um distante planetóide contendo o oráculo mais perto de onde
eles estavam.
Ippor’aka tomou as rédeas daquela
parte da missão, e fez conforme o protocolo: acionou centenas de naves mercenárias,
além de outras milhares de naves militares dos tangerianos. Os contratantes, de
Tange, sobretudo o Governador-Geral, o Chefe do Parlamento, e o Príncipe
Regente, sabiam das dificuldades, e, pelo fato de os caçadores terem delimitado
uma zona espacial do Quadrante 2 de Mrolen, tinham um foco suficientemente
claro para enviar todas as forças.
Longe daquela zona cósmica, paralelo
aos acontecimentos, o alto e velho Marechal Tar’oaka Enh, em sua nave-mãe
Rama’aka, estava ansioso para demonstrar aos seus superiores supremos que era
melhor que aquele bando de mercenários, pessoas que não passavam de olheiros
capazes de delimitar onde o alvo estava. A partir daí, o principal seria feito
pelas forças oficiais, pelo que ele, orgulhoso, considerava Lei. Ele não queria
perturbar as forças do centro da galáxia, o Olho de Rama, e se orgulhava de ter
a melhor força militar do que ele chamava de “mundo”, capaz de agir sem
superstições tolas. A falta de superstição, no caso do Marechal, podia ser uma
faca de dois gumes. Mas, ele era assim e sempre se destacara por sua capacidade
de autonomia. Não era um total descrente, mas queria provar que o fator
tangeriano tinha que se provar independente de Rama, mesmo que não ateu.
E tudo aquilo fervilhava na cabeça
daquele hermafrodita alto, velho, e de espírito imponente, enquanto ele se
posicionava, de pé, na central de três pavimentos daquela nave-mãe, com a tela
holográfica manual contendo as informações de Ov. A ação iria começar.
***
-
Então… qual o plano em longo prazo para superarmos mais de cem bilhões de
anos-luzes de viagem? - perguntou Murion aos dois.
Ninguém respondeu. Contudo, algo
brilhou na mente do brasileiro:
-
Eu tenho algo. Iremos para a boca do dragão, usá-lo como ponte. Os akashes
prometem uma surpresa arriscada, mas não querem que eu diga a vocês.
-
Usá-lo como fonte alternativa de energia? Vamos para o Olho? - perguntou
Nagara.
-
Nem sei o que seria esse “olho”, mas é importante cogitar qual a natureza
material dessa superentidade. Como passaremos ilesos? Será uma missão suicida.
Mas, a idéia é mesmo dos akashes ou sua? - manifestou-se Murion.
-
Não sei dizer a vocês, uma mistura de influências. Mas, eles me garantem que
está tudo preparado. Por certo, estão mais fortes. Vamos esperar alguns dias, é
o que eles recomendam para curto e médio prazo.
13 - Além do
Olho
A singularidade aparentava ser a
reunião de milhares de buracos negros - abocanhando, daquela imensa galáxia,
mais de novecentos mil anos-luzes -, tamanha a sua escuridão e capacidade de
sugar partículas próximas. Mas, não era isso. De toda a sua força, havia um
planetóide que resistia. O oráculo Mazida, o mais antigo.
Vivia naquela solidão, sempre a
observar, há quantas eras? De qualquer forma, não tinha vida própria. Era
apenas um órgão, um instrumento, um meio. E tudo ficava armazenado, tudo o que
era visto através de trilhões de variações de espectros e codificações
diferentes. Os fatos mais importantes eram transferidos para um cristal que
servia de disco rígido, localizado em Mazida, que era, também, um local de
contato com a Voz de Rama.
O olho não tinha fome, sede,
depressão, alegria, nem consciência, apenas observava. Em seus canteiros mais
próximos, viu uma nave dos eleitos chegar. Viu o seu interior e grafou bem a
presença de um caçador batizado por Rama. Tudo foi guardado, registrado, pois
aquele era um momento decisivo.
***
“O problema sou eu”, cogitou Ov,
enquanto adentrava a câmara rochosa e escura do Oráculo. Ele se julgava incapaz
de perceber os detalhes certos, de ultrapassar um certo limite que lhe seria
não apenas útil como fundamental para a sua vida, para o seu trabalho, para a
sua missão. Contudo, agora, teria que se concentrar no que ia fazer.
Ele se identificou por diversos
controles cuja simbologia remetia a um conceito de aura celular, um marco
inviolável para a correta caracterização do visitante. A câmara escura, após Ov
passar pelo último painel paralelo, oscilou, como uma onda violeta que
prosseguiu, bem sutilmente, quase invisível, e abocanhou, delicadamente, o
visitante. O caçador, então, viu-se numa sala bem iluminada e um cristal
irregular vários metros de altura. Abaixo, no chão liso e branco, havia uma
marca onde ele teria que ficar, parado. Fechou os olhos, respirava lenta, baixa
e constantemente, e sentiu um vulto amarelo sair daquele cristal e envolver a
sua mente. Muitas imagens eram processadas, como se ele ganhasse um cérebro
emprestado, complementar, de forma a ter repassado para a sua mente apenas os
resultados.
Ov recebeu tudo em segundos. O processo
terminou, e ele não soube como voltou em segurança para a própria nave, um
aparelho com sua peculiar forma de gota, sempre flutuando a um metro do chão.
Partiu, com urgência. Agora ele sabia o que a caça estava preparando. Uma visão
de contexto tinha-lhe chegado.
***
As informações iniciais de Ov
chegaram às mãos do Marechal em questão de horas, via hiper-rádio, depois de
ter passado por toda uma rede de oficiais e satélites munidos com sua própria
inteligência artificial. A informação principal dizia respeito da localização
da estrela onde os inimigos estariam escondidos, e, complementarmente, falava
da possibilidade de alguma armadilha ter sido preparada pelos akashes. O
Marechal ignorou aquela última parte. Chamou os generais mais experientes e
ficou combinado que enviariam uma tropa de batedores para a estrela que eles
passariam a chamar de “Ponto K”.
Mais tarde, veio a confirmação. Com
ela, uma flotilha inteira de escunas espaciais, parecidas com ovos compridos e
deitados; e uma nave de grande porte, esta com o formato que lembrava vagamente
um caranguejo, mas sem as pinças. Todas negras.
***
Nagara começava a ver como o perigo
se avizinhava, por uma tela que ora funcionava, ora se desligava.
-
Vamos esperar até o ponto certo, ok? A partir daí… - disse Kosnow, referindo-se
a retaliação com ajuda dos akashes.
Em um formato especial para aquele
tipo de cenário, quatro escunas adiantadas e uma meio para trás, chegaram bem
perto do sol. Até então, não havia sido levada a sério a ideal de um
contragolpe real. Tudo parecia ser simples, mesmo que os instintos,
infelizmente domados, dissessem outra coisa para os militares e para os
corsários espaciais que assistiam a tudo de longe.
Finalmente, em um dado momento, no
ponto equatoriano, rajadas de fogo engoliram totalmente as cinco escunas.
Parecia coincidência. Imediatamente, outras escunas espaciais ameaçaram avançar
e a estrela inteira foi se tornando violenta. A frota se afastou.
Na central de comando, Murion, que
havia sido chamado de sua poltrona da periferia, perto da porta quebrada da
entrada.
-
Vamos? É interessante saber que meu dom não precisará ser utilizado desta vez.
Os akashes começaram a agir, vibrando,
tornando-se maiores. A estrela fazia o mesmo, como se ambos fossem um só, e uma
forte onda de impacto varreu uma dezena de escunas espaciais que estavam por
perto.
A nave em que os três estavam
explodiu. Consumiu-se. Os três estavam desaparecidos, porém vivos. Por
enquanto.
***
Uma sensação. A única coisa sentida:
a percepção do Eu. A percepção de um Eu único. Era Rama, pairando em um vácuo
profundo, nos limites do universo, sem forma.
Aquele antiqüíssimo ser pensava em
múltiplas camadas, e, em uma delas, personificava-se em três intrusos,
incluindo uma força akashe. Ele não queria o choque entre os universos, ao
contrário do que algum grupo ou pessoa ou entidade poderia inventar. Só queria
manter o seu espaço, a sua zona de influência, e continuar vivendo como um ser
vivo em uma das mais altas escalas de todos os ecossistemas. Mas, em seu Olho,
ainda havia aqueles três estranhos. Pensava em fazer algo, e fez. Plantou algo
em Nagara N’Kebeker. Algo que poderia fazer a diferença a seu favor.
Ao largo disso, o Olho expulsou
aquele feixe de energia, empurrando-os para uma galáxia elíptica, com muito
mais estrelas que planetas, a mais de setenta bilhões de anos-luzes. E a queda
só seria segura devido ao poder daqueles “anjos”.
***
Foi como se o tempo não tivesse
passado. Kosnow despertou em uma sala escura, todo dormente, sem os akashes por
perto, no frio chão metálico, sentindo um ar moribundo. Tossiu, com medo de os
seus guias não estarem mais filtrando o oxigênio. Contudo, a medida que a
dormência foi passando e ele se levantando, as coisas pareciam se normalizar,
com exceção do receio de ter caído em algum tipo de armadilha.
Havia um ponto de luz perto da
porta, luzes que queimavam a pele, e marcas no chão eram reveladas. Marcas de
antiguidade, e poeira misturada à lentidão dos músculos do brasileiro.
-
Ei! Murion! Nagara! Alguém aí?!
Um barulho distante do outro lado da
porta aparentemente sem fechadura. Porém, talvez aquilo não fosse uma porta,
mas uma parede movediça, indicando algum tipo de engrenagem. Ele achou isso, e
empurrou. Ao lado do feixe de luz, o metal se desfez, abrindo uma saída direto
para um corredor, num pavimento superior de frente a um pavilhão. Kosnow
avançou, desviando-se da luz, e, naquela semi-escuridão, viu contêineres,
caixotes imensos, feitos de algum tipo de matéria escura, cada uma com o mesmo
símbolo de infinito repleto de desenhos miúdos sem sentido.
-
Alguém aí?!
Ele continuou por aquele pavimento e
começou a descer uma escada. Não demorou muito para chegar ao fundo, e viu um
maquinário pesado sem função aparente, abandonado, poeira, e ossos delicados
que pareciam ocos pelo que ele percebeu ao pisar em um deles, um dos ossos
espalhados em um determinado canto.
Kosnow foi seguindo adiante,
chamando por Murion e Nagara, quando, finalmente, um deslocamento de ar se fez
notar e, perto dele, um pálido Murion.
***
-
Eu acordei em dois ou mais lugares ao mesmo tempo. Há alguns minutos, eu acho.
Num dos mundos, este lugar estava apinhado gigantes, do tamanho de Nagara,
porém de compleição fina e traços de aves. - relatou Murion, enquanto ele e
Kosnow estavam sentados em duas daquelas sobras metálicas sem função aparente.
-
E Nagara? E os akashes?
-
Eu vi você e Nagara mortos. Fui feito prisioneiro, e nada dos akashes. E,
lembro-me de uma coisa: estávamos não longe, mas na simulação do centro de
todas as galáxias! Mais do que isso: havia algo sobre um filho da urizeniana,
uma criança nascida de um corpo cadavérico, a qual aqueles homens-ave
consideravam como um semideus… Bem, entenda: foram visões aleatórias, eu não
estava lá realmente, mas aqui por perto, como um sonâmbulo. Cheguei a achar,
até, que algo tivesse me seguido daquelas visões.
Após um momento em silêncio, Kosnow
dividiu sua ração e água com Murion, que consumiu avidamente. Depois, o
adimensional, suspirando, meio deprimido:
-
Então, aqui estamos. Se há um mundo paralelo por aqui, não sei se vou achar a
tempo. Por outro lado, sabe? Sinto-me aliviado de estar livre daquelas
criaturas.
-
Eu queria saber para onde elas foram, mas não consegui - disse Murion, após
engolir algo.
Sons distantes apareceram de
surpresa.
-
Eu sabia!
-
O quê?
-
Sempre que eu viajo para realidades alternativas deste universo eu evito a
suposta presença de entidades que parasitam entre cada uma dessas realidades.
Mas, desta vez, foi tudo tão confuso, que posso ter sido seguido. Fiquemos
atentos.
Eles se levantaram. E Kosnow
pensava, sobretudo, se Murion não estaria fora de si.
-
Vamos procurar a central disto aqui, rápido? Você tem alguma idéia, Murion?
-
Acho que sim. Siga-me.
E partiram, apressadamente.
***
Eles andaram por muitas horas, e
tiveram pouco tempo para descansar, naquela escuridão de cabos velhos, um tipo
de fungo, e, em alguns casos, um piso irregular, prestes a ceder.
-
Aqui. Por aqui. - disse Murion.
No final do pavilhão, após uma série
de caminhos entrecruzados, salas e corredores, um imenso buraco negro
estendia-se.
-
Os elevadores devem são por aqui. Vamos descer pelo cabo por vários metros, não
sei dizer quanto, e nos encaminharmos até um curto corredor que deverá terminar
num portal. Mas, não sei como faremos para arrombar aquilo, se estiver fechado.
O que você acha, Kosnow?
-
Vamos adiante. Precisamos saber onde estamos, não? E seu ciclocomputador de
pulso, funcionando…
-
Sim, acho que ele está em ordem. - finalizou Murion, incisivamente.
Eles desceram mais de quarenta
metros, em silêncio, concentrados. O cheiro ia ficando azedo, o ar rarefeito,
as mãos queimadas, mas resistiriam à escuridão. Quando Kosnow, primeiramente,
pôs os pés no chão, algumas luzes acenderam no teto.
-
Parece que não teremos problemas em arrombar nada. – confirmou Murion, ao ver,
adiante, o portal da central de comando arrombado.
-
Quer dizer que você vagou conscientemente pela sua visão…
-
E deu certo. Deu certo. - respondeu Murion a uma pergunta que não pôde ser
completada pelo brasileiro.
Avançaram sem problemas, e, adiante,
entraram na central de comando. Em meio a escuridão completa, uma luz piscava
ao fundo. Eles resolveram se separar. Kosnow ficou perto do portal e Murion
avançou para a luz. Era um botão, e ele apertou. Uma tela foi aberta como
páginas rasgadas de um livro virtualmente projetado. E Murion pôde, finalmente,
conectar-se através de seu ciclocomputador de pulso. Em instantes, já sabia:
estavam mesmo próximos ao centro do universo, foram na direção contrária!
Enquanto isso, o brasileiro, da
entrada para a central, ouviu algo rastejando ruidosamente pelos cabos do que
teria sido um elevador, de onde eles vieram. Sem avisar a Murion, foi se
aproximando aos poucos. Infelizmente, estava sem aquelas pistolas de grávitons,
que devem ter ficado naquela nave. Seja lá quem fosse, foi barulhento ao descer
de vez. E ele viu: era um homem quase tão alto quanto Nagara.
-
Por favor, não faça nada. Vim em paz. - disse o estranho.
***
-
Quem é você?
Murion andava de um lado para o
outro no corredor, enquanto Kosnow guardava a entrada. O estranho não estava
preso, parecia pacífico, mas algo teria que ser dito.
-
Sou Rama N’Kebeker. Vim de outra realidade para advertir sobre o que está
acontecendo com Nagara, com a minha mãe nesta realidade.
-
Se você é de outra realidade, como veio para cá? - continuou Murion.
Após um breve silêncio, ele
respondeu:
-
Foram os akashes. Também posso dizer que o tempo passa de uma forma diferente
entre este mundo e o de onde vim. A superinteligência Rama, meu pai, aproveitou
a tentativa frustrada de vocês de tentar fazer uma grande viagem de setenta
bilhões de anos-luzes de uma só vez através do Olho, para seqüestrar minha mãe
e semeá-la. Ele nos levou a uma realidade alternativa onde esta Estação havia
sido tomada por uma força militar após algum tipo de batalha entre dois povos
diferentes de uma mesma raça a qual não entrarei em detalhes. Uma vez aqui, sob
a proteção de meu pai, eu nasci, minha mãe morreu e, através de uma tecnologia
antiga mantida sob sigilo nesta Estação eu vim. Mas, matei aqueles seres de luz
como eu estava programado…
-
Como assim? Você foi programado para matá-los? - interferiu Kosnow.
-
Eles disseram que você iria perceber isso, como algo tirado de sua própria
carne, na hora certa, quando você se tornasse são. Não entendi o que eles
quiseram dizer. Olhem… eu só vim para cá porque quero me vingar de meu pai.
Admito. E continuar a missão de minha mãe. Por favor, acreditem em mim.
Eles não acreditaram. Aquela
história toda estava muito mal contada. Eles o sedaram sem que ele percebesse,
e Murion, já restabelecido, lançou aquele corpo adormecido para uma dimensão
alternativa muito parecida com aquela, dotada de ar quase puro, água, e ração guardadas.
Mais tarde, de volta ao pavilhão,
tentaram pensar em como continuar a missão.
-
Não precisaríamos dele, de qualquer forma. - disse Kosnow.
-
Concordo que está tudo muito incerto, mais incerto que quando fui seqüestrado
pelos urizenianos no passado. Sabe? O povo de Nagara. – continuou Murion.
-
Eu soube.
-
Bem, Kosnow, entendi o seguinte: os akashes te procuraram após os exekers terem
feito algo com sua mente na infância, enquanto eu e Nagara éramos escolhidos;
esses aliens vieram de um universo físico, material, paralelo, e não de uma
realidade alternativa; eles parasitaram você numa luta contra Rama. Mais tarde,
surgiu a idéia de roubarmos um caminho para setenta bilhões de anos-luzes
adiantes mediante o Olho de Rama, algum tipo de observatório presente no centro
da galáxia Mrolen. Contudo, caímos no nosso próprio engodo… Como eu permiti
isso?! Como eu permiti que as coisas chegasse a este ponto? Nagara não
ressurgiu com a gente, mas numa realidade alternativa, onde, segundo aquele
estranho, o tempo corre peculiarmente, permitindo que um filho de Rama fosse
gerido e nascesse, programado para destruir os akashes…
-
Bem, Murion, vamos terminar essa missão? Afinal, eles não me parecem ter
mentido sobre o suposto choque entre este universo e o deles.
-
Parece que teremos que fazer algo. Mas, não podemos. Só mais uma coisa não
entendi…
-
Mas, eu posso, se vocês me permitirem.
Como um fantasma, atrás deles, lá
estava aquele que se dizia ser o filho de Nagara, com sua voz grave.
-
Acreditem, vocês não me conhecem. Entendam: eu quero me vingar de Rama! E quero
impedir que o pior aconteça entre os dois universos. Os akashes me mostraram
tudo o que eu tinha que saber antes de morrerem.
-
Como você…? – ia perguntando Murion.
-
Sim, não usei nenhuma tecnologia. Tenho o mesmo dom que você. Mas, antes de
prosseguirmos, preciso falar com Kosnow.
O brasileiro via-se, agora, a
dezenas de passos de Murion, esperando que aquele estranho lhe revelasse alguma
coisa. O suposto filho de Nagara preparava-se para começar a falar, quando
pegou pelo braço de Kosnow e tudo aconteceu num só instante. Antônio Kosnow e o
filho de Nagara sumiram.
***
Murion tentou fazer algo, passando
por várias realidades alternativas aleatoriamente, sempre visualizando-as, em
sua mente, antes. Dirigiu-se a diversos mundos. Em um deles, com a Estação
funcionando normalmente com aqueles homens-aves, ele, com o caminho gravado
pela mente, tomou uma mini-metralhadora de feixes luminosos de um guarda - um
alienígena que ficou estancado pela surpresa -, foi atirando nas pernas de todo
mundo, todos aqueles que mais lhe pareciam manchas inexatas, enquanto alternava
realidades diferentes numa velocidade incrível, o que o fazia ter que rever
mentalmente o mapa daquela Estação, até se ver, finalmente, numa sala com
uniformes de astronauta. Ele foi rápido o suficiente: vestiu-se sem nem ao
menos verificar se o ar que os homens-aves usavam era o mesmo que ele
suportaria, e partiu para versões da realidade sem nenhum tipo de nave ou conglomerado
tecnológico protegendo-o do espaço sideral e sua nocividade. Ao que parece, o
seu organismo especial iria suportar por tempo suficiente debaixo daquele
capacete semi-esférico.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem os próximos capítulos.


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