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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Término de 2014

Este foi um ano razoavelmente produtivo para o presente blog.

Creio que alguns textos de alguma qualidade foram publicados aqui, sobretudo os de natureza literária. Dos não-literários, mas sobre Literatura, parece-me que os mais acessados foram os que abordavam a série de ficção-científica alemã "Perry Rhodan" - e com razão. Nunca se esgotam os assuntos relativos a esse universo ficcional e ao histórico de sua publicação e alcance.

Este ano, em geral, acredito que o blog teve apenas dois textos incompletos - um deles em continuação (o "A embarcação divina") e o outro, intitulado "Singularidade", por ter sido uma versão alternativa do meu livro O Núcleo.

Evidentemente, possuo deficiências em meu fluxo de pensamento e de concentração na produção de uma ficção. E isso evita que eu alimente ilusões em algum dia publicar algo fora da net. Por outro lado, para todos nós que ainda insistimos em escrever, é uma experiência inescusável para aprendermos tanto a disciplina exterior, do dia a dia, como a disciplina de manter o fluxo de pensamentos afinado ao projeto de um texto que tenhamos feito anteriormente, com alterações futuras e constantes.

Escrever é um processo dinâmico. Reflete a forma como pensamos muito mais que o conteúdo de nosso pensamento. É justamente na forma, no ritmo, no tracejado, digamos assim, que se é possível perceber mais elementos.

Também aproveitei este espaço para textos dissertativos, somente meus, abertos sempre a questionamentos, na liberdade íntima que cada leitor possui ao entrar em contato com um texto. Creio que obtive sucesso em evitar polêmicas potenciais ("potenciais" porque o blog não é tão frequentado assim). Afinal, é justo que exista a liberdade de escolha entre algum tipo de engajamento - ou em ser, simplesmente, um zapeador do cotidiano, passando rapidamente por cada "canal", tal como faço na vida fora do fluxo de hiperconexões a que chamamos internet (isso se ainda existirem os conceitos de "fora" e de "dentro" no nosso uso cotidiano da internet, claro).

Em suma, foi e continua sendo uma experiência agradável rechear o presente blog, o presente espaço.

Que 2015 seja ainda melhor, e que os eventuais leitores deste blog continuem acessando.

Até mais.


João Batista Firmino Júnior.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sobre liberdade de expressão e redes sociais

Escrevo este tópico um pouco no improviso, como já fiz com muitos textos deste blog. Além disso, provavelmente, posso ter escrito anteriormente sobre o assunto "liberdade de expressão" neste espaço; ainda assim, tentarei não me repetir, caso tenha feito isso.

Recorto o assunto, para melhor aproveitamento neste espaço, dividindo o assunto "liberdade de expressão" em antes e depois dos sites de redes sociais. Fiquemos no "depois".

Talvez uma das questões mais difíceis sobre o assunto e sua expressão em redes sociais seja descobrir até onde algo é aceitável. É como uma pirâmide, na qual temos uma base (as leis); e o topo, que é a realização "livre" de uma opinião ou de um trabalho científico, ou de uma divulgação (ainda assim em algum grau pautado numa autocensura bem inconsciente).

E no meio? É onde temos questões sobre a falibilidade de todos nós, na condição de moderadores de comunidades ou fóruns. Essa falibilidade pode ser técnica, naturalmente; mas, também, relativa a cair na tentação mais simples, básica e fundamental: eliminar divergências a nós mesmos sem contra-argumentar (eliminar no sentido de apagar, banir, ou seja, dentro das regras de poder que tenho a minha disposição).

Isso pode ocorrer devido não meramente a uma tentação de Poder, mas também a um senso de território, que é formado pelas assim chamadas "regras implícitas" de uma comunidade - indo além do falibilismo de qualquer dono ou moderador, que deseja uma "aparência", um "estilo", para seu espaço (porque, no final, o espaço é sempre de quem tem o poder legitimado de montar todo um fórum ou comunidade).

E é nesse ponto que pode ser possível entender a ausência de contra-argumentação que não seja pela simples eliminação da divergência, a partir do fato de que não há - ainda - relação contratual alguma entre fóruns/comunidades/congêneres e cada usuário.

Diante da condição "movediça" de diversos espaços de "liberdade de expressão", podemos nos decepcionar um pouco. Afinal, lembremos que antes da liberdade de expressão propriamente dita, há a liberdade para qualquer um criar seu território virtual e basear-se, naturalmente, em seu subjetivismo. Um subjetivismo mais "solto" que os critérios estritamente legais, por exemplo.

De qualquer forma, é o que temos: Poder/Território na parte intermediária, e majoritária, da pirâmide a que me referi.

Além disso, o nosso contato com o Outro, com a Diferença, independente de nossa condição de "moderador" ou de "participante". Liberdade não se faz sem interações. Nem é um conceito que faça sentido sem relações de uma coisa com a outra.

Liberdade é sempre com pessoas, e a vida entre diferentes sempre será uma trama repleta de idas e vindas. O que podemos fazer é tornar isso menos drástico. Em ambientes públicos, como as redes sociais, por exemplo, buscar evitar atritos - e se utilizar de espaços até certo ponto mais "isolados" em termos de interação e influências, para opiniões mais contundentes (e ainda assim, voltadas a um espaço, a um grupo específico, ou seja, NUNCA para todo mundo, para qualquer pessoa).

Em suma: vivendo e aprendendo, entendemos que as coisas nunca são somente uma questão "apenas de Legalidade", no que diz respeito às nossas opiniões. Há um jogo de constrangimentos que não começa nem termina nunca - apenas é. E, nesse jogo, nada melhor que (partindo já do pressuposto legal, constitucional e humano): editar e reeditar opiniões; focá-las APENAS a um espaço e grupo específico; e, ainda melhor: ir até a origem das próprias opiniões, ir até a visão de mundo pessoal, e usá-la para trabalhos objetivos, profissionais, e sobretudo muito mais voltados ao mundo fora das redes sociais (não necessariamente um mundo sem internet).

Assinado: João Batista Firmino Júnior. 

domingo, 16 de novembro de 2014

Trecho 3 do livro A EMBARCAÇÃO DIVINA

                        Enquanto folheava, encontra algo que lhe chama a atenção, havia um conto chamado “A Corda”. Estava escrito:

                         “Possuía dois gatos, duas alegrias, dois animais que sempre o acompanhava na alegria e na tristeza. Um representava algo oposto ao outro, mas ambos, apesar das diferenças, nunca causaram problemas ao dono. Mesmo vivendo tão livres, próximos a tanto peixe.
                            Estavam já há tantos anos tão bem criados, sempre agradando aos que por ali passavam em suas visitas semanais. Seu dono era velho como eles, um ancião que não via bem. Vivia sempre muito triste, mas quando os dois apareciam, a tristeza desaparecia, diante de um gato egocêntrico, e outro brincalhão.
                             O primeiro siamês possuía um alto porte de arrogância, tanto que muitos se assustavam ao olhar penetrante do gato; o segundo só vivia enrolado em toda aquela lã. Claro, o gato brincalhão sempre aprontava, o que enraivecia o outro, que normalmente levava a culpa, mas, a vingança seria breve…
                             Foi enquanto o gigante estava doente que tal gato aprontara. Levantando-se, certa manhã, da cama, o velho não achou suas sandálias e saiu procurando pelo quarto. Lá vem o gato esperto, que com o olhar faz o ancião seguir seu doce caminhar até a cozinha de sua casa.
                         Grande foi a surpresa do velho homem ao encontrar as suas sandálias penduradas no armário da cozinha, por uma estranha corda ligada à portinha entreaberta. Logo aquela porta quebrada! Apanha uma escada, sobe e, antes de cortar a corda com a tesoura, tenta abrir a porta. Parecia haver um peixe podre guardado há muito tempo. Não ousa observar o espetáculo.
                             O cheiro estava forte, apesar da gripe, e, com a tesoura que trazia consigo, cortaria a corda e pegaria a sandália. Algo mexe dentro do armário, o siamês esperto ria com os olhos, o velho iria cortar. E por que não? A atenção seria toda para si, aquele outro gato estava praticamente morto. Porém, assustado com a estranha substância que saía da corda, que se rompia durante o corte, o velho desequilibrou-se e caiu.
                             Sandálias de um lado, o siamês mal teve tempo para olhar, o velho caiu em cima dele com a tesoura apontada para seu corpo peludo. Tempo? O velho ergue-se e vê seu querido gato ensangüentado, e aparentemente morto. Levanta-se e pensa, com dor, em seu belo bichano, ser inteligente, que o salvara a vida, a tesoura pontuda enterrara-se bem naquele ventre. Ao contrário do gato inútil, que só brincava, o primeiro sim valera a pena criar, ao contrário de um pequeno brilho que surgia na escuridão do espaço entreaberto, que sorria, mesmo morto, com os olhos, e mirava.”
  
                   Sobe a vista, grande parte dos estudantes havia partido, chegada a hora. O restante aprontava-se para sair. Ele ficaria por mais tempo, seria o último a retirar-se, mas antes, tinha de colocar o livro no devido lugar.
                   Estava só, debaixo daquela única lâmpada acesa. Eram quase nove da noite, pelo que mostrava um relógio rústico com seus pêndulos, quase escondido por uma estante, onde a luz começava a escassear. Vira-se e percebe que o lugar do livro ficava no canto mais obscurecido da biblioteca, em uma das últimas estantes, na escuridão mais profunda.
                   Caminha, aproximando-se daquele lugar, anda para longe da luminosidade artificial e do pouco de claridade que trazia a janela. Para, com um certo temor, olha bem para o livro antes que a luz sucumbisse por completo. Nada! Nada havia em sua mão!
                   Acelera o coração, como também o raciocínio. O cheiro de mofo era forte. Só podia haver uma explicação: era aquele mundo! Teria de se apressar, mas antes que terminasse de pensar… Sente uma presença! Bela amostra de medo inútil, percebe logo que o que sentia não vinha de fora, era de dentro.
                   A sensação de haver alguma presença aumentava, era pressionado, a sensação era muito forte, cada vez mais. Sai imediatamente daquela parte escura e corre para a porta. Trancada!? Não, claro, o último a sair deveria ter trancado a porta, por fora, acidentalmente; o trinco não estava bem desde muito. Havia as cópias da chave na mesa de um dos funcionários da biblioteca.
                  Era uma mesa muito próxima da luz, havia ainda um abajur. Aproxima-se vagarosamente e tenta acender a pequena lâmpada. Estava queimada. Sentia-se agudamente ameaçado… Pega rapidamente o molho onde deveria estar a chave certa.
                  Não, ele observa, eram quatro chaves que abriam as gavetas. Procura a chave da porta e a encontra com certa facilidade. A sensação de algo estranho por perto era forte.

                  Estava prestes a abrir a porta. Sente um frio na nuca, olha pela última vez para trás. Por um momento parecia ter visto um brilho, uma luminosidade amarelada que, como um relâmpago, seguiu até a janela e… desapareceu. Abre imediatamente a porta e joga-se ao corredor. Depara-se com um lugar ainda mais escuro que os cantos mais desconhecidos da biblioteca.

Continua...

Autor: João Batista Firmino Júnior.

domingo, 9 de novembro de 2014

Diferença e Repetição (Conto)

Diferença e repetição


Ninguém mais vivia em rochas. Regulus observava o ecrã à sua frente, que tanto podia indicar vastidão como ser a mais simples representação de uma grande sombra vista de perto. As galáxias, distantes, formavam brilhos diminutos. Havia poucas galáxias visíveis dali.
                Todos os espectros detectavam radiações. Todos os mais de vinte e três mil utilizados. Havia as galáxias negras, os corpúsculos vazios, os padrões desses vazios indicando ralos de partículas e de ondas.
                Regulus percorreu, com sua percepção, por todos os pontos sensíveis do GLOBO, que era seu corpo. Tinha setenta e dois quilômetros cúbicos e parecia um liso vidro-plástico, oco em algumas partes.

É tudo igual.

                Cérebros orgânicos há eras sofreram transformação. Seus processos e conteúdos, suas estruturas, percorrendo diferentes realidades quânticas, reunidos num corpus.

Sou eu.

                Essa reunião era um substrato de dezenas de bilhões de seres de uma espécie. Seres que não vivam mais em rochas. Eram do cosmos, sem planetas. Abandonaram suas arcas de metal e partiram e se fincaram, não longe… mas num só espaço. O tempo fizera as galáxias se afastarem. Era uma época gelada.
                Regulus era o corpus de todas aquelas mentes, mas só se tornara realmente único quando alcançou o potencial das crianças não nascidas de inúmeras gerações. Nasceu para pôr fim à morte, ao frio, ao escuro. Em busca da fonte de todas as almas. Entretanto, só via aquele ecrã, à sua frente, costas, interior e exterior.

- Memória!

                Uma voz em pensamentos acabara de se manifestar, sem boca, cordas vocais nem ar. Quatrilhões de constelações formavam glóbulos, oito, um octógono.

- Fonte das almas.

                Mais uma vez, dentre diversas vezes por um tempo quase infinito, a busca pela origem de toda a consciência – a Fonte das Almas ou, simplesmente, a Fonte.
               
Nada.

                Foi quando eu cheguei.

***

MEMÓRIA-ABSTRATA Fa0.016P:

                200 milhões de eras anteriores, aproximadamente, despertei. Despertei dos pensamentos que me distraíam naquela minha caminhada até a cantina de nossa casa. Minha mãe não estava, nem meus dois únicos sobrinhos, que vivam conosco desde a morte do meu irmão e sua esposa.
                A rádio de meu quarto-cabine tocava speran, sintonizado à única estação que nos chegava. Sentei-me por perto, ouvindo aquilo, enquanto mexia em um prato de cereais. E lembrei-me da decisão de minha família, quando ainda éramos pequenos.
                Vivíamos na megalópole PAN-EARD, a mais antiga, localizada em algum lugar entre o sistema solar da Terra e Alpha-Centauri. Era a mais antiga e a mais afastada do CONGLÔMERO, o centro da civilização ressuscitada, como diziam os Maestros, espécies de professores influentes.
                O CONGLÔMERO reunia, desde o fim das colônias rochosas (em planetas com condições originalmente parecidas com as da Terra) – de nossa inabilidade em terraformar, e em nossa estagnação tecnológica que impediu o invento de naves que superassem a velocidade da luz –, dezenas de bilhões de pessoas, além de cachorros, gatos, pequenos mamíferos e insetos. Era uma reunião de mais de cinquenta megalópoles, com exceção de PAN-EARD, a mais antiga e única localizada ainda no interior da Via Láctea.
                Uma civilização inteiramente no espaço, com os iates espaciais para os ricos, as megalópoles para a vasta classe média, e nós da periferia da megalópole mais atrasada, uma imensa arca espacial imóvel, ou quase imóvel, imersa num mar de asteroides, de onde se retiravam metais e outras substâncias.
                Quando criança, ficamos sabemos do plano para a Grande Reunião, em que até mesmo PAN-EARD iria transferir os dez milhões de humanos para o CONGLÔMERO, a muitos milhares, milhões de anos-luz (não sei dizer), entre Via Láctea e Andrômeda (“como” eu não sei). Minha família, e mais algumas centenas de outras nos recusamos. Ficamos para trás, e estávamos em paz.
                Meus pensamentos bailavam perante uma imagem absurda da carcaça de PAN-EARD, quando percebi que o som assumiu uma voz:

- ESTAÇÃO LIVRE/ NOTÍCIA URGENTE: Recebemos informação sobre o CONGLÔMERO!

                Era o que eu esperava. Infelizmente, meus parentes não estavam em casa.

- Há um novo plano de extração. Não nos foi claro. Fomos informados por um mensageiro… sdjfe… daies…

                O som estava ruim, depois retornou de vez:

- …baseados nessa crença, e levando em prática… Desejam TODOS juntos no CONGLÔMERO. Até a última alma!

                Com o passar dos dias eu e meus familiares ficamos entendendo melhor sobre a EXTRAÇÃO. Isso após várias reuniões presenciais em LIMA, instalações de uma antiga estação de mineração em um grande asteroide próximo. Lembro-me de uma reunião:

- Conselheiro Vatehl, por favor, o que está ocorrendo?

                Com todos os presentes, o Conselheiro tomou o microfone, rústico, de Ernst, o difusor:

- A EXTRAÇÃO é mais um projeto absurdo do CONGLÔMERO. Primeiro, há décadas, queriam tomar nossa liberdade, tomar nossos corpos, nossas posses, tudo o que somos, para aquela abjeta “reunião”… Agora, alegam que precisam até da “última alma”. Em resumo a tudo o que disse desde cedo: querem nos caçar!

                Não me interessava a natureza exata daquela decisão do centro de poder. Não entendia mesmo porque esse tipo de medida. Porque essa necessidade de, diante de dezenas de bilhões de pessoas, quererem que nós, eremitas do cosmos, livres das leis do CONGLÔMERO, tivéssemos de nos juntar a eles. O que eles queriam de nós? Não estava tudo bem? Por que não nos esqueciam?
                Não conseguia mesmo entender o motivo de nos quererem à força. O fato é que chegariam nos próximos meses e teríamos que estar preparados. Meu sobrinho, que chefiava um grupo de defesa, chegou a me confidenciar, dias depois, que estavam pensando se não seria mais útil, frente a nossa inferioridade técnica, fugirmos, simplesmente.

- Não, Max. Não estou disposto a fugir – disse, na época.

- Mas, tio. Certamente não conseguirão nos tomar, sei disso diante de nossa fúria. Porém, estaremos todos mortos! Do que adianta? Será que não deveríamos nos esconder, talvez, nas cercanias da velha Terra? Onde quer que for?

- Não posso aceitar. Assumi esta posição de comando, e pretendo exercê-la até o fim. Se iremos morrer, morreremos. O que vale, nossos corpos ou nossa dignidade? O cosmos fez nossos corpos de carne para que treinássemos o espírito!

                Ele não conseguiu me demover. Continuamos suportando o que tínhamos que suportar, até a chegada dos caçadores. E eles chegaram.
                Pelo que vimos eram aquelas naves controladas por cérebros quânticos. Não teriam mesmo a pretensão de nos caçar pessoalmente, claro. Essas naves ficavam estacionadas sempre a meses-luz de nossa localização, e começavam a aparecer, com seus cascos negros e seu brilho avermelhado numa de suas pontas.
                Estacionadas ao longe, enquanto tentávamos imediatamente atingi-las, fomos pegos por uma tempestade não apenas eletromagnética, mas também pentadimensional. Não vou explicar os detalhes técnicos, a questão é que apenas nossas forças de reserva funcionavam. Ficamos com nossas naves paralisadas. Mas, nunca iria desejar fugir, nem a maior parte de nós.
               
***

Após três semanas do Tempo-Padrão:

                Qual o objetivo de tudo isso? Todos nós, sobreviventes, capturados, no interior daquelas naves desalmadas! Presos, estancados, naqueles berços de adultos, forçados a um sono antinatural. Ah, se eu pudesse me soltar! Ainda não durmo, cercado por robôs naqueles corredores. Éramos milhares aprisionados. Se alguém fugiu, fugiu para a morte, porque, no espaço inclemente de estrelas, não há insumos.
                Eu seguia observando tudo. Usei todo o meu treinamento de Sonâmbulo. Pouca gente daquela geração conhecia, mas, quando era mais jovem, aprendi, com meu grupo, a retirar a minha consciência de meu próprio corpo e espionar recintos que nos eram proibidos. Fazíamos isso numa versão decadente de uma técnica antiga, muito usada nos tempos dos Estados-Nação ou Reinos, que se fincavam naquelas rochas de ar e horizontes finitos.
                Deslocando minha consciência, numa das fases daquele sono artificial, segui sem problemas por todas as aberturas daquela nave, quando percebi que não estava numa nave. Seja lá o que fosse, parecia ter o tamanho de uma megalópole. Porém, sem nada de urbano, sem prédios, apenas longos corredores, a maior parte deles vazios. Consegui sair dali e vagueei pelo espaço. Tudo corria rápido, e quase não consegui acompanhar. Aquelas naves, maiores do que aquelas que nos atacaram inicialmente, certamente conseguiam atingir a quase exatidão da velocidade da luz, mas ainda tinha minhas dúvidas de se elas seguiam realmente para o CONGLÔMERO. Alguma coisa me cheirava mal, ali.
Segui por um tempo indiscernível e, em suma: havia outra nave, bem menor. Quanto tempo demorei? Sei, apenas, que lá cheguei. Havia dados correndo. Eu podia enxergar, perceber, em meu corpo desencarnado. Como suspeitava… a Guia da Expedição não falava nada sobre o CONGLÔMERO, sobre a localização que eu conhecia. Estávamos… correndo em círculos!

***

MEMÓRIA-RELATÓRIO Af0.322G:

                Serei breve. Sou Flavila Costaranza. Nasci na Megalópole RAVIANO. Fui tirada de minha família, treinada como Observadora. Nossa função: ficarmos de olho no Cosmos. Mais tarde, fui designada como Observadora Psíquica, ou seja, minha função seria sondar os Isolados, que eu desconhecia. Informaram-me que, há anos, do tempo-padrão, centenas de famílias se negaram à Grande Reunião. Teria, assim, que manter relatórios atualizados sobre o estado mental de toda aquela gente.
                Era considerada uma boa aluna. Talvez, por isso, a promoção. Minha coordenadora acatou minhas pequenas exigências. Parti, depois, numa pequena nave, até o sistema solar morto mais próximo dos arredores da Via Láctea. Foram sete anos de viagem.
                Após quase sete anos-luz, deixei minha nave em órbita estacionária a um dos trinta e quatro satélites do único planeta (um gigante gasoso) daquele sistema solar morto. Com a ajuda de meus equipamentos, entrei em contato com o LOCUS do Observador anterior. Com isso, ele pôde partir. Eu assumi, desde então, a observação e o comando dos milhares de naves espiãs, localizadas a muitos anos-luz de onde estava, próximas ao conjunto de naves velhas e instalações antigas dos Isolados.
               
***

                Regulus mantinha sua consciência próxima a essas duas Memórias. Sabedor de que o sentido de tudo o que havia criado (aquele astro imenso com aparência de vidro-plastificado), por onde, através de uma lente, perscrutava o cosmos, estava em risco.
                Qual seu objetivo de existir? Preservava-se para quê? Regulus tinha que saber através da descoberta da Fonte de toda a Consciência. E havia algo escondido num setor de Memórias que ele chamava de Unidade Falha, um setor habitado por apenas aquelas duas, que ele vinha visitando recentemente.
                Visitando-as, ele percebia: estava próximo de uma área defeituosa. Qual o destino do desconhecido sem nome e da Observadora?
                Antes de ir a fundo nisso, observou que havia se passado mais novecentos milhões de anos, do tempo-padrão, no mundo exterior. Nem sinal mais das luzes distantes daquelas galáxias. Estava tudo frio e negro. Seria já o fim, antes mesmo de Regulus descobrir a resposta?
                Ele ou ela calculou. Antes do envoltório negro que protegia o seu corpo da parte exterior do universo se desfazer, haveria o tempo para uma última observação em seus arquivos, e dessa vez seria possível, talvez, descobrir o que realmente houve.
                Regulus tentou, mas com outra tática em jogo.

***

FORA DA UNIDADE FALHA, PERCEPÇÕES ACERCA DA MEMÓRIA 0:

                Deocleciano era parte homem, parte cérebro quântico. Tinha um corpo e um título: Prelado do Cruzeiro do Sul. Na prática, porém, era um historiador com idade multimilenar. Requisitado pela Confederação do Conglômero, um milênio antes dos acontecimentos retratados nas memórias da Unidade Falha, compareceu a uma reunião com o Condestável Prado Ludex.
                O ambiente tinha uma lareira artificial, numa nave luxuosa. Era uma sala de reuniões com uma mesa aveludada, duas cadeiras almofadadas, e um cheiro de incenso doce e leve. A reunião propriamente dita já havia começado há algum tempo. Agora, porém, ela se encontrava no seguinte estágio:

- Prelado, o senhor conhece o Projeto. Sua primeira parte foi corretamente concluída, como sabemos.

- Sim. Perfeitamente. “Os últimos três mundos faliram, milhares de anos após o planeta de origem ter seguido o mesmo caminho, com o gasto de recursos e o envenenamento do ambiente. As pessoas praticamente viviam em contêineres, fora dos mundos, ou no subsolo artificial. A população humana era pouca, e as espécies animais se reduziam a alguns mamíferos, pequenas aves de colecionadores e insetos para alimentação.”

- Conheço a História, Prelado.

- Mas não a viveu, como eu. Perdemos nossos mundos e não temos tecnologia de terraformação para fazermos mais lares viáveis em planetas, nem tecnologia de dobra para encontrarmos aqueles cuja localização conhecemos. Entretanto, o que você quer mesmo saber…

                Em voz baixa, o Condestável disse:

-…APOTEOSIS.

                Após breve silêncio, o Prelado prosseguiu:

- Há um tempo para tudo. Sou um dos milhares de guardiões de memórias que, através da captação dos fatos históricos pela velocidade fotônica, compreende as civilizações antes da espécie humana, nossa pré-história, nossas civilizações pré-espaciais, nossas civilizações pós-espaciais, o Primeiro Êxodo, a Colonização, suas inúmeras fases até que, há quase duzentos e trinta e nove anos, abandonamos os três últimos mundos e fundamos o CONGLÔMERO.  

                E seguiu adiante:

- Porém, caro Prelado, como sabemos: há tempo para tudo. Nossa religião observa que chegará o dia em que fundiremos as mentes de toda a espécie humana. Criaremos, conjuntamente, uma entidade, ela será capaz de criar matéria e observar o Cosmos e suas Memórias, em busca do que realmente queremos, e muito mais eficiente que nós com nossas mentes separadas: a Fonte da Consciência ou, popularmente, a Fonte das Almas. Por outro lado, isso nunca estará completo, porque uma parte importante da Humanidade e até de outras espécies inteligentes foram-se para sempre, devido à Grande Catástrofe…

                [Que Grande Catástrofe? Eu, Regulus, estou sondando este arquivo, mas não tenho meios de saber sobre isso. O que houvera? Logo, terei que despertar mais uma vez, talvez para a Morte. Ainda não sei o que houve. Porém, ainda tenho tempo…]

***

JUNÇÃO DAS MEMÓRIAS Fa0.016P E Af0.322G:

                Flavila pôde implantar o projeto, nos cinquenta anos seguintes. As ondas, com a ajuda dos mesmos neutrinos que comumente levavam as vozes e os sons do cosmos para quaisquer ouvintes, seguiram a incluir as mentes de todos os seres viventes. A essa altura, não havia mais outras espécies originárias da Terra, nem mesmo insetos, com exceção de bactérias, fungos e vírus – alienígenas não entravam na conta, nem na perspectiva do CONGLÔMERO. Antes da Grande Onda psíquica prosseguir até os Isolados, a Observadora ativou as naves-espiãs em modo de “caça”. Dito isso, elas atacaram diversas posições, incluindo as posições do desconhecido tio, filho e patriota comandante. Vamos chamá-lo de “K”.
                K. foi capturado, junto com os restantes, após 3 semanas de guerra. Porém, a origem da Falha: sua mente, além de ser isolada, era a última daquelas treinadas na arte do Sonambulismo, ou, simplesmente, na arte de espionar através do deslocamento de sua própria consciência durante o sono. Treinado em máximo nível, acima do que quaisquer um dos outros humanos poderiam fazer naquela época. Ele descobriu sobre o que estava sendo realizado. E, durante a fusão de mentes… negou-se!
                Aquilo provocou a materialidade da Unidade Falha, e da cegueira de Regulus. E Regulus percebeu. Não havia, simplesmente não havia, nenhuma questão sobre “Fonte das Almas” que não passasse de uma abstração teológico-filosófica de um tempo perdido.
               
***

                O negrume e o zero absoluto prosseguiam resolutamente. Nada brilhava, nem mesmo com o uso de filtros de imagem. Sem radiações, apenas a massa escura que logo seria desfeita. No interior de Regulus, nada de ar, gravidade, nada de pressão, vida como a conhecemos, nada. O pensamento, subitamente, ia adormecendo. A consciência, cuja causa era desconhecida, ia se esvaindo. Regulus não podia permitir, nem podia impedir.
               
Sou CONSCIÊNCIA! Sou a fusão de todas as mentes reais e virtuais, práticas e potenciais da Humanidade! Ainda que faltem todas as outras do Universo… como surgi? Qual a Fonte?

                O vazio o contemplava. Toda a técnica humana, que esbarrara tanto na terraformação como na tecnologia de dobra, servira apenas para enriquecer a mente de sonhos fugidios, de ilusões perigosas, de uma eterna caça a um ser invisível. E tudo aquilo em tonalidades que variavam do Interior de Regulus ao exterior. O exterior era apenas aquele espaço negro que se repetia… o Interior, aquelas memórias que lhe eram ele/a mesmo/a e, ao mesmo tempo, algo mais. Algo mais, pois as coisas nunca eram as mesmas quando Regulus mergulhava em si mesmo. As memórias sempre mudavam um pouco. E agora era o seu Fim, o Fim do Universo e o Fim da Humanidade. Deus se punha no horizonte… até que algo distante brilhou: era uma lâmpada incandescente!

***

- Deu certo, Senhor. O Doutor Herculano conseguiu! – disse o rapaz bem vestido, de modos educados, num escritório apertado, enquanto aquele velho com o cachimbo na boca tamborilava a mesa.

- Entendo, Galba. Já sabia, já sabia. O Doutor Herculano é um homem muito capaz.

- Então, Senhor, vamos?

- Só um minuto.

                O velho guardou o cachimbo. Era 1927. Rio de Janeiro. Tudo estava ficando diferente nesse mundo moderno. O Doutor Herculano – há alguns anos inventor do primeiro cérebro sintético no Instituto Tecnológico de Niterói – criara um método revolucionário para despertar aquele cérebro.
                Em meio à necessidade de criar uma mente sintética, era preciso simular um sono antes do nascimento. E, nesse sono, um sonho de inauguração daquela consciência. O homem sintético tinha quase dois metros de altura, era branco e de aspecto ibérico. Chamava-se “Regulus”. Antes da imprensa saber, os dois foram até o laboratório. A notícia era bem recente.
                Estavam frente a um estranho deitado, com, ao redor, inúmeras máquinas, uma luz cintilante por cima, olhos abertos e espantados, prestes a dizer as primeiras palavras. Mas, quem falava algo era o Doutor Herculano:

- Doutores, bem-vindos. Regulus está acordado.



FIM


Autor: João Batista Firmino Júnior.

domingo, 26 de outubro de 2014

Sugestão de músicas

Sei que, infelizmente, de muitas das músicas que gosto nem o nome sei; infelizmente, também, com o formato MP3, apesar de toda a popularização da música, a qualidade acústica diminuiu. Porém, nada melhor que ouvir certos instrumentais e algumas raras músicas cantadas.

Comecemos com as músicas cantadas: realmente, tenho pouquíssimo gosto por músicas não-instrumentais. Mas, há aquelas que traem um sentido emocional capaz de nos atingir, como a música A Lista (de Oswaldo Montenegro), as de Demis Roussous e algumas de Luiz Gonzaga. 

No campo das instrumentais, evidentemente, não temos apenas as músicas clássicas eruditas, mas diversas variações modernas, além das adaptações igualmente recentes de músicas clássicas eruditas. Aprecio algumas das músicas tocadas na forma criada pelo David Garrett, porém, normalmente, em evidência temos as clássicas eruditas propriamente ditas.

Nesse campo, as músicas calmas de Bach, uma específica de Brahms (creio que seja o terceiro movimento da terceira sinfonia ou algo assim), a Humoresque de Dvorack, e também temos uma das variações das Danças Eslavas do mesmo Dvorack.  

Há certas composições de Debussy, por exemplo, perfeitas para um cenário de filme de Fantasia que realmente reflita mais do que uma ficção de fantasia comum: mas um estado de espírito, capaz de representar toda a inocência possível da Criação. Como se víssemos os campos e as florestas temperadas surgindo, numa imagem embaçada pelo senso de antiguidade e de valor do que "vemos". 

Porém, existe uma composição chamada "Algerian" que só encontrei uma vez em um antigo LP. Infelizmente, em mais nenhum canto. Essa composição tinha familiaridade, ao menos para mim, com o terceiro movimento da terceira sinfonia de Brahms - porém, partindo para um destino diferente.

Há um "Fantasia" de Mozart belíssimo, cujas especificações não domino. E as virtuoses do piano, desde os antigos Lizt e Chopin até a mais recente Marta Argerich. Passando pelo Brasil, naturalmente, com as Bachianinhas de Heitor Villa-Lobos.

Também temos as outras instrumentais, como Rondó Russo, Mourir a Madrid, algumas das de Richard Clayderman e as de Zamfir. E, claro, as composições e interpretações do violonista Dilermando Reis.

Enfim, são diversas opções que, aos poucos, terminam fugindo do comum. Porém, devemos levar em conta que música também é momento, tanto físico como "espiritual". Um momento de paciência, de contemplação, de percepção dos detalhes e de toda sua continuidade. Em minha vida mesmo, passei a gostar de músicas específicas e a esquecer de outras; e ainda há as diferenças de cada pessoa, de cada percepção, que não vão nunca "sentir" algo da mesma forma que eu ou você, nem nós vamos nunca "sentir" algo de musical da mesma forma que quaisquer outras pessoas. 


Assinado: João Batista Firmino Júnior.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Últimas considerações para o segundo turno das eleições presidenciais (2014) ou "Nós, os pequenos"

Olá. Hoje, faltam dois dias para as eleições, quando poderemos depositar nossa crença (ou descrença) em nossos respectivos candidatos.

Verifiquei que vivemos num momento muito acirrado, algo muito além da conta, em alguns casos. O que devemos entender e sentir é justamente que a verdadeira oposição que existe é entre o povo e o exercício direto e objetivo do Poder por parte daqueles a quem elegemos. Ou seja, seja qual for nossa escolha, nosso verdadeiro lado é entre nós, os eleitores comuns, aqueles que não exercem cargos políticos de nenhuma natureza. Nós, os pequenos.

Infelizmente, sobre as opções disponíveis, sobre as candidaturas que teremos à nossa frente na tela da urna, não há mais a possibilidade de "amar" uma candidatura, de crer cegamente em alguém. Isso fica para quem é marinheiro de primeira viagem, para quem está começando. Faz parte do amadurecimento a existência do "antes".

Porém, nós, que já votamos há alguns pleitos, devemos pensar muito além da lógica de "torcida de times de futebol". O Brasil não é naturalmente dividido no sentido absoluto, pleno e irresolvível. Somos o que somos, brasileiros repletos de identidades transversais. Somos ao mesmo tempo diversas coisas, e poucos seriam "perfeitamente" encaixáveis como "elite" ou "povo" no sentido ideológico desses termos.

Somos um só país. Nordeste, Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Votamos em Dilma, votamos em Aécio, votamos Nulo, votamos Branco, ou justificamos nosso voto - mas nós, os pequenos, aqueles que não possuem os benefícios que os políticos - honestos ou desonestos - possuem em suas vidas privadas, estamos na mesma ao termos condições de vida diferentes das condições de vida deles.

Há divisões? Há. Não nego. Mas, essas divisões, como digo aqui, não são absolutas, nem irresolvíveis, nem eternas. Tudo possui um fim. Há o racismo? Há. Mas, apesar do racismo, ainda somos uma mesma natureza (com exceção do caráter de cada um, evidentemente), somos biologicamente miscigenáveis e culturalmente hibridizantes.

Há militâncias e condições de vida relativas à orientações sexuais? Há. Entretanto, como disse, as identidades são tão "transversais", havendo tanto elementos que separam como elementos que unem, que tais situações nunca são verdadeiramente absolutas quando pensamos melhor. Todos podemos nos entender.

Há homens e mulheres, que, naturalmente, somente existem na troca constante e geracional entre eles, entre nós mesmos. Homem não nasce sem mulher, e mulher não nasce sem homem. Somos um só, em essência última e fundamental chamada "espécie", alma, inteligência e sofrimentos de vida.

Há os petistas e os tucanos? Há. Não faço parte de nenhum dos dois grupos. Voto por escolhas individuais, por candidatos e candidatas específicos. Mas, antes de petistas e tucanos, todos são brasileiros.

Que domingo próximo seja um dia não de mais acirramento, azedamento das relações familiares ou amizades desfeitas. Que domingo próximo seja aquele momento de festa da democracia, em que cada um vota secretamente em quem desejar, e que, no final, todos possam se reunir para uma boa refeição, seguir com suas vidas e, seja qual for o governo eleito, que saibamos fiscalizar e que sempre torçamos pelo Brasil.


Assinado: João Batista Firmino Júnior. 

domingo, 12 de outubro de 2014

(Conto) Carrossel Onírico

Andando pelo corredor do seu apartamento, um senhor de meia-idade, com sua mala de trabalho, entrou no elevador vazio. As portas se fecharam.

A iluminação, naquele início de dia, era precária naquele lugar apertado, sem câmeras e sem espelhos. Fazia calor, enquanto o homem engravatado esperava, pacientemente, a jornada de vinte andares para baixo.

Ele tossiu, sentiu aquele abafamento, alargou a gola e desfez um pouco a gravata. Olhou a hora, mas o relógio estava parado. O elevador não fazia nenhum som.

A espera foi uma constante, os vinte andares não passaram. Havia um frio na barriga e, nervoso, o engravatado, percebendo que o elevador estava parado, apertou o botão de ajuda. Nada.

Apertou várias vezes, todos os botões, atabalhoadamente, quando veio o som guinchante, de alguma coisa grande e pesada vergando para algum lado… Ele acordou em sua cama. Havia sido apenas um sonho! Mas a realidade também era estressante: estava atrasado para o trabalho novo.

Levantou-se, arrumou-se, fez tudo para não se atrasar, enquanto seu coração batia rápido, abriu a porta e… acordou no elevador!

Tudo ainda estava claudicante, o suor ocupava os seus olhos e testa. O engravatado não sabia mais o que era sonho e o que era realidade, ou se os dois cenários eram sonhos. Onde ele estaria realmente?

Tentou pedir ajuda, gritar, mas a voz não saía de sua boca. Chutou e esmurrou as paredes cada vez mais próximas, por horas e horas. Cansou-se. Na realidade, vinha se sentindo cada vez mais cansado, até abrir os olhos. Estava, agora, em um metrô vazio, voltando para casa após o fim do expediente naquela noite chuvosa. O que havia sido tudo aquilo? Bem, ele insistiu em tomar aquelas pílulas para se manter acordado, sabendo que estava finalmente vivendo no mundo desperto, conhecedor de toda a sua rotina do dia, tudo bem coeso e vívido, indicando que estava finalmente acordado. Entretanto, sua cabeça doía. O metrô parou, ele tentou sair e… após uma sucessão de tonturas e sensação de dormência, caiu. Caiu como morto, aos pés de um homem de negro, altíssimo, encapuzado, que, rapidamente, antes das pessoas aparecerem, sumiu.


***


- Foi o que eu sonhei, doutor… O pior é que eu não sabia se estava na condição de testemunha ou se eu mesmo era o homem de preto.

- Concentre-se mais um pouco e tente descobrir o que veio depois.

Eu tomei um copo de água, naquela tarde modorrenta, enquanto o ventilador do teto fazia um lento e desagradável pteco-teco. Tentei relaxar, fechei os olhos, e as imagens iam vindo até mim.


***

“As gotas caem do cano por trás do lavabo alvo, eivado de traços rococós, naquela sala extremamente imunda e escura, quase totalmente escura. Há um burburinho e restos de uma cortina vermelho-cinza. Além disso, para minha surpresa, adiante, há centenas de manequins feitos com peças desproporcionais, franksteinianos, com os mais diversos panos e roupas dos mais distantes séculos.
Eu sou eu mesmo vendo um boneco de madeira olhando suas próprias mãos ásperas de material de má qualidade, porém consistente, de pé, com as costas levemente corcundas, olhando também para tudo aquilo, para todo o cenário, e para uma janelinha que fica bem em cima, de vidro arredondado ou hexagonal, expondo um dia chuvoso.
Algo se move por trás daquela galeria, é o manequim de uma senhora com uma cesta de cascas de raízes com um xale rosado cheio de pó de serragem. Dela, começa a emanar um balbucio…”


***

Cícero parou.

- Não consigo… não quero prosseguir. O que mais me estranha é que essas imagens, que esses sonhos, nem parecem meus, doutor.

- São seus, a sua vida pagou por eles para você.

Cícero saiu de frente do espelho de sua casa, onde fingia estar falando com algum tipo de psiquiatra. Parou com tudo aquilo, ajeitou sua valise repleta de recipientes contendo pílulas para dormir, e, de um jeito meio acanhado, de ombros baixos, e chapéu preto, preparou-se para sair àquela noite.

Ao abrir a porta de casa, naquela escuridão densa que caía com força numa ruela cheia de pedregulhos, topou com uma novidade: havia uma senhora do lado de fora.

- Quer seu dinheiro de volta?

- O quê?! Não, não. Eu quero minha paz de volta. Quero voltar a dormir.

Foi quando eu acordei.


***


Lavei meu rosto, na minha pia sem espelho, e esperei que aquele balbucio sem sentido desaparecesse de minha cabeça. E, antes de acordar de verdade, pensei numa história, num Conto adequado para desenvolver minha própria capacidade de concatenação e lucidez de raciocínio... Sei que pensar a história já era a história, essa é que era a verdade, e a fiz em cinco minutos, sentado no vaso sanitário.

Uma história ou uma lembrança de algum sonho antigo?

Bem, o que me vinha à mente era uma casa velha, onde morava um homem sem idade chamado Cícero…

***

Ao sair do quarto modesto, Cícero carregava seu revólver. Não aguentava mais aquela dependência de ter que fazer os outros dependentes dele.
Distante, fora do casarão, ele sabia o que as pessoas diziam: que ele se achava o próprio Morpheus, o próprio senhor dos sonhos. O ex-vendedor de seguros acreditava estar vendendo para as pessoas de aspecto muito feliz a única coisa que realmente pertence a todos nós. Em troca? Uma mania saciada.
Uma bela noite, a casa perguntou a ele:

- Por que fazes isso?

- A venda, para mim, é fundamental. Dou sempre um sonho para essas pessoas… - dizia “pessoas” com tom de ojeriza – Elas querem um sonho, não? Agora, se são pesadelos…

- Você acha que um dia vai conseguir me vender? Logo eu que sou o guardião do pior pesadelo de sua coleção! - dizia a casa.

- Veremos.

***


Qual poderia ser o pior pesadelo de Cícero, o representante simbólico de um Humano? Eu tive a coragem, no lugar dele, de sair de meu lar e, após sua morte num sanatório, largar a parte fictícia de minha história em minúscula e mergulhar na História em maiúscula. Fui até aquele casarão de dois andares, com madeira corroída e muitas baratas e escorpiões, bem como formigas negras grandíssimas.

Vasculhei por todo o canto para saber o que poderia ser o pior pesadelo de um ser humano. Até que, em certo ponto, achei um quarto escondido no porão. O recinto era claustrofóbico, mas não me metia medo.

Havia uma caixa. Apenas uma caixa. Aliás, um baú. Arrombei-o (metaforicamente, claro, pois tudo aquilo era e é construção minha, de minha imaginação).

Nele encontrei: a Loucura, o Desespero, a iminência da Morte. Não havia NADA ali, apenas minha apreensão por não haver nada. Minha obsessão não foi saciada, eu não sabia mais exatamente o que procurar, até perceber… que aquele meu estado era o que eu próprio procurava!

Foi quando percebi, inclusive, que Cícero não era Cícero, mas algo externo a minha imaginação… e que estava vivo. Questionei em voz alta:

- Quanto você me cobrou?

Uma voz baixinha me respondeu:

- Apenas sua disposição.


Imediatamente, senti-me arrastado numa velocidade frenética até a minha cama… começava tudo de novo! Cama, elevador, metrô, psiquiatra! O senhor dos pesadelos é de cada pessoa, e cada pessoa é o seu próprio fabricante de pesadelos.

Autor: João Batista Firmino Júnior.

domingo, 28 de setembro de 2014

Uma neurose

Não sou bom em criar títulos. Apenas quero falar aqui sobre o que penso de muitos de nós homens heterossexuais e suas queixas envolvendo relacionamento afetivo, romantismo ou anti-romantismo, dilemas, casos, auto-estima baixa.

O que é obviamente visível, em primeiro plano, é uma série de homens pós-modernos, que se comportam felizes num simulacro de dores e prazeres em suas relações com as mulheres, temendo uma série de coisas, sentindo-se desprezados, desejando um controle de um jeito ou de outro, queixando-se das mulheres.

Em segundo plano, pessoas como eu, enxergando diferentes dimensões da vida cotidiana (ainda que isso não seja extraordinário), e que sentem um mundo repleto de neuroses, complexos, labirintos, simulacros, em que se vive a obsessão sobre o que as mulheres vão achar, medo de rejeição, ódios e amores.

Um homem saudável, e creio que também uma mulher saudável, não vive obcecado pelo jogo entre os sexos - nem no sentido de repudiar tudo e virar eremitas, nem no sentido de viverem prostrados diante de sua própria baixa auto-estima, seu desprezo auto-depreciativo, sua misoginia, no caso dos homens (que parece só fazer sentido numa mistura de atração e repulsa, nunca de uma repulsa absoluta). Um homem saudável busca uma série de dimensões na vida cotidiana na construção de seu bem-estar e de sua sobrevivência.

Você vive, deixa viver. O mais próximo de uma obsessão é construir algo realmente, construir um sustento profissional, fomentar projetos, criar algo maior que uma lista de conquistas amorosas e sexuais. Trata-se de enxergar um projeto de vida, natural e filosófico ou sobrenatural. Ao mesmo tempo, não repudia relacionamentos amorosos. Eventualmente, namora.

Um homem saudável, uma vez que, mesmo sem procurar, termine namorando, sabe que uma mulher também é um ser humano. Ela terá a oportunidade de ser e fazer diversas coisas simultaneamente, desde que respeite as leis da Física. Não há controle. Ele, se for saudável, sabe que sua auto-estima é autônoma, e não "acredita" ou assume como parte de sua identidade o que a companheira diz sobre ele (se ele é maravilhoso, é o que ela diz; se ele é desprezível, é o que ela diz... tal qual qualquer um poderia dizer). Pois, o que esse homem é realmente ele vai saber, é somente ele quem vai determinar. Somente ele cuidará de sua auto-estima, sabendo-se uma ótima pessoa ou não.

Mas, voltando a um ponto que creio ter delineado vagamente: a mulher não é uma categoria a parte. É uma pessoa, antes de ser "mulher", tal qual um homem é uma pessoa antes de ser "homem". A mulher também não é a mãe do sujeito, e nem a mãe de ninguém será alguém sobrenatural. Um homem saudável não segue uma dependência afetiva muito forte, ainda que sempre vá existir alguma, nem se deixa levar pelos estereótipos do que deveria ser uma mulher em sua vida e cultura, e do que deveria ser, enquanto homem, para as mulheres. Saudavelmente, ele viverá uma autonomia. Há pessoas, apenas. Projeto mesmo de vida, é quando você FAZ algo, algo todo seu, algo que independa de atração ou indiferença de mulheres "poderosas" sobre ele.

Eu mesmo, satisfaço-me com a ideia de ter autonomia em minha vida, de conseguir um emprego, de exercer uma carreira, de dominar o jogo da vida (e não as mulheres, que fazem parte da vida). Eu construo minha renda, meu patrimônio, minhas crenças sobre o mundo natural ou sobre um mundo sobrenatural todo meu (sem impor isso a ninguém, até porque ter crédito dos outros ou não sobre suas crenças não deveria interferir na auto-estima de ninguém). Eu construo meus textos, onde eu posso ser um demiurgo - imperfeito, mas ainda assim um criador. Eu vivo numa missão de exploração da vida, do cotidiano, espero pela morte não esperando por ela, e, após ela, quem sabe, tenha uma continuidade.

Eu, apenas, vivo em paz, sem tantas neuroses, sem tantos dilemas que são perdas de tempo. Eu assumo apenas os dilemas verdadeiros. Vivo melhor. Não dependo de me preocupar com apreço nem desapreço de ninguém. Não aumento nem diminuo as mulheres. Não quero nada de ninguém, salvo o que faz parte das trocas do dia a dia (e mesmo assim sem ser algo que me doa tanto).

Se eu estudo, eu não me distraio. Se eu trabalho, eu não penso em ninguém. Eu faço, eu existo, aproveito cada refeição. Não preciso ser amado, não preciso ser odiado. Se alguém, muito "zeloso" sobre minha pessoa, quiser olhar para meu exemplo, poderá, assim, talvez, me desprezar como um fracassado, ou me julgar como um complexado - mas somente à primeira vista. A segunda vista ideal é que esqueça de me analisar.

A verdadeira entrega no Amor não é eu me entregar totalmente a uma mera paixão (isso é capricho). Não é eu ser carne da carne de uma companheira. Não é eu "consumir", antropofagicamente, as mulheres que quero que me elogiem e que façam tudo o que quero e que adivinhem o que quero e façam. Mulheres são pessoas. Eu também sou uma pessoa, é o que importa. A verdadeira entrega no Amor é aproveitar o que possuir de autonomia em meus pensamentos e em minha vida. Observar o que puder observar, o que for interessante, sem que isso seja um peso para mim. Porque as pessoas "consomem" o mundo; não olham para ele. Eu quero olhar para o mundo, mas leve como uma pluma, sem "consumir" nada.


Assinado: João Batista Firmino Júnior. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Resenha: "A arma escarlate" de Renata Ventura



O livro, lançado em 2012, quase me passou despercebido. Não vinha acompanhando o panorama da literatura brasileira deste milênio. Após sua leitura, pensei em realizar uma resenha simples, em primeira pessoa, sobre o que li, sobre o que a obra me passou.
Basicamente, temos um espaço fictício, comandado pela Renata Ventura, que se posiciona no mesmo universo maior da saga Harry Potter de J. K. Rowling, donde se desenvolve um panorama completamente brasileiro. Isso lhe confere originalidade, a exposição do conjunto da cultura brasileira e sua atualidade – as referências ao nosso campo nacional em termos culturais, históricos e em termos sociais.
Idá/Hugo, personagem principal, é um garoto de 13 anos, morador da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, com a mãe e a avó. Eis, assim, um dos mundos em que ele vive, mundano, violento, sem milagres. Talvez uma esfera de existência mais parecida com as obras dos jornalistas Caco Barcellos e Zuenir Ventura. Traficantes, policiais corruptos, uma sociedade indiferente, refletem-se na obra.
Porém, há outro mundo. Um mundo que considera prioritário a condição de “bruxo”, independente das origens mundanas do escolhido ou escolhida, independente da raça, da formação educacional, da região brasileira, dos defeitos e das virtudes de qualquer um. Um mundo que, como um milagre, atravessa radicalmente a inércia do cotidiano brasileiro, e, tal qual um bilhete, atinge Idá/Hugo onde quer que ele vá e onde quer que ele esteja.
O personagem principal é uma mistura. Uma mistura de criança com jovem adulto, com boas e más intenções, mas repleto de vergonha por suas origens, por aquilo que ele é ou aparenta. Idá é colonizado e adota o nome “Hugo”. Não quer ser aquele indivíduo da favela, marginalizado, com um nome original de um dos principais povos que constituiu o Brasil. O reinado de uma terra distante e dominada pela Europa passa a ser, simbólica e verdadeiramente, repudiado por ele, que tenta emular a imagem de um garoto tipicamente brasileiro, de classe média e filho de bruxos. Sim, há esse outro preconceito, essa outra “vergonha”.
O cerne da história se dá na Nossa Senhora do Korkovado. Lá, ele tem que conciliar os dois mundos em uma escola que tenta ignorar sua brasilidade (de acordo com os ditames do Conselho). Esse cenário à parte envolve personagens que tipicamente representam adolescentes, alunos, interações que vão do bullying à amizade.
Toda a narrativa é centrada nesse conflito entre dois mundos: um mundo uniforme e pretensamente europeu, e um mundo brasileiro, não-bruxo, estampado nas páginas policiais. O conflito segue por diversas camadas, até explodir em algum ponto. O que realmente mantem a sanidade é a criação de um terceiro e pequeno universo: o mundo paralelo dos Pixies, grupo formado por Viny, Caimana, Índio e Capí – além de Hugo. Não esqueçamos do professor Atlas e sua associação com o grupo. Contra eles, o Conselho e o grupo formado pelos Anjos.
Esse jogo de espelhos ao mesmo tempo conflita e conflui o real e o virtual – ou, simplesmente, duas formas de realidade. Porém, sempre com os mesmos elementos brasileiros: pressente-se corrupção das autoridades dos dois mundos, policiais claramente corruptos, vilões… mas, também, mistura de diferentes origens étnicas, morais, de classe social etc. Todo esse “jardim” se mantém bem distribuído em cenários grandiosos e amplos, cenários que se refletem tanto no chão como no céu, para mim quase tão vivos e extraordinários quanto os cenários que imaginei ao ler O Silmarillion de Tolkien. As obras, naturalmente, não são as mesmas, entretanto, o modo de fazer que permite a imaginação dos leitores não está longe dessas referências.
Apreciei a escrita, que segue aproveitando diversos aspectos daqueles universos e de seus enigmas. Ela se subdivide nos dois semestres do ano letivo da escola. A narrativa é relativamente longa, não tendo sido possível resolver muitos pequenos enigmas, dentre eles o da origem da varinha escarlate de Hugo, os mais variados segredos da floresta, o porquê da diretora Zô ser tão aérea, o mistério sobre a morte da mãe de Capí e do filho de Atlas, a história de vida do gênio contador de histórias, ou o mistério da garota por quem Hugo se apaixona. Por isso, merece continuar em diversas outras obras.
 O único ponto que me chamou logo a atenção na forma de escrever a história, diz respeito ao uso de aspas no lugar de travessões para representar diálogos. No prosseguir da leitura, porém, percebi que diversas nuances na troca de falas e de pensamentos, com a representação das emoções, teriam ficado mais claras, com a troca de falas e de tipos de manifestações de pensamento mais bem delimitadas que através do uso dos travessões. Houve, no longo prazo, uma facilitação na compreensão dos pormenores dos personagens através desse recurso não muito comum.
Também é digno de nota observar o lado psicológico do personagem principal, seus medos, suas ambições, seus ódios, seus conflitos, tudo bem narrado, de forma a dar naturalidade àquele ser que conduz a história, com seus inúmeros defeitos e fraquezas.
Por outro lado, eu poderia apontar defeitos? Seria mais adequado numa resenha que, mesmo amadora, seja neutra. Defeitos técnicos eu não apontaria, porque não sou um especialista – exceto se esses defeitos fossem muito explícitos. Eu diria, apenas, que poderia discordar de um ponto ou outro do encaminhamento da história; ou que determinados acontecimentos, mesmo num contexto bruxo, não aconteceriam na vida real salvo por muita e improvável coincidência; ou que determinadas partes da obra teriam sido dispostas mais para ganhar páginas que para fazer a narrativa andar. Uma questão que eu chamaria de “irrealidade” é a fragilidade da sociedade bruxa brasileira, seus preconceitos, a ausência de denúncias contra determinadas formas de comportamento de integrantes do Conselho da Korkovado, e a possível ausência de muitas boas referências no mundo dos não-bruxos (azêmolas ou mequetrefes). Eu penso que, na vida real, algo daquela natureza (aquela sociedade bruxa, aquela escola etc), apenas por motivos comportamentais e sociais, desabaria em pouco tempo, ao invés de durar séculos. Mas, há uma crítica negativa forte e passível de ser inferida: se a obra pertenceria ou não à categoria nada original das “ficções de fã”.
Vejamos…
Diante de todas essas especificidades, e de tantas outras que não pude dispor aqui, não posso afirmar que meramente por se situar no mesmo universo maior em que se situa Harry Potter, a história possa ser resumida à categorização de “ficção de fã”. Há suficiente originalidade, há um universo menor (em relação ao mundo fictício que pode abranger diversas e diferentes obras literárias que envolvam bruxaria coexistindo com as sociedades cotidianas), mais voltado ao tipo de magia brasileira e capaz de inferir as diferenças dos diversos “mundos bruxos” conforme nações e continentes, que realmente caracteriza a obra. Não vemos personagens de Harry Potter, nem referências específicas que não sejam, meramente, indiretas e subalternas. Também não enxerguei qualquer tipo de plágio – não que não haja alguns conceitos existentes também na saga britânica. Não basta a narrativa ser situada no mesmo universo maior de outra obra ou saga, nem possuir um outro conceito equivalente ou idêntico: é preciso que tudo aquilo que a torne única só faça sentido com a obra ou saga original. E não foi esse o caso que eu vi. Se Harry Potter não existisse, as referências culturais, de mitos e lendas, e até de conceitos, seriam plenamente úteis à obra de Renata Ventura. Ela não “precisou” dos livros do bruxo britânico para construir a história de nosso bruxo da favela Santa Marta. Mesmo certos conceitos, partem de um suporte cultural anterior a qualquer obra ficcional envolvendo bruxos adolescentes.
            E, para finalizar, se ainda se insiste que esse livro de Renata Ventura “depende” de Harry Potter, ao menos posso dizer que cabe discussão, que ainda há um espaço para discutir isso. Nada é tão simples, tão taxativo, quando se constrói uma obra que necessariamente parte da subjetividade de uma escritora para a subjetividade de tantos leitores.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.