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terça-feira, 19 de agosto de 2014

Dois Mundos (Conto)

Bord voava sobre a relva macia, sentindo o vento e o odor das plantas e da terra molhada. Nuvens e mais nuvens avançavam, encobriam-no, e o abandonavam. Foi tudo tão rápido… finalmente, chegou ao topo de Onenhanga.
            O frio tiritava, e ele seguiu andando, reagrupando suas asas e aproveitando-se de sua natural plumagem. Ele avançou pela gruta do topo, soturna, com suas estalagmites antigas e sua escadaria majestosa. Foi a hora de descer.
           
- Bordenave…

            Um sussurro vago. Era o Perpétuo. Ele, chamado, se apressou, repuxando seu saiote, e adentrou-se mais e mais. Chegou a um ponto, um corredor.

- Estou aqui! - ele gritou.

            O corredor era curto, mas bem iluminado com tochas de luzes negras em meio àquela claridade cegante. E o chão, liso, aconchegante, para aqueles pés visitantes. Silvos e silvos tilintavam de algum lugar ao redor. À frente, o som das águas.
            Bord chegou. Após a passagem por Onenhanga, um píer descolorado para o Abismo. Ele virou-se para uma torneira, ao lado, e molhou seu bico, rosto, olhos. O Perpétuo também voava, estava por perto. Era pura voz.

- Pule e comece a pensar. Imagine. Seu trabalho com os signatários da William Blake foi aceitável. Precisamos, agora, de novas ideias.

            Bord abriu suas asas, na base do píer, e pulou. Aquela força penetrou-o como se ele fosse puro ar, e ele tentou imaginar.


***


- Duzentos e nove anos de trabalho não resolvem tudo! – dizia um dos dois homens que andavam pela Aeroviária Phir, a principal de Montevideo.

- Não resolvem tudo, Chagall, mas adiantam muito. Os nódulos peridimensionais podem parecer seguros hoje, mas, a cada dia, hackers vão se aproximando…

- O boato da chave-mestra… claro, mas não será em nossa geração. Vamos entrando?

            Os dois homens, perto dos sessenta anos e de impecáveis ternos, embarcaram numa cápsula que foi lançada como uma bala magnética.

- Theodor, meu amigo…

- Ei, Chagall, – Ele interrompeu-o. - por que será que ainda usamos o magnetismo para este tipo de transporte? Sei que não é o mesmo tipo de magnetismo de antigamente, mas…
- Certamente porque venceu, aparentemente, a “seleção natural” da usabilidade tecnológica.

- Ah, claro.

            Chagall sumiu, após o que parecia ser uma pistola ser usada contra o próprio crânio de Theodor. A cápsula parou depois que os sensores perceberam o sumiço da batida cardíaca do único homem que estava naquele transporte, imaginando um outro.

***

            Ele sentia o vento sob suas asas, a adrenalina ora aumentando, ora se estabilizando, um voo nem para cima nem para baixo. O Perpétuo continuou a enviar mensagens para a mente de Bord, para que ele se concentrasse. E assim foi feito, como sempre foi feito. Havia um lugar em mente.


***

            Oito horas depois, o Inspetor David Tenerife estava diante do que ele e seu contratante (que não era apenas o Estado) achavam que era um falso suicídio.

- Theodor? Apenas Theodor?

- Ele foi registrado assim, senhor. Sem sobrenomes. – respondia um assistente, pelo microtel em um dos ouvidos do Inspetor, que o desligou abruptamente.

- Esse foi o nono… em dois anos. – disse a oficial Clara Montepio, ao seu lado.

- É, e eu terei que avisar à PeriCorp antes que os metidos da… da outra Divisão barrem tudo.

            Ao virar-se, ele sentiu uma mão em seu ombro. Ainda era a oficial. Tinha algo a dizer. Distante dos outros, eles se olharam com paixão, e ela disse:

- Você promete que não vai agir fora das regras?

            Ele não respondeu, por um momento. Até dizer:

- Só uma tentativa. Só para ter certeza… Você sabe que o foco de toda essa história não somos nós. Isto aqui não tem começo nem fim realmente claros… Devemos partir de acordo com essa falta aparente de lógica. De qualquer forma, será só uma tentativa de entendermos o outro mundo para entendermos o que se passa aqui.



***


            Bordenave percebeu-se, depois de um tempo infinito, de pé sobre um lamaçal quente, um cheiro de merda, uma paisagem desolada de fogo e miasma. Atrás de uma rocha de seu tamanho, porém, ele encontrou um chão limpo e uma chave dourada com asinhas de metal da mesma cor. Ele a pegou e virou-se para uma fechadura na rocha. Sim, o sonho do Perpétuo poderia dar certo, enquanto o programa chamado “Bordenave” agia como uma perfeita ferramenta. O que seria esse sonho? Perpétuo dissera a ele, quando de sua criação, que se tratava do acesso a todas as mentes humanas conectadas aos aparelhos da PeriCorp. Só faltava uma última confirmação de seu mestre para a ação final.
           


***


            A Fundação estava em ordem, vista do alto daquela cúpula geodésica cujo ponto mais alto afigurava-se a novecentos metros acima do chão e a dois quilômetros e cem metros do nível do mar. Ao lado de um homem alto e calvo, de pé e à frente da janela-espelho que pairava como uma lente espessa e grandalhona, um telefone toca. O viva-voz é acionado.

- Senhor Sigurd? Presidente Sigurd Kaesta?

- Sim?

- O lançamento ao público da quinta versão do PeriSoft foi um sucesso.

- Ótimo. Alguma novidade sobre o planeta Apsan?

- …

- Alguma novidade?

- É melhor falarmos da cura pessoalmente. Podemos nos encontrar esta noite em seu escritório?

- Feito. Venha daqui a seis horas.

            Nove horas e meia depois, a polícia estava diante de um corpo. Um aparente suicídio. A vítima: o Presidente da PeriCorp Sigurd Honor Kaesta. Morto, aparentemente, apenas por sua esquizofrenia, naquele afã por uma cura que nunca era completa mesmo naqueles tempos de milagres técnicos.


***


            “Ok, Ok, Bord, mas onde está o algoritmo? A chave, por si só, não abre nada.”, pensou o ser alado. Enquanto isso, no mundo real, o Inspetor procurava, para aquele caso reaberto, a ajuda de alguém especial, uma hacker.
            Nervoso, diante daquela porta de madeira sintética, ele apertou a campainha. Sua sobrinha, com a qual ele já tinha falado por telefone, atendeu.

- Dóris?

- Entre, tio.

            Tudo já havia sido informado, menos alguns detalhes.

- Trouxe o que pedi? – questionou ela, diante de suas luvas, que a cobriam até os cotovelos.

            O Inspetor tirou do bolso um estojo e, dele, uma pastilha. Cuidadosamente, Dóris, uma bela ruiva de cara fechada, sentada em uma poltrona feita especialmente para perinautas, em um quartinho após a sala de estar, fixou aquele material em uma entrada parecida com uma USB do início do século XXI. O material da poltrona, em seu braço direito, sugou aquilo como num gole.

- O que você quer que eu procure exatamente?

            O Inspetor respondeu com uma pergunta:

- Você conhece o boato sobre o Perpétuo, não?

- Sim, claro. Uma espécie de “mestre dos mestres”, que devassa tudo. Está em ação há dois, três anos…

- Correto. Desde que os crimes começaram. Você sabe que estou agindo por palpite. Não quero ser derrotado neste caso. Não será desta vez… não mesmo.

            Ela se concentrou, enquanto o tio ficava numa cadeira próxima, perto da janela, tomando seu lact, uma bebida cheirosa a base de leite misturada a alguma coisa alcóolica.


***


            A rede de “satélites” quânticos, ou peri-servidores, estendia-se da atmosfera da Terra, perpassando seus subterrâneos e concluindo-se em um manto dimensional cuja acessibilidade se dava, parcialmente, pelos sonhos ou por algum estado de consciência alterado que, diferentemente do que se pensava antigamente, nada mais era que uma janela a um novo espaço fora dos padrões rígidos da velha Física. Um novo espaço sem uma correlação linear entre os diferentes nódulos, cofres ou nós distribuídos pelo sombra supostamente “espiritual” do universo. Uma dimensão normalmente chamada de “Perimundo”, onde estariam reunidas almas que nada mais eram que “HDs” contendo praticamente todos os saberes – e todos os deleites inúteis – da atual e da antiga Humanidade.
            Quem nos traz essa informação? Os rastros de Bordenave. Ou melhor, aquilo que Bordenave tinha que saber para agir.
            Voltemos a Doris. Ela, ex-funcionária da PeriCorp, agindo sem autorização oficial, apertava-se num carro-moto que singrava aquela “apoteose de todos os desertos”. Algoritmos passavam pela mente dela, um tanto quanto diferente por ter nascido em Apsan (boatos diziam que os filhos dos experimentos daquele planeta possuíam um segundo cérebro)… Bem, pensamentos demais, como esses, povoavam a mente daquela mulher. Sua concentração tinha de ser devotada totalmente aos algoritmos e à lógica ilógica de toda aquela “dimensão paralela” (como diriam os leigos).
            Finalmente, em um mundo iluminado, mas sem sóis nem nuvens, ao largo de pedregulhos que mais pareciam ovos marrons, erguia-se um castelo gótico. Ela pensou: “Isso não está no Programa”. De qualquer forma, era hora de acessar aquela pastilha, entregue pelo seu tio. Acessar virtualmente aquilo que já estava contido na poltrona, em ligação com suas luvas que tocavam aquela ferramenta feita para relaxar e para conectar mentes a novos mundos. Foi quando uma luz intensa apareceu da torre mais alta, e desceu. Perpétuo apareceu.

- Você! O que é você?! – ele bramiu, em seu manto azul-claro e seus olhos parecidos com safiras em uma cabeça de… abóbora.

            Dóris descobria tragicamente: Perpétuo não era um hacker, mas “algo”, um ser vivo daquele peri-mundo, daquela sombra dimensional, daquele vislumbre distorcido do nosso próprio mundo perceptível, utilizado como uma nova fronteira para uma nova Internet (aquela ferramenta de milênios esquecidos). Todavia, voltemos ao fato: Perpétuo era quem fazia a pergunta que ela queria fazer, e cuja resposta seu suposto cérebro secundário já havia encontrado diante da ausência de algoritmos.

- Quero ter acesso ao seu rastreador… - disse ela, temerosa.

            O silêncio se fez presente.

- Preciso dele, preciso parar com isso. Inocentes estão morrendo há anos por alguma coisa relacionada a isto aqui.

            O Perpétuo acessou a mente da inquilina. Sim, sim… um ser orgânico com uma identidade peculiar, com apenas uma camada de algoritmos que constituíam a ilusão de roupa e de carro-moto, bem como de rosto, corpo, braços.

- Acho que você entende.

            Ele, finalmente, retornou a falar:

- Você é uma filha de… nasceu em Apsan, que parece ser o mundo que alterou seus cérebros… você é orgânico, mas não é totalmente como “eles”. Ah, agora entendo… eu me alimento do que seus cérebros secundários produzem neste mundo quando se utilizam desses equipamentos. Você acha mesmo que pode comigo?

            O Perpétuo parecia menor, comportava-se como humano, ou quase. Havia se tornado semelhante demais a ela, com o tempo, para poder se comunicar melhor.

- Eu tenho algo que você quer. - ela insistiu.

- E o que seria?

            Naquele mundo, a pastilha, ou o que parecia ser um chip de platina das gerações tecnológicas mais antigas, aparecia como um gato alado.

- Eu sempre pensei que isto fosse o que em nosso mundo chamavam de sua localização geográfica codificada, sua identidade humana. – Dóris parecia mais segura.

- Mas não. – prosseguiu – Isto que te foi roubado há semanas, conforme o tempo de meu mundo, por pessoas que eu desconheço, não é a chave de sua identidade, cujo uso não pôde ser feito devido à complexa codificação. Aqui não passa de seu animal de estimação, sua companhia… Enfim, vamos negociar: apresente o seu Programa que ele te será devolvido.

            Perpétuo ainda tentou se mexer, atraindo mentalmente seu animal. Ele sentia a fonte. Era real. Não era engodo. Mas… aquela amostra nada mais era que uma amostra ilusória.

- Traga-me o original! Traga-me meu querido Moceros! Eu o quero agora!

- Então – disse ela – traga-me seu programa-espião!

            Perpétuo cedeu e fez com que Bordenave aparecesse. O ser alado estava exausto, com uma chave em uma de suas mãos tortas por baixo das asas.

- Tome, tome, tome! Mas, por favor, traga-me Moceros de volta! – disse Perpétuo.

            O trato foi cumprido.


***


            Há quinze anos nenhuma morte daquela natureza se repetira. Aparentemente, o Perpétuo arranjou outra fonte de alimento. Dizem que, eventualmente, algum jovem jogador que se utilizava dos mundos virtuais morria, talvez acidentalmente… mas, ninguém poderia dizer se havia um culpado real do “outro lado”. O que importa é que Dóris agora participava da cremação do seu tio, sozinha, e refletia sobre o passado para entender o seu futuro. Ela, a nova Presidente da PeriCorp, provavelmente estava satisfeita com suas novas patentes. O mundo de conhecimentos que ela conseguiu de um ser inorgânico ingênuo abriu seus horizontes. Não havia sido difícil chegar até onde ela chegou, desde que fora readmitida. 
Uma pequena nave de luxo a esperava do lado de fora. Havia um segredo que ela não contou do trato. Aqueles sentimentos, piegas, foram deixados de lado, ela voltou calmamente ao seu jet e, ao motorista eletrônico, apenas ordenou:

- Casa.



Autor: João Batista Firmino Júnior.

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