Bord voava sobre a relva macia, sentindo o
vento e o odor das plantas e da terra molhada. Nuvens e mais nuvens avançavam,
encobriam-no, e o abandonavam. Foi tudo tão rápido… finalmente, chegou ao topo
de Onenhanga.
O
frio tiritava, e ele seguiu andando, reagrupando suas asas e aproveitando-se de
sua natural plumagem. Ele avançou pela gruta do topo, soturna, com suas
estalagmites antigas e sua escadaria majestosa. Foi a hora de descer.
- Bordenave…
Um
sussurro vago. Era o Perpétuo. Ele, chamado, se apressou, repuxando seu saiote,
e adentrou-se mais e mais. Chegou a um ponto, um corredor.
- Estou aqui! - ele gritou.
O
corredor era curto, mas bem iluminado com tochas de luzes negras em meio àquela
claridade cegante. E o chão, liso, aconchegante, para aqueles pés visitantes.
Silvos e silvos tilintavam de algum lugar ao redor. À frente, o som das águas.
Bord
chegou. Após a passagem por Onenhanga, um píer descolorado para o Abismo. Ele
virou-se para uma torneira, ao lado, e molhou seu bico, rosto, olhos. O
Perpétuo também voava, estava por perto. Era pura voz.
- Pule e comece a pensar. Imagine. Seu
trabalho com os signatários da William Blake foi aceitável. Precisamos, agora,
de novas ideias.
Bord
abriu suas asas, na base do píer, e pulou. Aquela força penetrou-o como se ele
fosse puro ar, e ele tentou imaginar.
***
- Duzentos e nove anos de trabalho não resolvem
tudo! – dizia um dos dois homens que andavam pela Aeroviária Phir, a principal
de Montevideo.
- Não resolvem tudo, Chagall, mas adiantam
muito. Os nódulos peridimensionais podem parecer seguros hoje, mas, a cada dia,
hackers vão se aproximando…
- O boato da chave-mestra… claro, mas não
será em nossa geração. Vamos entrando?
Os
dois homens, perto dos sessenta anos e de impecáveis ternos, embarcaram numa
cápsula que foi lançada como uma bala magnética.
- Theodor, meu amigo…
- Ei, Chagall, – Ele interrompeu-o. - por que
será que ainda usamos o magnetismo para este tipo de transporte? Sei que não é
o mesmo tipo de magnetismo de antigamente, mas…
- Certamente porque venceu, aparentemente, a
“seleção natural” da usabilidade tecnológica.
- Ah, claro.
Chagall
sumiu, após o que parecia ser uma pistola ser usada contra o próprio crânio de
Theodor. A cápsula parou depois que os sensores perceberam o sumiço da batida
cardíaca do único homem que estava naquele transporte, imaginando um outro.
***
Ele
sentia o vento sob suas asas, a adrenalina ora aumentando, ora se
estabilizando, um voo nem para cima nem para baixo. O Perpétuo continuou a
enviar mensagens para a mente de Bord, para que ele se concentrasse. E assim
foi feito, como sempre foi feito. Havia um lugar em mente.
***
Oito
horas depois, o Inspetor David Tenerife estava diante do que ele e seu
contratante (que não era apenas o Estado) achavam que era um falso suicídio.
- Theodor? Apenas Theodor?
- Ele foi registrado assim, senhor. Sem
sobrenomes. – respondia um assistente, pelo microtel em um dos ouvidos do
Inspetor, que o desligou abruptamente.
- Esse foi o nono… em dois anos. – disse a
oficial Clara Montepio, ao seu lado.
- É, e eu terei que avisar à PeriCorp antes
que os metidos da… da outra Divisão barrem tudo.
Ao
virar-se, ele sentiu uma mão em seu ombro. Ainda era a oficial. Tinha algo a
dizer. Distante dos outros, eles se olharam com paixão, e ela disse:
- Você promete que não vai agir fora das
regras?
Ele
não respondeu, por um momento. Até dizer:
- Só uma tentativa. Só para ter certeza… Você
sabe que o foco de toda essa história não somos nós. Isto aqui não tem começo
nem fim realmente claros… Devemos partir de acordo com essa falta aparente de
lógica. De qualquer forma, será só uma tentativa de entendermos o outro mundo
para entendermos o que se passa aqui.
***
Bordenave
percebeu-se, depois de um tempo infinito, de pé sobre um lamaçal quente, um
cheiro de merda, uma paisagem desolada de fogo e miasma. Atrás de uma rocha de
seu tamanho, porém, ele encontrou um chão limpo e uma chave dourada com asinhas
de metal da mesma cor. Ele a pegou e virou-se para uma fechadura na rocha. Sim,
o sonho do Perpétuo poderia dar certo, enquanto o programa chamado “Bordenave”
agia como uma perfeita ferramenta. O que seria esse sonho? Perpétuo dissera a
ele, quando de sua criação, que se tratava do acesso a todas as mentes humanas
conectadas aos aparelhos da PeriCorp. Só faltava uma última confirmação de seu
mestre para a ação final.
***
A
Fundação estava em ordem, vista do alto daquela cúpula geodésica cujo ponto
mais alto afigurava-se a novecentos metros acima do chão e a dois quilômetros e
cem metros do nível do mar. Ao lado de um homem alto e calvo, de pé e à frente
da janela-espelho que pairava como uma lente espessa e grandalhona, um telefone
toca. O viva-voz é acionado.
- Senhor Sigurd? Presidente Sigurd Kaesta?
- Sim?
- O lançamento ao público da quinta versão do
PeriSoft foi um sucesso.
- Ótimo. Alguma novidade sobre o planeta
Apsan?
- …
- Alguma novidade?
- É melhor falarmos da cura pessoalmente.
Podemos nos encontrar esta noite em seu escritório?
- Feito. Venha daqui a seis horas.
Nove
horas e meia depois, a polícia estava diante de um corpo. Um aparente suicídio.
A vítima: o Presidente da PeriCorp Sigurd Honor Kaesta. Morto, aparentemente,
apenas por sua esquizofrenia, naquele afã por uma cura que nunca era completa
mesmo naqueles tempos de milagres técnicos.
***
“Ok,
Ok, Bord, mas onde está o algoritmo? A chave, por si só, não abre nada.”,
pensou o ser alado. Enquanto isso, no mundo real, o Inspetor procurava, para
aquele caso reaberto, a ajuda de alguém especial, uma hacker.
Nervoso,
diante daquela porta de madeira sintética, ele apertou a campainha. Sua
sobrinha, com a qual ele já tinha falado por telefone, atendeu.
- Dóris?
- Entre, tio.
Tudo
já havia sido informado, menos alguns detalhes.
- Trouxe o que pedi? – questionou ela, diante
de suas luvas, que a cobriam até os cotovelos.
O
Inspetor tirou do bolso um estojo e, dele, uma pastilha. Cuidadosamente, Dóris,
uma bela ruiva de cara fechada, sentada em uma poltrona feita especialmente
para perinautas, em um quartinho após a sala de estar, fixou aquele material em
uma entrada parecida com uma USB do início do século XXI. O material da
poltrona, em seu braço direito, sugou aquilo como num gole.
- O que você quer que eu procure exatamente?
O
Inspetor respondeu com uma pergunta:
- Você conhece o boato sobre o Perpétuo, não?
- Sim, claro. Uma espécie de “mestre dos
mestres”, que devassa tudo. Está em ação há dois, três anos…
- Correto. Desde que os crimes começaram.
Você sabe que estou agindo por palpite. Não quero ser derrotado neste caso. Não
será desta vez… não mesmo.
Ela
se concentrou, enquanto o tio ficava numa cadeira próxima, perto da janela,
tomando seu lact, uma bebida cheirosa
a base de leite misturada a alguma coisa alcóolica.
***
A
rede de “satélites” quânticos, ou peri-servidores, estendia-se da atmosfera da
Terra, perpassando seus subterrâneos e concluindo-se em um manto dimensional
cuja acessibilidade se dava, parcialmente, pelos sonhos ou por algum estado de
consciência alterado que, diferentemente do que se pensava antigamente, nada
mais era que uma janela a um novo espaço fora dos padrões rígidos da velha
Física. Um novo espaço sem uma correlação linear entre os diferentes nódulos,
cofres ou nós distribuídos pelo sombra supostamente “espiritual” do universo.
Uma dimensão normalmente chamada de “Perimundo”, onde estariam reunidas almas que
nada mais eram que “HDs” contendo praticamente todos os saberes – e todos os
deleites inúteis – da atual e da antiga Humanidade.
Quem
nos traz essa informação? Os rastros de Bordenave. Ou melhor, aquilo que
Bordenave tinha que saber para agir.
Voltemos
a Doris. Ela, ex-funcionária da PeriCorp, agindo sem autorização oficial,
apertava-se num carro-moto que singrava aquela “apoteose de todos os desertos”.
Algoritmos passavam pela mente dela, um tanto quanto diferente por ter nascido
em Apsan (boatos diziam que os filhos dos experimentos daquele planeta possuíam
um segundo cérebro)… Bem, pensamentos demais, como esses, povoavam a mente
daquela mulher. Sua concentração tinha de ser devotada totalmente aos
algoritmos e à lógica ilógica de toda aquela “dimensão paralela” (como diriam
os leigos).
Finalmente,
em um mundo iluminado, mas sem sóis nem nuvens, ao largo de pedregulhos que
mais pareciam ovos marrons, erguia-se um castelo gótico. Ela pensou: “Isso não
está no Programa”. De qualquer forma, era hora de acessar aquela pastilha,
entregue pelo seu tio. Acessar virtualmente aquilo que já estava contido na
poltrona, em ligação com suas luvas que tocavam aquela ferramenta feita para
relaxar e para conectar mentes a novos mundos. Foi quando uma luz intensa
apareceu da torre mais alta, e desceu. Perpétuo apareceu.
- Você! O que é você?! – ele bramiu, em seu
manto azul-claro e seus olhos parecidos com safiras em uma cabeça de… abóbora.
Dóris
descobria tragicamente: Perpétuo não era um hacker, mas “algo”, um ser vivo
daquele peri-mundo, daquela sombra dimensional, daquele vislumbre distorcido do
nosso próprio mundo perceptível, utilizado como uma nova fronteira para uma
nova Internet (aquela ferramenta de milênios esquecidos). Todavia, voltemos ao
fato: Perpétuo era quem fazia a pergunta que ela queria fazer, e cuja resposta
seu suposto cérebro secundário já havia encontrado diante da ausência de
algoritmos.
- Quero ter acesso ao seu rastreador… - disse
ela, temerosa.
O
silêncio se fez presente.
- Preciso dele, preciso parar com isso.
Inocentes estão morrendo há anos por alguma coisa relacionada a isto aqui.
O
Perpétuo acessou a mente da inquilina. Sim, sim… um ser orgânico com uma
identidade peculiar, com apenas uma camada de algoritmos que constituíam a
ilusão de roupa e de carro-moto, bem como de rosto, corpo, braços.
- Acho que você entende.
Ele,
finalmente, retornou a falar:
- Você é uma filha de… nasceu em Apsan, que
parece ser o mundo que alterou seus cérebros… você é orgânico, mas não é
totalmente como “eles”. Ah, agora entendo… eu me alimento do que seus cérebros
secundários produzem neste mundo quando se utilizam desses equipamentos. Você
acha mesmo que pode comigo?
O
Perpétuo parecia menor, comportava-se como humano, ou quase. Havia se tornado
semelhante demais a ela, com o tempo, para poder se comunicar melhor.
- Eu tenho algo que você quer. - ela
insistiu.
- E o que seria?
Naquele
mundo, a pastilha, ou o que parecia ser um chip de platina das gerações
tecnológicas mais antigas, aparecia como um gato alado.
- Eu sempre pensei que isto fosse o que em
nosso mundo chamavam de sua localização geográfica codificada, sua identidade
humana. – Dóris parecia mais segura.
- Mas não. – prosseguiu – Isto que te foi
roubado há semanas, conforme o tempo de meu mundo, por pessoas que eu
desconheço, não é a chave de sua identidade, cujo uso não pôde ser feito devido
à complexa codificação. Aqui não passa de seu animal de estimação, sua
companhia… Enfim, vamos negociar: apresente o seu Programa que ele te será
devolvido.
Perpétuo
ainda tentou se mexer, atraindo mentalmente seu animal. Ele sentia a fonte. Era
real. Não era engodo. Mas… aquela amostra nada mais era que uma amostra
ilusória.
- Traga-me o original! Traga-me meu querido
Moceros! Eu o quero agora!
- Então – disse ela – traga-me seu
programa-espião!
Perpétuo
cedeu e fez com que Bordenave aparecesse. O ser alado estava exausto, com uma
chave em uma de suas mãos tortas por baixo das asas.
- Tome, tome, tome! Mas, por favor, traga-me
Moceros de volta! – disse Perpétuo.
O
trato foi cumprido.
***
Há
quinze anos nenhuma morte daquela natureza se repetira. Aparentemente, o
Perpétuo arranjou outra fonte de alimento. Dizem que, eventualmente, algum
jovem jogador que se utilizava dos mundos virtuais morria, talvez
acidentalmente… mas, ninguém poderia dizer se havia um culpado real do “outro
lado”. O que importa é que Dóris agora participava da cremação do seu tio,
sozinha, e refletia sobre o passado para entender o seu futuro. Ela, a nova
Presidente da PeriCorp, provavelmente estava satisfeita com suas novas
patentes. O mundo de conhecimentos que ela conseguiu de um ser inorgânico
ingênuo abriu seus horizontes. Não havia sido difícil chegar até onde ela
chegou, desde que fora readmitida.
Uma
pequena nave de luxo a esperava do lado de fora. Havia um segredo que ela não
contou do trato. Aqueles sentimentos, piegas, foram deixados de lado, ela
voltou calmamente ao seu jet e, ao motorista eletrônico, apenas ordenou:
- Casa.
Autor: João Batista Firmino Júnior.


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