Era a cada passo que se seguia cada
pensamento,
A cada passo de escada lenta por onde marcava
com
Os pés um Mendes de Nenhuma Vocação com sua
viola,
Ainda vibrante e reverberante, a questionar a
cada toque
Tocado a cada passo nos blocos de uma
escadaria, caminho Alto e
Marcado pelos números e pelos desenhos a cada
chão, num teto escuro,
E figuras nas paredes revestidas por um cal
que se mostra como tal
Incrivelmente dourado enquanto
Jogado naquelas figuras, por um efeito
visual, que torna o andante feito
De um azul escuro, tom que não toma
instrumento encantador de corações.
Era a cada raio de luz do caminho à frente,
onde Mendes ia percebendo a luz
Que o tocava, a luz de um túnel, para lá
assim a ver e a tocar ao verdadeiro
Líder de algo corrompido, à coisa
controladora, a lhe surgir, por trás da longa
Visão de terras planas lá de baixo, vista em
cima de um antigo recanto.
Ao ponto de encontro dos quatro ventos, acima
do Forte mais alto, estava Mendes,
Estava leve como bem desejava, a ser levado,
Ou a ser varrido como sujeira, pela
Ventania limpadora de mundos e de gente,
vento
Forte a esparramar aquela sangue, que ia
transbordando como rio a nascer, e é
Lá de cima que Mendes olha pelo topo e olha a
nuvem preta
Que estava abaixo, e
Estava pronto a jorrar aquele sangue ali,
através de sua viola de sete cordas,
A fazer ressurgir em nova safra a terra que
antigamente habitava naquele
Lugar, como conhecera.
Mas não consegue, um Mendes, tocar bem, as
nuvens, movidas pelos ares de
Um Grande Rio que Seguia, chegam a sua
altura, e o Monstro o
Encara com um rosto vermelho (eis que de fato
tal apareceu),
Que dá medo a Mendes, que mistura urina com o
sangue de sua gente, que
Faz a sina da nova gente, e que se desfaz
simplesmente
A descer no ralo próximo
Da fuga procurada por um Mendes.
Era o Monstro pisando em gente, era um
conjunto de ventos, em furacão,
Um Monstro que de início não abre sua capa,
que mostra apenas
Para assustar, talvez… era sim, também para
prender
Naquela ânsia por desgraçar,
A querer tomar um Mendes das mãos de um Mãe
que mal podia ver,
E Mazda estava
Lá, apenas a testemunhar, fraco com sua mão
direita caída
No leito de sua vestimenta
Que se fundia na imagem trazida
Pelos olhos vermelhos de um Monstro a tingir
a
Roupa de um santo, fazendo um véu vermelho a
criar formas como num dito
A mostrar o poder de um Monstro que ditava e
mostrava,
A fazer Mendes sentir:
“Ao início de um fim pacífico do dia
Poucas matas erguiam-se, despejando o som
De seus cativos.
Os campos, em seus interiores, traziam
Um denso e solitário espaço silencioso
Em que saíam, cintilantes por entre os
gigantes rochosos e as rachaduras
Da secura, algumas línguas de fogo solar.
Vieram as réstias, últimas, para abrandar a
Profundidade do pano escuro daquelas matas ao
redor
De um leito vazio, na quase chuva iniciada,
por um fim nascente
Do progresso.
Havia uma tristeza feliz naquele cemitério de
solo magro,
Onde era possível ver suas ossadas de poder,
enraizadas,
Às margens da corrente adormecida, quase
morta,
Mensageira constante do sangue daquele velho
lar.
Batiam, sobras de luz do sol, com o vapor de
Poucos pingos que se mexiam para acordar,
notívagos…
Destacava-se uma passagem cortante
Um rugido que assustava as poucas almas que
restavam…
Um relâmpago descido a Terra, formador de
baixas nuvens do atrito.”
As linhas sinuosas dos galhos,
Próximos a uma ave que emergia em fuga,
E que apontavam um caminho reto,
Surgiam, sobre a planície do novo deserto –
Pedras luminosas e derretidas pelo calor,
Que queimavam nas muralhas de onde se
separavam.
No lado em que a noite já chegara,
Minúsculos corpos de carvão,
Invisíveis pela incrível destreza da
escuridão das matas,
Uniam-se ao esquecimento
De umas poucas folhas caídas pelo leito
lamacento.
Acima das dunas, daquelas formas
Que serpenteavam horizontalmente, uma
paisagem.
Como um peçonhento… os feixes luminosos,
quase nada,
Eram bifurcados na ponta.
O veneno há muito atingira, via-se a
plantação despedaçada.”
Tão longe, na visão fornecida
Pela mais aguda das rochas, corria a
lembrança,
Em vitalidade perdida pelo rio, dos sons
pertencentes ao metabolismo das matas,
De quando a vegetação subordinava o deserto
precoce.
A laceração fora perfeita, o antigo rio
célere, temporário,
Olhara – antes de
Desaparecer no decorrer dos montes – para
onde nascera.
Pedras imensas
Que perdiam unidade,
Em erosão criadora de formas adversas
Como a de duas lacunas em brasa,
Que exterminavam tudo o que viam.
Bem visionárias
Naquele deserto que fenecia.
Com a areia, pó sobrevivente e
Possuidor de algumas migalhas do que era vivo
Surgia o passado num rio que chorava,
Completamente sem lágrimas.
Suas águas
Eram perpétuas, a caídas daquelas nuvens
pesadas…
Tinha seus olhos compridos ressecados,
Naquela fossa, outrora idênticos
Aos de uma águia, porém de percepção
Profunda voltada apenas para si,
Purificando, desviando os
Males da luz contra seus últimos
suspiros
Por entre os montes,
Diluídos cada vez mais
Numa aparência quase pacífica de colinas
frágeis…
Não mais ameaçava a passagem de um futuro.
Agia a poeira do novo pio,
Do pássaro metálico
Com suas rodas em fricção,
Erguendo e regendo as fragmentações
Sobreviventes, tanto da terra como da água.
As gotículas do rio ultrapassado serviam
àquela força, inconscientes.
Campos de matas colossais no passado,
Com o fraco feixe iluminando
Um véu que se forma, de uma
Poeira originada pela
Desagregação dos
Corpos dos gigantes que falecem – muralha que
desaba.
Cortina viva,
Avermelhada pelo pôr-do-sol, agitada pelo
vento.”
Mendes acorda, e vê o Monstro com suas
entranhas a mostra, e não
As quer ver, mas a visão empurra os seus
olhos, a mostrar, ao menos,
Murilo e Quaresma, e Mendes queda-se quase
aos prantos, perdido,
Ao ver seus dois mestres escravizados por um
Monstro,
Do que não havia jeito.
Mas os dois não eram os mesmos, iam mudando
de forma,
E tão diferenciados fitavam Mendes, e o
Monstro resolve falar em seu tom,
Num falso idioma, mas se faz entender,
grosseiramente,
Exalando um hálito de uma
Gélida catinga, que congelava os pulmões de
um Mendes a
Não poder mais cantar, nem falar.
Um terremoto que diz:
“Olhe bem para os
teus juízes!”
Os traços daquelas formas eram para Mendes irreconhecíveis,
Eram criaturas feias no que representavam,
Que o fitavam naqueles olhos de olhares
frios, globos cadavéricos.
O terremoto retorna:
“Não acredite, se assim desejas.
Mas fostes tu, que se diz pertencente à
Grande Nação Humana, que me criaste enquanto
símbolo dessa mesma Nação;
Fostes tu, como povos num, centrados em ti,
O criador da embolia que represento
Nas veias de teu povo, formação de povos
cauterizados,
De mil feiuras costuradas em meu rosto!
Os dois são elementos de fora, capazes de te
julgar…”
Mendes quase reconhece uma tentativa de
sorriso, e o Monstro retorna num tremor:
“Vejas, assim por último, o meu rosto sem
máscaras,
De alguma coisa de um pulsar
Que se faz mais bem expresso por uma única
máscara que é a do teu rosto!”
E Mendes queda-se numa tonteira humilhante, e
sua urina funde-se ao sangue
Carregado por quem não fez merecer, e vê-se
como num espelho, como
Naquele d’antes, que vira, vê-se um só com
todos os entes que lhe auxiliaram,
Vê-se como igual, vê-se idêntico, vê-se na
sua totalidade como o Monstro,
Vê-se na tontura que roda, no furacão que é,
vê Mazda transfigurar-se num
Sem Nome mortificado, vê os dois juízes
dizerem CULPADO com a cabeça, vê
Os fantasmas desaparecerem, e sente-se como
um pedaço,
Na máscara que expressa
Melhor a verdade, de um Inominado que é ele
mesmo, dividido desde o início,
Acometido por delírios como quando encontrou
o Braz, como quando
Começara, quando uma parte sua começara a
desconfiar, e a sua totalidade
A não aceitar…
Mendes fora levado ao topo… O vilão era ele!
Ele mesmo!
E tinha de mudar,
Mendes vai escorregando, como uma peste que
merece cair!
E vai ainda vendo, rodando, em sua queda,
Quebra-se em mil pedaços, vai-se quebrando na
queda constante
Nos vários chãos de uma escada,
Vendo as torres Eira e Moura, dois olhos! –
quando como um Mendes;
Sumindo numa aniquilação que o captura, e
volta sempre até se quedar.
Vê o motivo de seu martírio no Grande Rio que
Seguia,
Vê sua terra de mentira!
E chora, e vive permanentemente nos pingos
que antes umedeciam
As bordas de uma tenda!
Cai Monstro, volta ao Nada!
Cai Mendes das terras perfumadas de um
Quaresma
Que o julgara e o condenara, era a
consciência do onipotente solitário,
Do Trovador em totalidade, na máscara que
expressa melhor um Sem Nome
Que quer ter nome!
Mas a Mãe, pobre Mãe, perdoava-o sempre,
mesmo com todas
As tempestades vingativas, pela destruição de
uma terra,
Causada pela nação que melhor representava um
Mendes,
Única juíza a perdoá-lo, e daria mais uma
chance a ele,
Sempre o perdoaria, sangue do seu sangue, seu
filho!
E a terra agarra a forma morta de um Mendes
de Nenhuma Vocação,
E a viola, máscara da própria Mãe,
converte-se em pura Trova, num
Canto silencioso, num ninar gracioso, era a
mesma viola,
A arma arqueada, dos fios do cabelo da
própria Mãe.
Uma parte de um Mendes vive em algum lugar no
passado, nas
Paredes de uma nostalgia, como fantasma
habitante de uma ilha,
Nas máscaras necessárias para uma
sobrevivência, conhecendo as
Entranhas daquela banha de um Monstro que era
ele mesmo,
Cai esta parte num subconsciente, por onde
viajaria Mendes,
Em busca do Páralo que o salvaria;
A outra parte é o que é maior que a máscara,
é o arco do pescoço
A ser colocado na guilhotina,
É a grande nação a ressurgir, são construções
caídas
Pela terra, do pó ao pó,
São prédios, são rios, são episódios, são
vidas,
São idades idas, são saudades, são guerras,
são dores, são odores antigos,
São versos sem métrica, poesia sem versificação…
Que alargam as bordas que comprimem o rio,
São pedaços, são sementes, vistos em mil
olhos, comidos
Por um poder avassalador que aniquila um
Mendes que não é mais,
E o vento, junção de ventos, é bondoso, leva
As sementes que engravidam a Grande Mãe
Terra,
A que sempre perdoa e nunca se arrepende,
A que nunca morre, pois é viva na parte
humana
Que ainda vive.
E é naquele momento que o enigma ressurge em
sua totalidade,
Avança a águia por uma selva, ave que engole as
cinzas,
E lá embaixo, um cão passa, com suas várias
cabeças,
E come o resto, na resolução do enigma, não
um enigma,
Mas uma profecia de algo apenas visto
Nas águas, nos olhos do Grande Rio que
Seguia, agora derrubado,
Com o leito povoado por novas formas que um
dia surgiriam.
FIM
Autor: João Batista Firmino Júnior.

