Os melhores blogs estão aqui

terça-feira, 29 de julho de 2014

O NÚCLEO (Caps. 11, 12 e 13)

11 - Trocas


            O centro comercial de um longínquo planeta da galáxia Mrolen - próxima a Gangi, porém vinte e duas mil vezes mais extensa - fervilhava de humanóides das mais variadas procedências. A maioria não fruto de espécies ou raças específicas, mas da manipulação genética, feita com o auxílio dos mensageiros da Rama.
            Era essa informação que vinha à mente dos três visitantes inusitados, que surgiram, de súbito, numa ruela vazia no meio daquela noite de cinco belas luas laranjas e violetas, provocando um certo deslocamento de ar.

- Vocês também “ouviram” esses dados? - perguntou Murion.

            Sim, todos haviam recebido aquelas informações vagas, imprecisas, quase esquecendo do ponto principal: todos aqueles estranhos daquele planeta sem nome, localizado nos confins de Mrolen, tinham uma altura média entre 1,50 e 2,10 metros. Nagara teria que se esconder.
            Mas isso não nos importa por enquanto. Kosnow ainda queria aquelas explicações dos akashes, sobre o que eles fizeram com os ramas. Da ruela até um beco cheio de vasos quebrados e ratos tão pequenos quanto baratas da Terra, eles foram. Os akashes teriam que falar, que tirar dúvidas que agora não eram só do brasileiro, mas de todos os três. E começaram a falar, via pensamento, independente de toda a pressa e cuidados para o grupo se manter escondido.


***
           

            Explicaremos isso da seguinte forma: os ramas nos descobriram, em um tempo que, para nós, é recente; mas, para vocês, é muito antigo. Eram um povo e uma raça insetóide ilustre com um passado questionável de conquistas para que toda uma espécie se resumisse a um só povo. Levavam uma versão da seleção natural em todos os seus detalhes, e, apesar dos seus aspectos positivos, de suas realizações, cultuavam um modo de pensar arrogante. Só que, nós, os akashes, não estávamos interessados no que eles queriam nos oferecer. Mesmo assim, fizemos trocas, até que o portal entre os universos, entre a realidade deste universo e o nosso, começasse a falhar.
             Nosso panteão sabia que isso terminaria acontecendo. Construímos um reino equilibrado entre as diferentes forças energéticas, entre diferentes seres que vocês considerariam ‘de penumbra’, águas-vivas do cosmos, corpos formados por vácuo negro, numa pirâmide harmônica, apontada para a manutenção de nosso próprio cosmossistema. Não entendíamos as ambições dos ramas, nem entendíamos como seres tão selvagens, tão solidificados, pudessem ser tão… teimosos.
            Os ramas insistiram, com suas idéias científicas erradas, calculando as leis físicas da relação entre os dois sacos de galáxias como se fossem as deles, da maneira deles, sem terem o mínimo sucesso ou vontade em pensar pelo ponto-de-vista de outras leis físicas, de outras normas, de outras lógicas. Entretanto, havia algo pior. Dentre eles, uma seita pseudo-científica, que nos cultuava como Anjos da Lógica.
            A seita era dirigida por doze ‘mensageiros’, cujas identidades eram secretas pois muitos deles provinham da mais alta casta científica. Eles sonhavam com a imortalidade, sabiam que estavam enganando, sabiam fingir bem. Chegaram a uma teoria estranha que envolvia explodir o portal criando uma rede de estrelas de prótons artificiais. Fizeram isso. E tudo se fechou.
            Tempos mais tarde, percebemos que o portal, ainda aberto do nosso lado, vinha transmitindo uma radiação venenosa. Isso nos aproximou, nos fez analisar melhor, e descobrimos algo pior: aquela passagem está inchando, por algum motivo, podendo desaparecer e gerar forças que atraiam os dois universos… Por isso, fomos enviados, e estávamos bem se não fosse um ataque de Rama durante nosso percurso.
Ao que parece, os doze mensageiros originais fizeram nascer um ser puramente psiônico, a vagar perto do portal fechado deste lado, e a possuir um olho, o Olho de Rama, no centro desta galáxia. Acrescentamos essa informação, e rogamos que vocês tenham cuidado. Não será fácil passarem despercebidos por aqui. A vantagem está na imensidão de Mrolen, na sua complexidade, a confundir um pouco esse superinteligência, a atrasá-la. Mas, ela virá, ela vos descobrirá em algum momento.

Os brilhos se tornaram mais débeis, mesmo sem sumir de vez dos ombros de Kosnow. Os três estavam pensando no que fazer, e os olhares foram para Nagara. Tinham que estudar aquele local.


***


            A urizeniana permaneceria escondida em um daqueles prédios temporariamente abandonados, da periferia de Cluzir - o nome daquele lugar -, feitos de rochas e concretos sintéticos - detalhe percebido por Murion. Aquela edificação parecia ser uma garagem com uns dois andares e janelas em forma de círculo, recobertas por vidro opaco para quem visse de fora.
            Kosnow teve sucesso em pedir aos akashes para que se tornassem invisíveis e disponibilizassem, no manto que os encobria contra os microorganismos de planetas exóticos, um tradutor. E, tal qual Murion, vestiu-se com um longo manto branco, roubado, bem como sapatos que mais pareciam meias mais resistentes e higiênicas que meias comuns.
            Uma daquelas ruas principais, de terra batida, formava um núcleo, numa espécie de praça, onde cabanas vendiam brinquedos eletrônicos inúteis, roupas, máscaras de oxigênio (e outros gases), circuitos e aparelhagem nanoeletrônica, e, no horário certo, armas. Precisariam comprar armas.
             Circularam e conseguiram ração, água purificada, baseado em trocas com objetos criados mentalmente pelos akashes. As armas ficariam para mais tarde, quando a multidão fosse se dispersar.
            O céu estava nublado, no cair do que seria uma longa noite de trinta horas, quando os dois se dirigiram até um minúsculo espaçoporto.
            Com a tradução sendo mantida através daquela verdadeira “magia” dos akashes, eles se dirigiram a um sujeito com pele de leopardo, que vendia uma nave e uma maleta com um kit de sobrevivência. Apenas Murion falou:

-  Nat’amma!

- Nat’ammark!

- Quais as condições dessa maleta? E da nave?

            Abrindo a maleta, o sujeito com pele de leopardo descreveu:

- Duas pistolas de gráviton, oito tiras de células de recarregamento, e um fuzil de plasma negro sem necessidade de recarregamento…
            Demonstrando pressa, pois faziam muitas horas que eles estavam naquele planeta e tinham que fugir rápido, Kosnow se intrometeu:

- E a nave?

- Fabricação conseguida da Aeronáutica do já desaparecido Reino de Murmud, com design interno humanóide, mais de duas gerações de uso, porém ainda em pleno funcionamento; é também capaz de manter até sete pessoas por até catorze ciclos. São cento e vinte metros de diâmetro, e uma mistura de aço murmudiano com stac’la, um material quase certamente proveniente do que muitos chamam de “matéria negra”. Mas, vou ser honesto: acho que há apenas o aço, e…

- Quanto custa tudo?  - perguntou Murion.

            Eles conseguiram. Tudo saiu por oitocentas células de energia e muito sal, duramente fabricados pelo poder dos akashes. E Kosnow pensava em como eles não poderiam ser confundidos com deuses.


***

- Quadrante 2. – disse Ippor’aka ao Caçador, um tal de Ov’praka, numa espaçonave compacta, mediana, em seus novecentos metros de comprimento, cheia de escaneadores, versões futurísticas de radares, dezenas de mercenários, oito pilotos, dois engenheiros, um médico, vinte servo-robôs enfermeiros, dois analistas científicos (um astrofísico e um especialista em comportamento xenossociológico), e armamento dotado de inteligência artificial.

            Sentado de costas naquela poltrona, aquele hermafrodita atarracado, da mesma espécie e povo de Ippor’aka, seu segundo-em-comando, tossiu, limpou a testa, sem nervosismo, e virou-se.

- Essa informação veio do Olho de Rama?

- Sim.

- Então, é para lá que vamos. – ele sorriu, voltou-se aos controles, contatou seus pilotos, e disse baixinho de forma a ser audível só por ele mesmo: “Por Rama!”. Assim falava o rei da nave de guerra Secta.


12 – Passos de uma caçada


            Nagara, Kosnow e Murion, na noite mais densa daquele planeta exótico e isolado, encontravam-se na imunda central de uma nave comprada aparentemente por mais do que valia. Esperariam mais um pouco antes de partir. O que eles não sabiam era sobre a entrada de um satélite específico naquele sistema solar.
            Ov tinha a sua própria versão para o Olho de Rama, para aquele mistério cósmico resumido por mentes preguiçosas a uma questão de fé em algo eficiente e real. Era uma sala cheia de monitores, com as imagens de milhares de satélites, processadas pelo seu cérebro genial. Ele podia passar horas ali sem se mexer nem alterar o ritmo de sua respiração. E foi o que fez.
            Não chegou a descobrir nada de relevante naquele momento. Voltou para seu quarto, para sua cama, sentou-se sem se trocar, passou as mãos pelos cabelos e tentou pensar no perfil daqueles três estranhos. Vejamos…
            O primeiro era um humano com uma conexão especial, com uma ligação aos ditos tão poderosos e tão ameaçadores akashes; o segundo era uma mulher forte e extremamente alta, de uma raça desconhecida, treinada em estrategismo militar e possuidora de uma acurada inteligência; o terceiro era uma incógnita, uma incógnita com poderes estranhos. O que tinham em comum? Os akashes no comando e controle, os recursos que cada um poderia prover, gêneros separados (“pobres seres incompletos”, na mente de um hermafrodita), algum tipo de paixão por aventuras, um certo grau de coerção para mantê-los unidos. Pontos fracos? Ele supunha uma indiferença ao Universo por parte de um ser adimensional como Murion; supunha uma arrogância de uma mulher muito alta e forte, com formação militar, em relação a Nagara, fruto de uma civilização tecnologicamente intermediária; supunha uma mente primária e confusa no caso de Kosnow, originário de uma civilização apenas um pouco abaixo tecnicamente que a de Nagara. Como reordenar, como dar uma cor àquela sopa de imagens mentais tão cara a Ov’praka?
            Ele precisava dormir. Esquecer um pouco aquelas milhares de imagens de seus satélites. Processaria melhor após um sono tranqüilo. Deitou-se, fechou os olhos, e algo veio a sua mente… veio aos poucos, sorrateiramente, o Quadrante 2, a lógica dos akashes ao escolher pontos de teleportação. Ele dormiu um sono leve e sua mente começou a analisar melhor cada imagem, cada correlação, em busca de uma resposta. Quando despertou, ele já sabia para onde ir.


***
             

            O Sistema Arkan’ustra possuía vinte e três planetas, sem contar  uns oito planetóides isolados, e centenas de milhares de asteróides. Fora as gigantes gasosas, aquela vasta rede de três sóis vermelhos era formada por pelo menos seis planetas parecidos com Marte: rochosos, secos, avermelhados, porém portadores de instalações antigas, em desuso, e uma rede subterrânea com silos, armazéns de armas e uniformes, um verdadeiro conjunto de museus a céu aberto.

- Nada aqui. – comentava, para si mesmo, Ov’praka, ou, simplesmente, Ov.

            Ele enviou robôs e mercenários, ex-militares, e chegou a vasculhar, pessoalmente, supostas construções subterrâneas naquela rede de asteróides, com os melhores equipamentos que o dinheiro podia comprar. Nada. O jeito seria focar nas medições de energias retiradas das cordas dimensionais cósmicas. Não apenas filmas, mas, agora, enxergar mais a fundo as peculiaridades deixadas por teleportações diversas. O caçador improvisou um astrofísico para analisar os dados medidos, era o melhor cientista que ele tinha e precisava usá-lo.
            As instalações científicas daquela nave eram humildes, mas eficientes. Através delas, as análises deram resultado, uma semana depois. Ov lia o relatório pensando consigo: “Rota de ondas desconhecidas através das cordas dimensionais com as seguintes características:… Sinal partiu de Gamgi… Reação dos três sóis em… Resultando em…”. Ele pesquisou mais um pouco, paralelo ao relatório, e chegou à seguinte conclusão: “cinco sistemas solares, mas só um, dessa zona, contém um planeta com vida inteligente… um entreposto comercial exótico… certo… aqui!”
            E partiram rápido.


***


            No início daquela manhã, após uma longa noite, as condições meteorológicas pareciam melhores. Aquela simples nave só havia sido transportada para um lugar mais seguro devido a muita insistência. Gastaram mais por isso, o que deixou os akashes sem forças no trabalho de criar matéria.
            A central de comando não era grande, nem tão bem iluminada. O sol fazia a maior parte do processo de iluminação, vindo através de uma ampla tela dividida em dezesseis largas janelas transparentes, convergindo para duas grandes ao centro. Salvo alguns botões quebrados, os controle mostravam o início da criação de uma atmosfera local e a configuração da gravidade artificial. Os três tripulantes já haviam verificado circuitos e motores não muito diferentes dos da Terra e dos do planeta natal de Nagara. Mesmo assim, passaram mais tempo fazendo ajustes que dormindo, lavando-se, ou se alimentando. Mas, isso foi necessário.

- Está amanhecendo. Não devemos esperar mais. A essa altura, nossos caçadores devem estar próximos de onde estamos, se realmente forem bons. - disse Nagara.

            Murion concordou, entretanto, considerando que aquela nave só tinha uma autonomia de vôo inferior a mil anos-luzes, colocando-os muito visíveis para os satélites espiões, o jeito seria buscar alguma estrela imensa e solitária estrela próxima e se esconderem por perto, de forma a atrapalhar a localização pelos aparelhos dos perseguidores. O problema era se a nave agüentaria ficar tão perto de uma estrela gigantesca.

- Os akashes vão poder ajudar na proteção da nave, Kosnow? - a mulher do planeta Urizen perguntou.

            Kosnow se concentrou, depois fez que sim com a cabeça, através do próprio fogo da estrela. Murion, em seguida, advertiu:

- Não esqueçam que teremos que nos livrar deles rápido e arranjar um ponto de teleportação. Considerando o movimento de expansão do Universo, ainda estamos a mais de cento e vinte bilhões de anos-luz da última fronteira, enquanto eles nos caçam.

- Sim, sei, precisamos nos apressar. - comentou Nagara, que se calou e começou a mexer no console principal da nave.

            Depois de duas horas de preparação, e de terem encontrado, nos mapas celestes, uma estrela vinte e duas mil vezes maior que o sol terrestre, de brilho amarelo, saíram daquela atmosfera, daquele planeta incógnito. Quatrocentos e vinte anos-luzes depois, eles pararam por algumas horas, depois seguiram por mais noventa anos-luzes, até que chegaram à estrela. Ficariam naquela posição pelo equivalente a alguns dias terrestres, pensando em como retaliar com toda aquela energia solar, ao mesmo tempo, escapar.


***


            A busca de Ov parecia dar resultados, quando as últimas pistas levaram a um beco sem saída. Aquele planeta, que servia de entreposto comercial, era o local certo onde a caça deveria estar, porém, em algum momento, eles partiram numa nave e sumiram dos radares.
           
- Vamos vasculhar tudo. E enviaremos satélites para as estrelas mais próximas… - anunciava Ippor’aka para os técnicos. Enquanto o chefe sabia que seria longa a procura. Eles poderiam estar se escondendo por trás de qualquer estrela num raio de quinhentos ou mil anos-luzes. E, como não utilizaram a teleportação dos akashes para isso, ele não tinha como medir a energia usada.

            Naquele universo psicológico desesperado, Ov, preocupado, finalmente decidiu: iria, para se por a frente dos oficiais que continuariam a busca, consultar o oráculo mais próximo, a sessenta e nove mil anos-luzes e ir atrás das imagens e medições do Olho de Rama. Se mesmo o Olho de Rama falhasse, ele não queria nem pensar o que aconteceria com ele. Seria uma falha não só do Olho, mas dele também, o que arruinaria a sua reputação e o posicionamento de seu povo frente a união de povos em que consistia Tange.
            Preparou uma nave auxiliar com os melhores motores ultra-luzes, deixou o comando para Ippor’aka, e, temendo a demora, colocou tudo em potência máxima, através daquele pequeno console, e partiu até Mazida, um distante planetóide contendo o oráculo mais perto de onde eles estavam.
            Ippor’aka tomou as rédeas daquela parte da missão, e fez conforme o protocolo: acionou centenas de naves mercenárias, além de outras milhares de naves militares dos tangerianos. Os contratantes, de Tange, sobretudo o Governador-Geral, o Chefe do Parlamento, e o Príncipe Regente, sabiam das dificuldades, e, pelo fato de os caçadores terem delimitado uma zona espacial do Quadrante 2 de Mrolen, tinham um foco suficientemente claro para enviar todas as forças.
            Longe daquela zona cósmica, paralelo aos acontecimentos, o alto e velho Marechal Tar’oaka Enh, em sua nave-mãe Rama’aka, estava ansioso para demonstrar aos seus superiores supremos que era melhor que aquele bando de mercenários, pessoas que não passavam de olheiros capazes de delimitar onde o alvo estava. A partir daí, o principal seria feito pelas forças oficiais, pelo que ele, orgulhoso, considerava Lei. Ele não queria perturbar as forças do centro da galáxia, o Olho de Rama, e se orgulhava de ter a melhor força militar do que ele chamava de “mundo”, capaz de agir sem superstições tolas. A falta de superstição, no caso do Marechal, podia ser uma faca de dois gumes. Mas, ele era assim e sempre se destacara por sua capacidade de autonomia. Não era um total descrente, mas queria provar que o fator tangeriano tinha que se provar independente de Rama, mesmo que não ateu.
            E tudo aquilo fervilhava na cabeça daquele hermafrodita alto, velho, e de espírito imponente, enquanto ele se posicionava, de pé, na central de três pavimentos daquela nave-mãe, com a tela holográfica manual contendo as informações de Ov. A ação iria começar.


***


- Então… qual o plano em longo prazo para superarmos mais de cem bilhões de anos-luzes de viagem? - perguntou Murion aos dois.

            Ninguém respondeu. Contudo, algo brilhou na mente do brasileiro:

- Eu tenho algo. Iremos para a boca do dragão, usá-lo como ponte. Os akashes prometem uma surpresa arriscada, mas não querem que eu diga a vocês. 

- Usá-lo como fonte alternativa de energia? Vamos para o Olho? - perguntou Nagara.

- Nem sei o que seria esse “olho”, mas é importante cogitar qual a natureza material dessa superentidade. Como passaremos ilesos? Será uma missão suicida. Mas, a idéia é mesmo dos akashes ou sua? - manifestou-se Murion.

- Não sei dizer a vocês, uma mistura de influências. Mas, eles me garantem que está tudo preparado. Por certo, estão mais fortes. Vamos esperar alguns dias, é o que eles recomendam para curto e médio prazo.


13 - Além do Olho


            A singularidade aparentava ser a reunião de milhares de buracos negros - abocanhando, daquela imensa galáxia, mais de novecentos mil anos-luzes -, tamanha a sua escuridão e capacidade de sugar partículas próximas. Mas, não era isso. De toda a sua força, havia um planetóide que resistia. O oráculo Mazida, o mais antigo.                   
            Vivia naquela solidão, sempre a observar, há quantas eras? De qualquer forma, não tinha vida própria. Era apenas um órgão, um instrumento, um meio. E tudo ficava armazenado, tudo o que era visto através de trilhões de variações de espectros e codificações diferentes. Os fatos mais importantes eram transferidos para um cristal que servia de disco rígido, localizado em Mazida, que era, também, um local de contato com a Voz de Rama.
            O olho não tinha fome, sede, depressão, alegria, nem consciência, apenas observava. Em seus canteiros mais próximos, viu uma nave dos eleitos chegar. Viu o seu interior e grafou bem a presença de um caçador batizado por Rama. Tudo foi guardado, registrado, pois aquele era um momento decisivo.


***


“O problema sou eu”, cogitou Ov, enquanto adentrava a câmara rochosa e escura do Oráculo. Ele se julgava incapaz de perceber os detalhes certos, de ultrapassar um certo limite que lhe seria não apenas útil como fundamental para a sua vida, para o seu trabalho, para a sua missão. Contudo, agora, teria que se concentrar no que ia fazer.
Ele se identificou por diversos controles cuja simbologia remetia a um conceito de aura celular, um marco inviolável para a correta caracterização do visitante. A câmara escura, após Ov passar pelo último painel paralelo, oscilou, como uma onda violeta que prosseguiu, bem sutilmente, quase invisível, e abocanhou, delicadamente, o visitante. O caçador, então, viu-se numa sala bem iluminada e um cristal irregular vários metros de altura. Abaixo, no chão liso e branco, havia uma marca onde ele teria que ficar, parado. Fechou os olhos, respirava lenta, baixa e constantemente, e sentiu um vulto amarelo sair daquele cristal e envolver a sua mente. Muitas imagens eram processadas, como se ele ganhasse um cérebro emprestado, complementar, de forma a ter repassado para a sua mente apenas os resultados.
Ov recebeu tudo em segundos. O processo terminou, e ele não soube como voltou em segurança para a própria nave, um aparelho com sua peculiar forma de gota, sempre flutuando a um metro do chão. Partiu, com urgência. Agora ele sabia o que a caça estava preparando. Uma visão de contexto tinha-lhe chegado.
           
             
***


            As informações iniciais de Ov chegaram às mãos do Marechal em questão de horas, via hiper-rádio, depois de ter passado por toda uma rede de oficiais e satélites munidos com sua própria inteligência artificial. A informação principal dizia respeito da localização da estrela onde os inimigos estariam escondidos, e, complementarmente, falava da possibilidade de alguma armadilha ter sido preparada pelos akashes. O Marechal ignorou aquela última parte. Chamou os generais mais experientes e ficou combinado que enviariam uma tropa de batedores para a estrela que eles passariam a chamar de “Ponto K”.
            Mais tarde, veio a confirmação. Com ela, uma flotilha inteira de escunas espaciais, parecidas com ovos compridos e deitados; e uma nave de grande porte, esta com o formato que lembrava vagamente um caranguejo, mas sem as pinças. Todas negras.
                       

***


            Nagara começava a ver como o perigo se avizinhava, por uma tela que ora funcionava, ora se desligava.

- Vamos esperar até o ponto certo, ok? A partir daí… - disse Kosnow, referindo-se a retaliação com ajuda dos akashes.

            Em um formato especial para aquele tipo de cenário, quatro escunas adiantadas e uma meio para trás, chegaram bem perto do sol. Até então, não havia sido levada a sério a ideal de um contragolpe real. Tudo parecia ser simples, mesmo que os instintos, infelizmente domados, dissessem outra coisa para os militares e para os corsários espaciais que assistiam a tudo de longe.
            Finalmente, em um dado momento, no ponto equatoriano, rajadas de fogo engoliram totalmente as cinco escunas. Parecia coincidência. Imediatamente, outras escunas espaciais ameaçaram avançar e a estrela inteira foi se tornando violenta. A frota se afastou.
            Na central de comando, Murion, que havia sido chamado de sua poltrona da periferia, perto da porta quebrada da entrada.

- Vamos? É interessante saber que meu dom não precisará ser utilizado desta vez.

             Os akashes começaram a agir, vibrando, tornando-se maiores. A estrela fazia o mesmo, como se ambos fossem um só, e uma forte onda de impacto varreu uma dezena de escunas espaciais que estavam por perto.
            A nave em que os três estavam explodiu. Consumiu-se. Os três estavam desaparecidos, porém vivos. Por enquanto.


***


            Uma sensação. A única coisa sentida: a percepção do Eu. A percepção de um Eu único. Era Rama, pairando em um vácuo profundo, nos limites do universo, sem forma.
            Aquele antiqüíssimo ser pensava em múltiplas camadas, e, em uma delas, personificava-se em três intrusos, incluindo uma força akashe. Ele não queria o choque entre os universos, ao contrário do que algum grupo ou pessoa ou entidade poderia inventar. Só queria manter o seu espaço, a sua zona de influência, e continuar vivendo como um ser vivo em uma das mais altas escalas de todos os ecossistemas. Mas, em seu Olho, ainda havia aqueles três estranhos. Pensava em fazer algo, e fez. Plantou algo em Nagara N’Kebeker. Algo que poderia fazer a diferença a seu favor.
            Ao largo disso, o Olho expulsou aquele feixe de energia, empurrando-os para uma galáxia elíptica, com muito mais estrelas que planetas, a mais de setenta bilhões de anos-luzes. E a queda só seria segura devido ao poder daqueles “anjos”.


***


            Foi como se o tempo não tivesse passado. Kosnow despertou em uma sala escura, todo dormente, sem os akashes por perto, no frio chão metálico, sentindo um ar moribundo. Tossiu, com medo de os seus guias não estarem mais filtrando o oxigênio. Contudo, a medida que a dormência foi passando e ele se levantando, as coisas pareciam se normalizar, com exceção do receio de ter caído em algum tipo de armadilha.
            Havia um ponto de luz perto da porta, luzes que queimavam a pele, e marcas no chão eram reveladas. Marcas de antiguidade, e poeira misturada à lentidão dos músculos do brasileiro.

- Ei! Murion! Nagara! Alguém aí?!

            Um barulho distante do outro lado da porta aparentemente sem fechadura. Porém, talvez aquilo não fosse uma porta, mas uma parede movediça, indicando algum tipo de engrenagem. Ele achou isso, e empurrou. Ao lado do feixe de luz, o metal se desfez, abrindo uma saída direto para um corredor, num pavimento superior de frente a um pavilhão. Kosnow avançou, desviando-se da luz, e, naquela semi-escuridão, viu contêineres, caixotes imensos, feitos de algum tipo de matéria escura, cada uma com o mesmo símbolo de infinito repleto de desenhos miúdos sem sentido.

- Alguém aí?!

            Ele continuou por aquele pavimento e começou a descer uma escada. Não demorou muito para chegar ao fundo, e viu um maquinário pesado sem função aparente, abandonado, poeira, e ossos delicados que pareciam ocos pelo que ele percebeu ao pisar em um deles, um dos ossos espalhados em um determinado canto.
            Kosnow foi seguindo adiante, chamando por Murion e Nagara, quando, finalmente, um deslocamento de ar se fez notar e, perto dele, um pálido Murion.


***


- Eu acordei em dois ou mais lugares ao mesmo tempo. Há alguns minutos, eu acho. Num dos mundos, este lugar estava apinhado gigantes, do tamanho de Nagara, porém de compleição fina e traços de aves. - relatou Murion, enquanto ele e Kosnow estavam sentados em duas daquelas sobras metálicas sem função aparente.

- E Nagara? E os akashes?

- Eu vi você e Nagara mortos. Fui feito prisioneiro, e nada dos akashes. E, lembro-me de uma coisa: estávamos não longe, mas na simulação do centro de todas as galáxias! Mais do que isso: havia algo sobre um filho da urizeniana, uma criança nascida de um corpo cadavérico, a qual aqueles homens-ave consideravam como um semideus… Bem, entenda: foram visões aleatórias, eu não estava lá realmente, mas aqui por perto, como um sonâmbulo. Cheguei a achar, até, que algo tivesse me seguido daquelas visões.

            Após um momento em silêncio, Kosnow dividiu sua ração e água com Murion, que consumiu avidamente. Depois, o adimensional, suspirando, meio deprimido:

- Então, aqui estamos. Se há um mundo paralelo por aqui, não sei se vou achar a tempo. Por outro lado, sabe? Sinto-me aliviado de estar livre daquelas criaturas.

- Eu queria saber para onde elas foram, mas não consegui - disse Murion, após engolir algo.

            Sons distantes apareceram de surpresa.

- Eu sabia!

- O quê?

- Sempre que eu viajo para realidades alternativas deste universo eu evito a suposta presença de entidades que parasitam entre cada uma dessas realidades. Mas, desta vez, foi tudo tão confuso, que posso ter sido seguido. Fiquemos atentos.

            Eles se levantaram. E Kosnow pensava, sobretudo, se Murion não estaria fora de si.

- Vamos procurar a central disto aqui, rápido? Você tem alguma idéia, Murion?

- Acho que sim. Siga-me.

            E partiram, apressadamente.


***


            Eles andaram por muitas horas, e tiveram pouco tempo para descansar, naquela escuridão de cabos velhos, um tipo de fungo, e, em alguns casos, um piso irregular, prestes a ceder.

- Aqui. Por aqui. - disse Murion.

            No final do pavilhão, após uma série de caminhos entrecruzados, salas e corredores, um imenso buraco negro estendia-se.

- Os elevadores devem são por aqui. Vamos descer pelo cabo por vários metros, não sei dizer quanto, e nos encaminharmos até um curto corredor que deverá terminar num portal. Mas, não sei como faremos para arrombar aquilo, se estiver fechado. O que você acha, Kosnow?

- Vamos adiante. Precisamos saber onde estamos, não? E seu ciclocomputador de pulso, funcionando…

- Sim, acho que ele está em ordem. - finalizou Murion, incisivamente.

            Eles desceram mais de quarenta metros, em silêncio, concentrados. O cheiro ia ficando azedo, o ar rarefeito, as mãos queimadas, mas resistiriam à escuridão. Quando Kosnow, primeiramente, pôs os pés no chão, algumas luzes acenderam no teto.
           
- Parece que não teremos problemas em arrombar nada. – confirmou Murion, ao ver, adiante, o portal da central de comando arrombado.

- Quer dizer que você vagou conscientemente pela sua visão…

- E deu certo. Deu certo. - respondeu Murion a uma pergunta que não pôde ser completada pelo brasileiro.

            Avançaram sem problemas, e, adiante, entraram na central de comando. Em meio a escuridão completa, uma luz piscava ao fundo. Eles resolveram se separar. Kosnow ficou perto do portal e Murion avançou para a luz. Era um botão, e ele apertou. Uma tela foi aberta como páginas rasgadas de um livro virtualmente projetado. E Murion pôde, finalmente, conectar-se através de seu ciclocomputador de pulso. Em instantes, já sabia: estavam mesmo próximos ao centro do universo, foram na direção contrária!
            Enquanto isso, o brasileiro, da entrada para a central, ouviu algo rastejando ruidosamente pelos cabos do que teria sido um elevador, de onde eles vieram. Sem avisar a Murion, foi se aproximando aos poucos. Infelizmente, estava sem aquelas pistolas de grávitons, que devem ter ficado naquela nave. Seja lá quem fosse, foi barulhento ao descer de vez. E ele viu: era um homem quase tão alto quanto Nagara.
           
- Por favor, não faça nada. Vim em paz. - disse o estranho. 


***


- Quem é você?

            Murion andava de um lado para o outro no corredor, enquanto Kosnow guardava a entrada. O estranho não estava preso, parecia pacífico, mas algo teria que ser dito.

- Sou Rama N’Kebeker. Vim de outra realidade para advertir sobre o que está acontecendo com Nagara, com a minha mãe nesta realidade.

- Se você é de outra realidade, como veio para cá? - continuou Murion.
            Após um breve silêncio, ele respondeu:

- Foram os akashes. Também posso dizer que o tempo passa de uma forma diferente entre este mundo e o de onde vim. A superinteligência Rama, meu pai, aproveitou a tentativa frustrada de vocês de tentar fazer uma grande viagem de setenta bilhões de anos-luzes de uma só vez através do Olho, para seqüestrar minha mãe e semeá-la. Ele nos levou a uma realidade alternativa onde esta Estação havia sido tomada por uma força militar após algum tipo de batalha entre dois povos diferentes de uma mesma raça a qual não entrarei em detalhes. Uma vez aqui, sob a proteção de meu pai, eu nasci, minha mãe morreu e, através de uma tecnologia antiga mantida sob sigilo nesta Estação eu vim. Mas, matei aqueles seres de luz como eu estava programado…

- Como assim? Você foi programado para matá-los? - interferiu Kosnow.

- Eles disseram que você iria perceber isso, como algo tirado de sua própria carne, na hora certa, quando você se tornasse são. Não entendi o que eles quiseram dizer. Olhem… eu só vim para cá porque quero me vingar de meu pai. Admito. E continuar a missão de minha mãe. Por favor, acreditem em mim.

            Eles não acreditaram. Aquela história toda estava muito mal contada. Eles o sedaram sem que ele percebesse, e Murion, já restabelecido, lançou aquele corpo adormecido para uma dimensão alternativa muito parecida com aquela, dotada de ar quase puro, água, e ração guardadas.
            Mais tarde, de volta ao pavilhão, tentaram pensar em como continuar a missão.

- Não precisaríamos dele, de qualquer forma. - disse Kosnow.

- Concordo que está tudo muito incerto, mais incerto que quando fui seqüestrado pelos urizenianos no passado. Sabe? O povo de Nagara. – continuou Murion.

- Eu soube.

- Bem, Kosnow, entendi o seguinte: os akashes te procuraram após os exekers terem feito algo com sua mente na infância, enquanto eu e Nagara éramos escolhidos; esses aliens vieram de um universo físico, material, paralelo, e não de uma realidade alternativa; eles parasitaram você numa luta contra Rama. Mais tarde, surgiu a idéia de roubarmos um caminho para setenta bilhões de anos-luzes adiantes mediante o Olho de Rama, algum tipo de observatório presente no centro da galáxia Mrolen. Contudo, caímos no nosso próprio engodo… Como eu permiti isso?! Como eu permiti que as coisas chegasse a este ponto? Nagara não ressurgiu com a gente, mas numa realidade alternativa, onde, segundo aquele estranho, o tempo corre peculiarmente, permitindo que um filho de Rama fosse gerido e nascesse, programado para destruir os akashes…

- Bem, Murion, vamos terminar essa missão? Afinal, eles não me parecem ter mentido sobre o suposto choque entre este universo e o deles.

- Parece que teremos que fazer algo. Mas, não podemos. Só mais uma coisa não entendi…

- Mas, eu posso, se vocês me permitirem.

            Como um fantasma, atrás deles, lá estava aquele que se dizia ser o filho de Nagara, com sua voz grave.

- Acreditem, vocês não me conhecem. Entendam: eu quero me vingar de Rama! E quero impedir que o pior aconteça entre os dois universos. Os akashes me mostraram tudo o que eu tinha que saber antes de morrerem.

- Como você…? – ia perguntando Murion.

- Sim, não usei nenhuma tecnologia. Tenho o mesmo dom que você. Mas, antes de prosseguirmos, preciso falar com Kosnow.

            O brasileiro via-se, agora, a dezenas de passos de Murion, esperando que aquele estranho lhe revelasse alguma coisa. O suposto filho de Nagara preparava-se para começar a falar, quando pegou pelo braço de Kosnow e tudo aconteceu num só instante. Antônio Kosnow e o filho de Nagara sumiram.


***



            Murion tentou fazer algo, passando por várias realidades alternativas aleatoriamente, sempre visualizando-as, em sua mente, antes. Dirigiu-se a diversos mundos. Em um deles, com a Estação funcionando normalmente com aqueles homens-aves, ele, com o caminho gravado pela mente, tomou uma mini-metralhadora de feixes luminosos de um guarda - um alienígena que ficou estancado pela surpresa -, foi atirando nas pernas de todo mundo, todos aqueles que mais lhe pareciam manchas inexatas, enquanto alternava realidades diferentes numa velocidade incrível, o que o fazia ter que rever mentalmente o mapa daquela Estação, até se ver, finalmente, numa sala com uniformes de astronauta. Ele foi rápido o suficiente: vestiu-se sem nem ao menos verificar se o ar que os homens-aves usavam era o mesmo que ele suportaria, e partiu para versões da realidade sem nenhum tipo de nave ou conglomerado tecnológico protegendo-o do espaço sideral e sua nocividade. Ao que parece, o seu organismo especial iria suportar por tempo suficiente debaixo daquele capacete semi-esférico.


Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem os próximos capítulos.

terça-feira, 22 de julho de 2014

O NÚCLEO (Caps. 9 e 10)

9- Entendimentos

            Com a ajuda de um projetor mental, as palavras do chefe da missão exeker foram discorrendo pacientemente:

- Nossos antepassados já foram como os humanos. Quando éramos numerosos, vivíamos em constantes crises entre nossos povos. Entramos em inúmeras guerras. Mas, também, esses mesmos antepassados, dedicaram-se, em tempos de paz, a tentar reconstituir a origem deste universo enquanto entidade física, e não necessariamente enquanto uma das realidades alternativas.

Nesse momento, ele virou-se rapidamente para Murion. Em seguida, continuou:

- Há seiscentas gerações, criamos um túnel para outro universo físico, uma outra bolha contendo, também, inúmeras galáxias. Não me perguntem como, apenas, na época, tínhamos uma teoria de que este universo em que vivemos não passa de uma versão mais complexa e maior de uma galáxia comum; ou, tudo se trata de uma questão de nomeação.

            Nagara estranhou, mas não interrompeu. E o chefe da missão prosseguiu:

- O essencial é que descobrimos um universo intacto, com muito mais diversidade de energia e inteligências que o nosso. Isso aparentemente porque toda a força da Criação, ao invés de se espalhar apenas por realidades alternativas, condensou-se em inúmeros outros conglomerados de conglomerados de galáxias. Mas, sem fugir do discurso, digo que criamos um excelente laço com os seres mais poderosos e sábios daquele outro universo. São aqueles a que os humanos e outras espécies humanóides chamavam, ou chamam, de “anjos”. Eles sofreram uma guerra que durou centenas das nossas gerações, contra uma superinteligência limítrofe…

 - E qual a nossa ligação com o caso? - questionou Murion.

            Calmamente, ele respondeu:

- Você, Andarilho, possui a habilidade de viajar, sem o uso de nenhuma tecnologia, por dimensões alternativas deste mesmo universo. E nos é útil por ser o único ser vivo já encontrado capaz de reunir o mesmo tipo de energia necessária para o que faremos. Nagara, por outro lado, nos será competente para fazer algo cuja habilidade nós perdemos, irás decifrar a mente estratégica dessa superinteligência masculina, de nome “Rama”, que vive no limite entre este universo e o outro, no Grande Vazio. Por fim, Antônio Kosnow também será útil, por, desde a infância, ter sido acompanhado por nós, que atualizamos, evoluímos o seu cérebro sutilmente, fazendo dele um meio de transporte potencial para esses akashes que vieram, segundo eles mesmos nos comunicaram antes desta missão, com o intuito de espionar Rama, mas foram descobertos, atacados, e se perderam…

- Espere, eu fui condicionado desde a infância? Como isso aconteceu? - insistia Kosnow.

            Sem nenhuma consideração, Arith não respondeu e recomendou:

- Aceitem por bem o fato de que eu não tenho muito o que revelar. Já sofremos muito com nós mesmos, a ponto de termos que viver neste casulo cósmico. Mas, se vocês não ajudarem os akashes, perderão a chance de evitar que Rama domine todos os oráculos cósmicos que construímos através de inúmeras realidades alternativas, e, com tal força, em sua loucura, faça com que um universo se choque com outro… É isso o que Rama quer: destruição, vingança. Ainda não sabemos o porquê, os akashes também não nos dizem muito, mas o principal é que o risco existe, e queremos evitar.

“E, por favor: Nagara e Murion, tentem não deixar que o passado de vocês interfira. Sabemos que Nagara participou da equipe que o abduziu, Murion. Mas, aquilo já passou. Você descobriu o seu nome, o seu criador, e mistérios que estão fora de nossa alçada. Além disso, como sempre tentou atuar com justiça em suas missões particulares, acreditamos que…”

- Tudo bem. Correto. Para onde iremos?

- Iremos até Andrômeda. Lá, diremos o que virá.

            Kosnow, sem entender nada desse suposto “passado” entre os dois, como um condenado, teve que aceitar o seu destino. Quanto aos motivos de Nagara para aceitar aquilo pareciam se resumir a curiosidade científica e militar, que lhe era inerente. Ela pretendia, então, esquecer aquela missão, aquela em que ela e seu povo tentaram achar um santuário cósmico e foram derrotados por um único homem sob circunstâncias que não vem mais ao caso. Mesmo assim, ela ainda fez uma exigência:

- E quanto aos meus companheiros que ficaram para trás? E quanto à minha equipe?

            Arith, querendo encerrar, disse:

- Quando você retornar, você saberá que nós os devolvemos ao seu mundo de origem, são e salvos. Acredite em mim.

            Ela permaneceu calada. O evento, com o testemunho de dez outros exekers, terminou, e eles foram conduzidos de volta por onde vieram. Muitas dúvidas ainda persistiam. Entretanto, pouco antes de voltarem, Thle informou:

- Chegaremos, daqui a quatro horas, a Andrômeda. Fiquem preparados. E boa sorte.
            O que fariam em Andrômeda? Por certo não tinham os recursos necessários para chegarem a tempo a essa “fronteira”. Também se poderia questionar como seria aberta a passagem para o outro universo. Kosnow tinha essa dúvida, que, em seu quarto, foi prontamente respondida pelos akashes.

“Você fará isso com a ajuda de Murion. Mas, antes, terá que lidar com Rama.”

            A mensagem silenciou.


***

            Uma das trinta e seis luas do oitavo planeta do sistema Seik destacava-se por sua vermelhidão, por seu aspecto árido, e por seus lagos ácidos para humanos, exekers, e urizenianos. Nagara observava tudo aquilo da nave auxiliar, ao lado de Murion e Kosnow, e só lembrava de sua missão também em Andrômeda, no passado. Mas, aquilo foi em outra realidade alternativa.
            Antônio Kosnow não prestava a atenção nisso. Como elemento mais importante da missão, duvidava de sua própria essencialidade naquilo tudo, e não sabia o que iriam fazer ali.
            Mais abaixo, à medida que a nave cilíndrica, auxiliar, pousava no chão desértico, dava para perceber que, apesar do clima árido e do ar seco, tudo parecia seguro para os três. Havia uma mini-estação subterrânea para onde seriam levados, e comida, água pura, ar climatizado.
            Separadamente, o brasileiro foi levado, com seus quatro akashes, até uma sala, recoberta por paredes envidraçadas, transparentes. Do outro lado de uma delas, havia um conjunto de três aparelhos retangulares e uma esfera negra pequena, aparentemente sem ligação física entre eles, que formavam um arco sobre um ponto vermelho no chão.

- Espere aqui. Os akashes se regenerarão mais rapidamente com esse gerador. – disse Thle, que se foi.

            Enquanto isso, a esfera negra ia adquirindo uma cor branco-amarelada, de pequena intensidade, mas de força constante. Kosnow não sabia como aquilo funcionava, e, em determinado e impreciso momento, o tranqüilo Murion e a estupefata Nagara foram postos juntos a ele.
            Finalmente, os quatro “vaga-lumes” voltaram a sua forma anterior, a de quatro humanóides brilhantes, grandiosos.

“Preparem-se. Será agora.”

            Não apenas Kosnow “ouviu” aquilo; a telepatia, dessa vez, foi direcionada aos três. E, tal qual uma lâmpada que se apaga, simplesmente se foram.
  

***

            Os satélites tangerianos tinham aspecto rudimentar, mas cobriam uma boa área da minúscula galáxia Gangi, distante bilhões de anos-luz da Terra, e tinham a tecnologia necessária para captar grandes aportes de energia relativos a viagens feitas acima da velocidade da luz, com o uso de tecnologia baseada em matéria escura. Porém, nesse caso, Ippor’aka, um hermafrodita de rosto vermelho e anguloso, em sua estação quase toda ocupada por autômatos e localizada nos limites de Gangi, bem do alto de sua solidão, via se tratar de um episódio urgente. Teria que levar esse caso aos seus superiores. Tudo se resumia a “eles”: os akashes, que estavam chegando.

10 - Perdidos


            Uma gota caía, e outra, e outra. O ambiente parecia calmo, enquanto, aos poucos, os três iam abrindo os olhos. Kosnow foi o primeiro a se por de pé. Estavam numa gruta, um local quase totalmente escuro, um fato que fazia o brasileiro supor que grutas e demais locais subterrâneos eram os locais preferidos para os akashes se teleportarem, considerando seu histórico com eles.
A gravidade e a qualidade do ar, felizmente, estavam adequadas aos três, devido a ação dos akashes, pois, Kosnow viu logo o exotismo daquele lugar, recoberto por uma manta verde de vegetais, e uma variedade de flores bioluminescentes, parecidas com tulipas, porém muito maiores e embebidas em algum tipo de gosma transparente.
                       
            Nagara se pôs a frente, para procurar uma saída. E Kosnow tentou consultar, mentalmente, os akashes, que lhes informaram:

“Vamos ficar bem para o próximo salto. Este mundo está cheio da energia que precisamos para recarregar e vocês estão seguros. Talvez daqui a 20 horas estejamos prontos, mas… alertamos: Rama possui seguidores nesta galáxia. Estamos em Gangi.”

            Os quatro pontos luminosos ficaram mais fracos, emudeceram, enquanto Murion ligava a lanterna de seu ciclocomputador de pulso e Nagara acendia uma lanterna convencional, que ela sempre trazia consigo. Kosnow, por sua vez, tinha o fraco brilho dos akashes, flutuando em seus ombros.


***


            A ração trazida e carregada por Nagara não tinha gosto, mas era nutritiva. Pastilhas e barras de alguma coisa verde. Eles, por outro lado, não dormiram nada. Haviam seguido por vários quilômetros, com todo o cuidado para não se perderem naquele labirinto. Chegaram, até, a cogitar se a habilidade de Murion não poderia tirá-los daquela missão… mas, o homem adimensional descartou logo a hipótese. Ele tinha interesses nessa missão, e não pensava em fugir.

- Então, Nagara, parece que o seu povo não conseguiu ter acesso ao que eu consegui. E, ao mesmo tempo, sinto dizer que não havia nada demais… - disse Murion, acocorado, após comer.

- Não vou perder tempo com meu intercosmos, mas, isso não interessa mais. Oráculos cósmicos, o Santuário, são páginas viradas. Apenas seguia ordens, queria juntar algum tipo de credibilidade que me permitisse sustentar a minha filha. Não sei se eu a verei algum dia. - confessou Nagara.

            Murion ficou calado. Agora, ouvia passos. Kosnow também. Avançaram com calma, tentando agarrar quem quer que fosse, mas só se depararam com um… brinquedo?


***

            Parecia um brinquedo, um bípede metálico, com fios soltos, empoeirado. Murion usou seu ciclocomputador de pulso e chegou à seguinte conclusão:

- Estamos próximos de algum tipo de fábrica abandonada. Fábrica de robôs e, talvez, de computadores. Seus rastros… Vamos seguir por aqui. - apontou para uma galeria a oeste, com um teto suficientemente alto para, finalmente, Nagara poder se esticar.

            Mais à frente, cadáveres desconhecidos, antigos, além de rochas fechando passagens, e um chão metálico com paredes parcialmente rochosas e parcialmente artificiais. Sem pararem para descansar, avançaram por um caminho estreito, e se depararam com um pavilhão. Um lugar imenso cheio de pontos escuros, rachaduras dando a profundezas obscuras, um cheiro ruim, e uma luz azul. Finalmente, um computador, algo contendo informações!


***


            Em contato sem fio com o ciclocomputador de pulso de Murion, vieram informações sobre a galáxia, não pertencente a nenhuma constelação conhecida, porém com visibilidade para a Constelação de Peixes. Seu formato parecido com o da Via Láctea, e um tamanho equivalente a um centésimo dela.
            A raça dominante naquele mundo, segundo a descrição de Murion com base no que ele retirava por meio de seu ciclocomputador, eram o Conglomerado Zalat, formado por cerca de sessenta povos da mesma espécie “zalat”, seres hermafroditas, ligeiramente altos, pele avermelhada e, em alguns casos, de olhos puxados. Eram uma civilização um nível abaixo dos exekers, ocupando dezenove sistemas solares e vinte e oito colônias. O supercomputador era deles, e não tão avançado quanto sua imagem poderia aparentar.
            Nenhuma informação a mais pôde ser retirada ou deduzida. Salvo o fato de que eles sabiam onde estavam: no planeta-colônia Rategash VI, mais precisamente numa ilha a poucas milhas náuticas de seu único continente.
            Dessa vez foi fácil imaginar que eles teriam pouco tempo. Garatujas sombrias começavam a aparecer com seus dardos. Não estavam seguros. Veio a inconsciência.
           
 
***

            Kosnow mal se levantou e bateu a cabeça no teto. Era uma cela propositalmente minúscula, sem cama, e com, apenas, um buraco ao fundo. A porta parecia porta de submarino, mas sem nenhum tipo de trinco. As paredes, o chão e o teto eram uma mistura de metal com rochas, o que poderia indicar que ele estava no mesmo planeta, e nos mesmos subterrâneos. Antônio Kosnow mantinha-se sob controle, devido a isso, e por ainda possuir os quatro pontos brilhantes flutuando acima de seus ombros.
            No topo da porta, uma janela circular se abriu. Ele se aproximou. Estava escuro do lado de fora. Veio uma voz em idioma reconhecível:

- Acorde!

            De repente, ele se viu numa cadeira branca, inclinada, amarrado por forças invisíveis. Era uma sala grande, cheia de cientistas. Seus parceiros estavam ao seu lado esquerdo, mas não podia enxergar se os akashes estavam por perto.
A luz, amarela, tremulava. O ar estava relativamente frio. Tentou falar, mas nada saía de sua boca. Foi quando ele sentiu uma mão fria e amolecida em seu antebraço esquerdo. Era um ser escuro, alto para os padrões da Terra e baixo para os padrões de Nagara, sem rosto, recoberto por um manto branco, ladeado por dois daqueles seres hermafroditas os quais Kosnow não lembrava o nome.

- Sou Gameht, mensageiro de Rama. Não tenhas medo.
           

***

            As camas foram separadas. Nagara ainda não enxergava direito, mas sabia estar sendo colocada num lugar mais fechado, com paredes de aparência envidraçada. Mas, algo ia surgindo em sua mente.

“Por favor, não faça nada que chame a atenção. Somos os akashes.”

            Mais interessada, ela prestou a atenção:

“O mensageiro de Rama veio para iludir. Nós nos escondemos, nos transferindo para você.”

            E, mais adiante, duas mensagens:

“Entre em contato com Murion. Consiga uma maneira, você não está sendo vista.”

“Não pudemos nos transferir até ele antes. Através dele, de seu poder, poderemos criar uma situação nova.”

            Nagara ainda tentou perguntar mais, em pensamentos, mas eles se calaram. Nenhuma luz por perto, nem nada além de seus batimentos cardíacos. O diferencial é que ela percebeu que as correntes de campo de força invisível, que mantinham seu corpo preso, estavam bem menos resistentes.
            Com calma, ela levantou-se. Agora, enxergava melhor. Um pouco tonta, tateou a sua cela extremamente pequena para suas proporções. Deveria encontrar alguma saída rapidamente. E havia uma.
            O duto de ventilação parecia primitivo. Compacto, minúsculo, mas útil. Nagara conseguiu abrir sua grade, sem muito esforço. Naquele momento, os akashes sumiram.


***


            Sentado mais confortavelmente, ao invés de deitado, em uma sala fechada recoberta por vidros e metal de aspecto plastificado    , Antônio Kosnow começou a ouvir o relato de Gameht, sentado do outro lado da mesa:

- Não vim aqui para enganar você. Tenho, entretanto, que alertar sobre o que esses akashes fizeram contra a civilização que criou Rama, e o porquê de eu precisar que você me revele para onde os seus guias foram.

“Os ramas, surgidos no princípio deste universo, eram um povo humanóide inteligente e com boas perspectivas. Foram os primeiros a colonizar um sistema exossolar limítrofe, nos confins deste continente de galáxias. Queriam, somente, seguir com os seus instintos científicos, filosóficos e religiosos, descobrirem de onde todos nós viemos e de que forma tudo surgiu.”

            As imagens iam surgindo e passando pela mente de Kosnow, que via tudo impressionado. O mensageiro continuou, com sua voz fleumática:

- Descobrimos a morada dos anjos, a casa dos deuses, a fonte de nossas crenças. Mas, meu amigo, eles nos enganaram. Trocávamos recursos, porém eles sempre queriam mais. Visitavam o nosso lar, mas nós não podíamos visitar o deles. Buscavam informações detalhadas sobre este universo e suas realidades alternativas, nós dávamos sem ganhar nada em troca. Até chegar o dia em que resolvemos nos fechar, cortar relações, desistir da empreitada. Sabe o que aconteceu?

            Após uma pausa, ele continuou:

- Eles não permitiram, e nós entramos em guerra. Tivemos que atacar para nos proteger. E, ao primeiro sinal de nossas bombas para o universo deles, formado por outro tipo de big bang, um grande lastro energético surgiu de volta e nos atingiu. Fomos exterminados. Entretanto, eles não contavam com a Iniciativa Pós-Vida. Através dela, seres artificiais como eu foram criados por indústrias espalhadas por outras galáxias, em acordo com civilizações como esta aqui… há muito tempo, porém, a maior parte de nós fundiu suas forças psíquicas e criou Rama. Eu e uns poucos ficamos, viramos mensageiros.

            Tudo aquilo, toda aquela conversa de menos de dez minutos, havia transcorrido, na mente de Kosnow, como se tivesse durado anos. Com imagens, emoções, como uma monumental novela de milhões de gerações. Aquelas poucas palavras sem imaginação haviam ganhado o mundo no subconsciente de Kosnow.

- Então, onde estão os seus guias? Onde estão os akashes que viviam sobre seus ombros?

            O brasileiro, ainda chocado com a narrativa, que na verdade não passara de uma explanação rápida, sem saber estar sendo induzido, sem saber estar sofrendo algum tipo de lavagem cerebral, disse a verdade:

- Eu não sei.

            As mãos do mensageiro se fecharam. Olhos invisíveis marcaram os olhos de Antônio Kosnow, que caiu num pesadelo sem volta.

- Ele realmente não sabe. – o mensageiro indicou aos oficiais de Rategash VI.


***
           
            A viagem por aquela rede de dutos de ventilação, interligando uma seção inteira de celas-túmulos, não era capaz de detectar a presença dos akashes, que se movimentavam através do vôo e de eventuais microteleportações.
            Murion estava em sono profundo, induzido por sedativos, e estava numa cela-túmulo mais bem vigiada. Os akashes, entretanto, foram rápidos.
            Longe dali, uma sala com um homem desmaiado sobre a mesa. Fora dela, os oficiais daquele planeta se preparavam para receber mais encaminhamentos sobre o que deveriam fazer com aqueles três. Gameht voltaria em menos de um dia. E Ippor’aka já estava onde deveria estar, frente aos seus superiores, naquele planeta.
            A reunião, para ele, foi tensa. Uma longa análise e discussões sobre seus relatórios, em uma sala localizada a menos de cem metros daquela em que se encontrava o desacordado Kosnow. Queriam dados matemáticos daquelas medições, avaliar o poder daqueles três espécimes, daqueles três corpos. Mesmo assim, eles puderam ouvir…
            Uma onda escura se aproximava rapidamente, englobando pessoas e objetos, e fazendo-os desaparecer. Alguma coisa estranha vinha da cela-túmulo de Murion. Sons de objetos e pessoas se retorcendo e sendo engolidas por um tipo de portal interdimensional que se alastrava como um manto negro. Isso atraiu os militares. E a reunião de Ippor’aka foi interrompida.
            O acesso a Kosnow estava interrompido, as luzes haviam se apagado, e um feixe eletromagnético danificava mesmo as armas mais distantes. Sirenes não tocavam, e o silêncio vinha se tornando mais pesado após os gritos iniciais. Ippor’aka permaneceu naquela sala, sentado, assustado. Num dado momento, ele viu uma sombra por detrás da porta. Passou rápido.
            Do lado de fora, uns poucos oficiais, alferes, médicos, e dois comandantes, amontoavam-se numa nave, para fugir da ilha. Dentro, porém, o ar frio, algumas salas e corredores congelados, nenhum fogo, nenhum circuito a mostra.

- Kosnow?

            Lentamente, ele foi recobrando a consciência.

- Kosnow? Sou eu, Nagara.

- Sim? O que houve?

- Temos que sair daqui logo.
           
- Você não é…?

            Ele estava amolecido, meio fora de si, e teve que ser quase carregado por Nagara, até o espaçoporto. Murion estava logo atrás deles, com uma imensa sensação de ressaca. Subiram muitas escadas, rapidamente, e, quando chegaram onde queriam, Kosnow já estava normal outra vez. Andando com as próprias pernas e pensando com os próprios miolos. Pararam. E, naquele instante, os akashes retornaram ao velho dono.

- Livre, finalmente. – disse Murion, satisfeito, sorrindo internamente como um homem cansado.


***


            Uma nova dificuldade começava a surgir abaixo daquele sol que se punha: os três não tinham como entrar em uma das pequenas naves que sobraram no espaçoporto, nem tinham idéia de como fazer uma delas funcionar. Decidiram se aventurar nas matas periféricas, e voltar a rede de grutas para se esconderem.

“Nós temos uma idéia melhor” - pronunciaram-se, telepaticamente, os akashes. Fazendo-se “ouvir” pelos três.

“Temos forças suficientes para irmos a uma galáxia vizinha. Mas, de lá, vocês terão que ser rápidos. Teremos que ficar pouco tempo, e… sim, percebemos os seus pensamentos Kosnow. As dúvidas serão tiradas quando estivermos seguros.”

            Enquanto uma frota de espaçonaves retornava, prestes a criar um campo de força ao redor de toda aquela ilha, eles desapareceram a tempo.
            Bem longe, na órbita daquele planeta, uma estação espacial.

- Então, o único sobrevivente foi você… - dizia o subchefe daquele setor espacial, numa sala claríssima, banhada por uma luz amarela.

- Bem, Gameht tem planos para você. – ele continuou.

            Ippor’aka ouvia aquele final de conversa, e sentia-se glorificado pela possibilidade de ser aperfeiçoado e ajudar à Rama. Quem sabe, ele se tornaria um mensageiro, com direito a vida eterna e amplos poderes de teleportação, cura, e telepatia. A glória o aguardava - ou a perdição.



Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem os próximos capítulos.