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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O NÚCLEO (Capítulo 20)

20- Cercos


Roy inspira fundo e abre os olhos. Toda aquela história em sua cabeça, vaga, cheia de personagens rasos, tornava-se cada vez mais apagada. Ele só lembrava das tais “células”. De qualquer forma, isso não o serviria agora.
O estranho, talvez um delírio, não havia voltado. Roy percebia, enquanto ficava de pé. Enquanto isso o mais ensurdecedor silêncio daquela espécie de base científica ou estação espacial, ou seja lá o que fosse.

- O sonho refrescou a sua mente, rapaz? - aquela voz súbita, talvez mais grosseira, vinha do corredor à direita.

Era o estranho. Nosso homem solitário pensava dessa vez tratar o problema de forma mais ponderada. Um delírio? Tudo aquilo seria um delírio?
De volta a conjunção de corredores, lhe surgia: “Elevadores/ALMOXARIFADO/Acesso para Núcleo de Entretenimento”, talvez uma indicação mais concreta e menos fantasiosa. Uma escolha mais racional, pensava Roy. Os elevadores poderiam levá-lo para fora dali.


***


Enveredando pelo corredor direito, depois de alguns minutos de reorientação espacial, Roy continuava a substituir o vazio de se próprio pelos novos detalhes daquele complexo. As paredes e o chão permaneciam irretocáveis, como que querendo representar uma espécie de “grau máximo” da civilização técnico de uma espécie inteligente.
Menos angustiado após as horas de sono, mal sentia dores musculares. As pernas funcionavam bem. Após uma meia hora, finalmente ele se deparava, naquele corredor bem iluminado e arejado, com uma grande porta arredondada em sua parte superior. E sua mente não lhe enganava, nem mesmo com aquele frio na espinha: aquela era a entrada de um elevador há muito inutilizado, um de uma série de elevadores de um só andar, de uma só conexão.
Instintivamente, ele dá uma batida com sua mão esquerda na porta. Um vago som parecido com máquina de lavar. Em pouco tempo, o barulho cessou, e a porta desapareceu do nada. Uma câmara, uma “sala”, se lhe surgia bem espaçosa. Entra nela. A porta reaparece, e, novamente, aquele som vago de máquina de lavar do século XX.
Quando a porta se abre (ou “desaparece”) novamente, Roy depara-se com a mais negra escuridão, um ar mofado, um frio incômodo, e ausência de brisas.
Ele ainda não tinha coragem de deixar o elevador quando, do meio da escuridão, uma mão apareceu, um perfil de rosto, e aquela mesma voz do sujeito misterioso:

- Você dormiu. Poderemos interagir melhor agora.


***


Enquanto aquele perfil sombrio, com aquela voz grave, falava, Roy ouvia, mas, ao mesmo tempo, buscava saídas. Por enquanto, em vão.

- Sou Arnckott, o avatar holográfico de um supercomputador desenvolvido para manter as atividades internas… disto aqui. - dizia, dando a entender, através de uma gesticulação invisível pela escuridão, que se tratava daquele recinto, daquele complexo espacial.

- Escute-me. Devido a um acidente, eu e você ficamos presos. E não disponho da maior parte das informações. Mas, te dou um aviso sobre este andar: você poderá encontrar acesso manual a mim, e ter acesso a partes de mim. Porém, o Tempo corre de forma diferente neste andar. Você só tem algumas horas, algum tempo, o qual não posso medir… e, depois, deverá continuar tentando se lembrar.

Silêncio. Assustado, Roy ia percebendo uma leve iluminação ao que seria um longo corredor a sua frente, imensamente largo e comprido. Em seguida, após ter coragem de entrar de vez naquele andar e perceber a entrada do elevador se fechando, percebia que o estranho som de máquina de lavar tornou a se fazer presente, rapidamente.
Parado, diante de duas portas para elevadores - a de onde ele havia saído e outro, para grandes cargas -, ele novamente viu palavras em sua mente sobre aquele andar. NUC 04. Um andar reservado para mais pesquisas envolvendo ciências estranhas, e… realmente… conforme o estranho havia dito: em algum lugar, por lá, ele encontraria um terminal de computador que lhe traria dados sobre a localização daquela instalação no Espaço. E, talvez, mais informações. Porém, voltando a si, Roy não tinha certeza sobre quais perigos o aguardavam se ele demorasse demais. Quanto tempo lhe restaria?
“Sei de pouca coisa. Sinto-me cada vez mais enrolado. Mas, devo acreditar em mim mesmo. Devo seguir confiando em minha habilidade em conseguir informações. Certamente, sou mesmo sobrevivente de algo. Ele falou em um ‘acidente’…”, inferia Roy em pensamentos consigo mesmo.


***


Pela mente, que ainda despertava, de Roy, enquanto caminhava em meio àquele cheiro de carne morta escondida, vendo que o corredor dava acesso a vãos completamente sombrios, surgiam-lhe as lembranças do sonho que ele tivera anteriormente.
Aquilo fora menos um sonho e mais um conjunto do que deveriam ser “lembranças”, mas sob o ponto-de-vista vago, superficial e inconstante de um único personagem. O ponto essencial, porém, não era nenhum personagem, mas o conceito de “células de Berseck” - ou, mais precisamente, “partículas multiuso” -, construídas através de conhecimentos obtidos mediante os antiqüíssimos colisores de partículas nas mãos de uma indústria que passara a trabalhar com elementos do universo subatômico. Tudo em prol de pseudo-átomos artificiais capazes de canalizar, a princípio, redes de informações espaciais.
Com os pensamentos longes, Roy não percebera que o corredor terminava num imenso portal trancado. Só agora parava os seus passos em meio aquele lusco-fusco inebriante, de aspecto sujo.
Na mente dele, mais uma vez, as indicações: CATALISADORES AFÍSICOS DE CONTINUUM ESTABILIZADO (CACE), MOTORES DA ARCA DE NUC-03, RESIDÊNCIAS, GARAGEM, e BIBLIOTECA.
Ok, a Biblioteca seria o seu caminho. Mas, como passar por aquela muralha branca, de vários metros de altura e de largura, que, de portal, só tinha a “lembrança” de Roy?


***


Mais de vinte e quatro horas certamente se passaram desde que ele despertou pela primeira vez. Sentado naquele chão gelado, naquele ambiente escuro. Até agora, ele sabia: havia ele, fungos, e bactérias causadoras de seu próprio mau cheiro.
Outro ponto importante estava na sua total ausência de fome ou de sede, o que, talvez, confirmasse que ele não era um homem comum. Mas, isso não queria dizer que, futuramente, ele não viesse a sentir fome ou sede.
Dia, tarde, ou noite? Talvez estivesse no meio da tarde de seu segundo dia. Unhas mais sujas, cabelos mais desgrenhados, mas a mesma curiosidade palpitante, algo que quase lhe doía.
Quando começava, naquele momento, sentado no chão, a pensar naquele tal de Arnckott, ele parece ouvir algo… sim… certamente uma tosse. Ele não sabia ao certo de onde vinha, mas parecia uma voz masculina, a voz de um senhor.
Parcialmente calvo, com a barba rala, e traços asiáticos, aquele holograma humano era outro que parecia perfeito. Quando, finalmente, mais próximo, em seu macacão sujo e ar pesado, manifestou-se:

- Olá, então… Sou Karnak, uma espécie de historiador de tudo aquilo que diga respeito a isto aqui. A este micro-universo. – apontava, com os braços, as redondezas.


***


- Sua aparência parece normal… - Roy estranhava, já de pé.
- Ordens de Arnckott. Ele deseja que você o tema, mas que veja a mim, e a outras partes subalternas do supercomputador a qual ele representa, com mais confiança. – explicou o velho, que, ainda, questionou:

- Você quer passar pela barreira, não? Antes, você precisa de uma simples senha, uma memória.

Roy lembrou-se de seu sonho em NUC-05, de Ibruck, Ramsés, e de mais uma série de elementos secundários superficiais, tênues.

- Tenho ordens para te acompanhar até aqui. Não espere que eu suma rapidamente. Recomendo que você se sente e mire a barreira, que te servirá como tela. Tenho algumas informações para que você cumpra sua escolha. – Karnak falava e, por fim, sorria.

Olhando mais atentamente para a barreira-portal branca, Roy começou a meditar, ao invés de meramente dormir, novamente sentado, vendo algumas imagens e ouvindo a voz do velho como quem ouve – o que de fato era – um resumo de um relatório.


***


- Primeiro surgiu A., enquanto consciência fluída em meio a uma escuridão silente. As luzes, porém, foram surgindo. A essência de toda a nova matéria ia se conformando para a nova noção de espaço e tempo. Após isso, surgiram eu e outros, distribuídos pelos nove NUCs originais e o NUC 0.
“A Nova Ciência, ou, simplesmente, Afísica, para evitar o fim do Universo tal qual o conhecemos, criou, ao final do Universo antigo, uma Estação tecnológica, - uma construção apressadamente adaptada para os devidos fins, sem estar totalmente adequada aos corpos primitivos de seus habitantes - a partir de um asteróide perdido de grande envergadura. Só A., a personalidade de nosso supercomputador possui os dados exatos.
A Nova Criação, a resultar um micro-universo composta apenas pela parte interna destas instalações, e mantida sob a alçada de menos de 1 trilionésimo das sobras de energia do fim do Universo original, foi feita para dez mil escolhidos, seres gerados pela mais avançada genética, chamados de ‘Apsans’, com seus corpos de antepassados humanos primitivos. Andróides a proteger, sobretudo em NUC-0, tanto o gerador central que permite que esta dimensão se mantenha quanto a Fonte das Almas, carregadora dos duplos astrais, das almas de bilhões de seres humanos e trilhões de seres pertencentes a sete outras espécies de cinco galáxias próximas a Via Láctea.
Outros NUCs, por outras raças, também foram construídos. Em outros pontos estratégicos. Não nos comunicamos, mas deve haver uma rede de, até, trinta e cinco mil Estações em universos paralelos. Informações sobre isso estão em NUC-0.  
Anexo Um: o termo ‘Afísica’ é a versão inapropriada e popular para o que por muito tempo foi uma Ciência de Borda. O nome original da Ciência que o guiará é Física de Campos Supremos (FCS), que pressupõem que apenas 12 dimensões sustentam uma realidade minimamente viável.
Anexo Dois: Os quatro NUC inferiores do nosso micro-verso, criado a partir de uma Estação, no interior de um grande asteróide do macro-universo anterior, responsáveis por todo um conjunto de matérias-primas, laboratórios, e centros culturais de diferentes espécies estelares inteligentes, além da humana, foram tragados durante a passagem para a condição de micro-verso.
Anexo Três: você um corpo de um andróide Apsan, mas seu espírito possui outra origem. Procure se conhecer melhor acessando, em sua própria mente, informações sobre as Células de Bersek e a Fonte das Almas. Só estou autorizado a revelar esses dados. Fim.”


***


Aquela sopa de informações desconcentradas havia desaparecido, para Roy, tal qual Karnak. Novamente de pé, sem mais aquelas imagens vagas que apareceram na barreira-portal branca, ele agora entendia, ao menos, o porquê de sua ausência de fome e de sede, e a origem daquilo tudo. “Mas, não sei ainda o que devo fazer para… sair daqui! Tenho que sair!”.
Longe daqueles pensamentos intensos, superficiais e confusos, sobre si mesmo, finalmente, no local onde havia aquela muralha branca, uma entrada sem portas de quase cinco metros de altura a poucos passos de onde ele estava.
O ar não parecia mais tão parado, nem os odores tão nefastos. Sim, ele era um tipo de andróide, e, sim, ele vivia prisioneiro de um micro-universo. Mas, por que outros andróides não apareciam, somente hologramas bem-feitos de partes da personalidade do supercomputador central? E que escolha ele teria que fazer -  seria ela sair ou não sair daquele mundo?
Pensando bem, Roy não estava mais tão angustiado quanto em seu primeiro despertar. E sabia até onde aquilo ia: até NUC-0. Talvez lá haja uma saída, ou, possivelmente, bem antes… afinal, ele sabia haver uma garagem próxima de naves. Ele acreditava, finalmente, que conceitos como micro-universo ou macro-universo não atrapalhariam uma saída do que ele pensava ser uma estação espacial abandonada com nomes e conceitos complicados – ou até engraçados – como “Afísica”, “universo artificial ocupando um pequeno espaço de onde estivera um universo anterior”, “Fonte das Almas”, etc. De qualquer forma, seguiria em frente.
A entrada não passava de um antro escuro, supostamente capaz de revelar a verdadeira face daquele setor ou andar. Roy, apesar de hesitar, caminhou até lá e entrou. 


***


O tênue cheiro de mofo não se prolongava por aquele lugar. Em verdade, pela primeira vez desde o despertar, Roy não sabia o que cheirava, nem agradável nem desagradável. O clima era ligeiramente morno, e o som era nenhum. Após essas primeiras impressões, o vago surgimento da luz, vinda de nenhuma lâmpada identificável, mas sempre presente como um manto dotado de vida própria. Foi quando Roy percebeu que estava em meio a um gigantesco armazém recheado de grandes caixas de cor gelo. Enquanto isso, atrás, a entrada desaparecera.
Suas caminhadas ecoavam pelo vazio. Não passava de um andróide apsan, num corpo, porém, que lembrava um homem do terceiro milênio, mas sem guardar, em sua mente, nenhuma “alma” que não fosse a sua. Ele era algo curioso… era o que aquele gordo ruivo de macacão branco, que havia deixado uma moça negra dormindo, via no desconhecido Roy, que por ali aparecia. Ele tomou coragem e foi abordá-lo.

- Ei! Senhor?

Roy, assustado, pensou em esconder-se. Mas não. Era tarde. Próximo a ele, um gordo ruivo, alto, com gestos de amenização, que desandaria a falar.

- Oi… er… Quem é você? Pela forma como você está vestido, diferente de nós… você é de algum tipo de hierarquia superior? - perguntou o ruivo.

- Eu não sei. Sou… Roy.

- Roy? Sou Alan Kerk. Estou com uma garota chamada Maria. Você sabe onde estamos?

Alan Kerk aproximava-se, mas Roy já estava mais seguro.

- Acordei, há, talvez, um dia. Eu estava numa cela. E você?

- Eu também, mas aqui mesmo, em NUC-04, ao sair dela me deparei com Maria. Bem, de qualquer forma, parece que estamos sob algum tipo de trauma. Alguma coisa aconteceu com o que éramos… Bem, você me seguiria até ela?

- Hã… sim, a garota que você citou. Só mais uma questão, você viu um holograma chamado Arnckott?

- Não. Apenas um tal de Karnak, algo assim.

A conversa durou mais um pouco, e foi tranqüila, enquanto caminhavam, sobre a suposta quem eram eles, qual seria a missão deles, e uma preocupação constante de Kerk sobre hierarquias baseadas nas roupas em que vestiam. Finalmente, atrás de um contêiner do tamanho de uma casa modesta, uma moça negra, de cabelos curtos, com o mesmo macacão de Kerk, acordava.


***


Após horas de descanso, sentados ao redor de uma fogueira imaginária, os três partiram até outra entrada em uma parede mais próxima do que Roy imaginava, que os levaria aos desconhecidos “Catalisadores Afísicos de Continuum Estabilizado (CACE)”, passando por uma rede de corredores com suas salas protocolares vazias e trancadas.

- Essa nova linha de corredores parece mais bem cuidada. – comentou Kerk.

E, realmente, apesar da fraca iluminação, o ar parecia mais puro e as paredes não muito frias. No chão, um breve reflexo dos calçados singelos do casal de macacão e de Roy, é uma marcha um pouco apressada, mas necessária.

- Esse Arnsckott… esse supercomputador está mesmo do nosso lado? – questionava Maria.

- Acho que ele não está do lado de ninguém. - respondia Roy, antes de ser interrompido por um baque vindo dos fundos de uma espécie de sala com um jardim de plantas mortas desconhecidas. Os três ficaram mais cautelosos, mas, aquilo parecia algum tipo de som programado, de motor ou de algo do gênero

- Parece vir depois daquela porta. – apontava Kerk.

A porta, do tamanho de um homem gigante e magro, possuía uma trava curiosa, porém aberta, tornando as coisas, aparentemente, mais fáceis.
Do outro lado, uma sala imensamente espaçosa, e uma profusão de fios bem finos, azulados, correndo por grandes postes, em locais demarcados, ligando-se a uma parafernália preta, de diferentes formas geométricas, como a ponta de um iceberg que se escondia acima do teto e se espalhava sob a forma de veias por cada parede e poste daquele lugar. Quanto aos sons, apenas baques rítmicos e um zunido.
Toda aquela zona possuía uma paisagem repetitiva. Fora os postes metálicos, não havia uma aparelhagem grande nem nada que lembrasse computadores. Ao que parece, bastava atravessar alguns trechos até atingir o outro lado.
Enquanto passavam por uma única zona sem fios, rápidas imagens passaram pela mente de Roy. Nelas, via-se trabalhando como mestre-de-obras de uma construção, em um mundo vasto, meio primitivo, e…

- Roy! – interrompeu Kerk, apontando para a saída daquele labirinto.

Do outro lado, um corredorzinho com uma espécie de simples elevador de manutenção.

- Não podíamos ter nos arriscado indo para os elevadores centrais?

- Não, Roy. Eu deveria ter sido mais claro: há algumas zonas cegas neste andar, sem ar, gravidade, e, talvez, sem a proteção dessa “magia afísica”…

Desagradável, mas, nada grave para Roy. Não iria ficar com sentimento de desconfiança se poderiam chegar mais rápida e seguramente por ali. Nem tiveram tempo para discorrer sobre detalhes em relação aos caminhos que poderiam ir. As coisas pareciam passar-se rapidamente, mas, não. Não, era Roy que vivia com a mente longe, cheia de coisas que não se revelavam de vez, com exceção daquela sua lembrança trabalhando como mestre-de-obras – e o curioso é que ele sabia o que um mestre-de-obras fazia, mas não sabia como sabia.  
Agora, no elevador, apertando uma simples tecla, puderam seguir para o andar seguinte. NUC-03, certamente, apresentaria os mesmos obstáculos de sempre.



Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem os próximos capítulos.

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