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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O NÚCLEO (Capítulo 19)

19- Sonhando em NUC05


Aquele mês de maio de 2094 prometia apenas notícias boas para a Pherson Atlantics, uma organização fundada há mais de trinta anos, patrocinada pelos Estados Unidos, União Européia, e outras nações como China e Índia, sediada na Austrália, e uma das poucas licenciadas em um tipo de tecnologia que vise a exploração do espaço sideral pelo ser humano.
Franz Ibruck, no alto dos seus sessenta anos de idade, cientista dessa empresa, ansiava que seu projeto “Células de Berseck”, baseada em teorias pouco convencionais, fosse comprado. Tratava-se, por meio de testes preliminares, em permitir a mais perfeita comunicação, por sons e imagens, entre a Austrália e um satélite localizado nos limites do nosso sistema solar. Longe de sua equipe, naquele grande banheiro high-tech, ele enxugava seu rosto, mirando-se no espelho, pensando no discurso que teria que proferir nas próximas horas, quando sua velha dor de cabeça voltou a agir. Não seria nada importante se aquele não fosse um dia fundamental em sua carreira. De qualquer forma, após, mais uma vez, molhar o seu rosto e enxugá-lo com uma pequena toalha particular, não percebera que havia mais alguém no banheiro…


***


Acordado repentinamente por um despertador, o chefe da segurança da Pherson Atlantics, Ram Moreira, só teve tempo de sentir dores nas costas, e, no alto de seus quase dois metros de altura, apenas endireitar, um pouco, a roupa de trabalho que ele havia usado no lugar de um pijama, na noite anterior.
O caráter emergencial do problema já foi sendo esclarecido enquanto ele começava a dar partida em seu carro, através de um viva-voz. Apenas isso restou como lembrança: “…doutor Ibruck foi encontrado morto… não podemos passar os detalhes agora… venha agora!”. Acompanhando isso, uma sensação estranha na mente do chefe de segurança, a de que tudo aquilo seria um sonho. A vaga vertigem, porém, não atrapalhou sua direção, nem mesmo a sensação de sentir uma brisa fria em suas pernas. Em menos de dez minutos, já estava de volta ao seu trabalho - era isso que importava.


***


Voltando três horas no passado, o renomado cientista apenas percebia, vagamente, o seu corpo caindo. A inconsciência. A sala mais escura para um cético, a ausência de toda e qualquer percepção em meio a um horizonte negro ao mesmo tempo infinito e unidimensional.
Aquilo despertava a partir do momento em que sua casca anterior quebrava. Pensava como um bebê, mas com todas as emoções da vida anterior aglutinadas por cada segundo. Havia sido o primeiro a preencher o que viria a ser a Fonte.


***


O banheiro estava intacto com, apenas, Ram, dois homens de confiança, uma médica, e um cientista do próprio projeto do Dr. Ibruck. Não teriam local mais apropriado para resolver a questão naquelas quatro horas que lhes restavam antes de o caso ser transferido para uma equipe mais sofisticada da própria empresa, sediada nos EUA, no estado de Nova Iorque.
O chefe de segurança observava um corpo que começava a esfriar. E, além daquela percepção de que tudo não passava de um sonho, parecia ouvir o que o cientista pensava consigo mesmo, coisas de um caráter preliminar. Em algum momento, ele, um tal de Magnus, com seu aspecto magro e ruivo, iria se pronunciar, virando-se para Ram:

- Este não é um caso da regra das “quatro horas” de investigação.

Novamente de pé, sem mal ter tocado no cadáver, salvo examinado os olhos, pediu:

- Informe Nahas. Ele chamará o pessoal adequado.

Olhando para o restante da equipe, anunciou:

- Vamos saindo. A “limpeza” pode esperar.

De resto, Ram Moreira apenas poderia imaginar o que viria adiante. O fato é que, após aquela experiência, sua impressão de estar vivendo em um ambiente onírico foi-se embora. O cotidiano dava as suas caras, bem como a lembrança de suas dívidas financeiras…


***


            Nahas já desconfiava que esse negócio de “nanotecnologia quântica” não era tão inofensivo. Apenas não imaginara que fosse dar em morte. Em seus mais de dez anos como “especialista em coisas estranhas”, abarcada pela suas especialidades em Neofísica e Macrológica, nunca havia lidado com um cérebro como aquele.

- Seus neurônios foram transformados em corpúsculos formados por novas Células de Berseck. Ao que parece, o seu invento apoderou-se dele, reproduziu-se em seu cérebro… não duvidávamos que isso pudesse acontecer, na verdade, até fazia parte de uma proposta para novas pesquisas; mesmo assim, as coisas se precipitaram muito cedo. - disse ele, calmamente, frente a um grupo de quinze especialistas, em Nova Iorque.

Os detalhes foram repassados a comunidade científica tanto da empresa quanto de seus patrocinadores estatais. Mas só a Doutora Nasser teve um acesso mais completo. Seu relato oral, em linguagem informal, resumia tudo da seguinte forma:

- Primeiro, temos as Células de Berseck, criadas a partir de nanotecnologia quântica, através de subpartículas artificiais, capazes de formar uma rede comunicativa de alta definição pelo Sistema Solar (além de outras utilidades mais terrenas), bem como servir para ajudar na medição de radiações cósmicas… tratava-se do futuro dos satélites artificiais subatômicos, para os próximos cinqüenta anos, formado por aglomerados de Berseck, capaz de viajar a uma velocidade superior a da luz para captar detalhes mais longínquos da Galáxia. Porém, em seguida, descobrimos que tais células e aglomerados poderiam virar uma arma, capaz de contaminar aqueles que estiveram mais próximos sem proteção, mudando a estrutura atômica especificamente dos neurônios…  após o incidente, fizemos testes em animais, que comprovaram isso… felizmente, não é algo contagioso, limitando-se às nossas cobaias e, de forma trágica, ao Dr. Ibruck.

Diante disso, dias mais tarde, Nahas, viu-se obrigado a esconder esse “defeito” sob a forma de “recomendações de uso”. Mas, obviamente, o novo chefe, o Dr. Chester, saberia erradicar quase completamente esse defeito, mesmo nos apenas dois anos restantes de pesquisa.


***


O uso sistemático e o conhecimento mundial das Células de Berseck deu-se apenas em 2099, como prenúncio do século XXII. Alardeava-se a nova “revolução nas telecomunicações espaciais”, já que seu uso ainda só era efetivo a longas distâncias.
Ram Moreira, recém-aposentado e vivendo no Uruguai num pequeno apartamento, viu os noticiários em seu Tablet -uma espécie de computador, telefone e TV convergidos numa única tela de metal mole e transparente do tamanho de uma bandeja de garçom -, e, naquele momento, novamente passou a se sentir perseguido pela sensação de estar vivendo uma experiência onírica, em meio a um mar de problemas como ausência familiar e sonhos de riqueza nunca antes realizados. Duas noites depois, a campainha de sua rústica casa do interior tocou.
Deixando para trás seus pequenos afazeres, ao abrir a porta, deu-se de cara com dois homens engravatados, com aspecto anglo-saxão, e estranhos nomes protocolares. Ambos, apesar de não serem gêmeos, pareciam completamente uniformes, saídos de um carro escuro.

- O senhor é… Ramses Patrício Moreira? - questionou o primeiro

- Precisamos que você venha conosco. Somos da Atlantics. – falou o segundo, interrompendo Moreira.

Não adiantava explicar tão cedo do que se tratava. Ram sabia o que aquilo significava: espionagem industrial e uma boa recompensa.


***


Anatella Viegas, com seu terninho preto e olhos vívidos por trás daqueles óculos escuros, destacava-se naquele armazém, com seus curtos cabelos castanhos e seu porte de autoridade. Frente a um imenso e desligado gerador de partículas para as Células de Berseck, ela era a responsável por todo o fechamento do setor. Tudo havia sido transferido para a United Solar System, uma corporação que, em seu interior, revelar-se-ia como principal empresa colaboradora da secretaria da ONU voltada à colonização de planetas do nosso sistema solar. Mas, isso não importava agora, apenas os seus pensamentos em relação ao potencial daquela tecnologia - não o potencial programado e positivo, mas a tendência àquilo tudo dar em tragédia.
Como havia programado, Ram Moreira e mais dois ex-funcionários da Atlantics, poderiam iniciar a operação a partir daquele entardecer. As coisas se encaixariam melhor a partir de mais uma ligação segura, feita do escritório daquela executiva, a partir de um monocelular, escondido atrás de sua orelha esquerda. A conversa pode ser resumida da seguinte forma:

- Você tem certeza que, se eu gravar essas imagens, tudo isso será cancelado? Valerá a pena? – questionava Ram.

- Se a operação for um sucesso, essa tecnologia será considerada perigosa demais. Será bom para meus e seus interesses. Isso não basta?


***


É verdade, ser aposentado pela Pherson Atlantics não abonava uma pessoa como Ram Moreira com muitos ganhos. E, também, sim: no fundo, ele sempre soube que não era um cara de muitos escrúpulos.
Aquele início de tarde, de sol denso, não foi suficiente para impedir a ação de Moreira e seus dois ajudantes. O complexo tecnológico, localizado a noroeste do Canadá, tinha uma compleição externa humilde, mas grandes e sofisticados átrios, corredores, salas, e laboratórios subterrâneos.
Tudo ocorreu protocolarmente para aqueles três homens com seus respectivos crachás. Havia Ram, um senhor de cabelos grisalhos bem-vestido; George, um homem baixo e bronzeado, de nariz adunco e olhos claros; e Reit, o mais novo dos três, loiro, e de rosto duro. Não se falavam. Enquanto isso, o ar-condicionado quase silencioso, o rápido aperto de mãos para um colóquio.
O plano era simples. E já se predizia quando, no segundo andar abaixo do solo, numa sala austera, o chefe do setor de logística, Summers, um sujeito de movimentos lentos e olhar sereno, recebeu aqueles supostos funcionários transferidos. E por que recebê-los pessoalmente? Bem, ele sabia o que tinha que fazer. Por outro lado, Ram apenas ficaria sabendo da necessidade de… render aquele homem.
O momento certo havia chegado após um aperto de mãos e uma curta conversa.

- Agora, vamos à papelad… - dizia o chefe, quando, ao primeiro movimento do ex-chefe de segurança, Reit e George o imobilizaram com uma injeção em seu pescoço. Eram células de Berseck com um leve sonífero.

Summers fez sinal com a cabeça, sem se abalar, para que os dois continuassem. Ram seria levado até uma sala reservada - e, partir de certo ponto, à força.


***


Parecia uma câmara hiperbárica, ou, certamente, aquilo já havia servido para tal. Ao redor de Ram Moreira, ainda sonolento com aquela injeção. O tom alaranjado daquela luz, e aquelas paredes claustrofóbicas, não combinavam com a boa ventilação que parecia vir do teto. Desesperado, ele gritava, sem saber o que lhe ocorria.
Do lado de fora da câmara, um homem desconhecido e circunspecto, vestido de branco. Enquanto olhava por um Tablet finíssimo, mole e levemente côncavo. Outros oito empregados, logo atrás, tinham à frente dados do corpo da vítima, enquanto aquele homem de olhos negros, após rápidos comandos, dizia, referindo-se a algum tipo de radiação:

- Podem acionar agora.

Na câmara, de pé, após ter batido nas paredes, Ram começava a sentir algumas dores de cabeça. Sentou-se, suando frio, naquele chão. A imagem e os sons embaçados. O desespero ao lado do puro medo de morrer. E a morte propriamente dita.


***


Ninguém mais sabe quais as conclusões a que aquele experimento chegou, só sabemos que, nos próximos séculos, dezenas de milhares de cobaias foram enviadas à morte. Quanto a Ram Moreira, ele começava a tornar a despertar em uma espécie de limbo onde não possuía corpo nem espaço delimitado para sua consciência. As lembranças de quem Ram era iam embora. Havia uma certa paz, mas nenhuma solidão. Naquela época, mais uma presença humana com ele, mas, também, a sensação de que inúmeras outras presenças desconhecidas e inumanas o cercavam em meio àquele aparente Nada escuro.



Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem os próximos capítulos.

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