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domingo, 26 de outubro de 2014

Sugestão de músicas

Sei que, infelizmente, de muitas das músicas que gosto nem o nome sei; infelizmente, também, com o formato MP3, apesar de toda a popularização da música, a qualidade acústica diminuiu. Porém, nada melhor que ouvir certos instrumentais e algumas raras músicas cantadas.

Comecemos com as músicas cantadas: realmente, tenho pouquíssimo gosto por músicas não-instrumentais. Mas, há aquelas que traem um sentido emocional capaz de nos atingir, como a música A Lista (de Oswaldo Montenegro), as de Demis Roussous e algumas de Luiz Gonzaga. 

No campo das instrumentais, evidentemente, não temos apenas as músicas clássicas eruditas, mas diversas variações modernas, além das adaptações igualmente recentes de músicas clássicas eruditas. Aprecio algumas das músicas tocadas na forma criada pelo David Garrett, porém, normalmente, em evidência temos as clássicas eruditas propriamente ditas.

Nesse campo, as músicas calmas de Bach, uma específica de Brahms (creio que seja o terceiro movimento da terceira sinfonia ou algo assim), a Humoresque de Dvorack, e também temos uma das variações das Danças Eslavas do mesmo Dvorack.  

Há certas composições de Debussy, por exemplo, perfeitas para um cenário de filme de Fantasia que realmente reflita mais do que uma ficção de fantasia comum: mas um estado de espírito, capaz de representar toda a inocência possível da Criação. Como se víssemos os campos e as florestas temperadas surgindo, numa imagem embaçada pelo senso de antiguidade e de valor do que "vemos". 

Porém, existe uma composição chamada "Algerian" que só encontrei uma vez em um antigo LP. Infelizmente, em mais nenhum canto. Essa composição tinha familiaridade, ao menos para mim, com o terceiro movimento da terceira sinfonia de Brahms - porém, partindo para um destino diferente.

Há um "Fantasia" de Mozart belíssimo, cujas especificações não domino. E as virtuoses do piano, desde os antigos Lizt e Chopin até a mais recente Marta Argerich. Passando pelo Brasil, naturalmente, com as Bachianinhas de Heitor Villa-Lobos.

Também temos as outras instrumentais, como Rondó Russo, Mourir a Madrid, algumas das de Richard Clayderman e as de Zamfir. E, claro, as composições e interpretações do violonista Dilermando Reis.

Enfim, são diversas opções que, aos poucos, terminam fugindo do comum. Porém, devemos levar em conta que música também é momento, tanto físico como "espiritual". Um momento de paciência, de contemplação, de percepção dos detalhes e de toda sua continuidade. Em minha vida mesmo, passei a gostar de músicas específicas e a esquecer de outras; e ainda há as diferenças de cada pessoa, de cada percepção, que não vão nunca "sentir" algo da mesma forma que eu ou você, nem nós vamos nunca "sentir" algo de musical da mesma forma que quaisquer outras pessoas. 


Assinado: João Batista Firmino Júnior.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Últimas considerações para o segundo turno das eleições presidenciais (2014) ou "Nós, os pequenos"

Olá. Hoje, faltam dois dias para as eleições, quando poderemos depositar nossa crença (ou descrença) em nossos respectivos candidatos.

Verifiquei que vivemos num momento muito acirrado, algo muito além da conta, em alguns casos. O que devemos entender e sentir é justamente que a verdadeira oposição que existe é entre o povo e o exercício direto e objetivo do Poder por parte daqueles a quem elegemos. Ou seja, seja qual for nossa escolha, nosso verdadeiro lado é entre nós, os eleitores comuns, aqueles que não exercem cargos políticos de nenhuma natureza. Nós, os pequenos.

Infelizmente, sobre as opções disponíveis, sobre as candidaturas que teremos à nossa frente na tela da urna, não há mais a possibilidade de "amar" uma candidatura, de crer cegamente em alguém. Isso fica para quem é marinheiro de primeira viagem, para quem está começando. Faz parte do amadurecimento a existência do "antes".

Porém, nós, que já votamos há alguns pleitos, devemos pensar muito além da lógica de "torcida de times de futebol". O Brasil não é naturalmente dividido no sentido absoluto, pleno e irresolvível. Somos o que somos, brasileiros repletos de identidades transversais. Somos ao mesmo tempo diversas coisas, e poucos seriam "perfeitamente" encaixáveis como "elite" ou "povo" no sentido ideológico desses termos.

Somos um só país. Nordeste, Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Votamos em Dilma, votamos em Aécio, votamos Nulo, votamos Branco, ou justificamos nosso voto - mas nós, os pequenos, aqueles que não possuem os benefícios que os políticos - honestos ou desonestos - possuem em suas vidas privadas, estamos na mesma ao termos condições de vida diferentes das condições de vida deles.

Há divisões? Há. Não nego. Mas, essas divisões, como digo aqui, não são absolutas, nem irresolvíveis, nem eternas. Tudo possui um fim. Há o racismo? Há. Mas, apesar do racismo, ainda somos uma mesma natureza (com exceção do caráter de cada um, evidentemente), somos biologicamente miscigenáveis e culturalmente hibridizantes.

Há militâncias e condições de vida relativas à orientações sexuais? Há. Entretanto, como disse, as identidades são tão "transversais", havendo tanto elementos que separam como elementos que unem, que tais situações nunca são verdadeiramente absolutas quando pensamos melhor. Todos podemos nos entender.

Há homens e mulheres, que, naturalmente, somente existem na troca constante e geracional entre eles, entre nós mesmos. Homem não nasce sem mulher, e mulher não nasce sem homem. Somos um só, em essência última e fundamental chamada "espécie", alma, inteligência e sofrimentos de vida.

Há os petistas e os tucanos? Há. Não faço parte de nenhum dos dois grupos. Voto por escolhas individuais, por candidatos e candidatas específicos. Mas, antes de petistas e tucanos, todos são brasileiros.

Que domingo próximo seja um dia não de mais acirramento, azedamento das relações familiares ou amizades desfeitas. Que domingo próximo seja aquele momento de festa da democracia, em que cada um vota secretamente em quem desejar, e que, no final, todos possam se reunir para uma boa refeição, seguir com suas vidas e, seja qual for o governo eleito, que saibamos fiscalizar e que sempre torçamos pelo Brasil.


Assinado: João Batista Firmino Júnior. 

domingo, 12 de outubro de 2014

(Conto) Carrossel Onírico

Andando pelo corredor do seu apartamento, um senhor de meia-idade, com sua mala de trabalho, entrou no elevador vazio. As portas se fecharam.

A iluminação, naquele início de dia, era precária naquele lugar apertado, sem câmeras e sem espelhos. Fazia calor, enquanto o homem engravatado esperava, pacientemente, a jornada de vinte andares para baixo.

Ele tossiu, sentiu aquele abafamento, alargou a gola e desfez um pouco a gravata. Olhou a hora, mas o relógio estava parado. O elevador não fazia nenhum som.

A espera foi uma constante, os vinte andares não passaram. Havia um frio na barriga e, nervoso, o engravatado, percebendo que o elevador estava parado, apertou o botão de ajuda. Nada.

Apertou várias vezes, todos os botões, atabalhoadamente, quando veio o som guinchante, de alguma coisa grande e pesada vergando para algum lado… Ele acordou em sua cama. Havia sido apenas um sonho! Mas a realidade também era estressante: estava atrasado para o trabalho novo.

Levantou-se, arrumou-se, fez tudo para não se atrasar, enquanto seu coração batia rápido, abriu a porta e… acordou no elevador!

Tudo ainda estava claudicante, o suor ocupava os seus olhos e testa. O engravatado não sabia mais o que era sonho e o que era realidade, ou se os dois cenários eram sonhos. Onde ele estaria realmente?

Tentou pedir ajuda, gritar, mas a voz não saía de sua boca. Chutou e esmurrou as paredes cada vez mais próximas, por horas e horas. Cansou-se. Na realidade, vinha se sentindo cada vez mais cansado, até abrir os olhos. Estava, agora, em um metrô vazio, voltando para casa após o fim do expediente naquela noite chuvosa. O que havia sido tudo aquilo? Bem, ele insistiu em tomar aquelas pílulas para se manter acordado, sabendo que estava finalmente vivendo no mundo desperto, conhecedor de toda a sua rotina do dia, tudo bem coeso e vívido, indicando que estava finalmente acordado. Entretanto, sua cabeça doía. O metrô parou, ele tentou sair e… após uma sucessão de tonturas e sensação de dormência, caiu. Caiu como morto, aos pés de um homem de negro, altíssimo, encapuzado, que, rapidamente, antes das pessoas aparecerem, sumiu.


***


- Foi o que eu sonhei, doutor… O pior é que eu não sabia se estava na condição de testemunha ou se eu mesmo era o homem de preto.

- Concentre-se mais um pouco e tente descobrir o que veio depois.

Eu tomei um copo de água, naquela tarde modorrenta, enquanto o ventilador do teto fazia um lento e desagradável pteco-teco. Tentei relaxar, fechei os olhos, e as imagens iam vindo até mim.


***

“As gotas caem do cano por trás do lavabo alvo, eivado de traços rococós, naquela sala extremamente imunda e escura, quase totalmente escura. Há um burburinho e restos de uma cortina vermelho-cinza. Além disso, para minha surpresa, adiante, há centenas de manequins feitos com peças desproporcionais, franksteinianos, com os mais diversos panos e roupas dos mais distantes séculos.
Eu sou eu mesmo vendo um boneco de madeira olhando suas próprias mãos ásperas de material de má qualidade, porém consistente, de pé, com as costas levemente corcundas, olhando também para tudo aquilo, para todo o cenário, e para uma janelinha que fica bem em cima, de vidro arredondado ou hexagonal, expondo um dia chuvoso.
Algo se move por trás daquela galeria, é o manequim de uma senhora com uma cesta de cascas de raízes com um xale rosado cheio de pó de serragem. Dela, começa a emanar um balbucio…”


***

Cícero parou.

- Não consigo… não quero prosseguir. O que mais me estranha é que essas imagens, que esses sonhos, nem parecem meus, doutor.

- São seus, a sua vida pagou por eles para você.

Cícero saiu de frente do espelho de sua casa, onde fingia estar falando com algum tipo de psiquiatra. Parou com tudo aquilo, ajeitou sua valise repleta de recipientes contendo pílulas para dormir, e, de um jeito meio acanhado, de ombros baixos, e chapéu preto, preparou-se para sair àquela noite.

Ao abrir a porta de casa, naquela escuridão densa que caía com força numa ruela cheia de pedregulhos, topou com uma novidade: havia uma senhora do lado de fora.

- Quer seu dinheiro de volta?

- O quê?! Não, não. Eu quero minha paz de volta. Quero voltar a dormir.

Foi quando eu acordei.


***


Lavei meu rosto, na minha pia sem espelho, e esperei que aquele balbucio sem sentido desaparecesse de minha cabeça. E, antes de acordar de verdade, pensei numa história, num Conto adequado para desenvolver minha própria capacidade de concatenação e lucidez de raciocínio... Sei que pensar a história já era a história, essa é que era a verdade, e a fiz em cinco minutos, sentado no vaso sanitário.

Uma história ou uma lembrança de algum sonho antigo?

Bem, o que me vinha à mente era uma casa velha, onde morava um homem sem idade chamado Cícero…

***

Ao sair do quarto modesto, Cícero carregava seu revólver. Não aguentava mais aquela dependência de ter que fazer os outros dependentes dele.
Distante, fora do casarão, ele sabia o que as pessoas diziam: que ele se achava o próprio Morpheus, o próprio senhor dos sonhos. O ex-vendedor de seguros acreditava estar vendendo para as pessoas de aspecto muito feliz a única coisa que realmente pertence a todos nós. Em troca? Uma mania saciada.
Uma bela noite, a casa perguntou a ele:

- Por que fazes isso?

- A venda, para mim, é fundamental. Dou sempre um sonho para essas pessoas… - dizia “pessoas” com tom de ojeriza – Elas querem um sonho, não? Agora, se são pesadelos…

- Você acha que um dia vai conseguir me vender? Logo eu que sou o guardião do pior pesadelo de sua coleção! - dizia a casa.

- Veremos.

***


Qual poderia ser o pior pesadelo de Cícero, o representante simbólico de um Humano? Eu tive a coragem, no lugar dele, de sair de meu lar e, após sua morte num sanatório, largar a parte fictícia de minha história em minúscula e mergulhar na História em maiúscula. Fui até aquele casarão de dois andares, com madeira corroída e muitas baratas e escorpiões, bem como formigas negras grandíssimas.

Vasculhei por todo o canto para saber o que poderia ser o pior pesadelo de um ser humano. Até que, em certo ponto, achei um quarto escondido no porão. O recinto era claustrofóbico, mas não me metia medo.

Havia uma caixa. Apenas uma caixa. Aliás, um baú. Arrombei-o (metaforicamente, claro, pois tudo aquilo era e é construção minha, de minha imaginação).

Nele encontrei: a Loucura, o Desespero, a iminência da Morte. Não havia NADA ali, apenas minha apreensão por não haver nada. Minha obsessão não foi saciada, eu não sabia mais exatamente o que procurar, até perceber… que aquele meu estado era o que eu próprio procurava!

Foi quando percebi, inclusive, que Cícero não era Cícero, mas algo externo a minha imaginação… e que estava vivo. Questionei em voz alta:

- Quanto você me cobrou?

Uma voz baixinha me respondeu:

- Apenas sua disposição.


Imediatamente, senti-me arrastado numa velocidade frenética até a minha cama… começava tudo de novo! Cama, elevador, metrô, psiquiatra! O senhor dos pesadelos é de cada pessoa, e cada pessoa é o seu próprio fabricante de pesadelos.

Autor: João Batista Firmino Júnior.