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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Questões "ocidentais"

São várias as questões "ocidentais". Uma delas é a relação de gêneros masculino e feminino nas sociedades deste lado do hemisfério. Sobre o assunto, vejamos a seguinte ideia: há gerações, havia uma protagonização maior do gênero masculino nas sociedades ocidentais. O que não entendo? Explico: o que não consigo entender não é como tudo mudou para o "hoje em dia", mas como tudo se tornou como era.

Havia influência de um imaginário religioso, imagino. Mas, o problema é decair numa simplificação, numa confusão, até mesmo numa espécie de preconceito. Religião não é uma categoria mágica, que existe por si só. Há, em verdade, um imaginário ligado ou não a uma determinada religião - ou melhor: antes de qualquer prática religiosa, há o conjunto de outros costumes e imaginários de uma civilização. É tudo muito mais embaraçado que aquela imagem de indivíduos "puros" que são "contaminados" pela Ciência, pela Ideologia ou pela Religião.

Ok. Vejamos: como o Ocidente se formou? O que entendemos por "ocidente" parece só fazer sentido a partir de uma configuração cristã, latino/helênica e, nesse entremeio, judaica. Como eram, então, as civilizações europeias pré-latinas? Como viviam as mulheres em cada uma das possíveis fases que possamos classificar e em cada tribo, reino ou o que for?

Seja como for, aparentemente, não houve, até hoje, algum tipo de predeterminação cuja origem tenha iniciado puramente de um período pré-latino ou pré-cristão. O que quero dizer? Não reconheço, não sei se há, algum costume ou imaginário muito fortes que tenham surgido e permanecido de um período pré-latino ou pré-cristão, da Europa antiga, até hoje.

Partindo de um imaginário judaico-cristão, então, e de uma ambiência latino-helênica, tem-se um mundo fruto de fusões de diferentes civilizações - e, certamente, com alguma pitada da Europa anterior ao poder romano cristianizado.

Daí, vamos dizer assim, um poder "patriarcal" em contraposição a um ideal "matriarcal". Mas, só isso determinou a formação de um poder masculino no Ocidente? É que só aquela formação dos patriarcas bíblicos ou a força física da média dos homens sobre a média das mulheres não justifica. Algo está faltando aí.

De qualquer forma, entendo que, com a Democracia, naturalmente as coisas foram seguindo um caminho de: com liberdade, alguma igualdade.

Enfim, têm-se diferentes grupos representativos de minorias numa democracia ocidental. E tais agrupamentos devem levar em conta, ao menos, a priorização do indivíduo e sua complexidade frente a qualquer categoria generalizante. É reducionista, é uma zona de conforto, por exemplo, julgar, por contraposição "todos os homens" para que se fale de "todas as mulheres"; de todos os "héteros" para que se fale de todos os "homossexuais"; de todos os supostamente azuis para que se fale de todos os supostamente vermelhos.

Não existe "o" Homem, nem existe "a" Mulher, no que diz respeito a um universo prático. Evidente. Existem indivíduos. Indivíduos que se juntam e, no esquematismo da imaginação, criam ou determinam, ou descobrem, categorias para se classificarem - só que não se confundem eles ou elas mesmas com as próprias categorias.

Em meio ao Indivíduo há um mar rico de práticas e imaginários, e funções sociais, ao redor e no interior: certos fundamentos que ditam para onde vai ou não vai a Cultura. Um deles seria uma "lógica tradicional" na composição de tarefas entre homens e mulheres e famílias. Essa lógica parte, naturalmente, de uma ideia de continuidade. Sem continuidade, sem perspectiva, não há esperança - e o presente se torna como que inútil. Para a preservação de algo, para o uso de uma perspectiva, a ideia de família que, no mínimo, envolva adultos e crianças; a ideia de homens e mulheres vistos através de funções "naturais" no sentido de que, em origem, é com os dois que há uma gravidez.

O pensamento mais tranquilo é pelo caminho mais curto, sem complicações. E isso é tido, creio, como "conservadorismo" (no que diz respeito ao âmbito que queremos atingir neste texto: a família). Às vezes, em sentido pejorativo (não entendo o porquê). De uma forma ou de outra, se, por um lado, deve haver tolerância e direitos respeitados; deve haver alguma determinação minimamente objetiva do que é um homem, uma mulher, o que for, dentro de algum papel. Não se trata de esperar que os indivíduos vivam em confusão para que, eventualmente, num dado momento, se descubram de um jeito ou de outro. Isso seria tolice. Por outro lado, não se trata de reafirmar "preconceitos", que gerariam "intolerâncias". Certas coisas precisam de categorizações, porque, simplesmente, as categorizações sempre existirão, e fingir que elas não existem, tentar impor esse fingimento, só levaria à criação de novos preconceitos, predeterminações e categorias - ainda que de outra ordem e natureza. Por isso a tolice de que falei.

A via mais simples é a mais prática, daí um pensamento "conservador", tradicional mínimo, "de base", sobre os papeis das pessoas na vida e sobre o que é uma família. A partir do tradicional, ou seja, considerando que ANTES deve vir o tradicional, é que faz sentido considerar outras alternativas. Partir para outras alternativas sobre qualquer coisa sem entender o "bêabá", não é revolução alguma, mas mera imposição de uma nova tradição (que sequer apareceria como nova, mas como "a" tradição... e que teria de ser superada para... a tradição anterior, vista como algo erroneamente novo).

O mais fundamental sobre todas as questões ocidentais: papeis do homem, da mulher, das minorias em geral, das famílias etc, etc, etc., dependem do fato de que nenhum dos indivíduos é imortal. Há uma noção de TEMPO na cultura, nas práticas, na "homo/hétero/bi/a/trans/tran/normatividade". Aliás, há um tempo em qualquer conjunto normativo de práticas. E tempo pressupõe continuidade; continuidade envolve gerações necessariamente sucessivas; gerações sucessivas envolvem assuntos que se aprendem e sua transmissão; para tudo isso, uma forma simples ou "tradicional".

Não podemos escolher mudar tudo de qualquer forma. Tudo tem um limite. E esse limite, para além do Ocidente, é a condição humana da mortalidade (secundariamente, o que for relativo às formas de reprodução: natural ou por meios artificiais, levando a como será uma família ou que tipo de "projeto" poderá ter aplicação).

Em suma: não há como esquecer, deixar de lado, mesmo para a mais libertária ou revolucionária das mentes, os elementos mais básicos e "tradicionais" dos papeis das categorias de pessoas e das famílias. Não apenas porque, antes de mudar, é preciso haver o estado anterior que ainda vai (ou não) ansiar pela mudança; mas porque ainda morremos, ainda precisamos, para nossas vidas fazerem sentido, de uma tradição e sua noção de transitividade de uma geração para outra. Ainda que sejam mudadas formas de concepção, por exemplo, ainda persiste a ideia do mais velho e do mais novo - e ainda persiste que haja categorias-base, fundamentos, não necessariamente "preconceitos", para que se possa iniciar uma passagem pela vida.

Não cortemos os fundamentos.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.




quinta-feira, 26 de junho de 2014

Estado laico

Admito que não tenho aqui nenhuma referência bibliográfica sobre o assunto. Não tenho embasamento em cientistas políticos dos últimos séculos, nem nada do tipo. É só uma opinião, vamos dizer assim. O que seria um estado laico?

O que é estado laico? Somente algo originário de um dos fundamentos de um conceito ocidental de democracia: a liberdade.

Tal pensamento, se entendermos o que é democracia, reflete não um combate a religiões, às origens religiosas de políticos ou a adornos religiosos em instituições estatais.

Não é um combate a religiões, mas o favorecimento ao livre trânsito das mais diferentes crenças, desde que elas não contradigam, em termos de comportamento público ou equivalente, as próprias bases de uma dada constituição. O que seria contradizer isso? Seria, por exemplo, sacrifícios humanos, milícias, condutas tipificadas em código penal ou algo do tipo.

Ou seja, um lado fiscaliza o outro indiretamente. Há um pacto, quero dizer. Um pacto de livre trânsito e de permanência do estado como sendo independente de crenças privadas. O que conflita é o difícil entendimento em relação ao conceito de "paradoxo".

Por que paradoxo? Talvez nem exista realmente um. Mas, vamos dizer que exista.

Um político cuja plataforma e imagem seja ligada a uma religião. Fere o estado laico?

A evangelização feriria o estado laico? (qualquer tipo de propaganda religiosa fora de templos, por exemplo)

A existência de um crucifixo num tribunal, feriria o estado laico?

O que é estado laico?

As pessoas estão falando da mesma coisa ou do que quer que elas pensam ser o fenômeno?

Desde que os ritos tornem equivalentes, no final das contas, as diferentes crenças e representações de foro privado de cada cidadão, instituição e político, é até mesmo necessário que haja essas diferenças. Para que o livre trânsito dessas diferenças exista, é que o estado é laico - ao invés de anti-opinião ou contra religiões, crenças, preferências etc.

Há um campo que é aberto para a discussão. Para o campo ser aberto, nenhuma das parte deve poder impor coisa alguma. Há um espaço para cada um agir. O espaço "além" disso é que é vedado, pois significaria a prevalência de uma crença de um grupo particular sobre o Estado e a sociedade como um todo.

Ou seja, não há nada de ilícito, ilegítimo ou anticonstitucional um religioso tornar-se político, na esfera que for, desde que governe para TODOS, sem diferenciação no tocante às suas convicções filosóficas ou às convicções de terceiros.

E a evangelização? Depende de como ocorre, tal como a explanação de todo e qualquer discurso. O fato de existir "em si" uma pregação fora dos limites de um templo não é "invasão" ou "violência", não o é a priori. Depende de cada caso.

Por fim, em se tratando de crucifixos ou de reproduções de pinturas retratando fatos da Bíblia ou de alguma tradição religiosa de outros povos, isso não é tão "errado" como possa parecer para uns, pelos seguintes motivos:

1) Adereços específicos não mudam atitudes institucionais, mas refletem, apenas, o lado histórico de determinadas instituições e sua influência muito mais política e social que especificamente "teológica" sobre um dado Estado;

2) Há outros aspectos num dado adereço: o trabalho artesanal do artista e a História de uma obra (sobretudo se for original). Não se pode, por aversão a um símbolo, ignorar o trabalho artesanal e a história da construção de um dado objeto bem como da informação desse objeto (não me refiro ao conteúdo de uma mitologia religiosa, mas aos usos na obra de renomados artistas). Tem-se a questão da "forma" e do "conteúdo teológico". E forma também é conteúdo...

O fundamental é não utilizarmos certos princípios para perseguir a quem discordamos (subvertendo esses mesmos princípios) ou para "justificar" a quem concordamos. Por outro lado, evidentemente, a falta desse respeito não existe meramente por ignorância, mas por histeria e paranoia (e certa malícia), em que tudo no mundo se torna um "problema pessoal" e a exteriorização disso é confundida com o que toda a sociedade "deve" seguir.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.

Dificuldades da ficção

Neste blog, tivemos textos escritos de ficção. Mesmo assim, parece-me que só um deles, em uma das publicações, teve início, meio e fim.

Simplesmente me é dificílimo juntar e manter a concentração necessária para produzir algo de mínima qualidade, e eu digo que o conto em que abordei as memórias de um universo inacabado foi, apenas, o mais perto de algo parecido com um conto minimamente razoável que consegui produzir - por isso, publiquei aqui logo. Tenho outros, mas não suficientemente bons e necessitando de uma boa revisão. Talvez, se eu conseguir fazer essa boa revisão, eu os publique aqui.

Mais que um conto, ainda não consegui. Nunca consegui concluir nada que dure mais que um desses textos curtos. Simplesmente, é como se eu me chateasse com uma história que crio que seja "longa demais", como que um tédio, uma falta de interesse em dado momento da narrativa, ou uma falta de imaginação sobre o que chamo de "topologia da história". Daí, por exemplo, quando tento criar algo mais longo, paro por tempo demais e, quando volto, para poder entender "o fio da meada", preciso ler tudo novamente e... e é nesse ponto que me falta coragem.

O que eu tenho de textos apenas com "início" ou, no máximo com uma introdução e um "início do 'meio'"... Por outro lado, a maior parte do que eu escrevo não necessita tanto de pesquisa, mas muito de imaginação e de cuidados com a continuidade, com a finalidade, com os aspectos sobre aspectos, com as camadas de histórias dentro da história ou de tramas no interior do tecido explícito de uma narrativa. Gosto de ficção-científica, por exemplo, mas não sou especialista em ciências duras, daí necessito muito mais de controle de duração, encaminhamentos sobrepostos, coerência propriamente dita, que de um entendimento sobre especialidades da Física ou de outra dessas ciências mais valorosas para a construção material de uma sociedade.

Também, por vezes, ao escrever, perco-me em divagações, de forma que fica fácil eu perder "o espírito da coisa" da história que desenvolvo.

Entre um momento e outro, tentarei voltar a fazer algo que é possível, mas talvez nem sempre bem praticável por mim: ao menos continuar com contos que se mantenham não na qualidade de continuação, mas na de se situar no mesmo universo daquele único que consegui dispor neste blog até agora.

Tento construir algo que se passe após, antes ou durante o que seria um fim do multiverso. Um fim absoluto, ou quase. Tal fim teria uma exceção: uma tecnologia "de borda" capaz de produzir um engenho criador e mantenedor de um micro-universo no interior do Nada, habitado por algum grupo de sobreviventes entre diversos povos e espécies de seres inteligentes, além de seres não tão inteligentes (animais diversos de outras espécies que não chegaram a usar a linguagem ou a criar leis), e culturas de fungos, vírus, bactérias, protozoários, vermes, insetos e outros seres possíveis.

Esse "mundo", sob a forma do interior escavado de uma estação espacial num grande asteroide sobrevivente, seria uma espécie de Núcleo ou Cosmonucleotídeo a partir de um resíduo do multiverso ou do universo anterior.

Outras ficções possíveis, bem... talvez algo que eu escreva para nunca dispor na internet, em busca de uma publicação "tradicional".

O que me falta? Foco, paciência, pesquisa, conhecimentos e uso paciente desses conhecimentos próprios à qualquer escritor razoável.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ter opinião?

O normal é não ter opinião. De forma alguma ter algo dessa natureza. Ou: o normal é viver sem saber a opinião que se tem.

Sem opinião, por outro lado, o sujeito não se fiscaliza. E se, eventualmente, vier a tentar esboçar uma, acabará por se contradizer - afinal, não fez antes a reflexão necessária para chegar a um posicionamento.

O início disso parece começar na escola. No nível fundamental, talvez. E isso com variações diversas.

O espectro político das opiniões ainda no campo escolar, antes do universitário, ainda transita mais por uma espécie, vamos dizer assim, de progressismo politicamente correto que continua misturado com uma espécie de "bom senso" popular.

O "bom senso" popular vem de uma percepção mais direta das coisas, sem tantos freios. Vem de casa, da rua. Na escola, com professores de determinada orientação de pensamentos, começa a tentativa de "reeducação" do pensamento. Ensina-se a "ter pensamento" e não tanto a "pensar".

Dizem, também que, na escola, há uma tendência ao regramento ideológico. Como uma preparação para o que virá a seguir em termos de estudos. Claro que com variações.

Em meu caso específico, o que me lembro hoje é de um peso maior no que diz respeito a nem chegar perto de apreciar o que seria uma "cultura americana/norte-americana/estadunidense/relativo aos EUA" e qualquer coisa feita por esse país.

Não recebi o pacote inteiro, creio. Apenas a questão "antiamericana" se destacou. Mesmo assim, com um peso relativo. Não observei nenhum tipo de castigo por não se pensar de forma detalhadamente assim. No máximo, a subjetiva ideia de que não pensar assim é não ser um sujeito crítico da realidade. Mas, entendo que críticas são feitas mais com dúvidas que com soluções. Questionar algo de uma ideia ou opinião sim, questionar apenas retoricamente para expor (e impor) uma visão de mundo, uma resposta pronta? Esse sempre foi um problema. Porém, um problema geral.

Da mesma forma, não me deparei com nenhuma "caricatura ideológica" em sala de aula ou onde quer que fosse. E, caso tivesse acontecido, iria dizer de uma forma cuidadosa. Havia, sim, personalidades de diversas disposições. E só.

A escola é capaz de ser espaço para debates. Ocasionais, mas, ainda assim, uma forma de exercer algum pensamento. Só advirto que "exercer o pensamento" não é pensar necessariamente o que alguém pensa ou o que alguém deseja. É esquadrinhar um dado da realidade, um fato, passando por suas partes constituintes até suas aplicações e surgimento de novos fatos e dados da realidade subsequentes.

Havia a necessidade, após uma redação, de ser elogiado. Elogiado tanto na estrutura da escrita como no conteúdo, na ideia expressa. Quanto à estrutura da escrita, tudo bem; mas, quanto às ideias, elas têm que ser cautelosas e, provavelmente, só serem categóricas quanto a elementos muito fundamentais da realidade, quanto à verdadeiras obviedades (fora dos preconceitos, como demonstração de como são as coisas em termos "2+2=4").

Em suma, eu posso ter desenvolvido pensamentos antiamericanos, para dar um exemplo, não por mim ou por alguma experiência de vida, mas para parecer certo.

Anos depois, em busca de ter opinião, cometi o "outro lado" da mesma tolice: tentei ser pró-americano. Não por base em minha experiência de vida ou qualquer coisa mais profunda, mas para demonstrar rebeldia. Foi uma coisa minha, mas que não partiu de uma análise real - partiu somente de meu ego. E, estruturalmente, tal texto, intitulado "América Necessária", foi amador para o grau acadêmico a que me propunha conquistar.

Um tempo passou, e vieram as redes sociais. Eu não pensava, provavelmente, em nada que agora me lembre. Nem copiava as coisas da televisão, nem refletia o suficiente.

Hoje, há, pelo menos um fato e diversas opiniões possíveis. O fato está no valor do indivíduo, este que é a maior das minorias e a que mais merece proteção. Não é o indivíduo como alguém que se sobreponha e escravize os outros; mas, o indivíduo como "cada um", adulto e responsável, capaz de conviver e de saber fazer em meio ao seu único habitat saudável: a democracia.

A partir da força da individualidade, tanto o excesso de estado como um monopólio capitalista são elementos a serem combatidos. Não interessa uma empresa supremamente maior, nem um estado absoluto. Interessa um estado que funcione, sem precisar tomar conta de tudo e de todos. Se funcionar, está ótimo. Interessa uma empresa que funcione em meio à sociedade, às sociedades e às outras empresas. Sem puxar o tapete de ninguém.

E as coisas, em si, necessitam de uma metodologia e de uma honestidade para ser avaliadas. De alguns pressupostos lógicos, elas necessitam:

1) Ao apontar algo ou ausência de algo, esse algo ou ausência de algo tem que existir e ser provado;

2) Ideias são atacadas, e não características muito particulares dos debatedores (a não ser formação específica e certos exemplos que balizem as ideias);

3) O debate parte do princípio de que os debatedores são pessoas que representam determinadas ideias e não categorias abstratas que permitam desumanização.

Para terminar, friso: opiniões existem várias e mudam constantemente, mas nunca se mudará o fato da importância do indivíduo e sua individualidade. O poder não deve ser para um grupo; para um partido; para um banco; para uma corporação; para uma pessoa; para uma família; para o povo enquanto massa abstrata a ser tutelado justamente por um grupo, partido, banco, corporação, uma pessoa ou família. O poder deve ser para o indivíduo em toda sua individualidade. O poder geral, que comanda uma nação, deve partir de cada pessoa em sua realidade, sem abstrações.

Democracia é isso: não há Direita ou Esquerda como definidores de toda a realidade política; o que há é Democracia real (e não retórica) e Autoritarismo.

Enfim, aprendi algumas poucas coisas, ou, talvez, não tenha aprendido nada, a não ser tomado conhecimento do único fato que me parece relevante até agora sobre política. Não se discute com mistificações, mas com cada um.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Palavras que tropeçam em palavras

A dificuldade não está em escrever, mas em tornar um texto viável. Palavras se atropelam em muitos textos cotidianos, feitos por muitos de nós. Elos não são feitos, nem padrões aparecem.

É preciso saber pensar para escrever. É preciso, diante do ato de escrever, saber o que se quer. O que quero responder? O que quero perguntar? Aonde quero chegar?

Há cascas que levam ao cerne da fruta. Um autor não deveria se perder na confusão de cascas e nunca saber que está numa fruta ou que há um cerne, um centro, uma essência.

Mas, claro, muita coisa boa é boa também por ser difícil. A dificuldade revela a contínua disciplinarização da mente e do pensamento.

Escrever é uma busca por aquilo que se pode dizer da percepção versus existência das coisas. Alguma sabedoria não se dá pela mera existência; é preciso saber dizer. É essa a grande diferença entre ser um animal que mais percebe que concebe e ser um animal que é mais cônscio que capaz de "sentir por sentir".

Ser é fazer.

Claro que, para fazer, é preciso estudo, disciplina, técnica, aprendizado e causa. Nada como estudar como subproduto de uma tentativa de resolver uma questão importante para o próprio pesquisador. É assim que se faz num Mestrado, por exemplo. Há algo que você quer entender, ao menos entender. Você não estuda apenas para assimilar alguma coisa, mas para discernir ao menos como algo funciona.

Pegue um autor. Estude. Mas, não estude apenas para repetir o que foi lido e fichado. Use. Use como uma forma para se chegar a alguma coisa. E escreva como uma forma para se chegar a alguma coisa pela própria escrita.

Um texto é como um fazer artístico, de certa forma. E, como tal, penso que não termina quando o braço cansa. Termina quando o que foi buscado ao menos é abrangido. Como você sabe que terminou? Quando termina a problemática. A extensão da problemática deve ter terminado, e não, evidentemente, sua superfície.

E escrever é sempre um momento. Há treino do pensamento, mas isso não reduz todo momento a um só, de perfeição e bem-feitura de algo. Não é sempre que o mais experiente vai acertar. Cada momento dita se um texto vai existir, se será minimamente bem feito, ou não.

Uma vida só toma forma quando relatada.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.


domingo, 15 de junho de 2014

Bairrismo

Lembro-me que, em tempos "antigos", em meu contato com sites de redes sociais, vi muitas coisas. Uma delas foi a questão do bairrismo, variando da simples oposição entre regiões e estado ao pensamento separatista.

Bem, de longe, já deu para perceber que cada caso é um caso. Há uma complexidade no meio, e uma variedade de correntes de pessoas que apoiam seus estados e regiões.

O curioso, sobre a temática do separatismo, por exemplo, é que nunca bati de frente por ter a preocupação real com isso, mas pelo sentimento em alguns grupos mais de aversão aos outros (ou a um grupo específico) ser superior ao amor-próprio. Seria uma questão de isolamento, autonomia ou separatismo não por valorização de seu próprio lugar, de sua própria terra, mas por ódio contra todos os outros.

Bem, desconheço e não tenho laços, por exemplo, com São Paulo ou com a Região Sul. Tenho respeito, e só. Mas, uma coisa deve ser levada em conta se quero considerar uma das origens da discórdia original: a falta de um planejamento de país realmente "nacional" (até mesmo nossas TVs abertas, supostamente nacionais, nada mais são que Rio ou São Paulo "derramados" para o resto do país), levando a um estranhamento natural.

O que há? O que percebo? Um histórico de pensamento falsamente nacional. Na verdade, há um pensamento que nasce de um "localismo", mais ao centro do Brasil, ou mais a leste, que anunciam o "nacional" em verdade como uma visão particular desses locais do que é o Brasil.

Claro que temos elos, mas no que diz respeito a muitos discursos midiáticos, talvez políticos, brasileiros, não são discursos midiáticos ou políticos "brasileiros". Há uma localidade que fantasia sobre o Brasil, e usa sua realidade local para identificar cada parte do país, condensa tudo em um discurso e chama isso de "nacional".

Ao menos o bairrismo real é bem mais óbvio nisso. Você percebe do que se trata, sem se enganar, até porque sabe claramente que não faz parte daquilo e nem que aquilo faz parte de você, no que diz respeito a puras questões regionais (e não nacionais ou humanas). E, quando não fazemos parte, se há a desvantagem de não desfrutarmos dos benefícios de uma herança específica há a vantagem de alguma liberdade, de uma falta de patrulhamento para nosso lado, uma falta de olhar que permite o sossego (sim, o sossego, a falta de peso histórico jogado sobre, por exemplo, minha pessoa e sobre os que me são próximos no que diz respeito a determinado povo, local, estado, região, fato etc).

Em suma, vi comunidades contra o nordeste, também percebi comunidades contra outras regiões e estados, além de comunidades separatistas e algumas em busca de uma integralização. Isso há dez anos ou um pouco menos. Também percebi justamente o que já descrevi aqui: a invenção do Outro através da realidade específica de cada um. Por exemplo: havia quem falasse contra as pessoas de minha região se apoiando numa imagem de um bairro específico da cidade de São Paulo. Eu não tenho nada com isso. No final, o sujeito dá um soco no ar. Cria o espantalho, com base em uma experiência de sua própria vida? Natural. Mas o não-natural está em achar, ou ao menos parecer achar, que a realidade EXATA do mundo exterior é a extensão daquilo que se viveu.

E não é.

Daí, o que seriam agressões permaneciam agressões sem se tornarem ofensas. Eram socos contra o ar, que me fazem perguntar se a origem dos socos também não seria o ar. Se o Nordeste era aquela coisa imaginada, longe de minha realidade cotidiana aqui em João Pessoa, será que aquilo que muitos pensavam de sua própria terra em algum lugar do Centro-Sul brasileiro era/é real?

Enfim, o bairrismo será ainda uma realidade mesmo daqui a diversas gerações. E ele em si não é algo errado, um problema nem um erro, desde que realmente seja verdadeiro: baseado em amor-próprio e não no ódio contra outros que, muitas vezes, surgem como imagens-espantalho, como uma categoria sem materialização suficiente na realidade. O paulista que ama SP, por exemplo, é honrado; o paraibano que ama a Paraíba, é honrado; mas basear esse amor no ódio contra os outros, é um desvio (sequer é bairrismo mesmo, apesar de parasitar essa ideia).

P.S.:Toquei nesse assunto e lembro de um "susto de batismo" que levei quando me vi deparado com uma hostilidade (por eu ser nordestino e gostar de determinado tema de ficção-científica que alguns achavam restrito ao seu universo particular e fora do estereótipo do que eu "deveria" ser) em um fórum de um período anterior à popularização dos sites de redes sociais. Há muito tempo. Não entendi. Achei uma coisa desconexa. Como se um discurso e um imaginário muito específico tivesse tentado me golpear. Foi algo tão fora da realidade, da minha realidade, do que eu convivo e convivia no dia a dia, que não ofendeu. Mas, com o tempo, vi que teria que tomar alguns cuidados, ao menos para não me surpreender com o zoológico da vida cotidiana.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.

Nem patriota, nem anti-Brasil

É como me defino, conforme o título.

Suponho que muita gente seja assim, muitos brasileiros.

Afetivamente, o que ganha, o que muda em mim, vivendo a odiar ou a amar o mero fato de fazer parte de um país? Claro que é importante, reconheço. Afinal, há certos acordos internacionais, bem como uma ordem interna, que me beneficiam, evitando que eu viva em um limbo.

A Copa está aí, é por isso que toco no assunto. E não, não acompanho muito esse evento.

Eu vejo algumas fotos de notícias, imagens de televisão, todas essas coisas sobre um país exultante. Não me identifico.

Não é que não me identifique como brasileiro, mas vou sempre por partes. Cada imagem isolada, cada programa, ou opiniões que vejo por aí contra os que falam mal do Brasil "e tudo o mais", para mim é nada. Por outro lado, se, diante das imagens, pessoas, notícias e detalhes eu nada sinto (ou não consigo perceber se sinto algo), eu mantenho o respeito.

Quanto menos afeto, mais respeito - nesse caso da brasilidade. Há outros assuntos cujo respeito aumenta com o afeto, mas estou falando de um caso específico. (e mesmo assim é "respeito de convívio", como parte da civilização e da legalidade)

Sou da parte nordeste do Brasil e, já aqui no Nordeste, não me sinto representado por "todo o Nordeste". O Ceará é outro lugar, a Bahia é outro lugar, por exemplo. E só.

Mais longe: imagens do Rio, filmes e novelas da Globo, jovens, adultos, idosos no Leblon. Tenho respeito, mas confesso - sem despeito - que não me identifico como se tudo aquilo fosse "extensão de quem eu sou". Não são extensões de mim nem o Rio, nem São Paulo, nem Goiânia, nem Manaus, nem Brasília, nem o Sul.

E, para demonstrar esse "não-afeto", eu não "odeio" nada, não tenho aversão a nada que diga respeito a Estados e Regiões. Eu sou um mero e anônimo "receptor" de produtos midiáticos que "pretendem" ser nacionais, mas são apenas algo por exemplo do Rio de Janeiro espalhado pelo resto do país. Ou seja, é algo regional com pretensões nacionais o que vejo em filmes produzidos por brasileiros e no Brasil, em uma grande quantidade de casos (não em todos).

Com notícias, claro, é o mesmo. Não me interessa, aqui em João Pessoa, nem o trânsito de Recife, muito menos o trânsito de São Paulo. Isso não é nada. E as manifestações populares, e mais: e o cotidiano? Talvez o cotidiano de Recife, vá lá.

Outra coisa: não há ódio, mas também não atribuo por exemplo ao Sul, a São Paulo ou ao Rio de Janeiro, nenhum tipo de "exotismo". Esses locais não são exóticos para mim. Nem são cotidianos. São partes do Brasil. Mas todos desprovidos de memórias, desprovidos de afetos, desprovidos de contatos. Diferente da crença de uma pessoa ou outra, por ser nordestino não tenho parentes próximos, ou que eu conheça, em nenhuma das grandes cidades brasileiras. Sobre certas abordagens que já vi em redes sociais durante discussões "bairristas" eu uso o termo "não há por onde". Não há por onde eu tomar uma posição que me coloque próximo, cotidianamente próximo, a certos lugares-comuns envolvendo certos bairros de São Paulo, por exemplo

É por essas coisas que às vezes não entendo algumas formas de aversão a tudo que tenha procedência nordestina por parte de alguns. Oras, se tal sujeito não tem identificação nem afeto pelos estados da parte nordeste do país, não faz sentido odiar. Odiar, amar, ter afeto ou aversão ao que não está no seu radar cotidiano? Esse tipo de coisa, particularmente, está mais para ocupar um vazio, uma falta do que fazer e sentir, bem como a vontade de pertencer ao que quer que seja por exclusão do Outro. Que seja.

Entretanto, há assuntos sobre a vida brasileira que verdadeiramente têm a ver com meus interesses e são aqueles que mais se aproximam de algum desnutrido patriotismo meu: se as instituições funcionam, se produzimos, se somos decentes como nação. Ninguém tem que ter amor ou afeto a nada do mundo cultural ou do cotidiano de localidades específicas do Brasil, nem se essas localidades forem RJ ou SP. Amor (que é sinônimo de "responsabilidade") e afeto devem existir para as instituições, o resto é a vida pessoal de cada um.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Como um brasileiro vê o mundo?

O brasileiro sou eu.

Primeiro, parto do princípio de que a própria brasilidade é um conjunto de elos entre diferentes nações que formam o próprio Brasil. A partir disso, visões diferentes por localidade.

A internet, efetivamente, ajudou a mudar as coisas. Antes, havia mais caricaturas sobre o mundo. Por exemplo: tenho a impressão de que o México só era enxergado pelos brasileiros a partir de uma lente norte-americana. Não havia um peso tão forte numa visão direta Brasil-México, mas um olhar sobre como os americanos viam o México para, copiando esse olhar, nós víssemos o México.

Vamos à questão, começando pela América Latina. Há um senso de diferença entre a pseudo-homogeneidade com que poderia enxergar a América Hispânica (e de outros países de fala não-hispânica e não-portuguesa, mas que estão na América Latina, geograficamente) e a variedade interior ao Brasil.

Não só o português daria o senso de diferenciação entre brasileiros e demais latino-americanos. Haveria certas particularidades, que revelariam a maior delas: uma ideia preconcebida de que só aqui haveria profundas diferenças regionais. Isso, como tento dar a entender aqui, parte de mim (já que não entrevistei brasileiros, nem ninguém).

Realmente, como o mexicano, o colombiano, o peruano, o argentino, enxergam a ideia de Nordeste Brasileiro? Como eles enxergam a diferença entre estados do Norte Brasileiro? Como eles compreendem diferenças entre o Rio de Janeiro urbano e o Rio de Janeiro rural (que nem eu mesmo entendo)?

E Brasília?

Não posso falar do não entendimento dos outros sobre coisas do Brasil que nem eu entendo.

E a Argentina? Quantas Argentinas há? Nem tudo se resume a Buenos Aires, mas parece que, no Brasil, só existe esse lugar na Argentina. O resto é como se não existisse.

Qual a visão brasileira do Uruguai e do Paraguai? Sei que, no caso do Paraguai, costuma ser uma visão fechada em aspectos negativos e pequenos.

O que entendemos sobre a Venezuela antes de Chávez? Quais as principais notícias da Venezuela durante a década de 1980?

Não sabemos (ou só eu que não sei).

México. Como o Brasil vê o México depois de um primeiro momento pela "lente" dos filmes norte-americanos? Talvez tenha ajudado o programa humorístico do Chaves, do Chapolin, e a primeira e original versão dublada da novela Carrossel. Para um círculo menor de pessoas, as descrições, as cenarizações, as ambientações e a experiência de vida presentes nos livros de Carlos Castañeda.

Canadá. Como o Brasil enxerga o Canadá? É como um "Estados Unidos" complementar, porém mais calmo e frio.

E os EUA? Vemos os EUA como império, como concorrentes, como magnânimos? Vemos os EUA apenas composto por um povo anglo-saxão, ou vemos os EUA também como diversos povos naturalizados e descendentes de imigrantes das mais diversas etnias?

Os EUA são a Califórnia, Nova Iorque ou o Meio-Oeste? Como é essa visão no Brasil? A minha pode ser longa, não cabendo neste espaço. Creio que, apesar de uma base anglo-saxã, os EUA cada vez mais se revelam como uma ideologia (ou um "espírito") própria, além de qualquer formação ideológica criada na Europa... um país que reúne, em alguma consonância, diversos outros povos, formando um espírito comum que, milagrosamente, parece "funcionar". Talvez o único país destacado por ser multicultural que tenha dado muito certo, sendo que há um tempo sua imagem de "monólito puramente anglo-saxão" tenha mudado.

A Europa. Temos consciência, tal qual sobre os EUA e seus filmes, da Europa Ocidental. Ainda que muitos de nós não saibamos delimitar qual país faz fronteira com qual. Sobre Portugal, creio que hoje em dia haja uma visão um pouco mais rica que na década de 80 ou antes. Também há muito sobre Espanha e Itália que vêm das notícias sobre jogadores de futebol que lá vivem.

Não acredito que tenhamos ainda uma visão clara da Europa Oriental ou da Rússia. Nem da África, que ainda vemos como se fosse tudo uma coisa só. Há alguma coisa sobre o Oriente Médio e Japão. E, mais recentemente, mais notícias sobre a China (ainda assim, de uma forma fechada, objetiva e homogênea).

Acho que nós, brasileiros, não conhecemos o mundo. Ainda seguimos certo grau de estereótipos. Parece haver uma confusão étnica com o termo "gringo", que para mim nada significa realmente. Uma proximidade com o Japão, com Portugal e com a Itália, devido aos imigrantes e à colonização lusa. Uma visão dos EUA que parece só ter tomado forma a partir da Segunda Guerra Mundial. Uma visão da Rússia e do Leste Europeu vagamente provinda, e generalizada, das décadas da Guerra Fria. Recentemente, algo da África do Sul como algo em específico, individualizado em relação ao continente.

De qualquer forma, uma coisa é certa: o Brasil profundo ainda me parece enxergar o mundo de forma equivalente aos estrangeiros que confundem o continente onde o Brasil está.


Assinado: João Batista Firmino Júnior.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Multiverso e Consciência

Até onde vai a existência?

O quintal de uma casa tem um limite. Do limite, uma noção de exterioridade capaz de olhar para o interior da casa.

Uma cidade tem os seus limites. E é possível enxergar a cidade posicionado um passo antes de seu limite máximo, por exemplo.

Planetas terminam. Não necessariamente por limites cercados. Na lógica de um planeta como o nosso, e imagino que na de qualquer outro, você pode andar e sempre voltar ao mesmo lugar. Para sair, é preciso mudar toda a lógica, enveredar por outra dimensão. Por exemplo, subir, subir muito. Daí, nesse caso, sim, o lado exterior.

Seria assim também com este universo?

Como uma esponja enrolada em si mesma, a impressão de diversos universos. Túneis que passam por túneis e nenhum cercadinho delimitando um limite óbvio, um fim.

Por mais dimensões a que se recorra, sempre voltamos a algum estrato do multiverso (ou do universo "desdobrado" de tal forma que mais parecem muitos). Como "sair" do multiverso sem recorrer a outro universo?

A criação é um discurso prolixo, cheio de buracos que levam a partes do próprio discurso, sem nunca uma saída absoluta, indo além da dicotomia entre o finito e o infinito. É um finito com infinito, e um infinito com infinitos finitos. Complicado, não?

Não há um cercado, um lado de fora. Mas, também, podemos dizer que, por não haver esse cercado, não há um lado de dentro. Em última instância, a criação nada mais é que a consciência - o resto nunca existe em caráter absoluto. A consciência liga as partes e dá corpo aos espaços entre objetos, bem como aos próprios objetos.

Penso que, quando se anuncia que Deus criou o universo, eu diria que Ele criou a consciência. O universo, e qualquer uma de suas formas, nada mais é que o próprio pano de fundo irrelevante SEM a consciência. Seja essa consciência nossa, de alienígenas ou de Deus, o que importa é o "ser visto" (metaforicamente falando). Tudo precisa ser reafirmado, nada é abrupto. Sempre há uma margem de manobra.

Um átomo. Ele existe por si e, simultaneamente, é um conceito "particularizado", concretizado, tornado físico e quase táctil, por assim dizer. Ele, por si, não faz parte de um sentido de coisa criada por Deus. É parte de um pano de fundo. A criação, de fato, só tem sentido quando dá sentido a tudo. É por ela que se diz que algo foi criado.

Em suma: se algo foi criado, por Deus ou pela Natureza, foi a consciência - o que não quer dizer que as coisas não existam ou que não ocorram fenômenos só porque não os vemos. Eis o verdadeiro milagre.

Respondendo: só se "sai" do universo perdendo a consciência.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Falando sobre animes

Passei um período assistindo aos longas do Studio Ghibli e seus desenhos japoneses. E queria ter mais o "que escrever que aquilo que aqui" escrevo.

Trata-se de um conjunto de filmes, produzidos e lançados no decorrer da década de 1980 para cá, e capitaneados por Hayao Miyzaki. Não sei muito dele, o que me importa são as produções atribuídas a ele.

Vamos aos padrões: personagens femininos fortes e o simbolismo do ar, do vento. Há outros que não percebi.

Além desses padrões, uma característica: o que eu chamaria de um excelente aproveitamento topográfico ou "geográfico" de cômodos e seus detalhes, territórios, organização de objetos e pessoas pelo espaço. Você pode se sentir efetivamente em um mundo a parte. Não percebi quebras de continuidade, "ruídos" entre um espaço e outro, descontinuidades, erros dessa natureza, jamais.

Há também uma boa caracterização de personagens inumanos, fantasmas, bruxas, animais, e períodos de silêncio rico em acontecimentos, que permitem a contemplação. Não temos nenhum dos estereótipos possíveis associáveis aos desenhos japoneses mais populares no Brasil.

O vento está sempre presente, livre, dominando os espaços, cujos vazios são sempre alguma coisa. Máquinas voadoras, vassoura de bruxa, dragão, seguindo livremente em alguma missão, em algum objetivo, em alguma fuga ou encontro.

Há um detalhamento dos pensamentos e atos possíveis entre personagens e figurantes. Como que um cotidiano excelentemente produzido em cada animação. Não percebi um "dirigismo" pela ação, ou a ação pela ação; não notei um foco forçado para que determinado conjunto de acontecimentos chegasse a um determinado clímax, mas um processo aparentemente natural.

Gostei especialmente da personagem Nausicaa. Ela parece resolver tudo o que lhe for possível e impossível, sem preocupações, sem medo. Enquanto a Chihiro, aparentemente, é tão mimada quanto um gigante bebê encapsulado em seu quarto, até ter que lidar com a ausência dos pais e superar esse problema no decorrer da duração do filme.

Tal multiplicidade de universos é perfeitamente adaptável para uma realidade ficcional ocidental, como pude notar em Contos de Terramar. Há uma terra ignota, isolada, doente, com alguma grande cidade despencando moral e fisicamente, e um subjugamento em relação a uma bruxa. E, em outro filme, gatos mágicos e um rei louco; portais e rotina colegial; uma nova experiência de vida, uma visão além do cotidiano, uma libertação do ciclo da rotina e dos problemas de adolescente.

O que me importa necessariamente não são os detalhes, mas como os detalhes - sobretudo de objetos num dado espaço e localidades bem dispostas - conseguem segurar toda uma narrativa. É tudo muito vívido, mais que em filmes com atores "reais". Tudo vale, tudo é aproveitável como parte do insondável mistério dos cenários e dos seres míticos em seu interior e/ou além.

Mitos interessantes, que nunca vira antes, e poderes insondáveis. Como um sonho bem-feito, de uma noite bem dormida. Como aqueles sonhos bem narrados que muitos podem ter tido em alguma fase da infância, com uma perfeita lembrança de grande parte dos acontecimentos ao acordar. Nada se perde; todas as escadas têm para onde dar.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Liberdade e Igualdade

Não, não vou falar aqui, agora, nesta postagem, de nenhum produto cultural. Deixarei minhas literaturas, filmes e etc, para outros posts.

Antes de quaisquer discussões, ou proto-discussões, anuncio o fundamento para qualquer ser humano antes de lidar com o mundo revelado pela sua consciência: a crítica. Crítica, auto-crítica, a dúvida bem discutida, a desconfiança saudável, infinita e eterna - bem como a desconfiança sobre a própria desconfiança.

É uma tremenda neurose? Não sei se uso corretamente o conceito de neurose. Mas há uma angústia "eterna" enquanto dura e após ou antes de sua duração. Uma angústia necessária para que as coisas não se tornem mais cegas do que já são.

Diante disso, vamos aos conceitos de LIBERDADE e de IGUALDADE.

Começo com o que me parece mais simples: a IGUALDADE.

Ela deve ser questionada, desconstruída, reconstruída; deve ter padrões reconhecidos, desfeitos, em total bricolagem. O que é ela? Somos iguais?

Não interessa desesperadamente o questionamento, para mim, de se somos iguais sem que entendamos minimamente o que é IGUALDADE. A igualdade nada mais é que uma EQUIVALÊNCIA e só. Uma sociedade, através do Estado e de outras instituições, deve criar condições para que a origem das ações seja EQUIVALENTE.

Somos iguais? Não. Somos equivalentes.

Com a individualidade, fruto de um cérebro mais desenvolvido (ou de uma alma), tornamo-nos mais "desiguais" tanto em relação aos outros como em relação a nós mesmos. Somos diferentes até de nós mesmos, como poderíamos ser "os mesmos" em relação aos outros?

Não existe o tipo de IGUALDADE superficial, pouco discutida, "feita como slogan", que propagandeiam por aí. Levar a igualdade pelas aparências é aumentar a percepção das diferenças e separar as pessoas, confundir tudo, aumentar ressentimentos. Uma sociedade sadia, além de sempre duvidar de tudo, é uma sociedade que não força "igualdades aparentes", mas que permite equivalências em prol de uma liberdade de ser e de ação de todos os outros e de si mesma.

A partir de um ponto de partida conceitual, a partir de uma equivalência para a luta, vem o arbítrio (no caso, o arbítrio possível, o arbítrio "de acordo com" cada limitação de cada indivíduo e de cada momento). Vem a prática da LIBERDADE. Ela é feita com a luz da lanterna do questionamento, da dúvida, do raciocínio. Daí, seguimos pela via da vida com olhos mais acesos.

A liberdade é o exercício da criatividade, é a construção de algo (nunca sua destruição vulgar), é o aproveitamento das várias possibilidades de moldagem de formas e conteúdos legitimados, coerentes consigo mesmos e com um senso de fraternidade.

Liberdade não é a velha enrolação de um criminoso que tenta legitimar um estupro ou um homicídio, reclamando que deveria ter "liberdade" para fazer o que quiser, inclusive a de oprimir. Isso não é liberdade, sobretudo por se basear não numa equivalência civilizatória da identidade humana, mas numa desigualdade entre "quem pode" e "quem não pode" - a semente do pensamento covarde.

Também fazer "qualquer coisa", com o intuito meramente de chocar "por chocar", não é coisa alguma. Qualquer atrocidade pode chocar. Destruir por destruir, por exemplo, é esse "chocar por chocar". Não vale qualquer coisa. Chocar sem proposta, ou sem saber comunicar essa proposta, ou tendo uma proposta muito subjetiva, abstrata e pessoal, não funciona. Apenas são criadas brigas entre as pessoas, gerando coisas ainda mais "chocantes" (ainda que talvez agora com alguma "proposta" inteligível).

A liberdade só existe com a equivalência mínima dos vetores que constituirão o vasto espaço do fazer. Sem isso, ela haverá apenas subordinada ao Poder, o que significa um capricho ao invés de liberdade.

O capricho, esse sim, não tem nada de liberdade. Nem faz sentido com igualdade. É essencialmente egoísta, fugindo de quaisquer fraternidades. Só se dá bem com seus eventuais "iguais". Quer sempre um "sim senhor" da sociedade, e fica ranzinza quando a realidade se lhe impõe. No capricho, a culpa é sempre dos outros e, quanto pior o caprichoso for, pior são os "outros", sempre denominados por expressões-clichê como a batida palavra "hipócrita" (não se sabe mais o que significa, é como uma tossida, um suspiro, um som qualquer), moralista, legalista (como se seguir as leis fosse errado) e uma série de expressões que só serão entendidas como "más" pelos que são da tribo do caprichoso, e não pelos alvos ideais dos impropérios.

Eu diria que todo e qualquer pensamento patologicamente extremista é "caprichoso". Tem uma noção distorcida do que são limites e nenhuma noção do que é auto-crítica. Seja porque o autor do pensamento patologicamente extremista é muito fraco para realmente se ver no espelho, seja porque só enxerga os outros olhando por uma chapa de vidro opaco. Distorce a verdade de que as pessoas são diferentes... mas, como assim? Distorce por defender diferenças que CONFIRMEM uma igualdade interna. Por exemplo, o supremacista racial: se o sujeito crê numa diferenciação hierárquica e moral de pessoas de acordo com seus fenótipos, de acordo com a aparência, geralmente vê-se crendo numa igualdade entre integrantes de uma única raça. No final, o sujeito é mais alegremente igualitarista que os próprios igualitaristas dos quais ele prefere se afastar. E o nacionalista doente? Seu país aparece como a nação suprema, mais que uma nação, eis que o ápice da Civilização. Ok. Por isso seu país é diferente dos outros, mas seus integrantes, internamente, em prol de uma "solidariedade" de povo, de cultura, são submetidos a uma forçosa igualdade interna.

Havia uma quantidade maior de "caprichosos" na URSS, na Itália e na Alemanha da década de 30. Para manter a diferença perante os outros, nada como a homogeneidade interna. Daí... onde está a propalada criatividade, defendida como o fundamento de um poder? Ela não pode ser exercida, pois seus frutos podem virar armas contra o próprio regime. Sociedades "ideais" na mente de extremistas nada mais são que simulacros da mediocridade (por mais que certas construções pareçam luxuosas e elegantes, elas nunca irão além de uma determinada condição mediana, de uma praticidade, de um funcionalismo para a guerra, para a reprodução, para a manutenção de uma "filosofia de vida", sem surpresas).

Um simulacro que se excita com eternos auto-elogios, mas não põe os pés do "nojento e desprezível" chão, terra das cinzas não dos seus inimigos e alvos, mas das cinzas de "todos os outros". Nesse simulacro não existe criatividade, e jamais florescerá a honra - essa filha da sabedoria.

Liberdade não existe, portanto, sem equivalência das partes e sem responsabilidade. É preciso disciplina tanto dos atos do corpo como no dos atos da moral, da mente, de cada pensamento. É preciso sempre olhar para si mesmo, ver-se realmente sem medo de estar sendo fraco, e questionar a si como se fosse um astuto inimigo fazendo isso mesmo.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.

domingo, 1 de junho de 2014

Acertos e Desacertos - entre o academicismo e o mundo lá fora

Recentemente, postei sobre um ebook que fiz e foi lançado. Falar disso demais é irrelevante. O que interessa é apresentar o que aprendi e o que pode servir para outros sobre o que aprendi. E, mesmo assim, falo do horizonte geral, e não de uma dissertação em particular. Começando sobre ela: vi que não se deve ser apressado, nem ignorar a ajuda de um bom revisor. Falhei nesse aspecto.

Acertos e desacertos vão além disso. Afinal, um blog não serve para meramente falar comigo mesmo - mas, para comunicar. Vou tentar, então, comunicar.

É possível seguir um determinado caminho de vida, mais especificamente profissional - ou, simplesmente, acadêmico. Isso é feito, ok, levando ao que produzi, por exemplo. Mas, uma coisa totalmente diferente é medir, é qualificar, é entender como funciona o mercado local de uma dada profissão.

Academicamente, o mundo parece mais simples - ou com menos variantes. Ainda que o conteúdo exato de uma pesquisa, bem como seu "saber fazer", envolva muitas variantes, há um processo de idas e vindas mais comportado, na minha visão. Entretanto, o mesmo não ocorre com o campo profissional do "mundo lá fora", muito mais irracional, muito mais ilógico e muito mais recheado de subjetividades e arbítrios de determinados personagens e instituições-chave.

Tudo bem que um pai queira que seus filhos façam aquilo que eles gostem, mas é preciso alguma orientação no que diz respeito ao mercado. Uma coisa é o sonho e a teoria, o que é ensinado numa universidade; outra coisa é como o mundo se comporta no que diz respeito a determinada profissão. Antes de fazer um curso, é necessário tanto ter conhecimento sobre o ritmo dos estudos na universidade como sobre a realidade das ruas.

Isso, ao menos, evitaria mudanças de profissão. Não mudanças por você ter trabalhado e não ter gostado, mas por não conseguir sequer começar a trabalhar no que tem em mente e/ou não se sustentar. Isso obriga à mudança de profissão, caso se queira ainda fazer alguma coisa para se ter uma vida.

Vamos dizer que toda a sistemática capitalista da minha cidade, relativa à determinadas atividades profissionais, ainda é pobre. Há oportunidades, mas há dois problemas: oportunidades menores que concorrentes; escolha irracional sobre esses concorrentes e sobre quem vai ser contratado (ou obscuridade no processo, afinal, fala-se tanto em competência, mas tão pouco no tal foro íntimo que a "encontra").

Além disso, que visibilidade se tem?

O que interessa é que, para ser funcionário público, ok. Funciona. Consegue-se uma vida. Para ser pequeno empresário, também ok (apesar de arriscado para quem não tem dinheiro ou algum tipo de segurança). Para atuar como técnico de qualquer coisa, claro que funciona, claro que há mercado aqui em minha cidade. Mas, para ser pensador, tendo-se uma formação em ciências humanas, parece ser tudo mais difícil - no que diz respeito a arranjar emprego em determinado lugar.

Não se valoriza, nesse "mundo lá fora", o sujeito de Humanas. Em parte, há razão nisso. Ainda somos um país que necessita mais de infra-estrutura, administradores e auxiliares, pedreiros e médicos, técnicos em geral, que de alguém que vá ou dar aulas sobre assuntos abstratos ou, considerando uma democracia pobre no mundo das localidades urbanas do Brasil profundo, exercer o jornalismo.

Sistema oficial de estágios? Nem pensar. Que se trabalhe de graça para, através de uma série de fatores subjetivos, arbitrários e abstratos, conseguir-se um emprego precário. Mais do que isso só com boas relações, um sobrenome, politicagem, por aí.

Em geral é isso. Academia, curso, ritmo de aulas, pesquisa constituem uma realidade; a outra, a que envolve um salário no final do mês, ninguém ensina e poucos aprendem. Se a democracia e determinados mercados em uma dada localidade, e em uma dada época, são pobres, há três tentativas possíveis: mudar de profissão, mudar de lugar ou mudar "o" lugar.

O terceiro é o mais difícil. Nesse ponto recorro à ficção-científica, à psico-história de Sheldon. O que interessa sobre essa conexão que faço é que não são bem indivíduos que mudam realidades coletivas; mas realidades coletivas que, uma vez em mudança, permitem que indivíduos se sobressaiam e façam algo de destaque (ou seja, não há reais revoluções "de indivíduos para o mundo", mas uma espécie de oportunismo que muda pequenas ondinhas mas não o fluxo geral do oceano, que, no final das contas, é o mesmo "aguaceiro" independente de quem e de como, e de quais ondas serão feitas ou para cujo sentido seguirão).

Então, basicamente, digo a quem for se graduar em algo: se quiser simplesmente um trabalho, vire um técnico ou passe em concursos públicos; se quiser um sonho, mas sem emprego, faça um curso de conteúdo "abstrato" ou cujo ofício seja pouco aproveitado num local de pobre democracia; se quiser os dois, seja criativo e aproveite oportunidades que, para a maioria, passam invisíveis.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.