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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Trecho finalizador de O NÚCLEO

23- Nuc-0, um estado de espírito


Tudo havia sumido. Roy agiu, mas, o tempo havia passado mais rápido na vida real. Ainda semi-desperto, ele podia ver, como um sonho, o seu primeiro despertar, o seu espanto devido à amnésia e por estar numa cela fechada. Tudo se repetia, mas ele estava dissociado de si mesmo.
Arnckott estava desativado. Mas, havia coisas mais inexplicáveis pela frente. Após a última viagem astral envolvendo o passado, ele sentiu seu corpo energizado, bípede, frente a um chão metálico, cheio de cabos e paralelepípedos escuros, e um vasto céu noturno, brilhante, com desde estrelas grandiosas, até estrelas em enxame, parecendo um pós diluído no meio do infinito.
Algo brilhava bem longe, à frente, e Roy tinha que andar.


***


            Roy…

            Um sussurro. Não vinha sob a forma de som. Era um sussurro que vinha de dentro da cabeça de Roy.

            Preste atenção…

            Imediatamente, Roy se viu aos pés de uma frondosa árvore em meio àquele cenário inextricável. Ele não sabia dizer que tipo era. Parecia antiqüíssima. Sem frutos.
            Perto dali, austero, um homem coberto por uma toga por cima do que parecia ser um terno sem gravata. O solitário aproximou-se do estranho… mais perto… e-ele, era idêntico a Roy. Fisicamente idêntico. E parecia sólido. Holograma ou não, aquele sujeito começou a falar com ele:

- Sente-se.

            Sentados embaixo da árvore, o sósia, transmudava-se em várias pessoas diferentes enquanto falava, sem relação com o conteúdo da fala que viria:

- Não esperávamos que você chegasse tão longe. Mas, você chegou. E, realmente, pode te parecer tentador acabar com todo esse pesadelo e esvair-se pelo vazio dimensional. Preciso dizer, porém, que este constructo espacial, esta atmosfera, guarda o que há de mais precioso após o Fim: a semente para novos mundos.

            Roy, porém, interrompeu:

- O que me importa é: as histórias, sonhos, relatos e delírios que eu tive ou ouvi, estão de acordo com a realidade?

- Você, como sempre, muito preocupado com a realidade… Nós, que você pode chamar de “Enoquianos”, nos cansamos disso. Por um tempo. Por um tempo tentamos manipular as coisas… Mas, o Universo permanecia maior, maior, maior!

“Quanto às histórias, delírios, sonhos, e relatos, quanto a tudo aquilo que lhe pareceu imaterial nesta sólida estação-universo, as únicas coisas reais, se é que você acreditará, são a Fonte das Almas e Arcanus. Mas, o Tempo foi feito para enganá-lo: os humanos nunca foram exterminados por uma epidemia nanonuclear nem coisa parecida. O que você viu em Arnckott, por exemplo, foi parte miúda do que sobrou de uma Estação de vinte mil anos após a sua época. Milênios, dezenas de milênios, humanos geneticamente adaptados, enfim…
Guarde bem essa informação: nós, enoquianos, cujo nome inventamos para melhor entendimento, somos a essência do que há bilhões de anos era a Humanidade e mais algumas dezenas de povos alienígenas familiarizados com os humanos. Somos seus descendentes.”


***


- Por que toda essa… essa farsa?! Por que estou aqui? Fui feito para quê? E como saio daqui? - Roy quase gritava.

- Você é um apsan, um andróide. Um dos TRÊS que criamos. Porém, o fundamental entre os três. Sua mente é o repositório de toda a História e sensações, e sonhos, e delírios, da parte humana do Universo moribundo, do universo que se findou. E, sim, criamos todo um simulacro para que sua mente seguisse um determinado padrão… um padrão a nos revelar a forma certa de programar a nossa própria e incontável energia. Quanto a sua vontade de sair… Você quer o quê, voltar para Arcanus? Arcanus nada mais é que o nome de um planeta sem vida, que usamos para simular uma infância, uma juventude, em sua mente, uma mente que é o que sobrou do universo. Você é um receptáculo inumano para guardar toda a humanidade, um ser que é reflexo central do repositório de toda a Crônica Humana do Universo moribundo. E está em uma dentre dezenas de milhares de estações-universo, ou um dos Núcleos de Realidade Estabilizada… O que importa é que você é o único que vale para tudo aquilo que possua correlação com o que você e nós, os enoquianos, compreendemos como humano.”

            Após uma pausa, ele continuou:

- Por favor, entenda a sua missão. Você só sairá daqui morto. E, em caso de morte, todas essas informações e sensações reproduziriam um novo universo, mesmo assim. Mas, um universo, uma realidade, conturbada, longe do que nós pretendemos criar. Um mundo limpo, uma realidade próxima à perfeição, talvez um multi-universo, um…

- Entendi. Entendi tudo. – dizia um enigmático Roy.

Sem que o enviado metamorfo dos enoquianos - e sem que os próprios enoquianos – percebesse, Roy pôs aquela bolinha de prata na boca e a engoliu. Em sua garganta, a bolinha revelou suas lâminas.

Não! Não! Não!

Os enoquianos estavam desesperados, tudo começava a estremecer, enquanto o emissário metamorfo tentava desengasgar Roy. Mas, havia algo de especial na bolinha, e houvera algo de especial em Karnak… talvez algo fundo na mente coletiva de Roy, algo que se materializou através de Karnak…
Aquela estação ou base, ou santuário espacial, começava a ruir. Sua matéria, construída no décimo-nono milênio e reconstruída bilhões de anos após por descendentes evoluídos da humanidade e de outras raças próximas, símbolo do medo da Morte, do medo do Fim, do medo do Apocalipse natural, hesitava em virar pó, estremecer, queimar, explodir sem base nas ultrapassadas leis da Física. Simplesmente passava a sumir, sumir, sumir.


EPÍLOGO

Singularidade


            Ele acordou. Por todo o ambiente, tocava Gnossienne n.1, uma música que parecia recobrir as paredes de energia daquele ambiente cujas dimensões alteravam-se conforme quem a visse.

- Olá?

            Quem falava para ele? Uma voz feminina, suave.
            Levantando-se parcialmente, assustado, da poltrona de energia moldável, o homem de aspecto cadavérico e olhos que brilhavam por meio de pupilas amarelas e dilatadas, estava muito surpreso. Suava, quase em pânico.

- Acalme-se. Estou aqui. Sou Memória.

            Era ela, sua companheira e irmã.

- O que houve? Onde está Kosnow?

            Apareceu, de repente, um pufe, onde ela, de vestido rendado que recobriam seus braços rosados naquele branco denso, sentou-se e, com um sorriso cálido, disse:

- Foi tudo um sonho. Nele, vocês morreram e Rama, naturalmente, venceu.

- Como? Não estou entendendo? Isto aqui é alguma armadilha de Rama!

- Calma, calma. Não se levante ainda. Tudo aqui é uma realidade muito frágil. Você sabe que a realidade costuma ser mais frágil que os sonhos…

- Não compreendo. Onde está Rama e Kosnow? Onde está a MODULO?

- Não existem. Entenda…

            Ela suspirou fundo, debaixo de seus longos cabelos ruivos, e explicou:

- Ouça minha voz e lembre a última coisa que ficou faltando: você nunca foi Murion, você nunca foi um adimensional ou o que quer que fosse… você é apenas um escritor… ou um arquiteto. Criado artificialmente, sinteticamente, nesse modelo. Seu nome é Roy Escotus.

            Roy teve a derradeira lembrança, enquanto a música tocava baixinha.

- Sim, eu, eu…

- Isto aqui, Roy, é o verdadeiro Núcleo. Aliás, você é o Núcleo. A partir do momento em que você tirou a sua própria vida, você se dissociou, enxergando a realidade como se fosse um sonho e vivendo um sonho como se fosse a realidade. Todos os Núcleos materiais (e você sabe que havia mais de um), ligados por você e suas cópias em cada um deles, partiram juntos. Não sobrou mais nada, a não ser isto.
            Roy entendia tudo, finalmente. Ele era parte do fim do Universo, do fim de tudo. Mesmo aquela base espacial que, em si, recriava um microuniverso com a reprodução das antigas leis da Física, ainda se mantinha por um resquício da Existência. Agora sim, contudo, não havia mais Nada. Aquele homem (ou “aquela ideia”) apenas agiu conforme o que sempre soubera: tudo tinha um Fim. E esse Fim chegou.
            As paredes se desfizeram, junto com a luz, o pufe e a poltrona. Memória sumiu. E tudo voltou a ser… Singularidade.






FIM



Autor: João Batista Firmino Júnior

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