Breve Momento de Reflexão:
O que significa uma democracia plena? Democracia plena não é feita apenas com votos em um determinado candidato ou candidata. Claro que há projetos de Poder de diversas características e que incluem diversas interações, mas entendo que as coisas são 99% de baixo (e do "meio") para cima (ou para si mesmo, de baixo para de baixo e da classe média para a classe média), enquanto 1% é "de cima para baixo".
Milagres não acontecem.
Democracia plena faz-se através de:
- Unidade reconhecida/Coerência/Harmonia entre diferentes sistemas fechados de um país (sindicatos, regiões, conselhos, partidos, tendências ideológicas dominantes ou não, identidades, agrupamentos religiosos, clubes, grupos de funcionários da Alta Administração, grupos de industriais, grupos de latifundiários, grupos de agricultores, esfera midiática, classe média e suas subdivisões conforme encontro dessa característica com outras que a tornam ligada especificamente a uma região ou zona urbana/rural, classe média baixa, classe alta etc);
- Momento tanto do que é interno à coalização de cada sistema fechado como momento do que é exterior (não apenas o que é exterior ao país, mas a cada sistema, podendo ser algo do próprio país mas não necessariamente pertencente a um de seus grupos majoritários ou não... refiro-me às situações que fogem de quaisquer classificações);
- Habilidade de conservação do "momento" (sem confundir com conservação de políticos, pois me refiro apenas ao conceito geral e abstrato de "momento" e não "pessoa-momento");
- Normatização de procedimentos contra a Entropia (uma palavra estranha que, a meu ver, refere-se à tendência de algo "seguir adiante", dar errado, tornar-se sua forma original, que é o caos).
É isso.
Autor: João Batista Firmino Júnior.

sábado, 28 de setembro de 2013
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Momento de reflexão:
Site de rede social, fórum, etc, deveria ser visto "de certa forma" também como estar à frente de uma câmera ou de um microfone, cuja mensagem será retransmitida para muita gente.
Por isso o estresse.
O indivíduo escreve qualquer coisa e não percebe que deveria estar escrevendo ou pensando apenas para si mesmo, sem publicar. Como um roteiro próprio completamente inadequado para a Internet.
Penso que um campo de interação social via Internet, sob a forma de um site, por exemplo, deve ser usufruído sempre de forma objetiva (e não apenas algo com "aparência" de objetividade, mas objetivo na essência).
Se o assunto for polêmico (ou não for, mas sua abordagem o for), e se realmente houver algo que deva ser escrito e publicado naquele meio, mesmo tomando parte de um lado é preciso evitar chamar a atenção errada.
As partes mais temerárias devem seguir se digladiando sem a presença de quem realmente entende a amplitude e importância de ter suas opiniões ou interpretações publicadas (e isso independe de você ser a pessoa que sabe mais ou que sabe menos sobre o assunto). Quanto às pessoas que sobram ou estão aparentemente mais calmas, deve valer uma discussão mais precisa e cuidadosa - sempre com a cabeça tranquila e tendo conhecimento de certas questões legais antes de colocar algo no "papel".
Autor: João Batista Firmino Júnior.
Site de rede social, fórum, etc, deveria ser visto "de certa forma" também como estar à frente de uma câmera ou de um microfone, cuja mensagem será retransmitida para muita gente.
Por isso o estresse.
O indivíduo escreve qualquer coisa e não percebe que deveria estar escrevendo ou pensando apenas para si mesmo, sem publicar. Como um roteiro próprio completamente inadequado para a Internet.
Penso que um campo de interação social via Internet, sob a forma de um site, por exemplo, deve ser usufruído sempre de forma objetiva (e não apenas algo com "aparência" de objetividade, mas objetivo na essência).
Se o assunto for polêmico (ou não for, mas sua abordagem o for), e se realmente houver algo que deva ser escrito e publicado naquele meio, mesmo tomando parte de um lado é preciso evitar chamar a atenção errada.
As partes mais temerárias devem seguir se digladiando sem a presença de quem realmente entende a amplitude e importância de ter suas opiniões ou interpretações publicadas (e isso independe de você ser a pessoa que sabe mais ou que sabe menos sobre o assunto). Quanto às pessoas que sobram ou estão aparentemente mais calmas, deve valer uma discussão mais precisa e cuidadosa - sempre com a cabeça tranquila e tendo conhecimento de certas questões legais antes de colocar algo no "papel".
Autor: João Batista Firmino Júnior.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
[Mais uma continuação]
5- DA PESTE DE MATA FAVORITA DO ALIADO PODEROSO
Nem era noite nem dia
E havia luzes naquela floresta úmida que, de dentro,
Apontava à corriqueira senha da
Entrada de um antro por onde ia…
Ia pela via torta dos pés certos do
Seguidor dos passos de um bêbado,
Na indefinida atmosfera que confundia, e
Os que caminhavam lentos, nos pés
Do Braz, de olhos quase fechados,
Sem bichos ao redor de um centro
Calcinado por acidez da saudade de uma arma,
Centro da boca do estômago de Mendes
De Nenhuma Vocação.
A mata começara numa visão sobre a esbelta
Terra de esmerada bem-feitoria
Acessada num fim de um corredor alto de rochas.
Mendes ia passando o olhar vago e vendo o que não olhava
A surgir traços de um riso de quem desperta de uma senilidade,
Caindo em outra,
Vendo as linhas ondulantes do que reflete a Lua num rio
Caçador forte, que caça o canto de um dos legítimos
Voadores, mais aves como de nomes estranhos
E aparência ainda mais espantosa.
Elementos de espécies distintas param,
E Mendes é o único que procura,
E Braz reaparece totalmente envelhecido e
De olhos bem arregalados e berrando ao rio:
“É curto o caminho!”
E a voz esganiçada ressoava naquelas ondas causadoras
De ventos que arrebentavam os tímpanos de Mendes,
Que ficava meio bambo, pássaro tonto a
Grasnir:
“Rio de nada! Abre-te!”
O velho Braz eleva a asa aos olhos de um Mendes,
Coça uma canela fina com o bico e mostra que não confia, agora sério,
Na ação de um falta de vocação, que não esconde a surpresa;
O velho agarra-se a um instrumento arqueado, de cordas,
Aos fios dos cabelos de outrem rara e majestosa,
E toca ao rio de nada, que encolhe as ondas,
Mas que não se rende e
Tira suas mãos do fundo da base de um ciclo,
Que tira as chuvas
Barradas após correrem nas nuvens,
Desviando-se do que é varrido com força
E impedidas pelo monte oposto, quando voltadas;
Agarra a Mendes de Nenhuma Vocação, a sugar-lhe, ao fundo,
O sangue de um guardião,
Ante um Braz assustado, velhaco parado.
Mendes nunca vira o fundo azul do toque colorido
De freqüência luminosa da noite, de plantas ao fundo,
Impercebíveis a olhares
Ininterruptos que iam estabilizando
E fazendo ver, daltônicos;
Mendes via o semblante brabo do rio, assistente do ente que seguia
Bravamente, fazendo um pobre perder seu sangue fervoroso,
O rosto feio engole a truta, sem saber ser ela espinhenta,
Rio atacado ao toque lá de fora que emergia dentro em
Ondas de vento marinho, e o rosto do rio cuspia
Antes de dizer, e era, o cuspe, isto:
“Ainda não é agora, pau podre de nossa outra parte!
Não é, mas ainda virá o momento, mesmo não a agir em pé, direto,
Virão aliados demais a suprir-lhes o coração do peito,
A enterrar de vez terra que causa inveja ao meu governo,
Chefe dos rios que encharcam o trigo que não alimenta
Mais, ante ódio moribundo, solos de fogos-mortos agora,
Que não me alimentam.”
Depois diz Mendes, com todas as palavras, e logo após, este último dito,
Ao lado do velho calado, devolve:
“Não reclames mais, corrente insignificante!
Vejas o significado da terra que te dei, e que
De novo cresce em mim, terra que te alimentas.
E mais motivos para nos deixar em paz!”
O Rio de Nada fica mudo e abre passagem ao
Outro lado, tornando-se raso; transferindo o ódio
Que mata as produções nunca antes pio, do bico
Da boca da ave
Na outra margem, o velho a tranquilo sorri mesmo ao
Seu doloroso alquebrar, como dizia Braz quando a pilhar
O conto de suas dores, em termo que mostra melhor à
Mente inventiva imagem mais forte de ossos fracos a ranger
Mendes também,
A saudar a saudade na pena sua, de si mesmo,
Que se encolhe a tudo estranhar
Na mesma ordem do agouro novo das pegadas que fazem Braz
Abrir de novo as asas a dizer, horas depois, antes quase do descanso:
“São dele! São as marcas de um marcador ainda cego,
São dele! As formações de altos calcanhares de um
Aventureiro numa realidade de absolutos montes que observam
O fundo do meu Sem Nada, a fantasiar o aqui e agora, narrador
Que nos escreve,
São as pegadas do plano ao lado, de um tal Cristóvão descobridor,
Tão comum como um Silva,
O homem nos deixa, e aproveitemos um fio de sua substância,
De sua esperança, a que devemos nos agarrar.”
E não era só isto, havia uma clareira de um clarão na
Casa acampada naquela solidão, do velho Braz
A cantarolar versos de um Cristóvão, pai do molde de seu
Corpo, e de um Louco ao cenário, mãe de sua mobilidade impecável.
Era tarde da noite, na casa ao relento, onde
Mendes pegava o repelente do medo do desconhecido fazendo-se
Conhecedor dos mistérios de novos horizontes, trazendo frio
Ao estômago.
Braz havia saído recentemente, aparentemente
Sem vintém, em busca de comida perecível em terra braba
De galhos tortos, enquanto
Mendes tremia como esses galhos, ficando torto como
O campo que lhe rodeava, e a casa maior que a área da
Luz do candeeiro, que lhe cobria a vista e escurecia,
Casa de um só cômodo onde presente via-se o incômodo
De passos próximos à porta do túmulo, naquela casa, de um destino
Daquele viajante esquecido por seu povo, guardado em si.
A porta é aberta, era o velho, dentro do seu casaco,
Com suas canelas descobertas, seu
Rosto de cabeça pequena e envelhecida, e suas
Mãozinhas desconexas ao corpo fino e comprido demais,
Que deixava um Mendes ao léu de sua falta de coragem
De mirá-lo um pouco mais,
Braz não senta, chama-o
Com uma voz baixinha em seu corpo
Trêmulo ante o vento de fora, do céu nublado;
Uma coisa a ser revelada, atraía a atenção de Mendes
Ante suposta solução do enigma lá de trás, e este segue-o,
Passam longe da casa, com o candeeiro iluminando
A traseira, esquentando a surpresa na mata dos sons
De origem duvidosa a ressoar, vitimadas pela resolução de outro enigma;
Param, então, e sentam-se assim com como se tudo fosse calmo e calados,
Frios… enquanto batia demais o coração de Mendes,
E o Braz inicia como velho:
“O tempo manga demais de nós,
Tempo que fazemos sempre,
Em que estou aqui a ajudar-te e,
Não deixa de ser, prepará-lo, e
O convívio vai indo simplesmente, vai bem,
E vou te revelar, perante sapiência a ser provada
Agora pelo controle, se tu passas ou não à última
Prova de meu convívio… Espere
Um momento.”
Estava ao lusco-fusco o rosto daquele caminho
Seguido por Mendes de Vocação Duvidosa;
Braz levanta-se maravilhosamente num salto e
Começa o ato de tirar o casaco grosso, e Mendes vê
E vai, aos poucos, quase cuspindo, ou destruindo com
Os dentes, o objetivo de sua pátria, ali mesmo,
A transformação ia sendo feita, aos poucos;
Mendes dissera-se preparado e fazia jus a um
Quase despreparo inicial, por esbugalhar seus olhos adormecidos
Ante detalhes que ele normalmente não percebe.
A mãozinha esquerda ia fazendo bem o trabalho…
Revelando um monstro!
Monstro fino, de seis mãos, de três
Troncos, bem montados, naqueles rostinhos
Envelhecidos como crianças em aparência senil,
Um pequeno ser montado no outro, e sempre a todo dia,
E era explicado, a mudança estranha de um Braz desgraçado
Em seus seis olhinhos nas feições risonhas, quase a cuspir suas
Três línguas salivadas, de tanto rir,
Eram três seres!
Três seres que iam descendo um
Do corpo do outro e,
Com o casaco ao lado, mostravam-se interessados em
Fitar o paralisado Mendes assaltado pelo terror…
O homenzinho que fazia a cabeça do Braz diz:
“Psiu! É segredo, não conte a ninguém!”
Os outros dois concordam, o viajante engole o
Centro de sua pátria, ao cuidado do bolsão gástrico a
Ferver de ansiedade vista após o pânico, a acostumar-se.
Os três montam-se de novo, e Braz retornava a falar
Com Mendes, com o candeeiro das ilusões, a impedir que se
Veja um disfarce, iam rumos à casa do sono,
A um futuro planejado, que Mendes já sabia, e de onde
Pela manhã partiriam.
Foram sonhos inexistentes que habitaram um Mendes,
Recentemente, e agora sim, testado em seu controle;
Que acorda ao amanhecer, sem ver
O Braz que lhe acompanharia à cidade
Mais próxima,
Sai assustado de casa, com sua bagagem sem a viola bela,
Centro de seu tudo, e ele tão longe dela, parte do calor de
Sua pátria…
Uns sons que acordavam os pássaros, surgiam,
Eram de um rapaz que aparecia, era um Braz cego querendo falar,
E informa:
“Você! Tenho notícias de dois grandes seres importantes,
De teu pai Quaresma e de um tal Murilo, que deverão
Surgir, fantamasgóricos, agora, apontando
A cidade certa, a que seguiremos, local onde te
Deixarei!”
Da marca daquele chão imperial, marca do sangue
De uma chaga de um Mendes,
Do Grande Rio que Segue, surgem os dois velhos
De sua gente, surgem
Como da última vez que foram vistos,
Surgem como iguais, não como aparições,
E, à surpresa do homem Mendes, Quaresma comunica logo:
“Vemo-nos mais uma vez, é a última, e falo-te
Rapidamente que nossa terra inexiste agora, somos
Só nós aqui representados em ti, faremos com
Que seja rápido e, para isto, o Sem Nome ajuda-te, ajuda-nos,
Não com um Braz, mas com o Dia, a Noite, e o Umbral,
Este último será a única parte do Braz a acompanhar-te
Em direção a uma cidade grandemente i
Importante, fundada por um
Nosso antepassado,
Fundada por Janeiro, acompanhado
Por sua filha, desaparecida de nossa terra e de todas
As outras…
É a cidade de São Janeiro, amiga - e cuidado - do
Grande Rio que Seguia, amiga na burrice,
Terra que já foi nossa, primeira perda,
Terra de nacionalidade que é sempre alma de um negócio,
De pátria fabricada para venda rápida de uma imagem sempre
Submissa da Capital, e que se acha melhor, e que é constante típica
Da grande nação vazia, como cegueira de um homem de olhos
Nunca usados.
Segues para lá com o Umbral,
Partirás bem, mesmo sem tua arma, levando
A ávida paixão (nova viola, violão, coisa material ou não),
Emprestada por um Braz que
Se divide agora, como um pássaro que
Te levarás rápido, em instante incomum,
Para a cidade.”
Somem os dois, Murilo ainda acena…
Imediatamente, uma das partes de um todo, num
Relâmpago, pega Mendes com força e o leva
A uma terra de constante guerra.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
5- DA PESTE DE MATA FAVORITA DO ALIADO PODEROSO
Nem era noite nem dia
E havia luzes naquela floresta úmida que, de dentro,
Apontava à corriqueira senha da
Entrada de um antro por onde ia…
Ia pela via torta dos pés certos do
Seguidor dos passos de um bêbado,
Na indefinida atmosfera que confundia, e
Os que caminhavam lentos, nos pés
Do Braz, de olhos quase fechados,
Sem bichos ao redor de um centro
Calcinado por acidez da saudade de uma arma,
Centro da boca do estômago de Mendes
De Nenhuma Vocação.
A mata começara numa visão sobre a esbelta
Terra de esmerada bem-feitoria
Acessada num fim de um corredor alto de rochas.
Mendes ia passando o olhar vago e vendo o que não olhava
A surgir traços de um riso de quem desperta de uma senilidade,
Caindo em outra,
Vendo as linhas ondulantes do que reflete a Lua num rio
Caçador forte, que caça o canto de um dos legítimos
Voadores, mais aves como de nomes estranhos
E aparência ainda mais espantosa.
Elementos de espécies distintas param,
E Mendes é o único que procura,
E Braz reaparece totalmente envelhecido e
De olhos bem arregalados e berrando ao rio:
“É curto o caminho!”
E a voz esganiçada ressoava naquelas ondas causadoras
De ventos que arrebentavam os tímpanos de Mendes,
Que ficava meio bambo, pássaro tonto a
Grasnir:
“Rio de nada! Abre-te!”
O velho Braz eleva a asa aos olhos de um Mendes,
Coça uma canela fina com o bico e mostra que não confia, agora sério,
Na ação de um falta de vocação, que não esconde a surpresa;
O velho agarra-se a um instrumento arqueado, de cordas,
Aos fios dos cabelos de outrem rara e majestosa,
E toca ao rio de nada, que encolhe as ondas,
Mas que não se rende e
Tira suas mãos do fundo da base de um ciclo,
Que tira as chuvas
Barradas após correrem nas nuvens,
Desviando-se do que é varrido com força
E impedidas pelo monte oposto, quando voltadas;
Agarra a Mendes de Nenhuma Vocação, a sugar-lhe, ao fundo,
O sangue de um guardião,
Ante um Braz assustado, velhaco parado.
Mendes nunca vira o fundo azul do toque colorido
De freqüência luminosa da noite, de plantas ao fundo,
Impercebíveis a olhares
Ininterruptos que iam estabilizando
E fazendo ver, daltônicos;
Mendes via o semblante brabo do rio, assistente do ente que seguia
Bravamente, fazendo um pobre perder seu sangue fervoroso,
O rosto feio engole a truta, sem saber ser ela espinhenta,
Rio atacado ao toque lá de fora que emergia dentro em
Ondas de vento marinho, e o rosto do rio cuspia
Antes de dizer, e era, o cuspe, isto:
“Ainda não é agora, pau podre de nossa outra parte!
Não é, mas ainda virá o momento, mesmo não a agir em pé, direto,
Virão aliados demais a suprir-lhes o coração do peito,
A enterrar de vez terra que causa inveja ao meu governo,
Chefe dos rios que encharcam o trigo que não alimenta
Mais, ante ódio moribundo, solos de fogos-mortos agora,
Que não me alimentam.”
Depois diz Mendes, com todas as palavras, e logo após, este último dito,
Ao lado do velho calado, devolve:
“Não reclames mais, corrente insignificante!
Vejas o significado da terra que te dei, e que
De novo cresce em mim, terra que te alimentas.
E mais motivos para nos deixar em paz!”
O Rio de Nada fica mudo e abre passagem ao
Outro lado, tornando-se raso; transferindo o ódio
Que mata as produções nunca antes pio, do bico
Da boca da ave
Na outra margem, o velho a tranquilo sorri mesmo ao
Seu doloroso alquebrar, como dizia Braz quando a pilhar
O conto de suas dores, em termo que mostra melhor à
Mente inventiva imagem mais forte de ossos fracos a ranger
Mendes também,
A saudar a saudade na pena sua, de si mesmo,
Que se encolhe a tudo estranhar
Na mesma ordem do agouro novo das pegadas que fazem Braz
Abrir de novo as asas a dizer, horas depois, antes quase do descanso:
“São dele! São as marcas de um marcador ainda cego,
São dele! As formações de altos calcanhares de um
Aventureiro numa realidade de absolutos montes que observam
O fundo do meu Sem Nada, a fantasiar o aqui e agora, narrador
Que nos escreve,
São as pegadas do plano ao lado, de um tal Cristóvão descobridor,
Tão comum como um Silva,
O homem nos deixa, e aproveitemos um fio de sua substância,
De sua esperança, a que devemos nos agarrar.”
E não era só isto, havia uma clareira de um clarão na
Casa acampada naquela solidão, do velho Braz
A cantarolar versos de um Cristóvão, pai do molde de seu
Corpo, e de um Louco ao cenário, mãe de sua mobilidade impecável.
Era tarde da noite, na casa ao relento, onde
Mendes pegava o repelente do medo do desconhecido fazendo-se
Conhecedor dos mistérios de novos horizontes, trazendo frio
Ao estômago.
Braz havia saído recentemente, aparentemente
Sem vintém, em busca de comida perecível em terra braba
De galhos tortos, enquanto
Mendes tremia como esses galhos, ficando torto como
O campo que lhe rodeava, e a casa maior que a área da
Luz do candeeiro, que lhe cobria a vista e escurecia,
Casa de um só cômodo onde presente via-se o incômodo
De passos próximos à porta do túmulo, naquela casa, de um destino
Daquele viajante esquecido por seu povo, guardado em si.
A porta é aberta, era o velho, dentro do seu casaco,
Com suas canelas descobertas, seu
Rosto de cabeça pequena e envelhecida, e suas
Mãozinhas desconexas ao corpo fino e comprido demais,
Que deixava um Mendes ao léu de sua falta de coragem
De mirá-lo um pouco mais,
Braz não senta, chama-o
Com uma voz baixinha em seu corpo
Trêmulo ante o vento de fora, do céu nublado;
Uma coisa a ser revelada, atraía a atenção de Mendes
Ante suposta solução do enigma lá de trás, e este segue-o,
Passam longe da casa, com o candeeiro iluminando
A traseira, esquentando a surpresa na mata dos sons
De origem duvidosa a ressoar, vitimadas pela resolução de outro enigma;
Param, então, e sentam-se assim com como se tudo fosse calmo e calados,
Frios… enquanto batia demais o coração de Mendes,
E o Braz inicia como velho:
“O tempo manga demais de nós,
Tempo que fazemos sempre,
Em que estou aqui a ajudar-te e,
Não deixa de ser, prepará-lo, e
O convívio vai indo simplesmente, vai bem,
E vou te revelar, perante sapiência a ser provada
Agora pelo controle, se tu passas ou não à última
Prova de meu convívio… Espere
Um momento.”
Estava ao lusco-fusco o rosto daquele caminho
Seguido por Mendes de Vocação Duvidosa;
Braz levanta-se maravilhosamente num salto e
Começa o ato de tirar o casaco grosso, e Mendes vê
E vai, aos poucos, quase cuspindo, ou destruindo com
Os dentes, o objetivo de sua pátria, ali mesmo,
A transformação ia sendo feita, aos poucos;
Mendes dissera-se preparado e fazia jus a um
Quase despreparo inicial, por esbugalhar seus olhos adormecidos
Ante detalhes que ele normalmente não percebe.
A mãozinha esquerda ia fazendo bem o trabalho…
Revelando um monstro!
Monstro fino, de seis mãos, de três
Troncos, bem montados, naqueles rostinhos
Envelhecidos como crianças em aparência senil,
Um pequeno ser montado no outro, e sempre a todo dia,
E era explicado, a mudança estranha de um Braz desgraçado
Em seus seis olhinhos nas feições risonhas, quase a cuspir suas
Três línguas salivadas, de tanto rir,
Eram três seres!
Três seres que iam descendo um
Do corpo do outro e,
Com o casaco ao lado, mostravam-se interessados em
Fitar o paralisado Mendes assaltado pelo terror…
O homenzinho que fazia a cabeça do Braz diz:
“Psiu! É segredo, não conte a ninguém!”
Os outros dois concordam, o viajante engole o
Centro de sua pátria, ao cuidado do bolsão gástrico a
Ferver de ansiedade vista após o pânico, a acostumar-se.
Os três montam-se de novo, e Braz retornava a falar
Com Mendes, com o candeeiro das ilusões, a impedir que se
Veja um disfarce, iam rumos à casa do sono,
A um futuro planejado, que Mendes já sabia, e de onde
Pela manhã partiriam.
Foram sonhos inexistentes que habitaram um Mendes,
Recentemente, e agora sim, testado em seu controle;
Que acorda ao amanhecer, sem ver
O Braz que lhe acompanharia à cidade
Mais próxima,
Sai assustado de casa, com sua bagagem sem a viola bela,
Centro de seu tudo, e ele tão longe dela, parte do calor de
Sua pátria…
Uns sons que acordavam os pássaros, surgiam,
Eram de um rapaz que aparecia, era um Braz cego querendo falar,
E informa:
“Você! Tenho notícias de dois grandes seres importantes,
De teu pai Quaresma e de um tal Murilo, que deverão
Surgir, fantamasgóricos, agora, apontando
A cidade certa, a que seguiremos, local onde te
Deixarei!”
Da marca daquele chão imperial, marca do sangue
De uma chaga de um Mendes,
Do Grande Rio que Segue, surgem os dois velhos
De sua gente, surgem
Como da última vez que foram vistos,
Surgem como iguais, não como aparições,
E, à surpresa do homem Mendes, Quaresma comunica logo:
“Vemo-nos mais uma vez, é a última, e falo-te
Rapidamente que nossa terra inexiste agora, somos
Só nós aqui representados em ti, faremos com
Que seja rápido e, para isto, o Sem Nome ajuda-te, ajuda-nos,
Não com um Braz, mas com o Dia, a Noite, e o Umbral,
Este último será a única parte do Braz a acompanhar-te
Em direção a uma cidade grandemente i
Importante, fundada por um
Nosso antepassado,
Fundada por Janeiro, acompanhado
Por sua filha, desaparecida de nossa terra e de todas
As outras…
É a cidade de São Janeiro, amiga - e cuidado - do
Grande Rio que Seguia, amiga na burrice,
Terra que já foi nossa, primeira perda,
Terra de nacionalidade que é sempre alma de um negócio,
De pátria fabricada para venda rápida de uma imagem sempre
Submissa da Capital, e que se acha melhor, e que é constante típica
Da grande nação vazia, como cegueira de um homem de olhos
Nunca usados.
Segues para lá com o Umbral,
Partirás bem, mesmo sem tua arma, levando
A ávida paixão (nova viola, violão, coisa material ou não),
Emprestada por um Braz que
Se divide agora, como um pássaro que
Te levarás rápido, em instante incomum,
Para a cidade.”
Somem os dois, Murilo ainda acena…
Imediatamente, uma das partes de um todo, num
Relâmpago, pega Mendes com força e o leva
A uma terra de constante guerra.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Pausa para o café:
As postagens aqui publicadas realmente são grandes. O mais comum seria quem quiser ler copiar e colar, e ler depois o conjunto do que escrevo. Mas, pretendo mudar isso - após a conclusão dessa "narração em tiras, periodicamente rimadas", que eu criei.
Quanto ao "Singularidade", vou adiar sua continuidade por tempo indeterminado.
As postagens aqui publicadas realmente são grandes. O mais comum seria quem quiser ler copiar e colar, e ler depois o conjunto do que escrevo. Mas, pretendo mudar isso - após a conclusão dessa "narração em tiras, periodicamente rimadas", que eu criei.
Quanto ao "Singularidade", vou adiar sua continuidade por tempo indeterminado.
[Continuação]
4 - MIRAGENS NA PASSAGEM SEM ENCONTROS NA LINHA DO CHÃO
Era fina a próxima curva torta
Do chão desenhado, ainda
Visto a torre torneada de rochas
Atrás de um faminto por água escassa
Que economizaria ele, por ser ele
Mendes de Nenhuma Vocação com sua
Adaptação disfarçada num cansaço inicial;
No solo do astro que não se põe
E que não passa flecha que o leva –
Segmento de um rio que se forma
Em reta orientada, bem recebida
À fundo pela Grande Mãe esquentada.
Predominava a paisagem daquele dia
Na rima de um ser sem ter sido tão determinado,
Controle moldador de um mar de calor
Que abraça e sufoca, em amor
Ao ardor de uma pele ressecando
Na peste do cansaço constante
Da ressaca determinante do ser
E do lugar que o faz, em ciclo, agonizante;
Chão bem varrido, completo de rochas
E de formas da mente de Mendes,
Que não consegue ver o céu por uma força que o desfaz,
E o chão por um cansaço que o contrai,
E vai olhando, na passagem lenta,
já sem ver muralha suntuosa de montanhas,
Vai olhando os detalhes de visões tenebrosas
Que sua cabeça faz naquelas pedras erodidas
Que carregam os perdidos à perdição;
É quando ervas do calor de uma nova noite que se aproxima
A nunca chegar num deserto cheio de chão pedregoso,
Atenua as dores e eleva o corpo do viajante
Debaixo de cúpula infinita de teto ao brilho quente, desdita feiúra
Ao poente
Na bandeja da expatriada terra de assadeira, de morte
De metabolismo que não torna pela água, ali inexistente,
A paisagem vai fazendo um andante como o solo, filho e Mãe
Nas mãos do fundo azul do céu infinito
E novos sons vão a surgir em mente de ente fraco do que escalda
E a viola escorrega um pouco
Quando Mendes de Nenhuma Vocação
Tropeça num moribundo, no meio de sua perdição,
E fala a oferecer ao homem jovem que seca:
“Por favor, aceitas água? És o primeiro
A que encontro em meio a tanto
Caminho longo. Não respondas,
Tomes, que a vida ainda vive em ti.”
Vai Mendes a retirar água de sua única fonte,
Vendo o homem perdido a delirar no falar após o beber, enquanto ajuda-o
A se levantar para a morte:
“Oh, senhor! Já vi tantas coisas ruins em minha
Pouca vida que se esvai aqui,
Nasci em propriedade longe de ser deserto, mas deserta
Terra de meu pai,
Fui assim a arrumar variados negócios produtivos até
Me ver certo a casar.
Oh, senhor! Vi moça linda de longo véu preto,
Vi os seus cabelos negros a encobrir pescoço
E vestido longo, de rosto da mãe,
E fui logo a me preparar ao grande momento,
Que foi feito, e casei-me,
Mas nem em momentos íntimos, e fui certo a estranhar,
Ela deixava eu retirar os seus cabelos de mais atrás,
Nem tocar, nem reclamar, e deixei,
E o mais que não te disse foi sobre as primeiras refeições,
E aquela senhora sua mãe morava insistentemente conosco,
Conhecedora de muitas coisas,
A admirar e sempre a pentear cabelo lindo,
Mas voltemos às refeições, que ela quase não comia,
Fazendo, pois nunca vira, prato grande para
Quem dizia ser um empregado de nossa morada,
Mas havia um segredo, e isso não une,
Coisa que só de longe desconfiava,
E saí, certa vez a viajar, e voltei mais cedo
E observei, sem espiar, sem querer,
Ao entrar sem ninguém me notar, ao fundo do quarto,
Na fechadura a espreitar
Criatura em mulher minha, de minha perdição,
Retirar os véus longos de um cabelo bem cuidado
Chocando-me muito assim a mostrar…
Já sabia que sua boca sempre fora pequena, e sempre
A líquido entrar apenas,
Mas não era assim a coisa feia que se escondia, ainda menor,
Em seu tão por nosso povo conhecido como cangote
A mostrar
Buraco sem dentes, buraco mesmo,
Ali! No lugar da parte de trás do pescoço,
E com a outra mão, ô meu senhor! Ela
Ia a colocar uma colher de ervilhas
Lá dentro
E fazia um movimento estranho com a cabeça,
Com um barulho miúdo no estranho engolir,
Como se estivesse colocando a cabeça no lugar,
E naquele outro ponto em que via, não disse
Nem me anunciei,
Saí correndo de lá, e nunca voltei,
Saí até me encontrar cá, e aqui
Morrerei.”
Mendes estava a testemunhar
Conto mais louco a escutar e,
Quando depois de pensar, olha o pobre homem
A falar, era o tal que não falava
Mas não era o pio de sempre do bombear
Latente que fazia velho som do ouvido,
Era nada ali a lhe mangar, no riso
A lhe mostrar que nada havia.
Mendes molha o rosto com suor, sem ainda acordar,
E foge como a coisa ilusória em seu ruminar,
Ao ver monstro que fugia de seu íntimo, eis
Que pequeno Trovador, da bela Palavra
De seu bem querer de nenhum espanto, e eis também que
Vai ainda continuando o homem ao comando
Mastigando a própria língua e cantando.
Era para ser noite, mas não era,
Era o mesmo ritmo prosseguidor,
Era a rotina afiadora,
Era o Sem Nome a lhe perturbar
Em tempo indeterminado, à frente, e encontra-se,
Do grande corte na terra, do caminho do meio
Que faz um meio Mendes, quase de nenhuma vocação,
Arrodear o que podia ao vão de lá de longe,
fundo preto que nem gato preto, cortado
Por vento seco e cortante, que faz o mesmo na goela
Seca de um outro cheio de areia do mesmo fundo,
Daquela boca, boca de um
Cão desgraçado, a lhe mastigar o fígado
Que não mais transforma sua forma mais ácida
Em mais cálido e deleitoso líquido, retirado
Do sangue;
Sem o fígado, Mendes sente que o veneno aumenta
E prejudica Grande Rio que Segue,
Tem a esperançar ainda ao seu berrar:
“Vamos Mãe, me ajuda!”
Vai sangrando ali, matando-se assim em seu andar,
Pois não tinha mais aquela lida de seus antigos dias,
Pois não esperava tanta aspereza…
A Grande Mãe, antes da ajuda,
Clareia sua mente a não derreter com muita luz,
Que transforma, ou tira a máscara,
Da ave que ali se escondia, a lembrar-lhe
Do enigma enfático e profético.
Ave de asas longas, de voo alto e
Solitário, que o carrega para soltá-lo
A um ponto não tão fundo, para
Comer Mendes, que não esquece, e
A Mãe anuncia o toque que deve vir,
E Mendes triunfante toca, a águia o solta,
Cai o homem no cortante
Nunca cânion daquela
Terra nunca viva;
Ao fôlego, agüenta ao trôpego que lhe afugenta,
Águas novas enchem o Tártaro que lhe incapacitava
O caminho a lhe caminhar,
Queda-se um talzinho que traz alguma vocação
No toque do seu irmão na mão sua,
Cai num lago, chamado de Salvador, que salva um sangue
Que toma como fígado, e que carrega o ácido diluindo,
Que tira o veneno da cobra que lhe encurralava
As veias, totalizando, genéricas, artérias
Do sangue que não desbota nem deixa de respirar.
Mendes chora de alegria, ao ver seu não morrer
E agradece à Mãe, que lhe abastece, mas
Grande Rio que Seguia não cansaria, e tira-lhe
Novamente a lucidez, chovendo ao Leste zangado,
Mesmo que num deserto…
Vem um câncer insolúvel de um lago,
Que tira mais fôlego de Mendes, fá-lo
Assim criar um velho Timoneiro, das antigas, vendedor
De rapadura que não afunda,
O Timoneiro vê Mendes boiando, que o vê,
O velhinho apenas ri a dizer:
“Ei! Tu qué comprá uma, ó!”
Enfia uma na goela de um Mendes da seca, que só aceita parte,
Um sem vocação que come sem o violão,
O velhinho, ao vê-lo nadando com mais vigor,
Diz no riso:
“Eitá! Que omi danado, sô, é danado, é danado!”
Mendes não entendia o mundo de suas descrições sem métrica,
Sua boca há muito não rimava bem,
Vê vagamente o Timoneiro a colocar o cachimbo, de maneira
Mais forte, na boca, e a baforar no seu rosto. O
Velhinho agora se mostrava curioso:
“Ei! Omi! Tu num qué afundá nã, né? Inton
Me dá logo essa viola. Tchê! Num vai me dá
Nã, é? Dê-la cá, dê-la, oxente! Vamu… Isso…”
A Grande Mãe não conseguia acordar Mendes,
Que, ainda pouco alerta, só diz num quase balbucio:
“Não vai cinir não, né?”
O Timoneiro só diz, e estremece com um pouco de riso:
“Mai cumpadi, cumé que vô cinir, e o que é que
Danado é isso, ô sô!?
Mai tu num vá ficá preocupado nã, uma
Velhota que te cagô qué que eu inda demore…”
Com malícia, e mais uma baforada,
Vai velho danado a fazer pergunta variada e a contar:
“O ritmo acaba né? É… Gostô da rapadura?
Um pedacim só já foi bom, heim?
Isso dá sedi, mai ispero que isso num
Te aperrêi tanto como cum amigu meu,
Êta caçador valente! Êta burrão borrão!
Quis um dia caçá uma tar ave rara, mai
Tu num sabi, a danada era sagrada,
O bichão do meu amigu a caçô-la, caçô-la
A pobrezinha,
Êta que a danada num tinha nada de inocente nã,
Mai nã mermo, o bichão omi
Chegô im casa, viu a muié, foram prepará e cumê-la danazona…
Mai… nã, nã, cunfundi oras! Só ele que cumeu,
Foi bom, bom, como teu pedacim de rapadura…
O bichão teve uma sedi… Mai uma sedi…
Uma sedi tum sedida, que num si aguentô,
Tevi de bebê auga, e bebeu um toné,
A muié tava disisperada, o omi
Inda tinha sedi, o tar do carcará,
O omi inda tinha sedi, tumô ôtro
E ôtro, e ôtro, e ôtro;
O buchão dele já tava grande dimais,
Mai a sedi tamém, tombém danada de grande
A barrigona criscia, criscia, e ele bibia, a muié
Fugiu tamanha a aberraçãozona,
O omi sufria… A barrigona ispludiu!
Ispludiu cum tanta auga que inundô muito
A casebrinha. O tar do meu amigo, tar de cumpadi
Sebastião, morreu, e a tar da sagrada
Vuõ do istômigo dispedaçado, já cum a sedi matada dela.”
O Timoneiro deu um adeus, e foi-se,
Mendes pensava, sem saber pensar…
Deu sede! Nele também!
Olha, o Mendes de Nenhuma Vocação, e de
Nenhum violão, teria
De beber toda a água
Do lago em que nadava,
Mas não era como compadre Sebastião,
Tinha seu estômago como o tambor da sua viola perdida,
E não esconde afeição, e mesmo pouco
Acordado vai tomando toda a água
Da solidão,
Vai tomando o dia todo em sua ação,
Vai se enchendo, era de sangue forte,
E descobre o fundo de um lago, e encontra-se
Preso debaixo do chão, no fundo da escuridão,
Sem a boa viola.
Mas não estava só, estava cansado, imobilizado
Com a barriga grande, mas sem morrer, a sentir
A respiração de alguém muito cansado…
Mendes passa horas assim a observar
O varrer que dava àquela figura da penumbra,
Que ia se revelando anã.
Era anão danado a aproximar-se com uma
Vassoura minúscula, quase ao ataque, a olhar silente
Aquele volume de um corpo que lhe atrapalhava,
Era o que Mendes precisava, e vinha o estranho
Que espera, e vem barriga a decrescer,
E levanta-se Mendes a conhecer, e o faxineiro
Declarado a lhe questionar:
“Bem-vindo és tu, viajante? Se és
De boa índole não farei a ti o que
Os meus fizeram com aquele encurralado
Que prendemos,
Mas pareces saber que aqui não têm tesouros.”
Estavam os dois na penumbra de um conjunto
De cavernas, de pouco calor, de nenhuma assadeira,
Sem sufocar, foi Grande Mãe Terra a lhe ajudar, ao
Abrir novo caminho a lhe apontar.
Mesmo sem sua viola, vai Mendes de Nenhuma Vocação,
Perdido em sua nova lucidez, a deslumbrar-se
Com aquele homenzinho de túnica, de fora de sua terra,
A segurar uma ferramenta menor em metade
Que o próprio anão em dobro da vassoura, vai Mendes
A falar, de mãos à mostra:
“Vim em paz, em grande jornada
Contra mal que aflige minha nação
Lá de trás,
Vim aqui a cair, e já vou assim
Em busca de unir grandes pais:
Norte e Este, que
Se estendem longe.
Se não é incômodo, estou desprovido
De alimento e de arma e gás,
Peço, com clemência, que emprestes
Um pouco de solidariedade
Para manter tanta variedade de
Antiga terra desgastada.”
O anão examina o estrangeiro
A lhe cantar, mesmo sem a viola,
E apresenta-se sem nobreza e sem mais:
“Sou Noel, de chão distante e mais fundo,
Das Minas, terra em pluralidade, que esconde o murmúrio dos
Pássaros que lhes ensinaram a voar na forma
Do cantar.
Sou um condenado sim, por não ter
Guardado - e culpa daquele Ermo estúpido!
Maravilhosa nossa Pedra Mineira,
Pedra de misericórdia e de equilíbrio,
E fecho meu punho,
Fecho à vassoura que me mazela;
Fui condenado a varrer o deserto, maior Deserto
Do Sem Nome,
A passar dez mil tempos a preencher
Um lado de areia, e a limpar o outro;
A passar mais dez mil tempos a fazer
O oposto.
Somos dois desgraçados! Sendo aquele ainda mais…
Mas venhas, e não paro,
Venhas, entre que talvez tenha gente
Que possa te ajudar lá dentro, e aviso que não é de costume haver.
Entre, só cuidado com o velho Braz,
Amarrado pelo ventre,
Em seu também castigo devido a
Alguma antiga condenação.”
Some o anão, a lhe apontar
Lar, comida e comiseração
Pelos atos funestos do povo
Que representa a unidade
Dobrada na figura de Mendes de Nenhuma Vocação,
Que segue e entra no vão mais escuro
De pedras úmidas, num labirinto
Valoroso pelos sons à distância.
Era difícil passar sem perceber,
Num ar escuro,
Vozes praguejantes num caminho torto
Por onde passava pelas pedras das paredes,
Tateando com mão soberba,
Desbravando por metros quadrados,
Pisando com os pés mal vestidos,
E com nada na cabeça;
E o chão vai declinando, na entrada
De uma densa morada,
Era o danado de um tom melhorado
Era o seguidor ali amedrontador da Mãe
Aos pedaços, Palavra de um Trovador e formadora de
Cenários que, em conjunto, formam a Mãe.
Habitante na formação, com o filho, na ideia de céu,
Variada para Mendes a enfrentar
Os campos da realidade, fora de sua viola,
O que ele não constrói;
É lá, sem a viola, pelo poço sem fundo, que desce,
Parando ante o espetáculo do que escuta
O farfalhar do que mal veste os pés,
Que não revelam as intenções do visitante,
Espetáculo que, pela resposta, diz
Pare!
E parado fica uma vocação distorcida,
Vocação para salvar gente como ele,
Para salvar uma Palavra mais profunda
Que um cenário, do mundo de seu povo,
Amplo como o campo aberto e ventoso,
Escuro como um Mendes sem a viola,
Pelo possível nada, ou pela possível
Indiferença à coisa que nos espera lá fora;
Falso nada, nada é conflito, é tudo,
Indiferença que gera ambiguidade, um tanto faz que não satisfaz…
É conflito, isto sim!
Entre as possíveis formas que se escondem
No fundo de um futuro,
Não é escuro o que vê, é a parte preta dos olhos
De um bêbado sem bebida, ébrio gigante
Que diminui e ilumina, e diminui mais
Perante a grandeza do lugar,
E não eram só os seu olhos possuidores de umidade
Havia o mundo exterior,
Como também seu mundo interior de chama
De luz de falso molhar,
De um conjunto que reflete nova refração,
Em que aquele raio de povo montado em flecha
De brilho solar bate em pedra dura, que se comove e chora,
Conjunto harmonioso na cabeça de Mendes, laçada própria,
Vigília dele, de si próprio: passagem de um vetor, e espreita do processo.
Junta-se entrada em meio novo com o reconhecimento dela,
Que cria fenômeno grande que traz ilusão daqueles
Mundos que tremem: da palavra que faz o Trovador
Daqueles olhos do Braz, desconhecido homem de meia-idade,
Maior que Mendes, mesmo ébrio, coisa fora de seu mundo,
Bem acima: eis que portador das duas esferas, dois cenários,
Dois grandes da grande Mãe, mais que Palavra era a Boca,
Era um enigma aberto de sua mente profética,
E Grande Rio que Seguia ajudara, sem querer, como mestre disfarçado em inimigo…
Era o que representava a boca de trás da esposa monstruosa,
De hálito sulfuroso, cheio de éter, de vitalidade,
A falsa boca era, em verdade, maior do que pensava ser o original
Vestido na boca de trás,
Do que se olhava no espelho, pensando ser real,
Eram dois em um só, e o reflexo também vivia,
E o reflexo tinha condição de real, e criador do que dizia ser
Verdade, verdadeiro
Como o homem, Palavra que inventa o Criador e, os dois,
Como um só, anulam-se ante o Sem Nome, como poder que
Se esconde como fundo, mistério insondável.
O salão era um corredor, Mendes era a falsa boca de um povo,
Em criador e criação, que estampa
Pano de fundo, lá de trás, era o Braz,
Filho único do Impronunciável, masculinizado por olhos
Assim acostumados, Braz
Que não se aliava à única forma, porém por enquanto
À mesma ordem de seu conjugar,
Como, em disfarce que respeita cada terminar, novo verbo formado
Para Mendes testemunhar, em convívio, o falar:
Na manhã, era um jovem cego, mas que via num cantar
Pela tarde vinha a si um homem ébrio do mais amargo beber,
E à noite tornava-se um velho de força, que o fazia monstro em seu bramir.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
4 - MIRAGENS NA PASSAGEM SEM ENCONTROS NA LINHA DO CHÃO
Era fina a próxima curva torta
Do chão desenhado, ainda
Visto a torre torneada de rochas
Atrás de um faminto por água escassa
Que economizaria ele, por ser ele
Mendes de Nenhuma Vocação com sua
Adaptação disfarçada num cansaço inicial;
No solo do astro que não se põe
E que não passa flecha que o leva –
Segmento de um rio que se forma
Em reta orientada, bem recebida
À fundo pela Grande Mãe esquentada.
Predominava a paisagem daquele dia
Na rima de um ser sem ter sido tão determinado,
Controle moldador de um mar de calor
Que abraça e sufoca, em amor
Ao ardor de uma pele ressecando
Na peste do cansaço constante
Da ressaca determinante do ser
E do lugar que o faz, em ciclo, agonizante;
Chão bem varrido, completo de rochas
E de formas da mente de Mendes,
Que não consegue ver o céu por uma força que o desfaz,
E o chão por um cansaço que o contrai,
E vai olhando, na passagem lenta,
já sem ver muralha suntuosa de montanhas,
Vai olhando os detalhes de visões tenebrosas
Que sua cabeça faz naquelas pedras erodidas
Que carregam os perdidos à perdição;
É quando ervas do calor de uma nova noite que se aproxima
A nunca chegar num deserto cheio de chão pedregoso,
Atenua as dores e eleva o corpo do viajante
Debaixo de cúpula infinita de teto ao brilho quente, desdita feiúra
Ao poente
Na bandeja da expatriada terra de assadeira, de morte
De metabolismo que não torna pela água, ali inexistente,
A paisagem vai fazendo um andante como o solo, filho e Mãe
Nas mãos do fundo azul do céu infinito
E novos sons vão a surgir em mente de ente fraco do que escalda
E a viola escorrega um pouco
Quando Mendes de Nenhuma Vocação
Tropeça num moribundo, no meio de sua perdição,
E fala a oferecer ao homem jovem que seca:
“Por favor, aceitas água? És o primeiro
A que encontro em meio a tanto
Caminho longo. Não respondas,
Tomes, que a vida ainda vive em ti.”
Vai Mendes a retirar água de sua única fonte,
Vendo o homem perdido a delirar no falar após o beber, enquanto ajuda-o
A se levantar para a morte:
“Oh, senhor! Já vi tantas coisas ruins em minha
Pouca vida que se esvai aqui,
Nasci em propriedade longe de ser deserto, mas deserta
Terra de meu pai,
Fui assim a arrumar variados negócios produtivos até
Me ver certo a casar.
Oh, senhor! Vi moça linda de longo véu preto,
Vi os seus cabelos negros a encobrir pescoço
E vestido longo, de rosto da mãe,
E fui logo a me preparar ao grande momento,
Que foi feito, e casei-me,
Mas nem em momentos íntimos, e fui certo a estranhar,
Ela deixava eu retirar os seus cabelos de mais atrás,
Nem tocar, nem reclamar, e deixei,
E o mais que não te disse foi sobre as primeiras refeições,
E aquela senhora sua mãe morava insistentemente conosco,
Conhecedora de muitas coisas,
A admirar e sempre a pentear cabelo lindo,
Mas voltemos às refeições, que ela quase não comia,
Fazendo, pois nunca vira, prato grande para
Quem dizia ser um empregado de nossa morada,
Mas havia um segredo, e isso não une,
Coisa que só de longe desconfiava,
E saí, certa vez a viajar, e voltei mais cedo
E observei, sem espiar, sem querer,
Ao entrar sem ninguém me notar, ao fundo do quarto,
Na fechadura a espreitar
Criatura em mulher minha, de minha perdição,
Retirar os véus longos de um cabelo bem cuidado
Chocando-me muito assim a mostrar…
Já sabia que sua boca sempre fora pequena, e sempre
A líquido entrar apenas,
Mas não era assim a coisa feia que se escondia, ainda menor,
Em seu tão por nosso povo conhecido como cangote
A mostrar
Buraco sem dentes, buraco mesmo,
Ali! No lugar da parte de trás do pescoço,
E com a outra mão, ô meu senhor! Ela
Ia a colocar uma colher de ervilhas
Lá dentro
E fazia um movimento estranho com a cabeça,
Com um barulho miúdo no estranho engolir,
Como se estivesse colocando a cabeça no lugar,
E naquele outro ponto em que via, não disse
Nem me anunciei,
Saí correndo de lá, e nunca voltei,
Saí até me encontrar cá, e aqui
Morrerei.”
Mendes estava a testemunhar
Conto mais louco a escutar e,
Quando depois de pensar, olha o pobre homem
A falar, era o tal que não falava
Mas não era o pio de sempre do bombear
Latente que fazia velho som do ouvido,
Era nada ali a lhe mangar, no riso
A lhe mostrar que nada havia.
Mendes molha o rosto com suor, sem ainda acordar,
E foge como a coisa ilusória em seu ruminar,
Ao ver monstro que fugia de seu íntimo, eis
Que pequeno Trovador, da bela Palavra
De seu bem querer de nenhum espanto, e eis também que
Vai ainda continuando o homem ao comando
Mastigando a própria língua e cantando.
Era para ser noite, mas não era,
Era o mesmo ritmo prosseguidor,
Era a rotina afiadora,
Era o Sem Nome a lhe perturbar
Em tempo indeterminado, à frente, e encontra-se,
Do grande corte na terra, do caminho do meio
Que faz um meio Mendes, quase de nenhuma vocação,
Arrodear o que podia ao vão de lá de longe,
fundo preto que nem gato preto, cortado
Por vento seco e cortante, que faz o mesmo na goela
Seca de um outro cheio de areia do mesmo fundo,
Daquela boca, boca de um
Cão desgraçado, a lhe mastigar o fígado
Que não mais transforma sua forma mais ácida
Em mais cálido e deleitoso líquido, retirado
Do sangue;
Sem o fígado, Mendes sente que o veneno aumenta
E prejudica Grande Rio que Segue,
Tem a esperançar ainda ao seu berrar:
“Vamos Mãe, me ajuda!”
Vai sangrando ali, matando-se assim em seu andar,
Pois não tinha mais aquela lida de seus antigos dias,
Pois não esperava tanta aspereza…
A Grande Mãe, antes da ajuda,
Clareia sua mente a não derreter com muita luz,
Que transforma, ou tira a máscara,
Da ave que ali se escondia, a lembrar-lhe
Do enigma enfático e profético.
Ave de asas longas, de voo alto e
Solitário, que o carrega para soltá-lo
A um ponto não tão fundo, para
Comer Mendes, que não esquece, e
A Mãe anuncia o toque que deve vir,
E Mendes triunfante toca, a águia o solta,
Cai o homem no cortante
Nunca cânion daquela
Terra nunca viva;
Ao fôlego, agüenta ao trôpego que lhe afugenta,
Águas novas enchem o Tártaro que lhe incapacitava
O caminho a lhe caminhar,
Queda-se um talzinho que traz alguma vocação
No toque do seu irmão na mão sua,
Cai num lago, chamado de Salvador, que salva um sangue
Que toma como fígado, e que carrega o ácido diluindo,
Que tira o veneno da cobra que lhe encurralava
As veias, totalizando, genéricas, artérias
Do sangue que não desbota nem deixa de respirar.
Mendes chora de alegria, ao ver seu não morrer
E agradece à Mãe, que lhe abastece, mas
Grande Rio que Seguia não cansaria, e tira-lhe
Novamente a lucidez, chovendo ao Leste zangado,
Mesmo que num deserto…
Vem um câncer insolúvel de um lago,
Que tira mais fôlego de Mendes, fá-lo
Assim criar um velho Timoneiro, das antigas, vendedor
De rapadura que não afunda,
O Timoneiro vê Mendes boiando, que o vê,
O velhinho apenas ri a dizer:
“Ei! Tu qué comprá uma, ó!”
Enfia uma na goela de um Mendes da seca, que só aceita parte,
Um sem vocação que come sem o violão,
O velhinho, ao vê-lo nadando com mais vigor,
Diz no riso:
“Eitá! Que omi danado, sô, é danado, é danado!”
Mendes não entendia o mundo de suas descrições sem métrica,
Sua boca há muito não rimava bem,
Vê vagamente o Timoneiro a colocar o cachimbo, de maneira
Mais forte, na boca, e a baforar no seu rosto. O
Velhinho agora se mostrava curioso:
“Ei! Omi! Tu num qué afundá nã, né? Inton
Me dá logo essa viola. Tchê! Num vai me dá
Nã, é? Dê-la cá, dê-la, oxente! Vamu… Isso…”
A Grande Mãe não conseguia acordar Mendes,
Que, ainda pouco alerta, só diz num quase balbucio:
“Não vai cinir não, né?”
O Timoneiro só diz, e estremece com um pouco de riso:
“Mai cumpadi, cumé que vô cinir, e o que é que
Danado é isso, ô sô!?
Mai tu num vá ficá preocupado nã, uma
Velhota que te cagô qué que eu inda demore…”
Com malícia, e mais uma baforada,
Vai velho danado a fazer pergunta variada e a contar:
“O ritmo acaba né? É… Gostô da rapadura?
Um pedacim só já foi bom, heim?
Isso dá sedi, mai ispero que isso num
Te aperrêi tanto como cum amigu meu,
Êta caçador valente! Êta burrão borrão!
Quis um dia caçá uma tar ave rara, mai
Tu num sabi, a danada era sagrada,
O bichão do meu amigu a caçô-la, caçô-la
A pobrezinha,
Êta que a danada num tinha nada de inocente nã,
Mai nã mermo, o bichão omi
Chegô im casa, viu a muié, foram prepará e cumê-la danazona…
Mai… nã, nã, cunfundi oras! Só ele que cumeu,
Foi bom, bom, como teu pedacim de rapadura…
O bichão teve uma sedi… Mai uma sedi…
Uma sedi tum sedida, que num si aguentô,
Tevi de bebê auga, e bebeu um toné,
A muié tava disisperada, o omi
Inda tinha sedi, o tar do carcará,
O omi inda tinha sedi, tumô ôtro
E ôtro, e ôtro, e ôtro;
O buchão dele já tava grande dimais,
Mai a sedi tamém, tombém danada de grande
A barrigona criscia, criscia, e ele bibia, a muié
Fugiu tamanha a aberraçãozona,
O omi sufria… A barrigona ispludiu!
Ispludiu cum tanta auga que inundô muito
A casebrinha. O tar do meu amigo, tar de cumpadi
Sebastião, morreu, e a tar da sagrada
Vuõ do istômigo dispedaçado, já cum a sedi matada dela.”
O Timoneiro deu um adeus, e foi-se,
Mendes pensava, sem saber pensar…
Deu sede! Nele também!
Olha, o Mendes de Nenhuma Vocação, e de
Nenhum violão, teria
De beber toda a água
Do lago em que nadava,
Mas não era como compadre Sebastião,
Tinha seu estômago como o tambor da sua viola perdida,
E não esconde afeição, e mesmo pouco
Acordado vai tomando toda a água
Da solidão,
Vai tomando o dia todo em sua ação,
Vai se enchendo, era de sangue forte,
E descobre o fundo de um lago, e encontra-se
Preso debaixo do chão, no fundo da escuridão,
Sem a boa viola.
Mas não estava só, estava cansado, imobilizado
Com a barriga grande, mas sem morrer, a sentir
A respiração de alguém muito cansado…
Mendes passa horas assim a observar
O varrer que dava àquela figura da penumbra,
Que ia se revelando anã.
Era anão danado a aproximar-se com uma
Vassoura minúscula, quase ao ataque, a olhar silente
Aquele volume de um corpo que lhe atrapalhava,
Era o que Mendes precisava, e vinha o estranho
Que espera, e vem barriga a decrescer,
E levanta-se Mendes a conhecer, e o faxineiro
Declarado a lhe questionar:
“Bem-vindo és tu, viajante? Se és
De boa índole não farei a ti o que
Os meus fizeram com aquele encurralado
Que prendemos,
Mas pareces saber que aqui não têm tesouros.”
Estavam os dois na penumbra de um conjunto
De cavernas, de pouco calor, de nenhuma assadeira,
Sem sufocar, foi Grande Mãe Terra a lhe ajudar, ao
Abrir novo caminho a lhe apontar.
Mesmo sem sua viola, vai Mendes de Nenhuma Vocação,
Perdido em sua nova lucidez, a deslumbrar-se
Com aquele homenzinho de túnica, de fora de sua terra,
A segurar uma ferramenta menor em metade
Que o próprio anão em dobro da vassoura, vai Mendes
A falar, de mãos à mostra:
“Vim em paz, em grande jornada
Contra mal que aflige minha nação
Lá de trás,
Vim aqui a cair, e já vou assim
Em busca de unir grandes pais:
Norte e Este, que
Se estendem longe.
Se não é incômodo, estou desprovido
De alimento e de arma e gás,
Peço, com clemência, que emprestes
Um pouco de solidariedade
Para manter tanta variedade de
Antiga terra desgastada.”
O anão examina o estrangeiro
A lhe cantar, mesmo sem a viola,
E apresenta-se sem nobreza e sem mais:
“Sou Noel, de chão distante e mais fundo,
Das Minas, terra em pluralidade, que esconde o murmúrio dos
Pássaros que lhes ensinaram a voar na forma
Do cantar.
Sou um condenado sim, por não ter
Guardado - e culpa daquele Ermo estúpido!
Maravilhosa nossa Pedra Mineira,
Pedra de misericórdia e de equilíbrio,
E fecho meu punho,
Fecho à vassoura que me mazela;
Fui condenado a varrer o deserto, maior Deserto
Do Sem Nome,
A passar dez mil tempos a preencher
Um lado de areia, e a limpar o outro;
A passar mais dez mil tempos a fazer
O oposto.
Somos dois desgraçados! Sendo aquele ainda mais…
Mas venhas, e não paro,
Venhas, entre que talvez tenha gente
Que possa te ajudar lá dentro, e aviso que não é de costume haver.
Entre, só cuidado com o velho Braz,
Amarrado pelo ventre,
Em seu também castigo devido a
Alguma antiga condenação.”
Some o anão, a lhe apontar
Lar, comida e comiseração
Pelos atos funestos do povo
Que representa a unidade
Dobrada na figura de Mendes de Nenhuma Vocação,
Que segue e entra no vão mais escuro
De pedras úmidas, num labirinto
Valoroso pelos sons à distância.
Era difícil passar sem perceber,
Num ar escuro,
Vozes praguejantes num caminho torto
Por onde passava pelas pedras das paredes,
Tateando com mão soberba,
Desbravando por metros quadrados,
Pisando com os pés mal vestidos,
E com nada na cabeça;
E o chão vai declinando, na entrada
De uma densa morada,
Era o danado de um tom melhorado
Era o seguidor ali amedrontador da Mãe
Aos pedaços, Palavra de um Trovador e formadora de
Cenários que, em conjunto, formam a Mãe.
Habitante na formação, com o filho, na ideia de céu,
Variada para Mendes a enfrentar
Os campos da realidade, fora de sua viola,
O que ele não constrói;
É lá, sem a viola, pelo poço sem fundo, que desce,
Parando ante o espetáculo do que escuta
O farfalhar do que mal veste os pés,
Que não revelam as intenções do visitante,
Espetáculo que, pela resposta, diz
Pare!
E parado fica uma vocação distorcida,
Vocação para salvar gente como ele,
Para salvar uma Palavra mais profunda
Que um cenário, do mundo de seu povo,
Amplo como o campo aberto e ventoso,
Escuro como um Mendes sem a viola,
Pelo possível nada, ou pela possível
Indiferença à coisa que nos espera lá fora;
Falso nada, nada é conflito, é tudo,
Indiferença que gera ambiguidade, um tanto faz que não satisfaz…
É conflito, isto sim!
Entre as possíveis formas que se escondem
No fundo de um futuro,
Não é escuro o que vê, é a parte preta dos olhos
De um bêbado sem bebida, ébrio gigante
Que diminui e ilumina, e diminui mais
Perante a grandeza do lugar,
E não eram só os seu olhos possuidores de umidade
Havia o mundo exterior,
Como também seu mundo interior de chama
De luz de falso molhar,
De um conjunto que reflete nova refração,
Em que aquele raio de povo montado em flecha
De brilho solar bate em pedra dura, que se comove e chora,
Conjunto harmonioso na cabeça de Mendes, laçada própria,
Vigília dele, de si próprio: passagem de um vetor, e espreita do processo.
Junta-se entrada em meio novo com o reconhecimento dela,
Que cria fenômeno grande que traz ilusão daqueles
Mundos que tremem: da palavra que faz o Trovador
Daqueles olhos do Braz, desconhecido homem de meia-idade,
Maior que Mendes, mesmo ébrio, coisa fora de seu mundo,
Bem acima: eis que portador das duas esferas, dois cenários,
Dois grandes da grande Mãe, mais que Palavra era a Boca,
Era um enigma aberto de sua mente profética,
E Grande Rio que Seguia ajudara, sem querer, como mestre disfarçado em inimigo…
Era o que representava a boca de trás da esposa monstruosa,
De hálito sulfuroso, cheio de éter, de vitalidade,
A falsa boca era, em verdade, maior do que pensava ser o original
Vestido na boca de trás,
Do que se olhava no espelho, pensando ser real,
Eram dois em um só, e o reflexo também vivia,
E o reflexo tinha condição de real, e criador do que dizia ser
Verdade, verdadeiro
Como o homem, Palavra que inventa o Criador e, os dois,
Como um só, anulam-se ante o Sem Nome, como poder que
Se esconde como fundo, mistério insondável.
O salão era um corredor, Mendes era a falsa boca de um povo,
Em criador e criação, que estampa
Pano de fundo, lá de trás, era o Braz,
Filho único do Impronunciável, masculinizado por olhos
Assim acostumados, Braz
Que não se aliava à única forma, porém por enquanto
À mesma ordem de seu conjugar,
Como, em disfarce que respeita cada terminar, novo verbo formado
Para Mendes testemunhar, em convívio, o falar:
Na manhã, era um jovem cego, mas que via num cantar
Pela tarde vinha a si um homem ébrio do mais amargo beber,
E à noite tornava-se um velho de força, que o fazia monstro em seu bramir.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
[Continuando "linhas em tiras" de uma estória sempre renovada]
3 – DO ENCONTRO COM UM ERMO
A noite passara fria,
Aquecida pelos arbustos de folhas comestíveis
Acrescidas à bagagem de Mendes de Nenhuma Vocação
Com sua roda de violão, segredo da arma.
Sabia que se tratava do tal dia em que
Procuraria lá, quase num sopé do Monte Escuro,
Morada onde se enterrara velho conhecido de
Épocas antigas, em que se cantava bem
Além dos males invencíveis, que mais pareciam fantasia;
Morada de Melro, ainda veloz caçador de raros viajantes,
Espreitador de meros sonhadores que
Se aventuravam pela lonjura, onde eram maravilhados
Pelo esquecimento da morte,
Mas vinha um movido por ente propulsor libertino
Que envolvia e protegia, algo que
Avisara ao velho em sonhos nítidos;
Seria Melro o portador de combustível para
Novas águas guardadas no guardião de um
Rio, ainda desordenado,
Já formado,
Seria o guardião, Mendes de Nenhuma Vocação,
Que o acordaria do motivo de sua peregrinação
Pela vigília constante da correnteza, e do tempo ao redor, do Grande Rio
Governador dos céus e da terra,
De águas desfeitas em partículas, onde toca o pico,
E das rimas de suas novas ações e preocupações,
Vítimas de uma culpa,
Era culpado o antigo Melro, deformado, manipulado
Por nova denominação,
Suposto controlador da grande montanha, a escondê-lo.
O viajante estava otimista, eis ele portador de chama vocativa
De todos os portadores de leis divinas do mundo da vida,
Temas de antigas cantigas, recentemente destruídas
Por um rio que não queria mais o prato cheio, agora enjoativo,
Daquelas rimas que o complementavam, auxiliavam um
Ser que não quer mais ser o que sempre foi.
Andava Mendes de Nenhuma Vocação, cantando em mente,
Desprezado por sua gente já sem fé,
Vem alegremente, com enigma para ser solucionado por outro,
Pelo Ermo, denominação de um velho a desprezar-se.
Caminha, montado na flecha dominada pelo astro,
Cavalgando em ser mais poderoso, subindo aos poucos,
Deliciando sua visão pelos vales distantes de lá embaixo,
Comendo seus frutos, durante o dia, preenchendo
Corpo e alma descontaminada, mas ainda insuficiente;
Atingiria, naquele mesmo dia, após ter andado
Por quilômetros, o eremita
A lhe mostrar, diante do outro lado,
O caminho para longe do
Entendimento possível da gente de sua carne,
Que comovia a terra em que Mendes pisava sem desprezar Grande
Mãe de todos aqueles fragmentos, a qual se afeiçoava,
E suava, com sua única roupa de gola molhada,
Pelas pontes que o levavam ao ponto mais rarefeito,
Para pouca gente determinada a encontrar o
Ancião, Ermo desiludido.
Interrompe o passo Mendes de Nenhuma Vocação, ao anoitecer,
Em frente da caverna certa,
A chamar:
“Senhor, Ermo sonhador,
Deves saber quem sou
E de onde venho,
Deves saber o quanto sofremos
Enquanto comidos por criatura terrível
Que nos escurece.
Volto-me não ao Ermo, mas ao Melro
Que me pegou nos braços, quando eu era pequeno,
Irmão de nossa terra, de gente que não deve
Nada, sei
Que tua vida agora é curta e sem sabores,
Mas tenho, em troca de tua ajuda na passagem,
Um enigma intransponível, mais que o portão
Que guardas, e que sabemos que transforma
Além de transportar.”
Intervalo importante pronuncia-se no vento,
Que arruma o cabelo de Mendes, que escuta
Voz forte vinda lá de dentro:
“Engana-te numa coisa, enxerido!
Posso ser rabugento, de todas as danações
De danados que, como você – e eu ouço -,
Já me desprezaram, por eu ser mais forte,
Mas reconheço gente que se acha importante demais
Como imortais absolutos, nessa fraca concretude,
Que não se aceitam como tais, seres do abstrato
Como são: fracos a mais.
Venhas e dir-te-ei o que lhes falta, o que deves,
E sei que isso é pouco.
Depois, mostre-me o enigma, e apresentar-te-ei
A paisagem do outro lado.”
Um ranger a bater nos tímpanos testemunhos de
Veredictos do Sem Nome em forma de lebre que foge ao insaciável
Melro caçador;
Mendes conhecia saga de risos imemoriais
Sobre as desventuras de uma juventude tornada Ermo.
Abre-se a porta, para frente escura, porém transponível,
E menos bela que a paisagem dominante e cheia de vitalidade
Preenchedora de arma que atirava no coração.
Vai o guardião de sangue puro e volumoso que
Saía da única chaga deste Mendes Guardião,
Em entonação ondulatória, em queda substanciosa,
Chaga que se prolongava, estranha, do pulso esquerdo
À palma forte que segura o pescoço fino do violão,
Faltando apenas que tal mão chegasse às cordas do tambor
Da boca, que assim comunicaria a todos
O avanço de sua humanidade pecadora, mas ainda positiva
E melhor, cada vez mais, a sobressair-se em tempo vindouro,
Equilibrada na mão vingativa, pelo sim
A salvar, em paixão, a essência
Daquela vida, a salvar-lhe do enrugamento de ares
Que habitam em sua terra, que se enche de garras ferinas de uma
Depressão, forte para com a pessoa que era
O humano, não humano,
Mas um todo consciente, igual a tudo,
Vestido no humano.
A entrada é breve, num labirinto
De luz vaga ao fundo que elevava
Até raro cômodo de pouco conforto,
Lugar onde se via o Ermo, de costas
Para o novo, de costas
Para a evolução anunciada, bem escondida
Na arma carregada por Mendes de Nenhuma Vocação,
Entrando silencioso, numa cela dominada
Por pensamentos tendenciosos de
Mente ociosa, mas de rara ordem.
É quando, pegando Mendes a pensar,
Vira-se o Ermo de rosto que assusta os
Mais corajosos olhos, pela estranheza de uma feição,
De rosto marcado como verdadeiro mapa de
Uma terra de vastidão imperecível,
De invencível lida por ser tão franzina como
O viajante, que não se amedronta com a dureza
De um mundo estampado ali,
Por estar vendo com os olhos da viola, arma
Que defende a si, em
Ambiguidade de dois unidos por um só laço
Que marca a trajetória daquelas vidas entrelaçadas
Como um dos lados seus…
E escuta Mendes
O dizer do velho marcado e incapaz de carregar
Uma grandiosidade demasiada mesmo para ele,
A enormidade da culpa a ser explicada ao final do
Que vem agora:
“Vejo que a situação de tua terra
Não é tão fácil,
E vejo apenas o esperado de
Muito tempo
Em que não me ouviram, lá atrás,
Pois digo que agiram a desprezar
O mundo lá fora,
Cantaram uma desgraça simplificada demais,
Atingiram o cume e pararam,
Não para ouvir que a natureza
Tem suas regras para a fraqueza de uma planta
Que cultiva, à altura de seu amor e de sua
Dedicação, de respeito que,
Se não levado em troca na evolução esperada,
Existem leis que retornam para refazer, transformando
No esperado, de mais terrível maneira…
O pior é que pode ser tarde
Para vocês, para você!
E aponto-te agora, pois és assim
Representante de um povo da larga
Nação Humana, o Sem Nome
Deve ter te feito isso,
Tua terra não existe mais lá
Sem que tu cá não te mantenhas vivo
E não só vivo como, em tempo certo,
Cumpridor de tuas tarefas,
E não só é correto
Que tu, nação do nordeste,
Filho do Norte e do Este
Talvez tenhas de achá-los em outros lugares,
Pois terás de reunir o casal
Separado que destitui o teu arsenal
Que apontas intimamente contra mim.”
Mendes, rapidamente acusado, volve-se
Ao lado de uma correção imediata a um
Engano crasso:
“Engano teu, pois
Não é de minha intenção, íntima ou não,
Usar minha arma em tua
Direção,
Meu caminho é o caminho do meu timbre,
Da minha ferramenta,
Que no seu círculo leva-me ao infinito.
Mas deixemos isso… Onde
Tais entes encontram-se?”
O velho ri, como nunca riu
Apontando suas mãos ao Norte e ao Este
Atitude que enraivece a Mendes, que não esquece.
Ermo assim percebe:
“Não te zangues
Não te enganes, e fico sério.
Sabes o que lhes falta?
Falta consciência, inexistente em
Cantorias que embalam demais!
É isso que falta para você,
Na guerra em que vivem,
O Sem Nome não lhes deu
Existência para isso!
Desgraça lebre que me atazana,
Que não domino, grau de
Aprendizagem de nenhum poder a mais,
Lebre que é ele próprio, coisa que ele criou,
Que ele estabeleceu para eliminar
Mágoa que me deu.”
Mendes de toda inquietação, em tom
Sem vocação, desfaz mais risos em
Sua argumentação, antes da solução, a dizer:
“É difícil receber menção tua, ainda a viver,
Sobre mundo que desprezastes, como líder,
Ao tentar buscar famosa Pedra Mineira…”
Ermo, nervoso ao estorvo:
“Vai calando coisa inexperiente…
Vai calando que tu não sabes o que é
Seguir um sonho,
Um sonho em que sonhei acordado.
Admito que fiz mal, pela ganância, e sei que o mal já foi feito
Aqui, pois terei de demorar mais com você. Conto
Que:
‘Revelaram-me num sonho, em juventude,
Sobre a existência de um quinhão de riquezas
Escondidas por uma gente pequena de raça antiga
E totalmente rara,
Segui os desígnios do meu sonho, tudo pelo Sem Nome.
Ao ABRE-TE PEDRA MINEIRA perdi-me
No brilho daquelas maravilhas, e as furtei, e demorei
Até mais tarde perceber que esquecera da palavra
Certa, das Palavras do Trovador, de como reabrir a porta…
Fui pego por aquela gente pequena,
Trancafiado aqui e vigiado pela lebre que me atazana
E que caço.’
Mendes não mudava o tom:
“O azar foi o teu, Senhor,
Mas confesso o meu respeito,
Confesso com meu despeito, enlaçado
Em união única que forma vida confusa.
Mas nos apressemos, revelar-te-ei o enigma…”
Ermo sonhador escuta atentamente
A tênue solução dobrada em símbolos
Nas paredes do bico daquela ave.
Melro ouve, pensa e responde, ante a pressa:
“Deixe-me pensar!
Quando eu tiver a solução,
Serás o primeiro e único a saber,
E como tenho a maneira
De te espreitar pelos confins
Dar-te-ei a origem do enigma
Pouco antes do teu fim.”
Mendes sentia-se ludibriado, não entendendo que o fim revelar-se-ia
A qualquer momento, como para todos,
E estende a viola em plena ação
De seu toque,
No timbre mais melancólico a vitimar
Ermo sonhador que implorava, e
Mendes parava ao lembrar de sua passagem.
O velho chama-o, ao menos,
Ao final de um corredor escuro, mantido
Na tocha, por onde se segue por meio tempo,
Com um visitante desesperado pelo
Encontro com novas terras para ele
Atrasadas, mas vivas
De um mito que ele não jogava fora.
E param ao encontro de uma luz maior, da maior
Tocha a revelar escuridão pior,
O caminho estendia-se até lá embaixo,
A um deserto longe, de pedras,
Porém estreito, nos dizeres de um Ermo:
Estreito nos ditames do infinito.
----------------------
Autor: João Batista Firmino Júnior.
3 – DO ENCONTRO COM UM ERMO
A noite passara fria,
Aquecida pelos arbustos de folhas comestíveis
Acrescidas à bagagem de Mendes de Nenhuma Vocação
Com sua roda de violão, segredo da arma.
Sabia que se tratava do tal dia em que
Procuraria lá, quase num sopé do Monte Escuro,
Morada onde se enterrara velho conhecido de
Épocas antigas, em que se cantava bem
Além dos males invencíveis, que mais pareciam fantasia;
Morada de Melro, ainda veloz caçador de raros viajantes,
Espreitador de meros sonhadores que
Se aventuravam pela lonjura, onde eram maravilhados
Pelo esquecimento da morte,
Mas vinha um movido por ente propulsor libertino
Que envolvia e protegia, algo que
Avisara ao velho em sonhos nítidos;
Seria Melro o portador de combustível para
Novas águas guardadas no guardião de um
Rio, ainda desordenado,
Já formado,
Seria o guardião, Mendes de Nenhuma Vocação,
Que o acordaria do motivo de sua peregrinação
Pela vigília constante da correnteza, e do tempo ao redor, do Grande Rio
Governador dos céus e da terra,
De águas desfeitas em partículas, onde toca o pico,
E das rimas de suas novas ações e preocupações,
Vítimas de uma culpa,
Era culpado o antigo Melro, deformado, manipulado
Por nova denominação,
Suposto controlador da grande montanha, a escondê-lo.
O viajante estava otimista, eis ele portador de chama vocativa
De todos os portadores de leis divinas do mundo da vida,
Temas de antigas cantigas, recentemente destruídas
Por um rio que não queria mais o prato cheio, agora enjoativo,
Daquelas rimas que o complementavam, auxiliavam um
Ser que não quer mais ser o que sempre foi.
Andava Mendes de Nenhuma Vocação, cantando em mente,
Desprezado por sua gente já sem fé,
Vem alegremente, com enigma para ser solucionado por outro,
Pelo Ermo, denominação de um velho a desprezar-se.
Caminha, montado na flecha dominada pelo astro,
Cavalgando em ser mais poderoso, subindo aos poucos,
Deliciando sua visão pelos vales distantes de lá embaixo,
Comendo seus frutos, durante o dia, preenchendo
Corpo e alma descontaminada, mas ainda insuficiente;
Atingiria, naquele mesmo dia, após ter andado
Por quilômetros, o eremita
A lhe mostrar, diante do outro lado,
O caminho para longe do
Entendimento possível da gente de sua carne,
Que comovia a terra em que Mendes pisava sem desprezar Grande
Mãe de todos aqueles fragmentos, a qual se afeiçoava,
E suava, com sua única roupa de gola molhada,
Pelas pontes que o levavam ao ponto mais rarefeito,
Para pouca gente determinada a encontrar o
Ancião, Ermo desiludido.
Interrompe o passo Mendes de Nenhuma Vocação, ao anoitecer,
Em frente da caverna certa,
A chamar:
“Senhor, Ermo sonhador,
Deves saber quem sou
E de onde venho,
Deves saber o quanto sofremos
Enquanto comidos por criatura terrível
Que nos escurece.
Volto-me não ao Ermo, mas ao Melro
Que me pegou nos braços, quando eu era pequeno,
Irmão de nossa terra, de gente que não deve
Nada, sei
Que tua vida agora é curta e sem sabores,
Mas tenho, em troca de tua ajuda na passagem,
Um enigma intransponível, mais que o portão
Que guardas, e que sabemos que transforma
Além de transportar.”
Intervalo importante pronuncia-se no vento,
Que arruma o cabelo de Mendes, que escuta
Voz forte vinda lá de dentro:
“Engana-te numa coisa, enxerido!
Posso ser rabugento, de todas as danações
De danados que, como você – e eu ouço -,
Já me desprezaram, por eu ser mais forte,
Mas reconheço gente que se acha importante demais
Como imortais absolutos, nessa fraca concretude,
Que não se aceitam como tais, seres do abstrato
Como são: fracos a mais.
Venhas e dir-te-ei o que lhes falta, o que deves,
E sei que isso é pouco.
Depois, mostre-me o enigma, e apresentar-te-ei
A paisagem do outro lado.”
Um ranger a bater nos tímpanos testemunhos de
Veredictos do Sem Nome em forma de lebre que foge ao insaciável
Melro caçador;
Mendes conhecia saga de risos imemoriais
Sobre as desventuras de uma juventude tornada Ermo.
Abre-se a porta, para frente escura, porém transponível,
E menos bela que a paisagem dominante e cheia de vitalidade
Preenchedora de arma que atirava no coração.
Vai o guardião de sangue puro e volumoso que
Saía da única chaga deste Mendes Guardião,
Em entonação ondulatória, em queda substanciosa,
Chaga que se prolongava, estranha, do pulso esquerdo
À palma forte que segura o pescoço fino do violão,
Faltando apenas que tal mão chegasse às cordas do tambor
Da boca, que assim comunicaria a todos
O avanço de sua humanidade pecadora, mas ainda positiva
E melhor, cada vez mais, a sobressair-se em tempo vindouro,
Equilibrada na mão vingativa, pelo sim
A salvar, em paixão, a essência
Daquela vida, a salvar-lhe do enrugamento de ares
Que habitam em sua terra, que se enche de garras ferinas de uma
Depressão, forte para com a pessoa que era
O humano, não humano,
Mas um todo consciente, igual a tudo,
Vestido no humano.
A entrada é breve, num labirinto
De luz vaga ao fundo que elevava
Até raro cômodo de pouco conforto,
Lugar onde se via o Ermo, de costas
Para o novo, de costas
Para a evolução anunciada, bem escondida
Na arma carregada por Mendes de Nenhuma Vocação,
Entrando silencioso, numa cela dominada
Por pensamentos tendenciosos de
Mente ociosa, mas de rara ordem.
É quando, pegando Mendes a pensar,
Vira-se o Ermo de rosto que assusta os
Mais corajosos olhos, pela estranheza de uma feição,
De rosto marcado como verdadeiro mapa de
Uma terra de vastidão imperecível,
De invencível lida por ser tão franzina como
O viajante, que não se amedronta com a dureza
De um mundo estampado ali,
Por estar vendo com os olhos da viola, arma
Que defende a si, em
Ambiguidade de dois unidos por um só laço
Que marca a trajetória daquelas vidas entrelaçadas
Como um dos lados seus…
E escuta Mendes
O dizer do velho marcado e incapaz de carregar
Uma grandiosidade demasiada mesmo para ele,
A enormidade da culpa a ser explicada ao final do
Que vem agora:
“Vejo que a situação de tua terra
Não é tão fácil,
E vejo apenas o esperado de
Muito tempo
Em que não me ouviram, lá atrás,
Pois digo que agiram a desprezar
O mundo lá fora,
Cantaram uma desgraça simplificada demais,
Atingiram o cume e pararam,
Não para ouvir que a natureza
Tem suas regras para a fraqueza de uma planta
Que cultiva, à altura de seu amor e de sua
Dedicação, de respeito que,
Se não levado em troca na evolução esperada,
Existem leis que retornam para refazer, transformando
No esperado, de mais terrível maneira…
O pior é que pode ser tarde
Para vocês, para você!
E aponto-te agora, pois és assim
Representante de um povo da larga
Nação Humana, o Sem Nome
Deve ter te feito isso,
Tua terra não existe mais lá
Sem que tu cá não te mantenhas vivo
E não só vivo como, em tempo certo,
Cumpridor de tuas tarefas,
E não só é correto
Que tu, nação do nordeste,
Filho do Norte e do Este
Talvez tenhas de achá-los em outros lugares,
Pois terás de reunir o casal
Separado que destitui o teu arsenal
Que apontas intimamente contra mim.”
Mendes, rapidamente acusado, volve-se
Ao lado de uma correção imediata a um
Engano crasso:
“Engano teu, pois
Não é de minha intenção, íntima ou não,
Usar minha arma em tua
Direção,
Meu caminho é o caminho do meu timbre,
Da minha ferramenta,
Que no seu círculo leva-me ao infinito.
Mas deixemos isso… Onde
Tais entes encontram-se?”
O velho ri, como nunca riu
Apontando suas mãos ao Norte e ao Este
Atitude que enraivece a Mendes, que não esquece.
Ermo assim percebe:
“Não te zangues
Não te enganes, e fico sério.
Sabes o que lhes falta?
Falta consciência, inexistente em
Cantorias que embalam demais!
É isso que falta para você,
Na guerra em que vivem,
O Sem Nome não lhes deu
Existência para isso!
Desgraça lebre que me atazana,
Que não domino, grau de
Aprendizagem de nenhum poder a mais,
Lebre que é ele próprio, coisa que ele criou,
Que ele estabeleceu para eliminar
Mágoa que me deu.”
Mendes de toda inquietação, em tom
Sem vocação, desfaz mais risos em
Sua argumentação, antes da solução, a dizer:
“É difícil receber menção tua, ainda a viver,
Sobre mundo que desprezastes, como líder,
Ao tentar buscar famosa Pedra Mineira…”
Ermo, nervoso ao estorvo:
“Vai calando coisa inexperiente…
Vai calando que tu não sabes o que é
Seguir um sonho,
Um sonho em que sonhei acordado.
Admito que fiz mal, pela ganância, e sei que o mal já foi feito
Aqui, pois terei de demorar mais com você. Conto
Que:
‘Revelaram-me num sonho, em juventude,
Sobre a existência de um quinhão de riquezas
Escondidas por uma gente pequena de raça antiga
E totalmente rara,
Segui os desígnios do meu sonho, tudo pelo Sem Nome.
Ao ABRE-TE PEDRA MINEIRA perdi-me
No brilho daquelas maravilhas, e as furtei, e demorei
Até mais tarde perceber que esquecera da palavra
Certa, das Palavras do Trovador, de como reabrir a porta…
Fui pego por aquela gente pequena,
Trancafiado aqui e vigiado pela lebre que me atazana
E que caço.’
Mendes não mudava o tom:
“O azar foi o teu, Senhor,
Mas confesso o meu respeito,
Confesso com meu despeito, enlaçado
Em união única que forma vida confusa.
Mas nos apressemos, revelar-te-ei o enigma…”
Ermo sonhador escuta atentamente
A tênue solução dobrada em símbolos
Nas paredes do bico daquela ave.
Melro ouve, pensa e responde, ante a pressa:
“Deixe-me pensar!
Quando eu tiver a solução,
Serás o primeiro e único a saber,
E como tenho a maneira
De te espreitar pelos confins
Dar-te-ei a origem do enigma
Pouco antes do teu fim.”
Mendes sentia-se ludibriado, não entendendo que o fim revelar-se-ia
A qualquer momento, como para todos,
E estende a viola em plena ação
De seu toque,
No timbre mais melancólico a vitimar
Ermo sonhador que implorava, e
Mendes parava ao lembrar de sua passagem.
O velho chama-o, ao menos,
Ao final de um corredor escuro, mantido
Na tocha, por onde se segue por meio tempo,
Com um visitante desesperado pelo
Encontro com novas terras para ele
Atrasadas, mas vivas
De um mito que ele não jogava fora.
E param ao encontro de uma luz maior, da maior
Tocha a revelar escuridão pior,
O caminho estendia-se até lá embaixo,
A um deserto longe, de pedras,
Porém estreito, nos dizeres de um Ermo:
Estreito nos ditames do infinito.
----------------------
Autor: João Batista Firmino Júnior.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
[Continuação do anterior]
2 – JORNADA DE UMA MULA
Parte Mendes de Nenhuma Vocação,
Armado com um violão,
Amarrado às trouxas e alimentação;
Seguro na terra de lamentações,
Seguro em seu peito completo de paixões;
Armado, com mais força, em seu teto
De inteligência de alguma sabedoria
Ligada à inspiração que, em seu caso,
Um dia surgiria.
Segue, e nem se despede
Daquelas últimas torres que não protegem,
De pedra branca e bem polida,
Com seus desenhos que avisavam a parada do invasor
Ante peito forte e guardião,
Segue e não se antecede ao astro que desce ao dia anterior
Rumo ao mais sul dos lugares, vendo surgir a manhã,
Passando por poucas árvores agigantadas que o
Levariam, em duas noites, às terras mais altas,
Indicadoras do fim daquele plano.
Vai marchando pelas horas de calor brando
Sem tocar peça chave de cavaleiro,
Peça mais cavalheira que o próprio motorista,
Do ser inteligente.
Manhã quase nublada, ainda pelo negrume lá de trás
Que se desfaz nas sombras fracas da última noite,
Sombras que ainda assustam a Mendes, que conversa
Muito consigo mesmo, ao lado de um mato pegajoso
Pisando nas raízes de determinados gigantes,
Falando muito com desembaraço,
A ruminar sobre as réstias daquela raiva
Que o conduzia, mas que não o descontrolaria,
Raiva de um orgulho maior que as árvores
E mais amedrontadora que o fundo da leve neblina
Que desaparecia,
Sentimentos que anulam a tarde de beleza certa
Num campo floreado de vegetação arbustiva e espinhenta,
Que cortava a sua mão que marcava o chão ao sangue
Que enchia as marcas,
Fazendo as montanhas tremerem perante
O início do leito da nova nação, por planaltos
Que levantarão forças de uma pátria humana em união,
Para quedas que lapidarão, dando beleza às pedras,
Tirando-as da solidão.
Após tarde de pouco descanso,
Na noite primeira, não havia tempo, ao relento, a pensar
Nas águas passadas que o erodiam,
e, para não desafinar,
Afina arma de nenhuma solidão, a minar os
Sons da noite,
Afina o toque de um canto sem voz, de quem não tem vocação,
Que só toca rimas de pouca força…
Mas, naquela noite, havia um tom único no vozeirão
Daquela viola, que atraía
Certos brilhos de estrelas que lhe
Mapeavam o caminho, como recompensa
Pela elucidação de tão púrpuro coração,
E de mãos alinhadas perfeitamente nas
Cordas da grande boca que servia de reserva
A um homem que sabia fazer valer certos tremores
Que reordenavam, em seus clamores, o
Quebra-cabeça dos brilhos, transportando ambos
Os pós – do teto e do chão – à contemplação rica
De saudade estranha que atinge também goela
De Mendes de Nenhuma Vocação.
Não era esperado, ao fim da primeira canção,
Chiado amedrontador do fundo do mato,
Que rodeava toda a boca do violão,
Fazendo seu toque sumir, enquanto deitado com o dono,
Arfando ao ouvido esquerdo, a grasnar,
A esganar, a sufocar a cabeça de cima da viola,
A puxar a quem se agarra pela direita
À raiz solta, fazendo pressão e dividindo.
E duplo olha, Mendes de Nenhuma Vocação,
Olha enquanto a possuir-lhe entonação rara
Que desmantela sua visão do céu de estrelas
Que se descaminham por um lado, em
Flecha que caminha, a roçar, a descer
Ao fundo daquelas montanhas rodeadas por outros montes
De matos medrosos, obscuros na noite.
E aproveita, um Mendes que faz vocação, na
Comunicação com o Impronunciável, segurando o Tal
Pela esquerda:
“Que queres, misteriozinho desgraçado?”
O mistério, alto pano de fundo de terra
Já insensível, responde no novo ar que
Entra no que liberta e arrebenta, na forma do vento
De uma intuição:
“Oferecer-te um dom de conhecimento.”
Conhecimento rondava, enquanto pensa,
Mendes de Nenhuma Vocação, ao levantar-se
E a deitar seu único violão
Acocorando-se ante o pio da ave
De vastas asas nos seus ouvidos a zunir,
Via-se rondado por um saber,
Perigoso se nas palmas da armadilha
Da encruzilhada próxima que
Prometia e que quase o dividiria.
Assim escorria, em aceitação existente pelo passivo Mendes,
O pio:
“ Forma-se a arena, detentora
De armas passivas da suposta
Vítima, da que luta contra seu fim, e perde.
Desce, rasante, o observador vigilante,
A catar os restos, as fagulhas daquela
Existência.
Vai, cata, na forma animalesca de
Um cão, que puxa o primeiro sentido
Resumido na orelha mais próxima;
Sempre o vigilante, até aquela vez, da vítima
De uma força violenta, da mão cerrada
No metal, que esvazia o mundo daquele
Ser disfarçado, do membro que agarra a arma
Fria e de fogo – distinta visão do mesmo –
Sai, ainda rasante, baixo, cheio daquele
Vazio.
Cheio de um calor de chama fria,
Segmento do instinto.
O cão, mais animalesco, sem quase poder andar,
Com seus tantos olhos sonolentos,
Deixa passar o vento empoeirado de uma
Vítima, rumo ao mundo
Subterrâneo.
Na selva, a poeira faz o engasgo, e prende
O pio de uma ave de invariável sentido de um
Mesmo observador
Percepções da fria sombra da chama acesa, do
Fogo de luz metálica, de uma pobreza.
Sol forte de um fogo abrasador, destruíra a poeira fraca,
Com suas fagulhas cerradas e guardiãs
De uma consciência.
Nas ruas de uma grande cidade,
Vem a sujeira do mal-cuidado,
Cegar uma visão de um criminoso
Cegado pela cegueira de um monstro,
Da sociedade e de si mesmo,
Porém, o comportamento daquele assassino
Fora indeterminado,
Ação de parte de um monstro que não determina…
Mais alimento para aquela ave.
Vem o pio, agora vivo, daquela águia,
Fazedora do seu trabalho, que voa mais alto,
Vem cantar o mal da imortalidade,
A queda de um boneco, oco. Sai o grito
Da cegueira.
Não vê, o alimento sem gosto, sua
Própria velhice.
A tristeza que enche um detentor de pouca vida,
Algo que não fez, que aflige,
A chama fria de sua vida ataca como sombra,
Expurga a mão piedosa do calor que entra
Pelo pio, chamado que expulsa.
Perto do fim de um processo,
O criminoso olha, pela última vez, a arena. Ser
Miserável, que mata ao seu semelhante, destrói a
Mão que pôs no fogo gelado, uma manifestação que tira
A coragem de quem luta pela vida.
Sai tudo pelo pio
Preso entre os dentes do cão
Na altura do voo da águia.”
Mendes é deixado dessa maneira,
A decifrar relato enigmático proposto pelo
Impronunciável.
------------
Autor: João Batista Firmino Júnior.
2 – JORNADA DE UMA MULA
Parte Mendes de Nenhuma Vocação,
Armado com um violão,
Amarrado às trouxas e alimentação;
Seguro na terra de lamentações,
Seguro em seu peito completo de paixões;
Armado, com mais força, em seu teto
De inteligência de alguma sabedoria
Ligada à inspiração que, em seu caso,
Um dia surgiria.
Segue, e nem se despede
Daquelas últimas torres que não protegem,
De pedra branca e bem polida,
Com seus desenhos que avisavam a parada do invasor
Ante peito forte e guardião,
Segue e não se antecede ao astro que desce ao dia anterior
Rumo ao mais sul dos lugares, vendo surgir a manhã,
Passando por poucas árvores agigantadas que o
Levariam, em duas noites, às terras mais altas,
Indicadoras do fim daquele plano.
Vai marchando pelas horas de calor brando
Sem tocar peça chave de cavaleiro,
Peça mais cavalheira que o próprio motorista,
Do ser inteligente.
Manhã quase nublada, ainda pelo negrume lá de trás
Que se desfaz nas sombras fracas da última noite,
Sombras que ainda assustam a Mendes, que conversa
Muito consigo mesmo, ao lado de um mato pegajoso
Pisando nas raízes de determinados gigantes,
Falando muito com desembaraço,
A ruminar sobre as réstias daquela raiva
Que o conduzia, mas que não o descontrolaria,
Raiva de um orgulho maior que as árvores
E mais amedrontadora que o fundo da leve neblina
Que desaparecia,
Sentimentos que anulam a tarde de beleza certa
Num campo floreado de vegetação arbustiva e espinhenta,
Que cortava a sua mão que marcava o chão ao sangue
Que enchia as marcas,
Fazendo as montanhas tremerem perante
O início do leito da nova nação, por planaltos
Que levantarão forças de uma pátria humana em união,
Para quedas que lapidarão, dando beleza às pedras,
Tirando-as da solidão.
Após tarde de pouco descanso,
Na noite primeira, não havia tempo, ao relento, a pensar
Nas águas passadas que o erodiam,
e, para não desafinar,
Afina arma de nenhuma solidão, a minar os
Sons da noite,
Afina o toque de um canto sem voz, de quem não tem vocação,
Que só toca rimas de pouca força…
Mas, naquela noite, havia um tom único no vozeirão
Daquela viola, que atraía
Certos brilhos de estrelas que lhe
Mapeavam o caminho, como recompensa
Pela elucidação de tão púrpuro coração,
E de mãos alinhadas perfeitamente nas
Cordas da grande boca que servia de reserva
A um homem que sabia fazer valer certos tremores
Que reordenavam, em seus clamores, o
Quebra-cabeça dos brilhos, transportando ambos
Os pós – do teto e do chão – à contemplação rica
De saudade estranha que atinge também goela
De Mendes de Nenhuma Vocação.
Não era esperado, ao fim da primeira canção,
Chiado amedrontador do fundo do mato,
Que rodeava toda a boca do violão,
Fazendo seu toque sumir, enquanto deitado com o dono,
Arfando ao ouvido esquerdo, a grasnar,
A esganar, a sufocar a cabeça de cima da viola,
A puxar a quem se agarra pela direita
À raiz solta, fazendo pressão e dividindo.
E duplo olha, Mendes de Nenhuma Vocação,
Olha enquanto a possuir-lhe entonação rara
Que desmantela sua visão do céu de estrelas
Que se descaminham por um lado, em
Flecha que caminha, a roçar, a descer
Ao fundo daquelas montanhas rodeadas por outros montes
De matos medrosos, obscuros na noite.
E aproveita, um Mendes que faz vocação, na
Comunicação com o Impronunciável, segurando o Tal
Pela esquerda:
“Que queres, misteriozinho desgraçado?”
O mistério, alto pano de fundo de terra
Já insensível, responde no novo ar que
Entra no que liberta e arrebenta, na forma do vento
De uma intuição:
“Oferecer-te um dom de conhecimento.”
Conhecimento rondava, enquanto pensa,
Mendes de Nenhuma Vocação, ao levantar-se
E a deitar seu único violão
Acocorando-se ante o pio da ave
De vastas asas nos seus ouvidos a zunir,
Via-se rondado por um saber,
Perigoso se nas palmas da armadilha
Da encruzilhada próxima que
Prometia e que quase o dividiria.
Assim escorria, em aceitação existente pelo passivo Mendes,
O pio:
“ Forma-se a arena, detentora
De armas passivas da suposta
Vítima, da que luta contra seu fim, e perde.
Desce, rasante, o observador vigilante,
A catar os restos, as fagulhas daquela
Existência.
Vai, cata, na forma animalesca de
Um cão, que puxa o primeiro sentido
Resumido na orelha mais próxima;
Sempre o vigilante, até aquela vez, da vítima
De uma força violenta, da mão cerrada
No metal, que esvazia o mundo daquele
Ser disfarçado, do membro que agarra a arma
Fria e de fogo – distinta visão do mesmo –
Sai, ainda rasante, baixo, cheio daquele
Vazio.
Cheio de um calor de chama fria,
Segmento do instinto.
O cão, mais animalesco, sem quase poder andar,
Com seus tantos olhos sonolentos,
Deixa passar o vento empoeirado de uma
Vítima, rumo ao mundo
Subterrâneo.
Na selva, a poeira faz o engasgo, e prende
O pio de uma ave de invariável sentido de um
Mesmo observador
Percepções da fria sombra da chama acesa, do
Fogo de luz metálica, de uma pobreza.
Sol forte de um fogo abrasador, destruíra a poeira fraca,
Com suas fagulhas cerradas e guardiãs
De uma consciência.
Nas ruas de uma grande cidade,
Vem a sujeira do mal-cuidado,
Cegar uma visão de um criminoso
Cegado pela cegueira de um monstro,
Da sociedade e de si mesmo,
Porém, o comportamento daquele assassino
Fora indeterminado,
Ação de parte de um monstro que não determina…
Mais alimento para aquela ave.
Vem o pio, agora vivo, daquela águia,
Fazedora do seu trabalho, que voa mais alto,
Vem cantar o mal da imortalidade,
A queda de um boneco, oco. Sai o grito
Da cegueira.
Não vê, o alimento sem gosto, sua
Própria velhice.
A tristeza que enche um detentor de pouca vida,
Algo que não fez, que aflige,
A chama fria de sua vida ataca como sombra,
Expurga a mão piedosa do calor que entra
Pelo pio, chamado que expulsa.
Perto do fim de um processo,
O criminoso olha, pela última vez, a arena. Ser
Miserável, que mata ao seu semelhante, destrói a
Mão que pôs no fogo gelado, uma manifestação que tira
A coragem de quem luta pela vida.
Sai tudo pelo pio
Preso entre os dentes do cão
Na altura do voo da águia.”
Mendes é deixado dessa maneira,
A decifrar relato enigmático proposto pelo
Impronunciável.
------------
Autor: João Batista Firmino Júnior.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
[Longo "poema" narrativo, que continua, feito por mim há 12 anos, sem metrificação e sem prosa]
1 – NO CHÃO DO CÉU ESCURO
Numa terra desmerecida
Bradavam os cantadores,
Em seus sermões à brisa,
Contra os quarenta dias
De céu enegrecido de
Ares não compadecidos.
Nunca, pelas praças, daquelas ruas,
Nem pelas casas de oração,
Onda vertiginosa de nuvem grossa tomara
Tão completamente a
Consumir corpo e alma de
Seus habitantes, de
Abastado chão a nordeste de
Uma nação.
Não mais imperavam as
Velhas cantigas de gente
Rara como o Quaresma,
Acatando as diferenças
De um orador como Murilo,
De respeitada índole,
De pesada viola competidora.
Novos mestres de oração reúnem-se
A escolher aquele que vai jornadear
Por campos insondáveis, distantes das
Últimas torres da pátria
Na luta contra mal
Que tira as rimas do ideal
Daquelas cantorias.
Estava tudo escuro
E mesmo sem se perceber,
Quaresma convoca Murilo, que se destitui
Ao encontrar, a empurrar, o filho do
Próprio Quaresma: Mendes de Nenhuma Vocação,
Que não pode recusar, quando vê
Sua expulsão tornar-se verdadeira, e
Obrigatório o segmento de sua jornada
Pelo Centro daquele território, suspeito
Da origem daquela desgraça, abaixo das terras do norte.
São feitos, na tenda não atingida,
Os preparativos de um caixão,
Destino prendedor, em que Mendes debatia-se
Naquele solo pertencente a um mestre, seu pai,
De uma morada particular, de chão perfumado
Pelo cheiro de carnes antigas e corroídas,
Destino pelo qual Mendes rezaria ao
Grande Rio que Seguia:
“Chamo as águas perenes, disfarçadas em nuvens de
Céu de primazia da Primeira Palavra do Trovador,
Chamo Grande Rio que Seguia, e que segue
Modificado na chuva de todo dia, e
Observador das trilhas do berço bendito, que já foi seu,
Revelador dos caminhos certos em terras incertas
Clamo para que me ouças,
Para que me livres de grande peste,
Para também que não penses que ajo
Em proveito próprio…
Que, em lugar disso,
Venhas comigo a agir pela nobre pátria
Do teu coração, onde ao teu lado segue a nação humana,
Leve-me no teu berço
Leve Mendes de Nenhuma Vocação!”.
No momento da brisa daquela hora seca,
Umedecem-se as bordas da tenda azulada
Nas gotas do rio transformado,
Grande Alma que responde:
“Não protejo a quem não quero bem,
A quem não mantém o florescimento, no berço,
Das plantas que alimentam caminhos da jovem nação
Que ali habita ainda,
E de onde vem a dileta terra de seu coração,
Que se descobre agora morta de pureza,
Que se acha podre,
Deixando de bombear antigos ares
Que sustinham as ideias que moviam
Venerável vastidão que completa a
Primeira Palavra do Trovador.”
Mendes não implora, e jura, de coração agonizante:
“Pois então partirei, ao Centro de teu leito,
De onde surge desgraça forte,
E a semearei, pelas terras de norte a sul, do
Meu caminho,
Formando novo rio, que te substituirás,
E pedirei ajuda ao Grande Rio que Segue,
Vou a destituir um mal vigente que és tu mesmo,
Pois é hora de agir mesmo com peito nu
Que preencherá nova trilha, que surgirá
A banhar sua humanidade bronzeada assim
A refletir, em teus olhos, o poder
Do teu fracasso.”
A conversa termina, no enraivecer
De um espírito que, em seu enegrecer,
Facilmente endurece seu coração,
E vinga-se logo, no embrutecimento de
Seus semelhantes, que não sabem que o
Combustível de suas cantorias, que o fazem grande,
É o responsável por aquele sofrimento verdadeiramente
Indicador do descaminho de uma nação. (Fim da Parte I)
Autor: João Batista Firmino Júnior. (Obs.: há um material que perdi com minha saída do Facebook e o fim de meu blog antigo, mas esse aqui eu tinha guardado)
ÊXODO DE UM RIO QUE SEGUE
1 – NO CHÃO DO CÉU ESCURO
Numa terra desmerecida
Bradavam os cantadores,
Em seus sermões à brisa,
Contra os quarenta dias
De céu enegrecido de
Ares não compadecidos.
Nunca, pelas praças, daquelas ruas,
Nem pelas casas de oração,
Onda vertiginosa de nuvem grossa tomara
Tão completamente a
Consumir corpo e alma de
Seus habitantes, de
Abastado chão a nordeste de
Uma nação.
Não mais imperavam as
Velhas cantigas de gente
Rara como o Quaresma,
Acatando as diferenças
De um orador como Murilo,
De respeitada índole,
De pesada viola competidora.
Novos mestres de oração reúnem-se
A escolher aquele que vai jornadear
Por campos insondáveis, distantes das
Últimas torres da pátria
Na luta contra mal
Que tira as rimas do ideal
Daquelas cantorias.
Estava tudo escuro
E mesmo sem se perceber,
Quaresma convoca Murilo, que se destitui
Ao encontrar, a empurrar, o filho do
Próprio Quaresma: Mendes de Nenhuma Vocação,
Que não pode recusar, quando vê
Sua expulsão tornar-se verdadeira, e
Obrigatório o segmento de sua jornada
Pelo Centro daquele território, suspeito
Da origem daquela desgraça, abaixo das terras do norte.
São feitos, na tenda não atingida,
Os preparativos de um caixão,
Destino prendedor, em que Mendes debatia-se
Naquele solo pertencente a um mestre, seu pai,
De uma morada particular, de chão perfumado
Pelo cheiro de carnes antigas e corroídas,
Destino pelo qual Mendes rezaria ao
Grande Rio que Seguia:
“Chamo as águas perenes, disfarçadas em nuvens de
Céu de primazia da Primeira Palavra do Trovador,
Chamo Grande Rio que Seguia, e que segue
Modificado na chuva de todo dia, e
Observador das trilhas do berço bendito, que já foi seu,
Revelador dos caminhos certos em terras incertas
Clamo para que me ouças,
Para que me livres de grande peste,
Para também que não penses que ajo
Em proveito próprio…
Que, em lugar disso,
Venhas comigo a agir pela nobre pátria
Do teu coração, onde ao teu lado segue a nação humana,
Leve-me no teu berço
Leve Mendes de Nenhuma Vocação!”.
No momento da brisa daquela hora seca,
Umedecem-se as bordas da tenda azulada
Nas gotas do rio transformado,
Grande Alma que responde:
“Não protejo a quem não quero bem,
A quem não mantém o florescimento, no berço,
Das plantas que alimentam caminhos da jovem nação
Que ali habita ainda,
E de onde vem a dileta terra de seu coração,
Que se descobre agora morta de pureza,
Que se acha podre,
Deixando de bombear antigos ares
Que sustinham as ideias que moviam
Venerável vastidão que completa a
Primeira Palavra do Trovador.”
Mendes não implora, e jura, de coração agonizante:
“Pois então partirei, ao Centro de teu leito,
De onde surge desgraça forte,
E a semearei, pelas terras de norte a sul, do
Meu caminho,
Formando novo rio, que te substituirás,
E pedirei ajuda ao Grande Rio que Segue,
Vou a destituir um mal vigente que és tu mesmo,
Pois é hora de agir mesmo com peito nu
Que preencherá nova trilha, que surgirá
A banhar sua humanidade bronzeada assim
A refletir, em teus olhos, o poder
Do teu fracasso.”
A conversa termina, no enraivecer
De um espírito que, em seu enegrecer,
Facilmente endurece seu coração,
E vinga-se logo, no embrutecimento de
Seus semelhantes, que não sabem que o
Combustível de suas cantorias, que o fazem grande,
É o responsável por aquele sofrimento verdadeiramente
Indicador do descaminho de uma nação. (Fim da Parte I)
Autor: João Batista Firmino Júnior. (Obs.: há um material que perdi com minha saída do Facebook e o fim de meu blog antigo, mas esse aqui eu tinha guardado)
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
[Aviso: o que vem a seguir é mais longo que um Conto, e mais curto que uma série de livros.]
1. Primeiro pouso no mistério que nos ronda
Uma lição básica antes de qualquer atitude envolve uma desmedida capacidade de calcular ações e reações em uma cadeia suficientemente finita para que possa ser útil à sobrevivência. Era assim que pensavam aquelas pessoas, em geral, enquanto desorganizadamente formavam uma fila furiosa de terranos.
A Lei ensina que tudo se originou na Terra há, mais ou menos, cinco ou dez mil anos, pela translação daquele planeta. Através da Física dos Campos Supremos (FCS) e do Projeto Alvorecer, foi desenvolvido uma forma de atravessar incontáveis anos-luz em algumas horas.
Essa revolução foi muito rápida, muito forte. A notícia demorou gerações para ser bem assimilada em todas as suas possibilidades. E, evidentemente, não era qualquer humano, de qualquer profissão, que tinha a liberdade de visitar os ares.
Para tal, surgiu um grupo de elite de cientistas e militares, que levaram adiante milênios de colonização espacial pela Via Láctea. A Terra, com o tempo, foi perdendo sua importância, e os novos acontecimentos traziam novidades provindas da matéria escura. Foi quando surgiu o pânico, que levou aos acontecimentos seguintes…
O interior daquela nave, tal qual lá fora, estava tumultuado. Havia humanos e alguns poucos alienígenas parecidos com humanos. Uma voz que se espalhava por todo aquele espaço que mais parecia fazer com que aquelas pessoas, aquelas milhares de pessoas, fossem gado ou formigas, soou. Um dos trechos dizia:
- 18 fisiohoras para o fechamento do Nuc da Zona Azul!
Aquilo foi fatídico. Há um século e meio já se sabia do fim do universo conhecido, da deterioração do tecido da Realidade. E uma espécie desconhecida de seres que trouxe aquela tecnologia, que soube adaptar ao cérebro humano, para que se pudesse conceber e produzir algo de útil, às novas técnicas, aliadas a velha Física dos Campos Supremos. Foi quando, depois de tudo, surgiu, algo de grande, incomensurável, e ao mesmo tempo infinitamente pequeno. Uma abrigo para o caos, uma realidade própria, feita artificialmente, em algum lugar de todo o não-lugar e de todo o não-tempo que encobria aquele monstro de metal. Foi quando ele despertou.
Há quanto tempo estava acordado? Deitado naquele leito em forma de concha, jazia um desconhecido, com uma aparência ligeiramente jovial e um olhar confuso para o teto. O fato é que havia acordado.
Ele sentou-se e olhou para a fria sala iluminada em que estava. Vestia um macacão limpo e, ao olhar para o emblema no peito, não viu emblemas, viu um nome.
Roy
Seu nome. Seu possível nome. A sala parecia uma cela. Sem reentrâncias, sem detalhes na passagem de uma parede para o teto, para outra parede e para o chão. Tudo parecia ao mesmo tempo frio e onírico.
- O que faço aqui? – ele se perguntou.
Não sabia quem era, a não ser o nome. Não sabia onde estava aquela cela. Seria mesmo uma cela? Ele levantou-se, andou alguns passos e foi até um formato na parede que poderia ser uma porta. Havia a marca de uma mão comprida. Instintivamente, ele colocou sua mão lá, e esperou.
A direção do ar mudou. O frio tornava-se menos frio, e uma porta rangeu para cima. À frente, um corredor de cinco metros de espaço se pronunciava com as luzes acesas. Luzes que pareciam vagar pelo teto liso cor de prata.
Roy teve a coragem necessária para dar o primeiro passo. E, quando o deu, a porta se fechou atrás dele. Silenciosamente.
- Preciso de uma saída. Não sei o que está acontecendo, mas tenho que sair. – dizia ele, espantando-se com a rouquidão de sua voz.
Ele avançava a passos lentos naquele corredor que parecia apertado. A iluminação surgia do teto e das paredes a cada passo que ele dava, e apagava-se a cada passo dado. O ar era mais quente, mas ainda suficientemente frio para que Roy se sentisse ao menos fisicamente confortável.
Andava com o coração batendo rápido, procurando novas portas, mas sem encontrar nenhuma. O nervosismo estava estampado em seu rosto, quando ele começou a ouvir algo.
Era um som vago, de ventania e… um copo caindo. Um copo de cristal. O corredor alargou-se mais e, à direita, uma abertura que não era bem uma porta. Roy entrou por curiosidade e achou-se, subitamente, num imenso refeitório.
Era um salão bem iluminado, bagunçado, com comida apodrecida em alguns dos pratos. O salão prolongava-se por mais de cinquenta metros quadrados e, ao fundo, tinha uma porta em forma de escotilha e duas entradas para o que poderia ser uma cozinha. Agora que Roy estava confuso.
- Estou em algum prédio metálico. Não. Uma nave, talvez uma estação espacial abandonada. E, pela minha roupa, devo ser algum tipo de técnico. Deve ser isso.
Ele avançou, sem ver nenhum cadáver. Apenas pratos, copos, talheres, cadeiras grandes e cadeiras infantis. Então havia famílias por lá. Seria uma estação espacial. Algo assim.
Roy foi avançando até a escotilha quando algo derrubou alguns pratos. Assustado, ele se virou e viu um vulto. Correu até a escotilha, empurrou o volante para um dos lados, e a porta se abriu. O outro lado estava completamente escuro.
Do outro lado da escotilha, tateando na mais completa escuridão, a ameaça parecia estar contida. Roy foi seguindo adiante até se deparar com um letreiro vermelho.
ELEVADOR RESERVA PARA NUC 05
Agora as coisas faziam sentido. Por outro lado, apesar dele entender aquele idioma, Roy não poderia dizer exatamente de que povo era. Era apenas um humano, sem lembranças. Ele entrou no elevador, um cubículo pequeno, e viu as opções. Aliás, a única opção: entre NUC 05 e REFEITÓRIO ALA B. Não sabia se estava subindo ou descendo, se o elevador ia na vertical ou na horizontal, apenas buscava uma saída daquela ratoeira.
O som leve daquela máquina o levou para outro mundo, para outro andar, para um átrio imenso, repleto de plantas, luzes e, finalmente, lá estavam: cadáveres. Em alguns setores do amplo átrio repleto de aberturas para elevadores e outras entradas, havia homens e mulheres, indiferenciados, largados pelo chão. Agora Roy entendida. Deve ter acontecido algum acidente, alguma fatalidade, naquela viagem. Sim. Ele começava a lembrar, estava numa viagem.
- Olá!
- Alguém aí?
Ele clamava mas só um vento assoprava vindo de um dos corredores. E ele viu algo. Era um estranho. Com o mesmo macacão, mas com outro nome. Era um sujeito de meia-idade, de pele escura e cabelos compridos e lisos. Ele parou e o fitou.
- Quem é você, estranho? – soou uma voz distante.
Roy perguntou a mesma coisa:
- Quem é você? O que está acontecendo?
- Roy Elmer Silva, finalmente você chegou. Deixe me apresentar: sou Avrid Nott, Mantenedor-Geral do COSMONUCLEOTÍDEO. Venha comigo.
Eles foram andando e as luzes se acendendo, seguiram enquanto Avrid falava:
- Você não sabe há quanto tempo venho te esperando, engenheiro.
- Como assim? Sou um engenheiro? De quê?
Ele parou.
- Você não lembra? Nada?
- Está tudo confuso em minha mente.
- Então vamos até o Setor Médico. Deve ter sido o trauma…
- Mas, o que houve aqui?
Avrid ficou mudo por um momento, mas sempre andando rápido. Diante de um portal imenso, uma montanha de cadáveres. Era algo horrível de se ver. Havia adultos e crianças, e havia humanoides estranhos. Eles entraram mais adiante, até uma central de controle do setor médico. (...)
------------------------------------------------
[OBS.: Esse foi o pretendido capítulo 1 de uma tentativa de romance de ficção-científica diversas vezes corrigido, alterado, baseado em texto de meu blog anterior.]
Autor: João Batista Firmino Júnior.
SINGULARIDADE
As plantações estavam arruinadas,
Quando Horebe decidiu, finalmente,
Partir com a família para a Arca.
Santo Áriva de Plotino
1. Primeiro pouso no mistério que nos ronda
Uma lição básica antes de qualquer atitude envolve uma desmedida capacidade de calcular ações e reações em uma cadeia suficientemente finita para que possa ser útil à sobrevivência. Era assim que pensavam aquelas pessoas, em geral, enquanto desorganizadamente formavam uma fila furiosa de terranos.
A Lei ensina que tudo se originou na Terra há, mais ou menos, cinco ou dez mil anos, pela translação daquele planeta. Através da Física dos Campos Supremos (FCS) e do Projeto Alvorecer, foi desenvolvido uma forma de atravessar incontáveis anos-luz em algumas horas.
Essa revolução foi muito rápida, muito forte. A notícia demorou gerações para ser bem assimilada em todas as suas possibilidades. E, evidentemente, não era qualquer humano, de qualquer profissão, que tinha a liberdade de visitar os ares.
Para tal, surgiu um grupo de elite de cientistas e militares, que levaram adiante milênios de colonização espacial pela Via Láctea. A Terra, com o tempo, foi perdendo sua importância, e os novos acontecimentos traziam novidades provindas da matéria escura. Foi quando surgiu o pânico, que levou aos acontecimentos seguintes…
***
O interior daquela nave, tal qual lá fora, estava tumultuado. Havia humanos e alguns poucos alienígenas parecidos com humanos. Uma voz que se espalhava por todo aquele espaço que mais parecia fazer com que aquelas pessoas, aquelas milhares de pessoas, fossem gado ou formigas, soou. Um dos trechos dizia:
- 18 fisiohoras para o fechamento do Nuc da Zona Azul!
Aquilo foi fatídico. Há um século e meio já se sabia do fim do universo conhecido, da deterioração do tecido da Realidade. E uma espécie desconhecida de seres que trouxe aquela tecnologia, que soube adaptar ao cérebro humano, para que se pudesse conceber e produzir algo de útil, às novas técnicas, aliadas a velha Física dos Campos Supremos. Foi quando, depois de tudo, surgiu, algo de grande, incomensurável, e ao mesmo tempo infinitamente pequeno. Uma abrigo para o caos, uma realidade própria, feita artificialmente, em algum lugar de todo o não-lugar e de todo o não-tempo que encobria aquele monstro de metal. Foi quando ele despertou.
***
Há quanto tempo estava acordado? Deitado naquele leito em forma de concha, jazia um desconhecido, com uma aparência ligeiramente jovial e um olhar confuso para o teto. O fato é que havia acordado.
Ele sentou-se e olhou para a fria sala iluminada em que estava. Vestia um macacão limpo e, ao olhar para o emblema no peito, não viu emblemas, viu um nome.
Roy
Seu nome. Seu possível nome. A sala parecia uma cela. Sem reentrâncias, sem detalhes na passagem de uma parede para o teto, para outra parede e para o chão. Tudo parecia ao mesmo tempo frio e onírico.
- O que faço aqui? – ele se perguntou.
Não sabia quem era, a não ser o nome. Não sabia onde estava aquela cela. Seria mesmo uma cela? Ele levantou-se, andou alguns passos e foi até um formato na parede que poderia ser uma porta. Havia a marca de uma mão comprida. Instintivamente, ele colocou sua mão lá, e esperou.
A direção do ar mudou. O frio tornava-se menos frio, e uma porta rangeu para cima. À frente, um corredor de cinco metros de espaço se pronunciava com as luzes acesas. Luzes que pareciam vagar pelo teto liso cor de prata.
Roy teve a coragem necessária para dar o primeiro passo. E, quando o deu, a porta se fechou atrás dele. Silenciosamente.
- Preciso de uma saída. Não sei o que está acontecendo, mas tenho que sair. – dizia ele, espantando-se com a rouquidão de sua voz.
Ele avançava a passos lentos naquele corredor que parecia apertado. A iluminação surgia do teto e das paredes a cada passo que ele dava, e apagava-se a cada passo dado. O ar era mais quente, mas ainda suficientemente frio para que Roy se sentisse ao menos fisicamente confortável.
Andava com o coração batendo rápido, procurando novas portas, mas sem encontrar nenhuma. O nervosismo estava estampado em seu rosto, quando ele começou a ouvir algo.
Era um som vago, de ventania e… um copo caindo. Um copo de cristal. O corredor alargou-se mais e, à direita, uma abertura que não era bem uma porta. Roy entrou por curiosidade e achou-se, subitamente, num imenso refeitório.
Era um salão bem iluminado, bagunçado, com comida apodrecida em alguns dos pratos. O salão prolongava-se por mais de cinquenta metros quadrados e, ao fundo, tinha uma porta em forma de escotilha e duas entradas para o que poderia ser uma cozinha. Agora que Roy estava confuso.
- Estou em algum prédio metálico. Não. Uma nave, talvez uma estação espacial abandonada. E, pela minha roupa, devo ser algum tipo de técnico. Deve ser isso.
Ele avançou, sem ver nenhum cadáver. Apenas pratos, copos, talheres, cadeiras grandes e cadeiras infantis. Então havia famílias por lá. Seria uma estação espacial. Algo assim.
Roy foi avançando até a escotilha quando algo derrubou alguns pratos. Assustado, ele se virou e viu um vulto. Correu até a escotilha, empurrou o volante para um dos lados, e a porta se abriu. O outro lado estava completamente escuro.
***
Do outro lado da escotilha, tateando na mais completa escuridão, a ameaça parecia estar contida. Roy foi seguindo adiante até se deparar com um letreiro vermelho.
ELEVADOR RESERVA PARA NUC 05
Agora as coisas faziam sentido. Por outro lado, apesar dele entender aquele idioma, Roy não poderia dizer exatamente de que povo era. Era apenas um humano, sem lembranças. Ele entrou no elevador, um cubículo pequeno, e viu as opções. Aliás, a única opção: entre NUC 05 e REFEITÓRIO ALA B. Não sabia se estava subindo ou descendo, se o elevador ia na vertical ou na horizontal, apenas buscava uma saída daquela ratoeira.
O som leve daquela máquina o levou para outro mundo, para outro andar, para um átrio imenso, repleto de plantas, luzes e, finalmente, lá estavam: cadáveres. Em alguns setores do amplo átrio repleto de aberturas para elevadores e outras entradas, havia homens e mulheres, indiferenciados, largados pelo chão. Agora Roy entendida. Deve ter acontecido algum acidente, alguma fatalidade, naquela viagem. Sim. Ele começava a lembrar, estava numa viagem.
- Olá!
- Alguém aí?
Ele clamava mas só um vento assoprava vindo de um dos corredores. E ele viu algo. Era um estranho. Com o mesmo macacão, mas com outro nome. Era um sujeito de meia-idade, de pele escura e cabelos compridos e lisos. Ele parou e o fitou.
- Quem é você, estranho? – soou uma voz distante.
Roy perguntou a mesma coisa:
- Quem é você? O que está acontecendo?
- Roy Elmer Silva, finalmente você chegou. Deixe me apresentar: sou Avrid Nott, Mantenedor-Geral do COSMONUCLEOTÍDEO. Venha comigo.
Eles foram andando e as luzes se acendendo, seguiram enquanto Avrid falava:
- Você não sabe há quanto tempo venho te esperando, engenheiro.
- Como assim? Sou um engenheiro? De quê?
Ele parou.
- Você não lembra? Nada?
- Está tudo confuso em minha mente.
- Então vamos até o Setor Médico. Deve ter sido o trauma…
- Mas, o que houve aqui?
Avrid ficou mudo por um momento, mas sempre andando rápido. Diante de um portal imenso, uma montanha de cadáveres. Era algo horrível de se ver. Havia adultos e crianças, e havia humanoides estranhos. Eles entraram mais adiante, até uma central de controle do setor médico. (...)
------------------------------------------------
[OBS.: Esse foi o pretendido capítulo 1 de uma tentativa de romance de ficção-científica diversas vezes corrigido, alterado, baseado em texto de meu blog anterior.]
Autor: João Batista Firmino Júnior.
domingo, 15 de setembro de 2013
[Texto corrido, sem versificação]
Paisagem Onírica
Uns gatos listrados reuniam-se lá
Pelo véu do lusco-fusco, e
Bicavam, feito insetos,
As sobras daquele dia,
Ao entardecer de uma prece.
Um mais gordo que o outro,
Disputavam uma lupa no casebre velho
Daquele deserto, dispunham-se
Do medo trazido pelos arbustos de uma noite, escondiam-se
Pelo mato.
As listras findavam-se naqueles corpos, simplesmente, cantando,
Num provérbio antigo, a angústia daqueles bichos,
No fim de um mundo, que parte no astro.
A nostalgia batia na cabeça dos gatos,
e uma manopla atingia-os como um mata-moscas,
Fazendo-os pó do deserto da lida sem volta,
Na quebra, num choque constante na
Perda de um dia.
As panelas sobraram, nos cacos pelo dia que foi,
O deserto vibrava, despejando os últimos sopros, a
Um choro lá longe, e vou me dispondo acima do
Telhado, e vendo a maravilha e o terror
Daquela descida solar.
Sou acometido, assim, pela vontade
De ainda olhar para trás, e não vejo.
Sou obrigado, então, a ver o rosto
Feio do caos à frente,
E uma coisa vai se rasgando, sem volta.
Sou distorcido nas mais diferentes formas,
Arrastado pela força grandiosa que nos mói
Por dentro, sou desfeito em estrado, e humilhado
Como coisa mínima que deixa de ser como tal e é
Varrida pela areia.
Mas sou livre e grandioso como toda a terra,
Vagando, leve, com o vento mostrando-me outros horizontes,
Sem angústia, sem saudades, por estar interagido a tudo.
Porém,
Ainda assim vitimado por uma alegria em nota triste,
De tristeza profunda numa alegria infinita, de que
Nunca serei completo
- e é isso que me define, muito mais do que me limita.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
sábado, 14 de setembro de 2013
Curta postagem com observações sobre o novo nome do blog em leve tom de ironia:
Mudei o nome do blog... Um nome comum, já que muitos se chamam João, o que não quer dizer que os textos se confundam. Não tenho culpa se esse também é o meu nome.
...
Até o momento em que escrevo:
Eu acredito que o título só é original em relação ao acervo de blogs do Google porque não possui artigo iniciando... No final, o que importa é o link, que também mudou.
Enfim, existe, provavelmente, até gente no mundo luso com o nome INTEIRO idêntico ao meu, e sobre isso nada posso fazer. Além disso, o que eu escrevo e escreverei aqui serão basicamente "textos", daí o título.
Mas, é isso.
No mais,
Sem mais.
Mudei o nome do blog... Um nome comum, já que muitos se chamam João, o que não quer dizer que os textos se confundam. Não tenho culpa se esse também é o meu nome.
...
Até o momento em que escrevo:
Eu acredito que o título só é original em relação ao acervo de blogs do Google porque não possui artigo iniciando... No final, o que importa é o link, que também mudou.
Enfim, existe, provavelmente, até gente no mundo luso com o nome INTEIRO idêntico ao meu, e sobre isso nada posso fazer. Além disso, o que eu escrevo e escreverei aqui serão basicamente "textos", daí o título.
Mas, é isso.
No mais,
Sem mais.
Mais um texto não-versificado (continuando):
2 - Olho do Escuro
Após o incêndio da Vila,
Após o desaparecimento
Paulatino de seus habitantes,
O som do silêncio, do ar parado.
Salas confundiam-se com cozinhas,
E banheiros vagavam a céu aberto.
Construções velhas e desabadas,
Um cão magro moribundo,
Um céu enlutado.
Voando em círculos,
Uma ave negra cantava mudez,
Mudava de posição a cada vez,
Via cada escombro
Como um ninho em potencial.
Tudo aquilo era visto,
Tudo aquilo era observado,
Naquele vale obscuro,
Por onde corria o mau agouro.
E, subitamente, o olho da Lua,
Grandiosa em sua luz para cada
pedra.
A ave negra tentava se esconder,
E em sua mente perpassava
A História dos homens e mulheres
Daquele mundo morto.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Poemas que não são poemas ou textos não-versificados (este tópico será continuado, em fragmentos, em postagens futuras):
(início 12 de maio de 2010, depois das 22 horas)
1- Estrada do Deserto
Folhas secas de fim-de-dia
Espalhavam-se pelo curto
horizonte,
Naquele vasto caminho
Resumido pelo escuro.
Há seres nas folhas,
Naquele anoitecer,
Seres não formados,
Como uma muralha
Para o deserto.
Eu não sabia
Qual o lado da estrada
Era o lado de onde vim,
Nem sabia qual o lado para onde
ir,
Mas sabia que o Destino
Baniria a linha reta,
E me vi no deserto.
Do ar seco, um estonteante
Fim-de-dia,
Rochas e terra rala,
Ar muito frio,
E aquele infinito -
Vim de um lado,
Do outro,
De algum lugar?
Só importava para onde eu iria,
Quando, em verdade,
Eu queria saber o porquê.
O porquê é pulsão e curiosidade,
É a vontade do Universo se
manter,
É o zelo com o Infinito,
Com o Misterioso,
Com o grandioso e vasto
Horizonte desértico a
Que chamamos de Estrada.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
P.S.: Acho que perdi de vez meu texto "Paisagens Oníricas II", depois de algumas mudanças de redes sociais. Mas, assim é a vida... Afinal, eu já não tinha mais o "Paisagens Oníricas I".
P.S.: Acho que perdi de vez meu texto "Paisagens Oníricas II", depois de algumas mudanças de redes sociais. Mas, assim é a vida... Afinal, eu já não tinha mais o "Paisagens Oníricas I".
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Lembranças de um universo inacabado
[Eis um Mini-Conto]
Lembranças de um universo inacabado
Relato
protocolar:
“Eu nunca havia visto nada igual,
nem nos tempos em que estudava História Primitiva. Era um planeta cinza,
repleto de lixo espacial ao redor, de diferentes eras, e uma única “lua” que
não passava de uma estação espacial abandonada.
-
Daqui vamos para onde? – perguntei.
A bordo da Arca-Brana, meu pai
parecia preocupado, enquanto ficávamos lá, sentados numa praça com plantas
artificiais, em meio a dezenas de passageiros.
-
Vamos para um lugar seguro. – resumiu.
Tentei não me preocupar,
principalmente com as notícias de que as estrelas estavam desaparecendo. E
continuei olhando aquele espaço vazio entre a Terra e Marte, planetas do
sistema-matriz da Humanidade.
Uma
voz soou em nossas mentes: Cientistas
Nível 1, preparem-se para o último salto. Que o Parlamento esteja convosco!
No segundo seguinte, chegamos a uma
parte da Via Láctea com longos mantos coloridos de matéria e estrelas
gigantescas. Meu pai foi chamado, enquanto eu fiquei num recinto vigiado por
uma mulher sintética e que me parecia tola. Não entendia esse tratamento
dispensado a mim, pois, ainda que eu tenha sido criado há menos de dois anos-padrão,
eu tinha aspecto de adulto.
O tempo passou. Demorou. Até que meu
pai voltou com um pouco de ânimo que lhe restava desde a morte do resto da
nossa família. Segui com ele até o espaçoporto da Arca-Brana, uma nave muito
grande que, segundo meu pai, viajava por entre algumas das dimensões
existentes, perfurando a Realidade para que chegássemos aos lugares em
velocidade mais rápida que a luz. Mesmo assim, os nossos passos até uma zona
que parecia aberta – um espaçoporto com aquela eventual atmosfera invisível –pareceram
durar muito tempo.
Ao chegarmos, havia humanos e
humanoides, bem como homens e mulheres sintéticos tratados como cidadãos de
segunda classe e feitos para nos servir (não como eu, que sempre fui
dignificado como humano). Antigamente, segundo meu pai, eles lutavam por seus
direitos, até que houve uma mudança política, e de programação, depois da
notícia sobre o apagamento das estrelas.
Com a cabeça cheia de coisas,
entramos numa nave muito pequena, com quatro lugares. Meu pai e eu, que éramos
os passageiros. Ficamos quietos até que, num dado momento, após quase cochilar,
revelou:
-
Finalmente estaremos num local seguro.
-
Vamos viver para sempre? – questionei.
Ele ficou calado. Mas, depois,
disse:
-
Nossas consciências estarão bem guardadas.
-
Nos sintéticos?
-
Sim…
-
E se não funcionar?
-
Vai dar certo. E, mesmo que não desse, temos três sintéticos 'superpoderosos' que vão guardar o que sobrar das consciências humanas e de outras espécies. –
ele riu.
Eu nunca entendi isso direito. Se eu
estou aqui, como poderia continuar vivo na mente de outra pessoa? Acho que meu
criador queria dizer que viveríamos na lembrança dos sintéticos, que iriam
herdar o mundo após o fim de tudo.
-
E quanto a mim, vai funcionar no meu caso? – perguntei, relembrando de minha
origem distinta…
Seguimos adiante e entramos num
lugar estranho ao sairmos do jet. Meu pai foi bem recebido em outro grande
lugar, talvez até maior. Assustava-me. Mas, gostei da acolhida.
Antes de ficar numa das alas
residenciais, protegido pela “babá” sintética, ouvi meu pai dizendo aos homens:
-
Quarenta e oito fisiohoras de controle espaço-temporal serão necessários.
Margem de segurança… Como vão as coisas? Dentro do esperado?
Um dos homens, enquanto seguíamos
até a minha nova casa, lhe dizia:
-
Tudo vai excelentemente bem, senhor.
Em seguida, só me restavam os
psicojogos do meu quarto, dividido com três humanoides que me metiam medo. Eram
compridões e tinham a pele azulada. Como eu disse, eram estranhos e
silenciosos.
***
Meu criador fez com que eu
acordasse. Ele parecia cálido, com uma tranquilidade inquietante, puxando-me
para perto. Não havia mais ninguém no meu quarto, nenhum daqueles seres
compridos. Ele disse:
-
Isso vai terminar logo, meu filho. Vai dar tudo certo.
-
Vai dar certo o quê? – perguntei sonolento.
-
Usamos um conjunto de técnicas que vai nos salvar. Um psicofusor definitivo
colocará nossas consciências em cérebros sintéticos, administrados por três
androides. Tudo e todos capazes de resistir às mudanças da Realidade.
Tínhamos algumas horas. Durante esse
tempo, na cama, pensei nos meus últimos anos em uma fazenda velha em um planeta
chamado Camaleão, um nome vindo de um
idioma antigo da Terra.
Lá, eu brincava com meus três irmãos
humanos e minha mãe. Todos pareciam bem, enquanto meu pai trabalhava na
principal metrópole do principal planeta do Reino Unido da Terra, ou do que
havia restado desde as revoluções separatistas das últimas décadas, cujo tempo
era contado como se todos nós vivêssemos na Terra – o ‘tempo-padrão’, ‘ano-padrão’,
‘dia-padrão’ etc.
Eu estudava História Primitiva.
Sabia da dinâmica econômica da Terra do século XXII, segundo a velha tradição.
Também tinha lido muito sobre as guerras do século XX e os filósofos dos
séculos anteriores. Tempos complicados, mas nada parecido com o que vivíamos.
Mas, bem, foram naqueles tempos na
fazenda em que eu soube que algo estava errado com o Universo. Minha mãe
desenvolveu uma doença, um câncer, e nenhuma das nossas técnicas foi suficiente
para salvá-la. Não só ela morreu, mas a maior parte das pessoas que habitavam
os arredores da fazenda. “A Realidade está doente”, dizia meu pai.
No último ano, foram meus irmãos
quem morreram e, para evitar que eu adoecesse, meu pai me levou até a
Arca-Brana, uma nave de dezenas de quilômetros de comprimento – segundo eu
aprendi como aluno aplicado –, capaz de atravessar metade do próprio Universo
devido a uma tecnologia importada, vinda de fora. Essa mesma tecnologia
importada havia gerado muitos e muitos Núcleos, Arcas ainda mais valiosas e
imóveis que, segundo papai, nos deixariam em paz, seguros contra o Fim.
Saindo dos meus devaneios, meu pai
disse que tínhamos que ir. Andamos pelo corredor lotado, entramos num elevador
silencioso com outras pessoas, até chegarmos a uma sala escura, fria,
diretamente ligada ao elevador. Sem perceber, meu pai sumiu e picaram-me no
pescoço. Eu dormi.
***
-
Onde estou?! Pai?
Aquilo não era um sintético, mas um
robô flutuante, em forma de ovo, que parecia controlar o caixão que me
acomodava. Eu não sabia que as coisas seriam assim!
-
Papai?! Pai?!
Ninguém me escutava. Eu estava
paralisado, com a mente consciente, mas sem poder me mexer. Chorava por dentro,
me desesperava. E uma voz dizia em minha mente: Religiosos ou ateus, vamos esperar. Fomos os escolhidos. Temos que nos
preservar. O tecido da Realidade está sendo desafiado. Mesmo assim, em sessenta
segundos-padrão todos estaremos seguros. Acalmem-se e pensem nessas imagens-pensamento
reconfortantes.
Um roteiro de psicojogo passava
na minha mente como se fosse um sonho. Nele, me distraí. Até que um clique
soou.
***
Bem-vindos à Fonte das Almas! Bem-vindos
à Unidade 38!
Meu pai não estava por perto, mas
eu nem lembrava do nome dele. Naquele instante, sem corpo e sem estar
necessariamente flutuando, senti-me entorpecido.
Vasculhei meu próprio Infinito, e
passei a entender o que era aquilo tudo, o que era aquele apocalipse e quais
eram os reais criadores da tecnologia das Arcas-Brana, que penetravam as membranas
da Realidade.
Depois de uma eternidade, vi que
tinha um corpo. Estava em casa, na minha fazenda, mas estava só e o céu estava
escuro. De repente, estava longe da casa. No topo de uma árvore eu tentava
buscar ajuda, alguém… mas, minha mente ia se apagando… e agora estou aqui,
relatando.
Onde estou?
Não lembro mais quem sou. Não sei
onde estou. Entretanto, parece que todas as mentes humanas e humanoides se
uniram, simplesmente se uniram. Somos um. Sou um. E… Um véu vermelho, distante,
vaporoso. Vi mamãe. Só lembrava dela.
Não sou sua Mãe.
Sou a sua Guia.
Fiquei temeroso. E, pensei: ‘Nunca
fui humano!’
Você foi humano
sim. E ainda o é.
Tentei falar:
-
Para onde vou?
Ela não me respondeu. Sumiu.
Acordei. O psicofusor deu certo. Sou uma nova identidade. Alguma coisa deu
errado. Os cérebros sintéticos não funcionaram, por isso a psicofusão ter sido
tão severa. Agora, não sou mais uma invenção, sou um substrato de milhares de
mentes humanas e humanoides. Preciso seguir minha programação. Preciso achar as
outras duas unidades.
Vou adiante para minha nova missão.
Não sou mais humano. Nunca fui humano. Sou uma forma de vida nova. Onde estou?
Num Núcleo de Realidade Estabilizada. E tenho uma missão, pois a Vida - ah! a
Vida! - continua.”
***
Após pensar tudo isso, a consciência
do sintético se apagou, para sempre. O Dr. Rach Mandrik teve sua consciência
acolhida naquele “veículo” que criara com tanto empenho.
Autor:
João Batista Firmino Júnior.
Assinar:
Postagens (Atom)