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sábado, 30 de agosto de 2014

Livro: A EMBARCAÇÃO DIVINA // TRECHO 1

                                              
    1-

             As nuvens mal começavam a aparecer, em suas formas desagregadas. Era um céu de poucas cores, ainda no meio do conflito entre um astro que partia e outro que assumia. Abaixo, havia o mesmo, onde pouco surgia algumas tocas, e uma ideia sobrepunha-se à outra. A visão pobre, de um, não muda. Lugar em que uma loucura era resumida, distante de uma paisagem escondida pela neblina da própria mente.
             Estava pronto para o último dia da semana. Mais um dia pertencente a qualquer mês, vivenciado por um morador naquele quarto rústico e escuro. Havia uma pequena lâmpada de luz fraca contrastando com o pouco de luminosidade que vinha da grande janela de vidro, com vista para aquela manhã nublada e para os telhados de outras casas.
            Chuviscava, em seu último dia naquele lugar. Sai de seu quarto e entra no curto corredor silencioso. Observa a porta do recinto de seu avô, que trabalhava à noite e ainda não havia retornado. Nunca o via.
            No extremo esquerdo do corredor, de alguém ainda fixo à porta de um quarto trancado, estava uma pequena sala ligada à cozinha. Na casa vazia e escura, chega ao cômodo principal. O lugar sempre o assustara, desde a infância. Aqueles blocos em preto e branco às vezes faziam-no tonto, o chão parecia imenso como em seus pesadelos, e muitas vezes tudo virava de cabeça para baixo, e ele estava no teto. Pesadelos.
             Passa rapidamente pela sala, fazia frio, o dia havia nascido há muito pouco. Abre a porta e sente alguns pingos na cabeça. O ar era mesmo poluído, era denso, vivia próximo a um conjunto de fábricas onde seu avô trabalhava. E os telhados das outras residências? Todos podres, em seus lugares, trancados. Havia apenas um gato preto que o olhava fixamente de onde estava, em cima de um dos telhados vizinhos.
             Desce pelas escadas mal construídas e sem corrimão, único por ser o outro lado fixo à construção. Primeiro grande medo: o segundo andar daquelas três casas mal construídas, postas umas sobre as outras. A morada estava fechada, e havia um mau cheiro próximo. Não olha, desce mais um pouco e vê-se à frente da porta do primeiro andar.
              O lugar era menos mórbido, mesmo com aquele velho latido, que vinha de dentro do andar, não soando naquele dia. Um som que superava o silêncio pesado do segundo andar. Havia ainda o mesmo cheiro medonho daquele encanamento há muito intocado, aquele chão de barro à frente de uma porta velha, numa escadaria de cimento, externa e sem segurança, passando por aquela construção quase abandonada, com os olhos do que deveria ser um gato tão próximo à espreita, e o frio.
               Chega ao térreo, naquele beco escuro. Parecia noite. Dava graças ao fato de nunca ter aparecido alguém mal encarado em todo seu percurso de toda sua rotina, nenhum criminoso que o abordasse. Ainda assim o beco causava medo, era muito estranho e sem iluminação. Observa, em seguida, uma das janelas trancadas do térreo, que dava ao beco. Desde quando criança nunca mais havia visto a proprietária e seu filho adulto, viviam trancados no térreo.
                Formava-se… Era uma rua curta, cinzenta, toda esburacada, sem carros que corressem, e completamente vazia de vida e pessoas, na extensão de seus quarteirões, salvo ele. Já havia pensado se todos não haviam feito como faria naquele dia, fugir daquela atmosfera tão feia. Alguns fugiram sim, porém de outra maneira, por ele impensável. De vez em quando dava para supor alguns casos de suicídio, era possível.
                 Um lugar deprimente, desprovido de progresso; a maior parte das casas haviam sido deixadas por seus donos, não sabia quando. Defronte sua residência, dotada apenas de um sistema fraco de água e de luz, após o leito de um quarteirão esburacado, havia um grande muro que dividia o bloco residencial daquele conjunto de fábricas. Era o que parecia.
                   À direita, havia três casarões fechados e quase a desabar, e mais um, que cerrava o que deveria ser uma grande extensão descuidada por uma autoridade inexistente, com algumas poucas torres elétricas; onde morava uma só pessoa, que ele nunca vira. E à esquerda além de mais duas moradas velhas e aparentemente desabitadas? O que parecia ser uma avenida, que cortava duas ruelas formadoras de um péssimo sistema de urbanização, onde casas velhas ocupavam o lugar de entradas de ruas. Não via nem ouvia nada nem ninguém próximo, debaixo daquele céu nublado.
                    Quase nunca falava, como os poucos habitantes da ilha. Quando tentava conversar com alguém, ou não respondiam ou havia apenas monólogos em olhares rudes ou tristes. Sempre pensou ter nascido num pesadelo de alguém, não sabia se isso era só na ilha, localidade na qual mudara-se com o avô, quando era muito pequeno. Nem imaginava o que havia fora daqueles limites. Com o passar dos anos, as coisas foram piorando.
                    Era calmo por fora e agitado por dentro, brincava com esses pensamentos antes de atravessar a avenida, antes de se deparar com seu Segundo grande medo. Olha para os dois lados com cuidado, sempre havia aqueles motoqueiros malucos, em um caminho sem carros. Corre, a estrada parecia querer tremer. Não olha mais, avança com força. Os sons surgiam, aproximavam-se aceleradamente.
                    Chega ao outro lado e eles passam. Estava seguro agora. Aqueles homens, pois deveriam ser homens, passavam pela avenida toda vez que ele tinha de atravessar. Usavam calças e tênis pretos, viviam cobertos por um casaco de couro e um capacete, além das luvas, também de couro. Nunca falavam, nunca os vira fazer nada que não fosse, durante duas vezes ao dia, tentar atropelá-lo.
                      No outro quarteirão, via mais dois estudantes que compunham a mesma sala que a sua, e que saíam de suas casas. Ninguém se falava, era a educação que todos recebiam sempre através da indiferença. Os três, bem distantes de si, atravessam outra grande rua que os separava da rodoviária. A chuva cai de vez. Tanta chuva causada pelos danos ambientais naquela terra de ninguém.
                      Onde estudava ficava mais longe daquelas fábricas e do bloco residencial, em sua maioria formado por inúmeras casas desertas, além de tantas outras construções que caíam aos pedaços, em ruas vazias, escuras e frias, esburacadas, formadoras de um sistema de urbanização completamente desorganizado. Tudo era silencioso naquelas ruas. Entrava ele, correndo para se abrigar na rodoviária.
                         Era imensa, a construção sem nome, e era sem nome pois a placa que lhe denominava havia perdido o sentido de tão velha, as letras haviam sumido. A rodoviária era grande, de poucas pessoas e sem manutenção. Havia apenas ele, poucos estudantes e… gente esquisita.
                         Gente esquisita? Ele esperava aquela meia hora apreensivo, mas fugiria... Quando? Naquele dia. Ao seu lado, havia um homem de seu tamanho e moreno; à sua frente, um velho que dormia num banco; há meses era assim. Não esquecer de um deficiente que esmolava há alguns metros de onde se encontrava.

                         O velho sempre dormia naquele lugar. Normal? Não naquele dia. Enquanto o ônibus certo não estava à disposição, percebe que havia algo de estranho em relação àquele senhor, que perambulava ao redor dos ônibus, criatura sempre cheia de moscas. O rapaz levanta-se, aproxima-se do ancião, toca-o, estava morto!

CONTINUA...


Autor: João Batista Firmino Júnior

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Obs.: O texto é do ano 2001. Há, certamente, erros, como existiram no livro O NÚCLEO, anteriormente disposto no presente blogue. Ainda assim, não são erros que impeçam o entendimento básico da obra. 



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