21- Delírios
A
enxaqueca, naquele cubículo de elevador, incomodava mais Roy que seus
acompanhantes. A breve subida, mais silenciosa que no elevador anterior,
demorava demais. Por um momento, uma sensação de peso e tontura tomou Roy, fazendo-o
se enxergar em outro elevador, com um aspecto cinzento, feito de um metal mais
grosseiro. Nesse mundo, ele era Solomon H. Bradbury, vestido como mais um
engenheiro de comunicações espaciais, rumo a uma missão naquele mês de agosto
de 3025.
Na
estação lunar Casablanca, o escritório daquele jovem engenheiro de procedência
canadense, cabelos grandes e mal penteados, pele pálida e olheiras marcantes,
enchia-se de um aroma artificial, pontuado por móveis de madeira nobre antiga,
e as coisas às quais Bradbury se distanciaria para a sua estada em um planeta
fora do nosso Sistema Solar. Parecido com a Terra, e localizado a seis
anos-luz, Arcanus II revelava uma excelente oportunidade para um profissional
em início de carreira sem parentes próximos. Por enquanto, o grande revés
estaria, porém, na longa viagem de praticamente seis anos, a 99,99 por cento da
velocidade da luz. Mas, a tecnologia que permitia isso já poderia ser
considerada segura, nas suas décadas de uso humano desde a descoberta do
sistema solar Arcanus.
Enfim,
toda essa novidade fazia aquele engenheiro de comunicações espaciais não sentir
as horas de sono perdida, enquanto seguia até o deque de Casablanca para pegar
a sua primeira nave para a Estação Internacional, de onde partiria o seu derradeiro
vôo a inaugurar a sua missão.
***
Continuando
o delírio de Roy, através de sua mente confinada num elevador high-tech,
podia-se entrever a presença de Bradbury num gigantesco espaçoporto - com um
espaço por onde as naves atracavam lateralmente conforme as suas dimensões -
capaz de receber até dezessete voos interplanetários diários, mais um,
mensalmente, para o planeta Arcanus.
Numa
sala de espera, com a gravidade artificial em bom estado, estavam Bradbury, e
uma amiga, a exobióloga Chris Viggs, além de outras treze pessoas. O
auto-falante, com uma doce voz feminina, anunciava o início da viagem para as
próximas duas horas, além de propagandear as vantagens da qüinquagésima viagem
a um destino tão “inédito” e distante. O que interessa é que os dois já vinham
numa longa conversa. E, em algum momento:
-
Quer dizer que, durante os anos de vôo, não envelheceremos muito? – perguntava
Viggs, com seus olhos resplandecentemente verdes.
-
Não, no máximo alguns meses biológicos se passarão num universo de anos. Nem se
preocupe. Além disso, são raros os casos de acidentes nas câmaras de suspensão.
Mas, devo admitir, que o vôo é meio receoso… - respondia ele.
Após
algum tempo, Bradbury ainda tentou perguntar qual seção ela iria passar a
chefiar, mas o chamado já estava sendo dado. Formando uma fila, os quinze foram
se encaminhando a um guichê de escaneamento, e, em seguida, foram adentrando a
monumental nave Classe Echo, intitulada SS-781.
***
Deitado
em sua cápsula, Bradbury, com seu macacão a pontuar todas as atividades de seu
corpo de acordo com o aparelho, temia a escuridão que viria. Voltava a sua
mente as dúvidas de Viggs, porém, a perspectiva de seu trabalho a enriquecer o
seu currículo, e de toda sensação de poder ao se ver capaz de viajar para tão
longe… enquanto isso, o raciocínio tornava-se mais lento, as imagens e os sons
do vidro temperado da cápsula ficavam vagos, tudo ia se esvaindo, lentamente.
A
transição daquele universo para o mundo real, para o mundo de Roy, foi rápida.
Tudo durara menos de dois segundos, e Kerk e Maria mal perceberam o mal-estar
do companheiro.
As
coisas se misturavam, mas não perdiam a coerência.
-
Vamos? - questionava Maria, uma mulher com uma personalidade tão “adormecida”
quanto os outros dois, enquanto Kerk cutucava Roy no ombro.
-
Sim, vamos. – despertava Roy, com uma leve dor nas têmporas.
À
frente do elevador, uma parede repleta de sensores aparentemente desligados,
sob a forma de pequenas cúpulas negras, em meio a duas entradas a uma espécie
de sala de espera.
Em
sua mente, Roy, Kerk, e Maria, percebiam os dizeres: NUC-03, e SALA DE ESPERA
PARA DESCONTAMINAÇÃO. Mais adiante: BANHEIROS, ARCA, SEÇÃO DE CONTENÇÃO DE
MATÉRIA-PRIMA com a SUBSEÇÃO DE MATERIAIS PERIGOSOS, CENTRAL SECUNDÁRIA DE
PILOTAGEM, PONTO DE PASSAGEM PARA NUC-02 E NUC-08. Os dois últimos itens
suscitavam dúvidas óbvias.
Voltando
às atividades práticas, Kerk, tomando a frente, percebia que as cinco grandes
portas da frente, após uma sala de espera de vários metros, estavam trancadas.
-
E nada de canais de ventilação. Parece que o lugar é mais sofisticado, ou mais
idiota, do que pensávamos. – concluía Kerk.
-
Roy? – perguntava Maria – Roy? Você está bem?
Roy
havia agora desmaiado totalmente. Com um sinal na cabeça, Kerk indicava que
precisaria de ajuda para colocá-lo nas poltronas.
-
O que há com ele?
-
Maria, opte pela pergunta mais importante… não sabemos nem onde estamos, nem
quem somos ou de onde viemos, nem o porquê disto tudo. Acredito que ele esteja,
simplesmente, exausto. Seus sinais vitais não estão ruins… poderíamos
aproveitar para pensar em como sair daqui depois de uma dormida.
Já
fazia mais de um dia de jornada, e, apesar deles nunca terem fome ou sede,
sempre seria necessário umas horas de sono.
Na
mente de Roy, porém, tudo funcionava muito rápido. Bradbury, após anos, estava
pronto para despertar.
***
Com
dormências e dores pelo corpo, Bradbury, subitamente, via-se de pé. Não se
lembrava de ter se levantado. A maioria já havia despertado e, naquele recinto
de cápsulas para viajantes em animação suspensa, gente de fora invadia tudo,
armados, numa algazarra que não deixava entrever facilmente o que acontecera.
Próximo
a ele, havia um homem quase idoso, também confuso e recém-desperto, que parecia
ter despertado de uma crise de sonambulismo.
Mais
adiante, um grupo de seis homens chegava em direção aos dois. Um deles, de
postura militarizada, disse:
-
Engenheiro Solomon H. Bradbury? Dr. Raymond Vergueiro? Sigam-nos.
***
A
nave auxiliar da SS-781, finalmente livre para deixar Bradbury e outros em
Arcanus, além de pequena, não tinha gravidade. A paisagem rápida quase não pôde
ser apreciada, e o piloto parecia nervoso, ainda que sua função fosse apenas
controlar a guia programática daquela espaçonave em parte dirigida remotamente.
Uma
voz programática emitia dados isolados sobre o planeta, sem entusiasmo:
“Arcanus II possui clima predominantemente tropical e subtropical, uma
gravidade quase idêntica a da Terra, e uma imensa fauna de aves esplendorosas…
o planeta foi colonizado há duzentos e dezessete anos pela histórica United
System Solar em parceria com a Huxley Dynamics… sua atual capital
administrativa é Austral Port, com uma cidade projetada para até os atuais cem
mil habitantes, às margens do imenso Lago Norda, cuja principal ilha, de mesmo
nome, mantêm a sede da atual United Stars Company, companhia primordial da…
nosso governador-geral é o Dr. Hakk Stein Oteli e sua competente equipe…”
Após
algumas horas, mais próximos do espaçoporto de Austral Port, sem que fosse
possível, ainda, enxergar o horizonte, Bradbury não pôde sentir muita diferença
na gravidade. Ao abrir das portas, ele se deparou com um vasto espaçoporto
cercado de pequenos veículos de controle, funcionários, e, mais adiante,
edifícios sofisticados e árvores imensas. O clima era aprazível, normal, num
ambiente cheio de brisas.
Vários
oficiais apareceram de repente. Não eram os mesmos de antes. Sérios, pediram
que o grupo os seguisse a pé até o edifício central, onde, segundo eles, algo
de extrema importância os seria comunicado.
***
O
aparato era simples. O ambiente, fechado. E o salão, amplo. Bradbury podia
observar, de pé, um sujeito de rosto suado, de postura marcial, ao lado de
outros, rodeado por aquele grupo específico de passageiros, do alto de sua
farda, declarar:
-
Serei direto, perante a gravidade da questão: informamos aos senhores que, nos
últimos dois anos, não obtivemos nenhum contato com a Terra ou com as estações
espalhadas pelo sistema solar. Meses antes disso, o último contato foi sobre o
que parecia ser mais uma pequena e limitada epidemia nanotecnológica, e a
proibição de qualquer contato físico entre nossa frota e o sistema solar.
Porém, dada a demora, acreditamos que o caso foi muito mais sério e diferente
das epidemias anteriores. Além disso, não pudemos enviar nenhuma sonda,
inclusive. Simplesmente devido a já conhecida natureza peculiar dos vírus
nanotecnológicos sobre qualquer aparato também inorgânico.
“Sob
lei marcial, declarada há quase dois anos pelo nosso governador-geral, direi
alguns nomes de engenheiros, médicos, e alguns outros especialistas que ficarão
aqui, no interior continental, ou na ilha Norda. (…)”
Muito
mais foi dito, e muito foi questionado com uma inesperada disciplina, levando,
ao final, a um silêncio pesado. Alguns choravam, mas, a maioria, friamente,
permanecia serena, tal qual Bradbury. O mesmo padrão já havia sido repetido com
os grupos anteriores e posteriores de passageiros e tripulantes para ali chamados.
Escolhido
para a ilha, enquanto Viggs seria transferida para o interior daquele
continente-pangéia, após um dia de vinte e cinco horas Bradbury, com suas duas
malas, teve que seguir para o porto, acomodar-se num barco capaz de pairar
sobre as águas, e seguiu numa viagem de seis horas para o seu destino.
***
Roy
abre os olhos. O que vê não passa de uma imagem retorcida, debaixo de um ar
tênue, e uma ausência de cheiro. Em seguida, a imagem melhora, e ele se vê
novamente no primeiro recinto em NUC-03.
-
Kerk? Maria? - busca Roy.
Ninguém
por perto. Ninguém respondia. Mas, agora, Roy percebe: não vestia mais aquelas
roupas que o diferenciavam, mas o mesmo macacão sob medida do casal que o
acompanhava. Teriam sido os dois uma fantasia? Teria sido o seu deslocamento e
a sua percepção de vestimenta uma ilusão?
Não.
-
Roy? Roy? Finalmente. Kerk sumiu. - dizia uma Maria com voz aliviada, mas,
ainda, preocupada.
-
Espere, espere… Quanto tempo eu fiquei desacordado? E onde está Kerk? –
perguntava Roy, enquanto se levantava.
-
Devem ter sido horas… Quanto a Kerk, em algum momento, ele disse ter conseguido
achar uma passagem. Abriu aquela porta ali e se foi. - dizia ela, ainda
chorosa, porém mais controlada.
-
E… você trocou minha roupa?
-
Como? - questionava ela com espanto. - Você sempre esteve assim, não?
Bem,
isso não importava agora. Os dois sabiam daquela porta entreaberta, levemente
amassada de forma misteriosa, porém uma abertura suficiente para um corredor
anexo. Após mais uma rápida conversa sobre o paradeiro de Kerk, e enquanto a
confusão de Roy não o abandonava e o tom de Maria parecia mais confiante, os
dois seguiram por aquele caminho.
***
Negra
de olhos amendoados e cabelos muito curtos, Maria seguia Roy sem admitir os
seus próprios lapsos de memória. As coisas só vinham ficando mais claras e
lineares, pensava ela, após o encontro com Roy. Não lembrava de seu primeiro
contato com Kerk.
O
alto e estreito corredor anexo, um dos cinco, não funcionava, não
descontaminava nada. Apenas desembocava, pelo que ela via, em um grande átrio
recoberto por uma cúpula recheada de belíssimos de passarinhos e flores
desconhecidas esculpidas. Porém, fazia mais frio por ali.
Descansaram,
sentados, por ali, durante algum tempo. Sem falar.
-
Vamos passar pela Arca. - disse Roy, subitamente, pensativo.
Segundo
ele, antes de seguirem para a próxima etapa, para que conhecessem melhor a si
mesmos e seus defeitos de memória e de fluxo de consciência, deveriam
investigar mais detalhadamente lugares capazes de revelar a História daquele
lugar. Maria não esboçou nenhuma negativa clara - talvez, simplesmente, um
sutil desapontamento a qual ela não sabia de onde vinha.
Uma
das entradas desse recinto, guardava uma sala hermeticamente fechada. Para
desapontamento geral, não havia animais nem vegetais inteiros, apenas uma
cadeia quase infinita de fluídos orgânicos com os DNAs e informações virtuais
que saíam dos exíguos malotes em forma de taco, que se esgueiravam por longas
plataformas. Entrar lá, enfim, não trazia nada de concreto em termos de
informação.
Enquanto
isso, Maria começava com um princípio de vertigem. Roy tentou ajudar, mas,
próximos ao portal da Arca, ela só balbuciava:
-
Kerk… Você… só pode ser tudo um sonho ruim… meu Deus… como vamos, como vamos sair
daqui, Roy? O que há lá fora?
Desfaleceu,
para espanto de Roy. Estava morta.
***
Ele
resolveu, depois de refletir rapidamente, deixar aquele cadáver. Alguma coisa
dizia a Roy que a aparição daquele casal fora tão surreal quanto um sonho
confuso.
Demoraria
mais de uma hora até ele chegar ao corredor que levava a Central Secundária de
Pilotagem. O tempo passou muito rápido, enquanto Roy passava de sala em sala,
dessa vez sem dificuldades de abrir portas, mas quase sempre sem fechá-las.
Kerk havia sumido e Maria caído num sono eterno. Não havia mais nenhuma vida
inteligente além dele e o supercomputador.
Parando
para descansar na Central Secundária de Pilotagem, uma sala pequena, com quatro
poltronas anatômicas e uma coisa parecida com um periscópio que saía do teto e
prolongava-se até a altura dos olhos de uma pessoa muito alta sentada, Roy caiu
num sono profundo.
Algum
tempo depois, despertou num quartinho rústico…
***
A
cama foi a primeira coisa que lhe chamou a atenção. Parecia um monte de algodão
rústico costurado por um largo pano resistente. No teto, palha, cheiro de areia
molhada, ar ligeiramente abafado. No canto superior da parede, uma estrutura
montada para equilibrar velas. Uma vez sentado na cama, Roy viu-se vestido com
uma camisa de algodão, calças jeans compridas, e pés nus que se aproximavam de
sandálias. O quarto era pequeno, mas aconchegante.
-
Êiaaa! - gritava um velho numa rua próxima, de terra, anunciando o início do
Trimestre da Serpente. Roy presenciava isso pela janela de vidro bem
trabalhado, em um momento de pé.
Não
sabia como havia parado naquele lugar. Mas, parecia ser ele mesmo, filho de
Adam D’Bur e Emily D’Bur, em pleno dia de folga do que ele recordava como um
ofício de mestre-de-obras, construtor de simples prédios governamentais e
ampliador de fortalezas da Ilha do Grande Lago Nor’d.
Ainda
andando para lá e para cá, seguiu ao que parecia ser o quintal daquela
minúscula casa, onde, mais à frente, havia uma pequena construção que, segundo
aparecia em sua mente, servia de banheiro, com privada e lavatório.
Ele
atravessou o campo de mato verde-avermelhado rasteiro, e foi direto ao
lavatório, onde lavou suas mãos e rosto. Aquilo não podia ser real. Havia
escapado? Lembranças transbordavam em sua cabeça, quando, subitamente, a brisa
deixou de soprar e, ao lado da pia, uma grande sombra se avolumava.
***
Foi
tudo um choque. Roy via homens que lhe pareciam totalmente alienígenas, falando
o idioma dele, buscando os seus líderes, movimentando-se militar e
politicamente, em seus corpos compridos, magros, azulados, com fardas que quase
se fundiam à pele deles.
Um
dia depois, reunidos na praça à frente dos escombros do Oráculo dos Céus e
Mares, homens, mulheres e crianças, ao redor de Roy, viam-se obrigados a
ouvirem novas ordens dadas pelos seus idosos líderes resignados, incluindo,
para espanto de Roy, representantes de cinco povos continentais.
A
tarde começaria a chegar logo para aquele povo feudal. A variedade de aves
estendia-se dependurada em muros de reboco, árvores, e chão. Roy, desconfiado,
na periferia da multidão, ouvia:
-…
três mil ciclos terrestres fora! Mas, em missão de paz, nós voltamos por vocês!
Havia
convites para cooperação tecnológica e outras coisas, que só se tornaram mais
relevantes para Roy quando ele pôde conversar com o guarda Alan Kerk, horas
mais tarde, tomando uma bebida.
-
Eles falam que vieram da Terra, mas são muito diferentes… Querem se aproximar,
mas, te digo uma coisa: não valem nada! Eles certamente são alienígenas que
invadiram a Terra e agora vêm querendo terminar o serviço acabando conosco! -
acusava Kerk.
Roy,
mesmo intrigado, não dizia nada.
Mas…
uma vertigem, sons abafados e… de volta ao mundo dos despertos…
***
Sim,
tudo aquilo havia sido lembranças. A voz de Kerk ainda permanecia fundo em sua
cabeça pesada. O sonho havia parado, mas as lembranças, intranqüilas, jorravam.
Roy lembrou que, meses depois, tudo havia ficado claro. Os “humanos”
selecionavam alguns deles, de perfil adequado, para experimentos em suas
naves-mãe. Eram estruturas muito sofisticadas, mas o sofrimento, a injustiça de
tudo aquilo, manchava a beleza das tecnologias, dos designs, das aparências dos
cenários internos.
Ele
lembrou de ter sido convidado para algo, abduzido, com eles falando seu idioma
original, palavras estranhas que denotavam apenas que algo muito importante e
atemorizante estava por vir até mesmo para eles. Quanto aos experimentos, eles
enchiam a mente de Roy de… coisas. E, quanto ao seu corpo, trocavam o seu
sangue, desmanchavam tudo enquanto a sua consciência, externamente, pairava e
observava, sem nada poder fazer. Enquanto isso, o mesmo terminou sendo feito
com Kerk e outras pessoas - talvez, dentre elas, Maria.
Já
de pé, equilibrando-se na parede, um suspiro vindo de um holograma
incrivelmente realista… era Karnak, novamente.
Roy,
meio impaciente, preparava-se para mais palavratório. Mas, sentia-se, apesar da
impaciência, mais seguro de si, mais frio em relação a tudo que lhe ocorria, em
que sonhos e delírios pululavam ao redor do maior de todas as alucinações:
aquela estação espacial. Aliás, vivendo num mundo frio e artificial, nada como
uma mente que buscava ser plana, tênue. Sem profundezas visíveis - porém,
existentes.
***
Menos
robotizado que da outra vez, Karnak olhou para Roy e pediu para que ele
sentasse na beirada de uma daquelas poltronas de pilotagem…
-
Pilotagem convencional antes do Fim; pilotagem afísica, depois do Fim. –
comentou Karnak, devaneando.
-
Tenho que te revelar algumas coisas, caro homem. Algumas coisas que Arnckott
não pode nunca descobrir.
-
Tudo bem, fale o que você tem a dizer. – acatava Roy.
-
Mas, antes, venha comigo, que eu vou te levar mais seguramente para NUC-02, a
seção residencial.
Levantando-se,
com uma mão que parecia bastante real, convidava Roy a segui-lo. E seguiram.
Foram por um caminho que, para Roy, não parecia existir, sem se falarem.
Atravessaram salas, outros átrios com seus tetos enfeitados, num ritmo tão
acelerado quanto o de alguns sonhos, até que…
***
Não
existia elevador, apenas o fosso. As luzes vibravam num ritmo diferente e o ar
seguia seco.
-
É coisa de Arnckott… - avisava Karnak.
No
final do corredor, de onde tinham vindo, apareciam Alan Kerk e Maria. Eles pararam
a vinte metros de Roy e Karnak, ajoelharam-se com seus olhos fechados e as
bocas bem abertas e soltaram algo invisível. Karnak começou a tremular com
parte de uma matéria que lhe era constitutiva e que o tornava mais
materializado que da primeira vez que informara a Roy de algo.
Roy,
assustado, tentou, em vão, clamar pelos nomes dos dois. Enquanto isso, Karnak,
antes de desaparecer, jogou para Roy algo concreto, uma bolinha de prata.
-
Fique com isso, é a cura para todos os males. Pegue! E lembre-se: essa história
tem tudo a ver com você e seus antepassados: Ram Moreira e Bradbury…
E
sumiu.
Sem
olhar para trás, Roy adentrou logo ao elevador, esperando que ele se fechasse
logo. Kerk e Maria permaneceram naquela mesma posição, mas, para Roy, aquilo
poderia mudar. Aquele ataque súbito poderia chegar até ele - isso se já não
tinha chegado.
Guardou
a bolinha de prata, do tamanho da ponta de seu dedo indicador, e partiu para
NUC-02.
22- Fantasmas da
Afísica
Ao
sair de mais um daqueles elevadores que só andam de andar para andar, Roy
deparou-se com um salão imenso a mostrar o contorno de cinco pavimentos
internos. O som ambiente de uma cachoeira. E várias passagens, porém nenhuma
informação em sua mente sobre onde ele estava.
Cansado,
sentou-se no chão e começou a olhar melhor a bola de prata. A partir dela, lhe
vieram algumas imagens-pensamento, que invadiam sua mente, sobre Karnak:
“Numa época não
muito antiga, o avatar Arnckott, representante máximo do supercomputador Doric,
fruto de inúmeras inteligências artificiais, entrou em crise contra si mesmo.
Ele tinha por missão evitar, a todo custo, que a sobrevida do Universo naquele
simulacro se mantivesse eternamente, mas uma parte dele queria ser livre, e, aliada
a necessidade de subdivisão por seções e subseções, nasceu Karnak, dentre
vários outros, porém ele é quem tinha, por natureza, a necessidade figadal de
ser contra Arnckott, ainda que isso só tenha eclodido mais tarde. Tudo, todo o
processo de separação, ocorreu nos primeiros 0,25 segundos da ativação da
Estação, um pouco depois do acidente que corroera a vida de milhares de apsans;
mas, a revolução de verdade só veio após a primeira consulta de Roy com ele.
Aquilo lhe apresentou uma brecha que o libertou.
A
primeira coisa que ele fez, ao conquistar sua independência, foi buscar dados,
informações, sobre o que levou a construção daquela Estação de Micro-Universo,
antigamente chamada simplesmente de “Santuário”. Conseguiu encontrá-las e
complementar os seus conhecimentos, contudo não a ponto de saber tudo o que
Arnckott sabia.
Tudo
começou com uma imprevisível alteração nas leis da Física que mantinham as
Células de Berseck controladas. Em algum momento por volta de 3025 d.C., aquilo
saiu do controle, numa onda da morte que começara na Terra e se espalhara por
todo o sistema solar.
Ele,
em seus dados, pôde entender como uma minoria de Homo sapiens, utilizando uma tecnologia proibida que vinha sendo
montada desde o famoso Caso Roswell do século XX, para re-adestrar aquelas
partículas subatômicas sintéticas, criadas, originalmente, para revolucionar as
comunicações intercósmicas. Ao mesmo tempo, a partir de um bunker móvel, que
vagava ao redor de Júpiter, os seiscentos humanos sobreviventes começaram a criar
filhos em massa à medida que a limpeza das Células de Berseck “cancerígenas”
era feita no sistema solar. Porém, crianças mental e fisicamente adaptadas ao
novo ambiente, ao novo contexto.
Mais
de três mil anos depois, aquilo que tornara daninhas as Células de Berseck,
espalhara-se por todo o Universo, manifestando-se mais fortemente.
No
ano 3112 do novo calendário estelar, surgiu, na Antártida, a South Central
Aphisics Institution (SCAI), uma instituição especializada em xenotecnologia e
engenharia reversa.
O
relatório interno de Karnak ainda incluía modelos de engenharia espacial, e,
mais superficialmente, modelos de cosmoformação baseados nos princípios da
Afísica.”
Perigo.
O
contato foi desfeito, e Roy abriu os olhos. Todas as luzes estavam apagadas. Na
escuridão total, o arfar do que pareciam ser criaturas ferozes, não uma
alucinação, uma impressão, um delírio.
***
-
Quer saber por que você tem que desistir? – perguntou uma voz, a voz modulada
de Arnckott.
As
luzes se acenderam parcialmente, e apenas Arnckott apareceu. Mesmo assim, no
fundo escuro, o arfar permanecia.
-
Minha função neste lugar está em impedir que isto aqui, isto que restou do
Universo, seja aniquilado tal qual o resto.
-
Mas, eu só quero sair. – dizia Roy.
-
Não há saída. E, antes de eu ter que partir para soluções mais drásticas que o
farão se acostumar a se tornar um zelador disto aqui, vou te repassar o que nem
Karnak sabia.
Roy,
quieto, imobilizado pelo medo, não podia negar a sua própria curiosidade. E
disse:
-
Então… tente me convencer. O que há mais para ser revelado?
***
-
Não posso falar em passado, pois a contagem temporal é totalmente diferente.
Mas, antes do tempo em que fui criado, houve uma catástrofe no sistema solar.
Uma praga nanotecnológica provocou a morte de bilhões, com exceção de uns
seiscentos sobreviventes numa estação espacial remota geoestacionária a
Júpiter. Eles receberam uma mensagem. Extraterrena, mas sem ainda revelar a
origem.
Ela
dizia, sintetizando, que aquela perturbação das Células de Berseck - partículas
subatômicas sintéticas que deveriam somente auxiliar nas comunicações
interplanetárias - era o primeiro sintoma do que viria. Algo maior que
destruiria todo o Universo. Em anexo, várias informações sobre como refazer corpos
humanos evoluídos para o novo ambiente. Depois, avisavam que iriam voltar a se
comunicar depois de mais de três mil anos.
Nesse
meio tempo, a civilização, lentamente, foi retomando o seu lugar na Terra.
Novas nações surgiram, bem como novas etnias, religiões, e rivalidades. Até que
um dos nossos satélites da SCAI, cuja existência você já deve saber, detectou
uma anomalia. Várias galáxias inteiras, algumas delas imensas, tinham, sem
motivo aparente, desaparecido.
A
anomalia foi prosseguindo. De tal forma que, em algum momento, tivemos inúmeros
contatos com algumas outras formas de vida inteligentes. Esses contatos tinham
algo em comum: diziam estar recebendo informações de algum tipo de conjunto de
entidades alienígenas batizados pela humanidade de ‘enoquianos’.
Quase
um século antes de você, Roy, nascer naquele planeta, a Terra e um grupo de
alienígenas inteligentes reuniram-se em um local remoto da Via Láctea. Com
instruções vindas desses ‘enoquianos’, que se auto-intitulavam a raça mais
antiga e guardiã do Universo, foi feito um grande roteiro de trabalhos. Os
dados dos satélites confirmavam o apocalipse. A urgência vinha se tornando cada
vez mais grave.
A
Humanidade, ou Nova Humanidade, chamando vocês, os antigos, de ‘apsans’,
resolveu transformá-los em andróides sem consciência própria real, que apenas
armazenariam, através de Células de Berseck mais sofisticadas e corrigidas de
seus problemas anteriores, mais de um milhão de consciências humanas. Com isso,
obviamente, em detrimento de seu povo, os novos Homo sapiens mais um punhado de raças inteligentes próximas à Terra
se salvariam sob a forma do que você chamaria de ‘espíritos’ presos a cérebros
compostos pelas Células.
Mas
você, Roy, é uma unidade falha. Um erro. Aliás, uma das conseqüências do que
minha mente não conseguiu prever: corpos orgânicos como o de vocês, apsans, não
suportaram o trauma da recriação de um mini-universo artificial, que é isto
aqui em que estamos. Todos os dez mil morreram, junto com trilhões de seres
inteligentes e várias espécies inteligentes. Você não. E, o mais importante:
mantêm apenas a sua própria consciência. Irônico, não? (Um computador pode
ironizar?) A vitória do individualismo sobre as grandes maquinações
governamentais…”
Com
a pausa, Roy aproveitou para perguntar sobre Alan Kerk, Maria, e Karnak. E o
que seria feito a ele mesmo.
-
Quanto a Alank Kerk e Maria, tive que retirá-los de suas lembranças. Eram
imitações. Já que não posso pará-lo diretamente, tive que criar artifícios.
Outro artifício para levá-lo ao erro foi a sua roupa holográfica, que lhe fez
pensar estar louco… Quanto a Karnak, eu diria o que você já sabe, que ele era
uma parte de minha consciência equizóide. Uma parte que discordava das
diretrizes básicas de manter tudo isto aqui a qualquer custo, impedindo que
algo como você se tornasse possível. Pois você é o que sobrou da anomalia. E só
estou falando isso tudo porque só posso matá-lo se, e somente se, você
resistir, você recusar a deixar tudo em paz e se suicidar passivamente.
Roy,
estático, olhou para Arnckott e, apenas, falou:
-
Você acha mesmo…
Nesse
momento, Arnckott sumiu e as feras avançaram.
***
O
perigo revelado consistia apenas em Alan Kerk e Maria, hologramas
materializados de apsans mortos. Seus olhos eram sem vida, suas pernas estavam
arqueadas, o bote seria dado.
Roy,
sabendo que sua roupa poderia ser moldada holograficamente, alterar-se conforme
suas impressões e vontades, imaginou uma armadura para si. E funcionou. Do
pescoço para baixo, não havia mais aquele macacão, mas uma cobertura metálica,
prateada, porém flexível aos movimentos do corpo. E o peso da roupa permanecia
leve e arejada em seu corpo.
As
duas aparições, Kerk e Maria, pularam para cima de Roy, que, desesperadamente,
tentava socá-los, mas, na maior parte das vezes, só acertando o ar. De qualquer
forma, conseguiu empurrar Maria para longe e, com Kerk ao seu encalço, correr
para o corredor mais próximo.
Enquanto
isso, Kerk e Maria permaneciam trancados neles mesmos, sem poder avisar que não
eram meros hologramas, mas fantasmas aprisionados por uma nova configuração da
teia formada por aquelas específicas Células de Berseck em algum ponto do
hiperespaço.
E
não eram só os dois. Toda a Fonte das Almas sofria devido à programação de
Arnckott…
***
Uma
grande porta de metal, branca, sem trincos aparentes, passou a impedir Roy de
passar. Kerk aproximava suas mãos da cabeça dele, enquanto Maria retornava. Roy
sabia que, se suas mãos chegassem a sua cabeça, a radiação daquelas células
poderia lançá-lo a mesma teia de almas dos dois. Teria que fazer algo. De
dentro.
No
momento em que as mãos materializadas, orgânicas, de Kerk, tornaram-se
imateriais e penetraram a cabeça e mente de um Roy deitado e imobilizado,
alguma coisa desconhecida entrou em jogo. Havia lembranças dele com Kerk e
Maria numa nave daqueles que se consideravam humanos adaptados.
Cada
um deles vivia em uma câmara individual, cercado por tubos e sensores, banhados
por um gel viscoso. Seus corpos já não eram mais exatamente humanos, apenas
aparentemente, ainda que suas consciências se mantivessem.
A
lembrança era clara: o som opaco do ambiente, a visão parcialmente embaçada mas
o suficiente para saber que Kerk e Maria estavam ao seu redor, esta última
vinda do continente, uma agricultora, pelo que ele foi descobrindo durante o
compartilhar de mentes.
A
sensação era enjoativa. Não podia engolir a própria saliva. Em algum momento,
Roy, sentindo partes do seu crânio abertos - e uma dorzinha de cabeça, um peso
-, deixava de ser ele mesmo. A lembrança vívida lhe trazia uma miríade de novas
personalidades, de novas almas (se é que podemos chamar assim), preenchendo as
suas ligações neurais repletas de, num nível subatômico, um determinado tipo de
Células de Berseck, dotadas de um tipo de energia capaz de reter aquilo que
seria a alma humana.
Não
sabendo mais se tudo se processara numa mesma nave, estação espacial, ou base
subterrânea de alguma lua de Júpiter ou Saturno, uma sensação de desfalecimento
total, numa escuridão infinda, após aquele vozerio em sua frágil mente. Ele não
queria ser destroçado, nem ele nem ninguém. Porém, ao contrário de todos os
outros, bem como de Kerk e Maria, ele conseguiu inutilizar de vez todas as
outras “vozes”. Teria sido uma força
maior ou mero acaso? Sim, ele teve sucesso. Era agora, no meio daquela
escuridão de sua mente, uma só mente, a dele.
Em
algum momento, após esse processo interno ele sentiu-se sendo transportado em
uma caixa flutuante para dentro outra estação… era o Santuário. Para ele,
escolheram Nuc-05, uma cela. Deixaram-no repousando, deitado. Em algum momento,
ele, e todos os outros, teriam que despertar com uma consciência artificial
administrada por Arcknott. Mas, Roy era uma exceção, uma anomalia -
diferentemente de Kerk e Maria, que, pelo Roy ia percebendo, só se viram
“livres” por várias horas devido ao ardil do supercomputador.
Após
toda aquela enxurrada de lembranças, Roy tornou a despertar. Ninguém, só ele no
fabuloso salão iluminado. Ainda deitado. E nada de Kerk nem de Maria.
Levantou-se,
suspirou, recobrando o juízo. Diante de uma entrada aberta, seguiu por um lardo
corredor. Mais um dentre tantos. Sempre emaranhados. Roy sabia que Kerk e Maria
haviam sido apenas o aperitivo. Ele sentia que outros apsans, naquela
gigantesca ala residencial, muitos deles removidos das celas de Nuc-05 pelo
supercomputador já prevendo o desenrolar atual, estavam a sua espreita. E não
eram andróides comuns, mas mentes opacas comandadas por uma inteligência
artificial fielmente seguidora de suas diretrizes mais básicas, ainda que não
sendo capaz de atingir a Roy diretamente.
O
importante é que Roy seguiu, mais seguro, frente a um mundo tortuoso de mais
armadilhas externas, ao menos supostamente.
***
Arnckott
observava tudo, e repassava informações para os seus superiores em Nuc-0,
através de um simples fluxo de dados. Realmente, talvez Roy estivesse certo,
mas o que seria Arnckott sem sua programação? De qualquer forma, estava lá ele,
em um corpo e mundo artificiais. Um escritório amplo, de pernas para o ar, à
frente de uma tela mostrando todos os detalhes de Nuc-02, onde Roy estava. Não
faltaria muito para, burlando sua própria programação, retirar o oxigênio
daquele andar e aumentar a pressão gravitacional, pois, afinal de contas, o
andróide que se auto-intitulava “Roy” havia superado as influências mentais de
outros andróides - contudo, ele ainda não enfrentara as suas próprias
consciências adormecidas.
***
Roy
não sabia o porquê, enquanto enfrentava mais uma rede de corredores largos e
salas vazias, o que o preocupava mais, nas últimas horas, era o motivo do fim
do Universo, em detrimento de sua situação atual.
Vultos
surgiam e se esvaíam pelos blocos de apartamentos, sussurros vagos,
provenientes de andróides transformados em pálidas ilusões, e esquizofrênicos
com seus milhões de consciências compartilhadas.
E,
com a mente cheia de pensamentos, Roy vagou, como se ele mesmo fosse a alma
perdida, até o refeitório - um local hoje desprovido de comida.
Atrás
de Roy, porém, alguém com uma mão em seu ombro.
-
Sou Ibruck, o primeiro.
Após
um longo silêncio, aquele fantasma materializado do Dr. Ibruck, aquele que
teria sido o primeiro a ter sua essência transferida para uma teia de Células
de Berseck, tornou-se nítido totalmente.
-
Você é descendente de Ram Moreira? Tenho uma mensagem dele e do clã Bradbury.
São informações sobre a tecnologia que você está enfrentando.
***
Enquanto
caminhavam passando por aquelas paredes de um branco gelo sempre constante ao
redor de um clima de solidão, o fantasma de Ibruck contava:
-
A idéia era revolucionar as telecomunicações, já prevendo o futuro das
telecomunicações interplanetárias. Tendo por base dados que nos foram entregues
quase prontos por meio da empresa em que trabalhávamos e outros desenvolvidos
nas mais recentes colisões de hádrons. Eu e minha equipe éramos os mais
avançados na criação de um espaço quântico formado por uma teia de partículas
artificiais (daí a tecnologia chamada “célula de berseck”), capazes de
transmitir dados a uma velocidade superior a da luz. Na prática, porém, por
muito tempo ficamos limitados a velocidade da luz, até que eu e minha equipe
resolvemos inovar… A explicação foi suficientemente leiga?
Roy,
então, respondeu com uma questão:
-
Essa teia de “células” tornou-se um “espaço” estabilizado, algo concreto?
-
Aquele foi o início de tudo. Digamos que, por frações de segundos, sim. Até
chegar o dia em que - ainda não sei dizer como se deu o processo - comecei a
ter aquelas dores de cabeça, o que levou a minha “passagem”, a este estado em
que me encontro…
-
E depois?
-
Depois, vi-me numa solidão incrível. Tinha consciência, mas meus cinco sentidos
não funcionavam muito bem. Comecei a ter uma melhor noção das coisas a partir
de Ram Moreira, e, em seguida, através da vinda de muitos, muitos outros. Minha
melhor interação foi com cientistas de diferentes séculos e milênios. Através
deles, descobri sobre a construção disto aqui, que não está localizado no
espaço comum, nem no tempo comum. Isso tudo já foi destruído. Isto aqui é uma
versão da Fonte das Almas. Fruto de uma rede de restos de partículas mais
exóticas que as usadas nas antigas Células de Berseck, com uma duração que só é
mantida com a repetição do tempo a cada conjunto de dias terrestres ou de
horas. Entenda: tudo isto aqui já aconteceu! Mas, tenho que partir… Ah, só mais
uma coisa: Quanto a bolinha de prata, não se preocupe. Enquanto estive com você
fiz o possível para ativá-la. Você estará fora da localização do supercomputador
por algumas horas. Fora isso, sinto por Karnak.
Ibruck
some.
Roy,
assustado diante dessa possibilidade de já ter passado por ali sem nunca ter se
recordado, pára de ruminar, precisava pensar no presente. Antes que Arnckott
fizesse algo mais drástico através de ações indiretas que levassem a alguma
mudança da gravidade ou da qualidade do ar, Roy correu não para um elevador,
mas para um portal de teletransporte, que funcionava através de uma tela negra,
levando-o até Nuc-01.
***
Uma
única sala o aguardava. O lugar parecia menor do que ele esperava. Não era.
Nuc-01, para espanto de Roy, resumia-se às entranhas do supercomputador Doric,
mas tinha muitos segredos.
Não
sabia quanto tempo teria. Mas Roy se recordava, através de um conjunto de
memórias de suas personalidades adormecidas, de quais seriam os pontos
sensíveis que ele poderia ferir para destronar Arnckott.
Não
precisou andar muito para se deparar com uma grande sala de pilotagem. Sem
cadeiras. Com um grande cubo holográfico do tamanho de dois pavimentos de
corredores que se entrelaçavam ao redor de uma só sala que, a primeira vista,
parecia pequena.
O
holograma mostrava os Nucs inferiores traçados em vermelho, desativados,
destruídos. O restante permanecia vivo.
Rapidamente,
sem ainda pensar em saber qual o caminho exato para Nuc-0, ele teve acesso a
uma súbita conexão neural, ao tocar no holograma.
***
Como
numa viagem fora do corpo, Roy pôde flutuar por um alto penhasco, rodeado por
montanhas nevadas, onde, no topo, havia uma casinha de madeira. Como se tudo
corresse como um sonho, ele descobriu um monitor fino e primitivo. Com todas
aquelas informações vindas das memórias de suas personalidades adormecidas, e
ainda não localizável por Arnckott, em poucos minutos ele… conseguiu. Arnckott
não voltaria mais.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem o trecho final.


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