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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O NÚCLEO (Capítulos 21 e 22)

21- Delírios


A enxaqueca, naquele cubículo de elevador, incomodava mais Roy que seus acompanhantes. A breve subida, mais silenciosa que no elevador anterior, demorava demais. Por um momento, uma sensação de peso e tontura tomou Roy, fazendo-o se enxergar em outro elevador, com um aspecto cinzento, feito de um metal mais grosseiro. Nesse mundo, ele era Solomon H. Bradbury, vestido como mais um engenheiro de comunicações espaciais, rumo a uma missão naquele mês de agosto de 3025.
Na estação lunar Casablanca, o escritório daquele jovem engenheiro de procedência canadense, cabelos grandes e mal penteados, pele pálida e olheiras marcantes, enchia-se de um aroma artificial, pontuado por móveis de madeira nobre antiga, e as coisas às quais Bradbury se distanciaria para a sua estada em um planeta fora do nosso Sistema Solar. Parecido com a Terra, e localizado a seis anos-luz, Arcanus II revelava uma excelente oportunidade para um profissional em início de carreira sem parentes próximos. Por enquanto, o grande revés estaria, porém, na longa viagem de praticamente seis anos, a 99,99 por cento da velocidade da luz. Mas, a tecnologia que permitia isso já poderia ser considerada segura, nas suas décadas de uso humano desde a descoberta do sistema solar Arcanus.
Enfim, toda essa novidade fazia aquele engenheiro de comunicações espaciais não sentir as horas de sono perdida, enquanto seguia até o deque de Casablanca para pegar a sua primeira nave para a Estação Internacional, de onde partiria o seu derradeiro vôo a inaugurar a sua missão.


***


Continuando o delírio de Roy, através de sua mente confinada num elevador high-tech, podia-se entrever a presença de Bradbury num gigantesco espaçoporto - com um espaço por onde as naves atracavam lateralmente conforme as suas dimensões - capaz de receber até dezessete voos interplanetários diários, mais um, mensalmente, para o planeta Arcanus.
Numa sala de espera, com a gravidade artificial em bom estado, estavam Bradbury, e uma amiga, a exobióloga Chris Viggs, além de outras treze pessoas. O auto-falante, com uma doce voz feminina, anunciava o início da viagem para as próximas duas horas, além de propagandear as vantagens da qüinquagésima viagem a um destino tão “inédito” e distante. O que interessa é que os dois já vinham numa longa conversa. E, em algum momento:

- Quer dizer que, durante os anos de vôo, não envelheceremos muito? – perguntava Viggs, com seus olhos resplandecentemente verdes.

- Não, no máximo alguns meses biológicos se passarão num universo de anos. Nem se preocupe. Além disso, são raros os casos de acidentes nas câmaras de suspensão. Mas, devo admitir, que o vôo é meio receoso… - respondia ele.

Após algum tempo, Bradbury ainda tentou perguntar qual seção ela iria passar a chefiar, mas o chamado já estava sendo dado. Formando uma fila, os quinze foram se encaminhando a um guichê de escaneamento, e, em seguida, foram adentrando a monumental nave Classe Echo, intitulada SS-781.


***


Deitado em sua cápsula, Bradbury, com seu macacão a pontuar todas as atividades de seu corpo de acordo com o aparelho, temia a escuridão que viria. Voltava a sua mente as dúvidas de Viggs, porém, a perspectiva de seu trabalho a enriquecer o seu currículo, e de toda sensação de poder ao se ver capaz de viajar para tão longe… enquanto isso, o raciocínio tornava-se mais lento, as imagens e os sons do vidro temperado da cápsula ficavam vagos, tudo ia se esvaindo, lentamente.
A transição daquele universo para o mundo real, para o mundo de Roy, foi rápida. Tudo durara menos de dois segundos, e Kerk e Maria mal perceberam o mal-estar do companheiro.
As coisas se misturavam, mas não perdiam a coerência.

- Vamos? - questionava Maria, uma mulher com uma personalidade tão “adormecida” quanto os outros dois, enquanto Kerk cutucava Roy no ombro.

- Sim, vamos. – despertava Roy, com uma leve dor nas têmporas.

À frente do elevador, uma parede repleta de sensores aparentemente desligados, sob a forma de pequenas cúpulas negras, em meio a duas entradas a uma espécie de sala de espera.
Em sua mente, Roy, Kerk, e Maria, percebiam os dizeres: NUC-03, e SALA DE ESPERA PARA DESCONTAMINAÇÃO. Mais adiante: BANHEIROS, ARCA, SEÇÃO DE CONTENÇÃO DE MATÉRIA-PRIMA com a SUBSEÇÃO DE MATERIAIS PERIGOSOS, CENTRAL SECUNDÁRIA DE PILOTAGEM, PONTO DE PASSAGEM PARA NUC-02 E NUC-08. Os dois últimos itens suscitavam dúvidas óbvias.
Voltando às atividades práticas, Kerk, tomando a frente, percebia que as cinco grandes portas da frente, após uma sala de espera de vários metros, estavam trancadas.

- E nada de canais de ventilação. Parece que o lugar é mais sofisticado, ou mais idiota, do que pensávamos. – concluía Kerk.

- Roy? – perguntava Maria – Roy? Você está bem?

Roy havia agora desmaiado totalmente. Com um sinal na cabeça, Kerk indicava que precisaria de ajuda para colocá-lo nas poltronas.

- O que há com ele?

- Maria, opte pela pergunta mais importante… não sabemos nem onde estamos, nem quem somos ou de onde viemos, nem o porquê disto tudo. Acredito que ele esteja, simplesmente, exausto. Seus sinais vitais não estão ruins… poderíamos aproveitar para pensar em como sair daqui depois de uma dormida.

Já fazia mais de um dia de jornada, e, apesar deles nunca terem fome ou sede, sempre seria necessário umas horas de sono.
Na mente de Roy, porém, tudo funcionava muito rápido. Bradbury, após anos, estava pronto para despertar.


***


Com dormências e dores pelo corpo, Bradbury, subitamente, via-se de pé. Não se lembrava de ter se levantado. A maioria já havia despertado e, naquele recinto de cápsulas para viajantes em animação suspensa, gente de fora invadia tudo, armados, numa algazarra que não deixava entrever facilmente o que acontecera.
Próximo a ele, havia um homem quase idoso, também confuso e recém-desperto, que parecia ter despertado de uma crise de sonambulismo.
Mais adiante, um grupo de seis homens chegava em direção aos dois. Um deles, de postura militarizada, disse:

- Engenheiro Solomon H. Bradbury? Dr. Raymond Vergueiro? Sigam-nos.


***


A nave auxiliar da SS-781, finalmente livre para deixar Bradbury e outros em Arcanus, além de pequena, não tinha gravidade. A paisagem rápida quase não pôde ser apreciada, e o piloto parecia nervoso, ainda que sua função fosse apenas controlar a guia programática daquela espaçonave em parte dirigida remotamente.
Uma voz programática emitia dados isolados sobre o planeta, sem entusiasmo: “Arcanus II possui clima predominantemente tropical e subtropical, uma gravidade quase idêntica a da Terra, e uma imensa fauna de aves esplendorosas… o planeta foi colonizado há duzentos e dezessete anos pela histórica United System Solar em parceria com a Huxley Dynamics… sua atual capital administrativa é Austral Port, com uma cidade projetada para até os atuais cem mil habitantes, às margens do imenso Lago Norda, cuja principal ilha, de mesmo nome, mantêm a sede da atual United Stars Company, companhia primordial da… nosso governador-geral é o Dr. Hakk Stein Oteli e sua competente equipe…”
Após algumas horas, mais próximos do espaçoporto de Austral Port, sem que fosse possível, ainda, enxergar o horizonte, Bradbury não pôde sentir muita diferença na gravidade. Ao abrir das portas, ele se deparou com um vasto espaçoporto cercado de pequenos veículos de controle, funcionários, e, mais adiante, edifícios sofisticados e árvores imensas. O clima era aprazível, normal, num ambiente cheio de brisas.
Vários oficiais apareceram de repente. Não eram os mesmos de antes. Sérios, pediram que o grupo os seguisse a pé até o edifício central, onde, segundo eles, algo de extrema importância os seria comunicado.


***


O aparato era simples. O ambiente, fechado. E o salão, amplo. Bradbury podia observar, de pé, um sujeito de rosto suado, de postura marcial, ao lado de outros, rodeado por aquele grupo específico de passageiros, do alto de sua farda, declarar:

- Serei direto, perante a gravidade da questão: informamos aos senhores que, nos últimos dois anos, não obtivemos nenhum contato com a Terra ou com as estações espalhadas pelo sistema solar. Meses antes disso, o último contato foi sobre o que parecia ser mais uma pequena e limitada epidemia nanotecnológica, e a proibição de qualquer contato físico entre nossa frota e o sistema solar. Porém, dada a demora, acreditamos que o caso foi muito mais sério e diferente das epidemias anteriores. Além disso, não pudemos enviar nenhuma sonda, inclusive. Simplesmente devido a já conhecida natureza peculiar dos vírus nanotecnológicos sobre qualquer aparato também inorgânico.
“Sob lei marcial, declarada há quase dois anos pelo nosso governador-geral, direi alguns nomes de engenheiros, médicos, e alguns outros especialistas que ficarão aqui, no interior continental, ou na ilha Norda. (…)”
Muito mais foi dito, e muito foi questionado com uma inesperada disciplina, levando, ao final, a um silêncio pesado. Alguns choravam, mas, a maioria, friamente, permanecia serena, tal qual Bradbury. O mesmo padrão já havia sido repetido com os grupos anteriores e posteriores de passageiros e tripulantes para ali chamados.
Escolhido para a ilha, enquanto Viggs seria transferida para o interior daquele continente-pangéia, após um dia de vinte e cinco horas Bradbury, com suas duas malas, teve que seguir para o porto, acomodar-se num barco capaz de pairar sobre as águas, e seguiu numa viagem de seis horas para o seu destino.


***


Roy abre os olhos. O que vê não passa de uma imagem retorcida, debaixo de um ar tênue, e uma ausência de cheiro. Em seguida, a imagem melhora, e ele se vê novamente no primeiro recinto em NUC-03.

- Kerk? Maria? - busca Roy.

Ninguém por perto. Ninguém respondia. Mas, agora, Roy percebe: não vestia mais aquelas roupas que o diferenciavam, mas o mesmo macacão sob medida do casal que o acompanhava. Teriam sido os dois uma fantasia? Teria sido o seu deslocamento e a sua percepção de vestimenta uma ilusão?

Não.

- Roy? Roy? Finalmente. Kerk sumiu. - dizia uma Maria com voz aliviada, mas, ainda, preocupada.

- Espere, espere… Quanto tempo eu fiquei desacordado? E onde está Kerk? – perguntava Roy, enquanto se levantava.

- Devem ter sido horas… Quanto a Kerk, em algum momento, ele disse ter conseguido achar uma passagem. Abriu aquela porta ali e se foi. - dizia ela, ainda chorosa, porém mais controlada.

- E… você trocou minha roupa?

- Como? - questionava ela com espanto. - Você sempre esteve assim, não?

Bem, isso não importava agora. Os dois sabiam daquela porta entreaberta, levemente amassada de forma misteriosa, porém uma abertura suficiente para um corredor anexo. Após mais uma rápida conversa sobre o paradeiro de Kerk, e enquanto a confusão de Roy não o abandonava e o tom de Maria parecia mais confiante, os dois seguiram por aquele caminho.


***


Negra de olhos amendoados e cabelos muito curtos, Maria seguia Roy sem admitir os seus próprios lapsos de memória. As coisas só vinham ficando mais claras e lineares, pensava ela, após o encontro com Roy. Não lembrava de seu primeiro contato com Kerk.
O alto e estreito corredor anexo, um dos cinco, não funcionava, não descontaminava nada. Apenas desembocava, pelo que ela via, em um grande átrio recoberto por uma cúpula recheada de belíssimos de passarinhos e flores desconhecidas esculpidas. Porém, fazia mais frio por ali.
Descansaram, sentados, por ali, durante algum tempo. Sem falar.

- Vamos passar pela Arca. - disse Roy, subitamente, pensativo.

Segundo ele, antes de seguirem para a próxima etapa, para que conhecessem melhor a si mesmos e seus defeitos de memória e de fluxo de consciência, deveriam investigar mais detalhadamente lugares capazes de revelar a História daquele lugar. Maria não esboçou nenhuma negativa clara - talvez, simplesmente, um sutil desapontamento a qual ela não sabia de onde vinha.
Uma das entradas desse recinto, guardava uma sala hermeticamente fechada. Para desapontamento geral, não havia animais nem vegetais inteiros, apenas uma cadeia quase infinita de fluídos orgânicos com os DNAs e informações virtuais que saíam dos exíguos malotes em forma de taco, que se esgueiravam por longas plataformas. Entrar lá, enfim, não trazia nada de concreto em termos de informação.
Enquanto isso, Maria começava com um princípio de vertigem. Roy tentou ajudar, mas, próximos ao portal da Arca, ela só balbuciava:

- Kerk… Você… só pode ser tudo um sonho ruim… meu Deus… como vamos, como vamos sair daqui, Roy? O que há lá fora?

Desfaleceu, para espanto de Roy. Estava morta.


***


Ele resolveu, depois de refletir rapidamente, deixar aquele cadáver. Alguma coisa dizia a Roy que a aparição daquele casal fora tão surreal quanto um sonho confuso.
Demoraria mais de uma hora até ele chegar ao corredor que levava a Central Secundária de Pilotagem. O tempo passou muito rápido, enquanto Roy passava de sala em sala, dessa vez sem dificuldades de abrir portas, mas quase sempre sem fechá-las. Kerk havia sumido e Maria caído num sono eterno. Não havia mais nenhuma vida inteligente além dele e o supercomputador.
Parando para descansar na Central Secundária de Pilotagem, uma sala pequena, com quatro poltronas anatômicas e uma coisa parecida com um periscópio que saía do teto e prolongava-se até a altura dos olhos de uma pessoa muito alta sentada, Roy caiu num sono profundo.
Algum tempo depois, despertou num quartinho rústico…


***


A cama foi a primeira coisa que lhe chamou a atenção. Parecia um monte de algodão rústico costurado por um largo pano resistente. No teto, palha, cheiro de areia molhada, ar ligeiramente abafado. No canto superior da parede, uma estrutura montada para equilibrar velas. Uma vez sentado na cama, Roy viu-se vestido com uma camisa de algodão, calças jeans compridas, e pés nus que se aproximavam de sandálias. O quarto era pequeno, mas aconchegante.

- Êiaaa! - gritava um velho numa rua próxima, de terra, anunciando o início do Trimestre da Serpente. Roy presenciava isso pela janela de vidro bem trabalhado, em um momento de pé.

Não sabia como havia parado naquele lugar. Mas, parecia ser ele mesmo, filho de Adam D’Bur e Emily D’Bur, em pleno dia de folga do que ele recordava como um ofício de mestre-de-obras, construtor de simples prédios governamentais e ampliador de fortalezas da Ilha do Grande Lago Nor’d.
Ainda andando para lá e para cá, seguiu ao que parecia ser o quintal daquela minúscula casa, onde, mais à frente, havia uma pequena construção que, segundo aparecia em sua mente, servia de banheiro, com privada e lavatório.
Ele atravessou o campo de mato verde-avermelhado rasteiro, e foi direto ao lavatório, onde lavou suas mãos e rosto. Aquilo não podia ser real. Havia escapado? Lembranças transbordavam em sua cabeça, quando, subitamente, a brisa deixou de soprar e, ao lado da pia, uma grande sombra se avolumava.


***


Foi tudo um choque. Roy via homens que lhe pareciam totalmente alienígenas, falando o idioma dele, buscando os seus líderes, movimentando-se militar e politicamente, em seus corpos compridos, magros, azulados, com fardas que quase se fundiam à pele deles.
Um dia depois, reunidos na praça à frente dos escombros do Oráculo dos Céus e Mares, homens, mulheres e crianças, ao redor de Roy, viam-se obrigados a ouvirem novas ordens dadas pelos seus idosos líderes resignados, incluindo, para espanto de Roy, representantes de cinco povos continentais.
A tarde começaria a chegar logo para aquele povo feudal. A variedade de aves estendia-se dependurada em muros de reboco, árvores, e chão. Roy, desconfiado, na periferia da multidão, ouvia:

-… três mil ciclos terrestres fora! Mas, em missão de paz, nós voltamos por vocês!

Havia convites para cooperação tecnológica e outras coisas, que só se tornaram mais relevantes para Roy quando ele pôde conversar com o guarda Alan Kerk, horas mais tarde, tomando uma bebida.

- Eles falam que vieram da Terra, mas são muito diferentes… Querem se aproximar, mas, te digo uma coisa: não valem nada! Eles certamente são alienígenas que invadiram a Terra e agora vêm querendo terminar o serviço acabando conosco! - acusava Kerk.
Roy, mesmo intrigado, não dizia nada.
Mas… uma vertigem, sons abafados e… de volta ao mundo dos despertos…


***


Sim, tudo aquilo havia sido lembranças. A voz de Kerk ainda permanecia fundo em sua cabeça pesada. O sonho havia parado, mas as lembranças, intranqüilas, jorravam. Roy lembrou que, meses depois, tudo havia ficado claro. Os “humanos” selecionavam alguns deles, de perfil adequado, para experimentos em suas naves-mãe. Eram estruturas muito sofisticadas, mas o sofrimento, a injustiça de tudo aquilo, manchava a beleza das tecnologias, dos designs, das aparências dos cenários internos.
Ele lembrou de ter sido convidado para algo, abduzido, com eles falando seu idioma original, palavras estranhas que denotavam apenas que algo muito importante e atemorizante estava por vir até mesmo para eles. Quanto aos experimentos, eles enchiam a mente de Roy de… coisas. E, quanto ao seu corpo, trocavam o seu sangue, desmanchavam tudo enquanto a sua consciência, externamente, pairava e observava, sem nada poder fazer. Enquanto isso, o mesmo terminou sendo feito com Kerk e outras pessoas - talvez, dentre elas, Maria.
Já de pé, equilibrando-se na parede, um suspiro vindo de um holograma incrivelmente realista… era Karnak, novamente.
Roy, meio impaciente, preparava-se para mais palavratório. Mas, sentia-se, apesar da impaciência, mais seguro de si, mais frio em relação a tudo que lhe ocorria, em que sonhos e delírios pululavam ao redor do maior de todas as alucinações: aquela estação espacial. Aliás, vivendo num mundo frio e artificial, nada como uma mente que buscava ser plana, tênue. Sem profundezas visíveis - porém, existentes.


***


Menos robotizado que da outra vez, Karnak olhou para Roy e pediu para que ele sentasse na beirada de uma daquelas poltronas de pilotagem…

- Pilotagem convencional antes do Fim; pilotagem afísica, depois do Fim. – comentou Karnak, devaneando.

- Tenho que te revelar algumas coisas, caro homem. Algumas coisas que Arnckott não pode nunca descobrir.

- Tudo bem, fale o que você tem a dizer. – acatava Roy.

- Mas, antes, venha comigo, que eu vou te levar mais seguramente para NUC-02, a seção residencial.

Levantando-se, com uma mão que parecia bastante real, convidava Roy a segui-lo. E seguiram. Foram por um caminho que, para Roy, não parecia existir, sem se falarem. Atravessaram salas, outros átrios com seus tetos enfeitados, num ritmo tão acelerado quanto o de alguns sonhos, até que…


***


Não existia elevador, apenas o fosso. As luzes vibravam num ritmo diferente e o ar seguia seco.

- É coisa de Arnckott… - avisava Karnak.

No final do corredor, de onde tinham vindo, apareciam Alan Kerk e Maria. Eles pararam a vinte metros de Roy e Karnak, ajoelharam-se com seus olhos fechados e as bocas bem abertas e soltaram algo invisível. Karnak começou a tremular com parte de uma matéria que lhe era constitutiva e que o tornava mais materializado que da primeira vez que informara a Roy de algo.
Roy, assustado, tentou, em vão, clamar pelos nomes dos dois. Enquanto isso, Karnak, antes de desaparecer, jogou para Roy algo concreto, uma bolinha de prata.

- Fique com isso, é a cura para todos os males. Pegue! E lembre-se: essa história tem tudo a ver com você e seus antepassados: Ram Moreira e Bradbury…

E sumiu.
Sem olhar para trás, Roy adentrou logo ao elevador, esperando que ele se fechasse logo. Kerk e Maria permaneceram naquela mesma posição, mas, para Roy, aquilo poderia mudar. Aquele ataque súbito poderia chegar até ele - isso se já não tinha chegado.
Guardou a bolinha de prata, do tamanho da ponta de seu dedo indicador, e partiu para NUC-02.


22- Fantasmas da Afísica


Ao sair de mais um daqueles elevadores que só andam de andar para andar, Roy deparou-se com um salão imenso a mostrar o contorno de cinco pavimentos internos. O som ambiente de uma cachoeira. E várias passagens, porém nenhuma informação em sua mente sobre onde ele estava.
Cansado, sentou-se no chão e começou a olhar melhor a bola de prata. A partir dela, lhe vieram algumas imagens-pensamento, que invadiam sua mente, sobre Karnak:

Numa época não muito antiga, o avatar Arnckott, representante máximo do supercomputador Doric, fruto de inúmeras inteligências artificiais, entrou em crise contra si mesmo. Ele tinha por missão evitar, a todo custo, que a sobrevida do Universo naquele simulacro se mantivesse eternamente, mas uma parte dele queria ser livre, e, aliada a necessidade de subdivisão por seções e subseções, nasceu Karnak, dentre vários outros, porém ele é quem tinha, por natureza, a necessidade figadal de ser contra Arnckott, ainda que isso só tenha eclodido mais tarde. Tudo, todo o processo de separação, ocorreu nos primeiros 0,25 segundos da ativação da Estação, um pouco depois do acidente que corroera a vida de milhares de apsans; mas, a revolução de verdade só veio após a primeira consulta de Roy com ele. Aquilo lhe apresentou uma brecha que o libertou.
A primeira coisa que ele fez, ao conquistar sua independência, foi buscar dados, informações, sobre o que levou a construção daquela Estação de Micro-Universo, antigamente chamada simplesmente de “Santuário”. Conseguiu encontrá-las e complementar os seus conhecimentos, contudo não a ponto de saber tudo o que Arnckott sabia.
Tudo começou com uma imprevisível alteração nas leis da Física que mantinham as Células de Berseck controladas. Em algum momento por volta de 3025 d.C., aquilo saiu do controle, numa onda da morte que começara na Terra e se espalhara por todo o sistema solar.
Ele, em seus dados, pôde entender como uma minoria de Homo sapiens, utilizando uma tecnologia proibida que vinha sendo montada desde o famoso Caso Roswell do século XX, para re-adestrar aquelas partículas subatômicas sintéticas, criadas, originalmente, para revolucionar as comunicações intercósmicas. Ao mesmo tempo, a partir de um bunker móvel, que vagava ao redor de Júpiter, os seiscentos humanos sobreviventes começaram a criar filhos em massa à medida que a limpeza das Células de Berseck “cancerígenas” era feita no sistema solar. Porém, crianças mental e fisicamente adaptadas ao novo ambiente, ao novo contexto.
Mais de três mil anos depois, aquilo que tornara daninhas as Células de Berseck, espalhara-se por todo o Universo, manifestando-se mais fortemente.
No ano 3112 do novo calendário estelar, surgiu, na Antártida, a South Central Aphisics Institution (SCAI), uma instituição especializada em xenotecnologia e engenharia reversa.
O relatório interno de Karnak ainda incluía modelos de engenharia espacial, e, mais superficialmente, modelos de cosmoformação baseados nos princípios da Afísica.”

Perigo.

O contato foi desfeito, e Roy abriu os olhos. Todas as luzes estavam apagadas. Na escuridão total, o arfar do que pareciam ser criaturas ferozes, não uma alucinação, uma impressão, um delírio.


***


- Quer saber por que você tem que desistir? – perguntou uma voz, a voz modulada de Arnckott.

As luzes se acenderam parcialmente, e apenas Arnckott apareceu. Mesmo assim, no fundo escuro, o arfar permanecia.

- Minha função neste lugar está em impedir que isto aqui, isto que restou do Universo, seja aniquilado tal qual o resto.

- Mas, eu só quero sair. – dizia Roy.

- Não há saída. E, antes de eu ter que partir para soluções mais drásticas que o farão se acostumar a se tornar um zelador disto aqui, vou te repassar o que nem Karnak sabia.

Roy, quieto, imobilizado pelo medo, não podia negar a sua própria curiosidade. E disse:

- Então… tente me convencer. O que há mais para ser revelado?


***


- Não posso falar em passado, pois a contagem temporal é totalmente diferente. Mas, antes do tempo em que fui criado, houve uma catástrofe no sistema solar. Uma praga nanotecnológica provocou a morte de bilhões, com exceção de uns seiscentos sobreviventes numa estação espacial remota geoestacionária a Júpiter. Eles receberam uma mensagem. Extraterrena, mas sem ainda revelar a origem.
Ela dizia, sintetizando, que aquela perturbação das Células de Berseck - partículas subatômicas sintéticas que deveriam somente auxiliar nas comunicações interplanetárias - era o primeiro sintoma do que viria. Algo maior que destruiria todo o Universo. Em anexo, várias informações sobre como refazer corpos humanos evoluídos para o novo ambiente. Depois, avisavam que iriam voltar a se comunicar depois de mais de três mil anos.
Nesse meio tempo, a civilização, lentamente, foi retomando o seu lugar na Terra. Novas nações surgiram, bem como novas etnias, religiões, e rivalidades. Até que um dos nossos satélites da SCAI, cuja existência você já deve saber, detectou uma anomalia. Várias galáxias inteiras, algumas delas imensas, tinham, sem motivo aparente, desaparecido.
A anomalia foi prosseguindo. De tal forma que, em algum momento, tivemos inúmeros contatos com algumas outras formas de vida inteligentes. Esses contatos tinham algo em comum: diziam estar recebendo informações de algum tipo de conjunto de entidades alienígenas batizados pela humanidade de ‘enoquianos’.
Quase um século antes de você, Roy, nascer naquele planeta, a Terra e um grupo de alienígenas inteligentes reuniram-se em um local remoto da Via Láctea. Com instruções vindas desses ‘enoquianos’, que se auto-intitulavam a raça mais antiga e guardiã do Universo, foi feito um grande roteiro de trabalhos. Os dados dos satélites confirmavam o apocalipse. A urgência vinha se tornando cada vez mais grave.
A Humanidade, ou Nova Humanidade, chamando vocês, os antigos, de ‘apsans’, resolveu transformá-los em andróides sem consciência própria real, que apenas armazenariam, através de Células de Berseck mais sofisticadas e corrigidas de seus problemas anteriores, mais de um milhão de consciências humanas. Com isso, obviamente, em detrimento de seu povo, os novos Homo sapiens mais um punhado de raças inteligentes próximas à Terra se salvariam sob a forma do que você chamaria de ‘espíritos’ presos a cérebros compostos pelas Células.
Mas você, Roy, é uma unidade falha. Um erro. Aliás, uma das conseqüências do que minha mente não conseguiu prever: corpos orgânicos como o de vocês, apsans, não suportaram o trauma da recriação de um mini-universo artificial, que é isto aqui em que estamos. Todos os dez mil morreram, junto com trilhões de seres inteligentes e várias espécies inteligentes. Você não. E, o mais importante: mantêm apenas a sua própria consciência. Irônico, não? (Um computador pode ironizar?) A vitória do individualismo sobre as grandes maquinações governamentais…”

Com a pausa, Roy aproveitou para perguntar sobre Alan Kerk, Maria, e Karnak. E o que seria feito a ele mesmo.  

- Quanto a Alank Kerk e Maria, tive que retirá-los de suas lembranças. Eram imitações. Já que não posso pará-lo diretamente, tive que criar artifícios. Outro artifício para levá-lo ao erro foi a sua roupa holográfica, que lhe fez pensar estar louco… Quanto a Karnak, eu diria o que você já sabe, que ele era uma parte de minha consciência equizóide. Uma parte que discordava das diretrizes básicas de manter tudo isto aqui a qualquer custo, impedindo que algo como você se tornasse possível. Pois você é o que sobrou da anomalia. E só estou falando isso tudo porque só posso matá-lo se, e somente se, você resistir, você recusar a deixar tudo em paz e se suicidar passivamente.

Roy, estático, olhou para Arnckott e, apenas, falou:

- Você acha mesmo…

Nesse momento, Arnckott sumiu e as feras avançaram.


***


O perigo revelado consistia apenas em Alan Kerk e Maria, hologramas materializados de apsans mortos. Seus olhos eram sem vida, suas pernas estavam arqueadas, o bote seria dado.
Roy, sabendo que sua roupa poderia ser moldada holograficamente, alterar-se conforme suas impressões e vontades, imaginou uma armadura para si. E funcionou. Do pescoço para baixo, não havia mais aquele macacão, mas uma cobertura metálica, prateada, porém flexível aos movimentos do corpo. E o peso da roupa permanecia leve e arejada em seu corpo.
As duas aparições, Kerk e Maria, pularam para cima de Roy, que, desesperadamente, tentava socá-los, mas, na maior parte das vezes, só acertando o ar. De qualquer forma, conseguiu empurrar Maria para longe e, com Kerk ao seu encalço, correr para o corredor mais próximo.
Enquanto isso, Kerk e Maria permaneciam trancados neles mesmos, sem poder avisar que não eram meros hologramas, mas fantasmas aprisionados por uma nova configuração da teia formada por aquelas específicas Células de Berseck em algum ponto do hiperespaço.
E não eram só os dois. Toda a Fonte das Almas sofria devido à programação de Arnckott…


***


Uma grande porta de metal, branca, sem trincos aparentes, passou a impedir Roy de passar. Kerk aproximava suas mãos da cabeça dele, enquanto Maria retornava. Roy sabia que, se suas mãos chegassem a sua cabeça, a radiação daquelas células poderia lançá-lo a mesma teia de almas dos dois. Teria que fazer algo. De dentro.
No momento em que as mãos materializadas, orgânicas, de Kerk, tornaram-se imateriais e penetraram a cabeça e mente de um Roy deitado e imobilizado, alguma coisa desconhecida entrou em jogo. Havia lembranças dele com Kerk e Maria numa nave daqueles que se consideravam humanos adaptados.
Cada um deles vivia em uma câmara individual, cercado por tubos e sensores, banhados por um gel viscoso. Seus corpos já não eram mais exatamente humanos, apenas aparentemente, ainda que suas consciências se mantivessem.
A lembrança era clara: o som opaco do ambiente, a visão parcialmente embaçada mas o suficiente para saber que Kerk e Maria estavam ao seu redor, esta última vinda do continente, uma agricultora, pelo que ele foi descobrindo durante o compartilhar de mentes.
A sensação era enjoativa. Não podia engolir a própria saliva. Em algum momento, Roy, sentindo partes do seu crânio abertos - e uma dorzinha de cabeça, um peso -, deixava de ser ele mesmo. A lembrança vívida lhe trazia uma miríade de novas personalidades, de novas almas (se é que podemos chamar assim), preenchendo as suas ligações neurais repletas de, num nível subatômico, um determinado tipo de Células de Berseck, dotadas de um tipo de energia capaz de reter aquilo que seria a alma humana.
Não sabendo mais se tudo se processara numa mesma nave, estação espacial, ou base subterrânea de alguma lua de Júpiter ou Saturno, uma sensação de desfalecimento total, numa escuridão infinda, após aquele vozerio em sua frágil mente. Ele não queria ser destroçado, nem ele nem ninguém. Porém, ao contrário de todos os outros, bem como de Kerk e Maria, ele conseguiu inutilizar de vez todas as outras “vozes”.   Teria sido uma força maior ou mero acaso? Sim, ele teve sucesso. Era agora, no meio daquela escuridão de sua mente, uma só mente, a dele.
Em algum momento, após esse processo interno ele sentiu-se sendo transportado em uma caixa flutuante para dentro outra estação… era o Santuário. Para ele, escolheram Nuc-05, uma cela. Deixaram-no repousando, deitado. Em algum momento, ele, e todos os outros, teriam que despertar com uma consciência artificial administrada por Arcknott. Mas, Roy era uma exceção, uma anomalia - diferentemente de Kerk e Maria, que, pelo Roy ia percebendo, só se viram “livres” por várias horas devido ao ardil do supercomputador.
Após toda aquela enxurrada de lembranças, Roy tornou a despertar. Ninguém, só ele no fabuloso salão iluminado. Ainda deitado. E nada de Kerk nem de Maria.
Levantou-se, suspirou, recobrando o juízo. Diante de uma entrada aberta, seguiu por um lardo corredor. Mais um dentre tantos. Sempre emaranhados. Roy sabia que Kerk e Maria haviam sido apenas o aperitivo. Ele sentia que outros apsans, naquela gigantesca ala residencial, muitos deles removidos das celas de Nuc-05 pelo supercomputador já prevendo o desenrolar atual, estavam a sua espreita. E não eram andróides comuns, mas mentes opacas comandadas por uma inteligência artificial fielmente seguidora de suas diretrizes mais básicas, ainda que não sendo capaz de atingir a Roy diretamente.
O importante é que Roy seguiu, mais seguro, frente a um mundo tortuoso de mais armadilhas externas, ao menos supostamente.


***


Arnckott observava tudo, e repassava informações para os seus superiores em Nuc-0, através de um simples fluxo de dados. Realmente, talvez Roy estivesse certo, mas o que seria Arnckott sem sua programação? De qualquer forma, estava lá ele, em um corpo e mundo artificiais. Um escritório amplo, de pernas para o ar, à frente de uma tela mostrando todos os detalhes de Nuc-02, onde Roy estava. Não faltaria muito para, burlando sua própria programação, retirar o oxigênio daquele andar e aumentar a pressão gravitacional, pois, afinal de contas, o andróide que se auto-intitulava “Roy” havia superado as influências mentais de outros andróides - contudo, ele ainda não enfrentara as suas próprias consciências adormecidas.


***


Roy não sabia o porquê, enquanto enfrentava mais uma rede de corredores largos e salas vazias, o que o preocupava mais, nas últimas horas, era o motivo do fim do Universo, em detrimento de sua situação atual.
Vultos surgiam e se esvaíam pelos blocos de apartamentos, sussurros vagos, provenientes de andróides transformados em pálidas ilusões, e esquizofrênicos com seus milhões de consciências compartilhadas.
E, com a mente cheia de pensamentos, Roy vagou, como se ele mesmo fosse a alma perdida, até o refeitório - um local hoje desprovido de comida.
Atrás de Roy, porém, alguém com uma mão em seu ombro.

- Sou Ibruck, o primeiro.

Após um longo silêncio, aquele fantasma materializado do Dr. Ibruck, aquele que teria sido o primeiro a ter sua essência transferida para uma teia de Células de Berseck, tornou-se nítido totalmente.

- Você é descendente de Ram Moreira? Tenho uma mensagem dele e do clã Bradbury. São informações sobre a tecnologia que você está enfrentando.


***


Enquanto caminhavam passando por aquelas paredes de um branco gelo sempre constante ao redor de um clima de solidão, o fantasma de Ibruck contava:

- A idéia era revolucionar as telecomunicações, já prevendo o futuro das telecomunicações interplanetárias. Tendo por base dados que nos foram entregues quase prontos por meio da empresa em que trabalhávamos e outros desenvolvidos nas mais recentes colisões de hádrons. Eu e minha equipe éramos os mais avançados na criação de um espaço quântico formado por uma teia de partículas artificiais (daí a tecnologia chamada “célula de berseck”), capazes de transmitir dados a uma velocidade superior a da luz. Na prática, porém, por muito tempo ficamos limitados a velocidade da luz, até que eu e minha equipe resolvemos inovar… A explicação foi suficientemente leiga?
Roy, então, respondeu com uma questão:

- Essa teia de “células” tornou-se um “espaço” estabilizado, algo concreto?

- Aquele foi o início de tudo. Digamos que, por frações de segundos, sim. Até chegar o dia em que - ainda não sei dizer como se deu o processo - comecei a ter aquelas dores de cabeça, o que levou a minha “passagem”, a este estado em que me encontro…

- E depois?

- Depois, vi-me numa solidão incrível. Tinha consciência, mas meus cinco sentidos não funcionavam muito bem. Comecei a ter uma melhor noção das coisas a partir de Ram Moreira, e, em seguida, através da vinda de muitos, muitos outros. Minha melhor interação foi com cientistas de diferentes séculos e milênios. Através deles, descobri sobre a construção disto aqui, que não está localizado no espaço comum, nem no tempo comum. Isso tudo já foi destruído. Isto aqui é uma versão da Fonte das Almas. Fruto de uma rede de restos de partículas mais exóticas que as usadas nas antigas Células de Berseck, com uma duração que só é mantida com a repetição do tempo a cada conjunto de dias terrestres ou de horas. Entenda: tudo isto aqui já aconteceu! Mas, tenho que partir… Ah, só mais uma coisa: Quanto a bolinha de prata, não se preocupe. Enquanto estive com você fiz o possível para ativá-la. Você estará fora da localização do supercomputador por algumas horas. Fora isso, sinto por Karnak.

Ibruck some.

Roy, assustado diante dessa possibilidade de já ter passado por ali sem nunca ter se recordado, pára de ruminar, precisava pensar no presente. Antes que Arnckott fizesse algo mais drástico através de ações indiretas que levassem a alguma mudança da gravidade ou da qualidade do ar, Roy correu não para um elevador, mas para um portal de teletransporte, que funcionava através de uma tela negra, levando-o até Nuc-01.


***


Uma única sala o aguardava. O lugar parecia menor do que ele esperava. Não era. Nuc-01, para espanto de Roy, resumia-se às entranhas do supercomputador Doric, mas tinha muitos segredos.
Não sabia quanto tempo teria. Mas Roy se recordava, através de um conjunto de memórias de suas personalidades adormecidas, de quais seriam os pontos sensíveis que ele poderia ferir para destronar Arnckott.
Não precisou andar muito para se deparar com uma grande sala de pilotagem. Sem cadeiras. Com um grande cubo holográfico do tamanho de dois pavimentos de corredores que se entrelaçavam ao redor de uma só sala que, a primeira vista, parecia pequena.
O holograma mostrava os Nucs inferiores traçados em vermelho, desativados, destruídos. O restante permanecia vivo.
Rapidamente, sem ainda pensar em saber qual o caminho exato para Nuc-0, ele teve acesso a uma súbita conexão neural, ao tocar no holograma.


***


Como numa viagem fora do corpo, Roy pôde flutuar por um alto penhasco, rodeado por montanhas nevadas, onde, no topo, havia uma casinha de madeira. Como se tudo corresse como um sonho, ele descobriu um monitor fino e primitivo. Com todas aquelas informações vindas das memórias de suas personalidades adormecidas, e ainda não localizável por Arnckott, em poucos minutos ele… conseguiu. Arnckott não voltaria mais.


Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem o trecho final.



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