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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O que poderia ser um sonho (mini-conto)

Na rotina de sempre, acordo ao primeiro despontar do sol. Naquela cama de velhas molas, levanto-me num frio desconfortável, mas não congelante. Da cama que range, o gigantesco guarda-roupas mofado, com suas roupas bem uniformes – apenas uniformes e pijamas.

O sol não vem. Entretanto, uma garoa. Uma garoa gelada como gilete cortando, formando lágrimas nas sinuosidades de minha janela de ferro e vidro. Antiquíssima janela. Grandiosa, nunca mostra o horizonte, apenas borrascas que, com o sono pesado de quem acorda muito cedo, traz dores de cabeças e uma dormência repentina por sobre meus olhos. De vez em quando, porém, surge um vago horizonte, uma mansão do fim da rua, a mirar-me.

Calçando meus uniformes sapatos, com minha farda escolar, bato de leve, enquanto amarro os cadarços, em um azulejo quebrado, e sinto as pedras que há por baixo. Levanto-me. Pego a mochila pesada, toco naquela fechadura enferrujada, e saio do meu quarto.

É um corredor. Curtíssimo. À frente de meu quarto, a porta dura, de madeira-de-lei, onde dorme meu avô. Ele trabalha à noite na zona de fábricas, e passa o dia dormindo, enquanto eu estou fora. Há quantos anos é assim?

Em meio a azulejos quebrados e empoeirados, bebo rapidamente minha água, em uma caneca amassada de metal, direto de uma torneira anormalmente não quebrada. Vou para a sala. O chão xadrez me tonteia, em meio àqueles sofás de um couro berrantemente rasgado em alguns pontos, sujo, e malcheiroso. Chego à porta, e ela range.

O lado de fora era ainda mais abafadamente frio. Vivia no terceiro andar de um amontoado de moradas, e, por anos incontáveis, tudo era pago para a família – mãe e filho – do térreo. Comecei a descer aquelas escadas de cimento, escorregadia com suas poças, vendo, acima de tudo, os casarões velhos, de vários andares, e a rua molhada, sem ninguém, com suas torres elétricas de ferro quebradas.

Tenho medo da porta do segundo andar. De madeira sem qualidade, em seu azul-claro, dava para ouvir miados grotescos, de gatos gordos e deformados e de bolas-de-pêlo putrefantes, e aquele cheiro horrível, de podridão, saindo pelo buraco da porta de madeira puída, perto do chão. E dava para ver... o escuro mais abominável, um negrume pesado como uma nuvem abismal.

Desço mais e vou até o fim.

Casas velhas, casarões, substituindo entradas de ruas, com um muro imenso para a zona de fábricas, além de torres de metal dando choques, e as poças pelo chão, a farda, a mochila pesada, e a primeira travessia de rua.

A garoa continuava, tal qual o meu medo de ser atropelado por aquelas motos que sempre passavam por lá, em alta velocidade, pela manhã. E aconteceu de eu imaginar motoqueiros sem rostos, sem sentido, sem caminho, apenas passando rápido por pura exibição desprovida de sentido.

Atravessei. Na segunda rua, vejo apenas dois estudantes, como eu, que nem acenam. Sigo até uma não tão longe estação rodoviária. Porém, resolvo, sim, dar um basta. Aquilo tudo era muito irreal. Não lembrava quantos anos eu tinha, nem meu nome, nem sobre meu avô, nem o porquê de seguir aquela rotina sete dias por semana.

Caminhei de volta para casa. Já era grande demais para portar uma farda estudantil. Não fazia sentido. Subi os degraus com força, joguei fora a mochila. Ainda passei temeroso pela frente da porta do segundo andar sem moradores, mas, como sempre, sem nenhum medo (ou consideração) do primeiro apartamento, e entrei em casa. Minha ideia: ir, direto, para o quarto todo-poderoso do meu suposto avô.

Tentei abrir a porta com meu molho de chaves. Achei a chave certa, mas... a quebrei na fechadura. Fui batendo com o corpo, tentando arrombar, por horas. Consegui. E a escuridão daquele quarto era total!

Mofo, chão sujo, pedaços de madeira e pedras (?) jogadas em meio a um chão de terra batida. A porta fechou-se atrás de mim. Entrei em pânico, escorreguei em algo, e caí no buraco que havia naquele chão, de um quarto sem móveis. Metade do meu corpo estava no quarto do suposto avô; a outra metade dava para o temível segundo andar.

Passei anos ali. Anos naquela posição. Um dia, porém, a porta se abriu, e uma voz disse:

- Ou você vem para a luz do corredor, ou será tragado pela escuridão do segundo andar!

Mas, parecia apenas eu mesmo ponderando. O fato é: estava morto. A carne, corroída, deixara-me mais "magro", não tinha forças para sair dali, e caí de vez.

O medo foi imenso, a boca me engolira, corri feito um louco com uma perna torcida, ferindo meus pés ossudos no pelo e no grito de gatos monstruosos, e eu só escorregava, perdia meu orgulho, e me vi rendido a toda sorte de monstros, medos, cheiros abafados, sons horríveis, e mais e mais coisas. Inferno? Não sei, só sei que me tornei um velho eremita preso àquele quarto, com parte do meu corpo fundido ao chão, às paredes, e ao negrume. E, com meu único olho vermelho, via, pedindo ajuda com minha voz que parecia a de gatos gordos e deformados, a um menino que sempre descia as escadas.


Autor: João Batista Firmino Júnior.

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