Quando o desvira, surge um rosto com poucas
carnes, visivelmente corroído. Por isso o cheiro ser tão ruim, sempre achara
que era do lugar. Tenta falar com aquele homem que sentava ao seu lado, mas ele
não o escuta e pega um dos ônibus. Tenta avisar a todos, mostrar que havia um
cadáver, mas aquelas vinte pessoas ou não falavam ou pouco falavam, e nada
faziam. Um dos estudantes olhou para ele com aparente desprezo.
Havia apenas uma
grande indiferença acompanhada por um conjunto de emoções negativas, ou pior,
de emoção alguma. E o que diziam no pouco em que diziam? Mandavam-no manter-se
distante, também não havia telefones funcionando no lugar. Parecia estar tudo
morrendo. Todos os dias era assim, muitas vezes ele tinha de ignorar como
todos. Deveria ter sido mais um caso de suicídio, mas não, fora inanição mesmo.
Desiste.
Pega o ônibus, um
dos poucos que funcionava. Observava longe, saindo da rodoviária, como aquela
construção se estendia, exagerada em tamanho, e possuidora de uma formação
singular: projetava-se em arco, fechando o bloco residencial.
No último banco,
via que, naquele dia, viajavam menos estudantes; uns onze, além dele. Havia o
motorista de costas, e o familiar barulho que aquele velho transporte fazia.
Apesar de sobreviver em um ambiente como aquele, a paisagem natural como sempre
era bela. Passava por alguns campos com poucas árvores.
O transporte
seguiu por algum tempo até chegar a um ponto em que ele começava a avistar o
seu Terceiro e último grande medo: o lugar onde estudava. Era uma antiga
mansão, que passara por inúmeras reformas de ampliação, ainda mais extravagante
que a rodoviária. Possuía um portão de madeira com ferro, uma muralha rachada,
muito imponente e de larga espessura.
Havia dez andares
no prédio, porém apenas três eram usados para as aulas, em seis funcionava um
centro de arquivos históricos, enquanto o último estava fechado e vazio. O
ônibus pára.
De um daqueles
dois únicos transportes, que traziam poucos alunos à instituição de ensino, ele
descia num ambiente sem chuva; e os transportes iam retornando. Os cerca de
vinte e cinco estudantes, apenas eles, sobem alguns degraus e deparam-se, no
Quadro de Avisos, ainda na entrada, com a seguinte mensagem: “Sigam todos para
a sala 7.” e “As aulas serão conjuntas.”
Como sempre,
naquela recepção descuidada e sem funcionários, passam por aqueles ferros
enferrujados no meio daquele salão, ferros de onde antigamente subiam e desciam
elevadores arcaicos. Aquela recepção também o deixava tonto, principalmente
quando olhava muito para o portão aberto
e de altura desproporcional.
Seguem todos
silenciosos pela escada, tão necessária já que o prédio carecia de elevadores
que funcionassem. Nos dois primeiros andares, surgia a imagem de quase sempre:
luzes acesas por baixo das portas de acesso, luzes mornas de lugares
silenciosos, aparentemente sem nenhum funcionário trabalhando. Não se preocupa
com isso, vai subindo até a única sala aberta do terceiro andar.
Sentam-se os
alunos, todos quietos, pareciam ser os únicos sobreviventes de uma ilha
morta economicamente. Embora só ele soubesse que havia algo mais.
Depois de quase
meia hora de espera, chega o que deveria ser o professor da hora seguinte,
avisa rapidamente que aquela instituição sofria de alguns problemas em sua
manutenção, mas que deveriam ser logo corrigidos. Também informa que daria as
aulas de toda a manhã. Ninguém reclama. E o professor revisa.
Ao meio-dia, toca
um pequeno sino e todos, organizadamente, dirigem-se até uma sala vizinha onde,
devido ao ofício da maioria dos responsáveis, que lhes ocupava o tempo,
recebiam o almoço na própria instituição de ensino. Após entregar a comida, a
cozinheira, como sempre aborrecida, some.
De volta à sala de
aula, retornava a chuva e outro professor, este não pertencia a sua turma. Traz
mais avisos, de que alguns professores faltaram, talvez por estarem doentes,
mas não demora muito e passa à aula. Para que muitos, pertencentes a outros
graus de aprendizado, não se desviassem do que era dado, comunica que
revisaria.
A tarde termina, e,
chegada a hora, todos seguem até a biblioteca, no mesmo andar. O professor
ficou por pouco tempo, saindo em direção a um compromisso inadiável, não sem
antes pedir algo a ele. Era estranho como todos obedeciam à ordem de
permanecerem na biblioteca até o horário de saída do terceiro turno, até as
oito e meia daquela noite, isso por não haver ninguém para os impedir.
Pesquisavam alguns pontos importantes para um trabalho recentemente proposto.
Pouco depois da partida
do professor, o estudante faz o que ele havia ordenado: vai até a porta do
último andar, onde ficava o gerador do prédio, levando a chave. Em um instante
sobe, com um certo temor, abre rapidamente a porta e levanta uma alavanca
próxima, em algum lugar onde nada era visível. Retorna, mais calmo, pelas
escadarias fracamente iluminadas.
A biblioteca era imensa.
Ele não lia, apenas observava sua imensidão, sem um pingo de admiração, e a
única janela, que havia no recinto, do tamanho de uma pessoa grande. Estava
localizada bem no fundo, obscurecida, entre duas estantes parecidas com dois
grandes guardiões de uma suposta liberdade. Do lado de fora, o clima daquele
inverno era ainda frio, as nuvens estavam ameaçadoras. A única imagem
apresentada era conhecida pelo estudante, trazia apenas o breve pátio, uma
visão distante de uma estrada mal asfaltada, com poucas matas paralelas naquele
fim de mundo e, muito próximo, uma árvore bem alta.
Apenas pouco daquela
biblioteca era iluminada, uma área próxima da saída. Sua maior parte permanecia
coberta pela escuridão. Não utiliza a imaginação, não perderia energia, não
poderia, pega um dos livros localizado naquela pilha e folheia. Não poderia,
mas fez.
CONTINUA...
Autor: João Batista Firmino Júnior.


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