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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Trecho 2 do livro A EMBARCAÇÃO DIVINA

  Quando o desvira, surge um rosto com poucas carnes, visivelmente corroído. Por isso o cheiro ser tão ruim, sempre achara que era do lugar. Tenta falar com aquele homem que sentava ao seu lado, mas ele não o escuta e pega um dos ônibus. Tenta avisar a todos, mostrar que havia um cadáver, mas aquelas vinte pessoas ou não falavam ou pouco falavam, e nada faziam. Um dos estudantes olhou para ele com aparente desprezo.
              Havia apenas uma grande indiferença acompanhada por um conjunto de emoções negativas, ou pior, de emoção alguma. E o que diziam no pouco em que diziam? Mandavam-no manter-se distante, também não havia telefones funcionando no lugar. Parecia estar tudo morrendo. Todos os dias era assim, muitas vezes ele tinha de ignorar como todos. Deveria ter sido mais um caso de suicídio, mas não, fora inanição mesmo. Desiste.
              Pega o ônibus, um dos poucos que funcionava. Observava longe, saindo da rodoviária, como aquela construção se estendia, exagerada em tamanho, e possuidora de uma formação singular: projetava-se em arco, fechando o bloco residencial.
                 No último banco, via que, naquele dia, viajavam menos estudantes; uns onze, além dele. Havia o motorista de costas, e o familiar barulho que aquele velho transporte fazia. Apesar de sobreviver em um ambiente como aquele, a paisagem natural como sempre era bela. Passava por alguns campos com poucas árvores.
                O transporte seguiu por algum tempo até chegar a um ponto em que ele começava a avistar o seu Terceiro e último grande medo: o lugar onde estudava. Era uma antiga mansão, que passara por inúmeras reformas de ampliação, ainda mais extravagante que a rodoviária. Possuía um portão de madeira com ferro, uma muralha rachada, muito imponente e de larga espessura.           
                 Havia dez andares no prédio, porém apenas três eram usados para as aulas, em seis funcionava um centro de arquivos históricos, enquanto o último estava fechado e vazio. O ônibus pára. 
                 De um daqueles dois únicos transportes, que traziam poucos alunos à instituição de ensino, ele descia num ambiente sem chuva; e os transportes iam retornando. Os cerca de vinte e cinco estudantes, apenas eles, sobem alguns degraus e deparam-se, no Quadro de Avisos, ainda na entrada, com a seguinte mensagem: “Sigam todos para a sala 7.” e “As aulas serão conjuntas.”
                Como sempre, naquela recepção descuidada e sem funcionários, passam por aqueles ferros enferrujados no meio daquele salão, ferros de onde antigamente subiam e desciam elevadores arcaicos. Aquela recepção também o deixava tonto, principalmente quando olhava muito para o portão aberto  e de altura desproporcional.
                   Seguem todos silenciosos pela escada, tão necessária já que o prédio carecia de elevadores que funcionassem. Nos dois primeiros andares, surgia a imagem de quase sempre: luzes acesas por baixo das portas de acesso, luzes mornas de lugares silenciosos, aparentemente sem nenhum funcionário trabalhando. Não se preocupa com isso, vai subindo até a única sala aberta do terceiro andar.
                      Sentam-se os alunos, todos quietos, pareciam ser os únicos sobreviventes de uma ilha morta economicamente. Embora só ele soubesse que havia algo mais.
                       Depois de quase meia hora de espera, chega o que deveria ser o professor da hora seguinte, avisa rapidamente que aquela instituição sofria de alguns problemas em sua manutenção, mas que deveriam ser logo corrigidos. Também informa que daria as aulas de toda a manhã. Ninguém reclama. E o professor revisa.
                    Ao meio-dia, toca um pequeno sino e todos, organizadamente, dirigem-se até uma sala vizinha onde, devido ao ofício da maioria dos responsáveis, que lhes ocupava o tempo, recebiam o almoço na própria instituição de ensino. Após entregar a comida, a cozinheira, como sempre aborrecida, some.
                        De volta à sala de aula, retornava a chuva e outro professor, este não pertencia a sua turma. Traz mais avisos, de que alguns professores faltaram, talvez por estarem doentes, mas não demora muito e passa à aula. Para que muitos, pertencentes a outros graus de aprendizado, não se desviassem do que era dado, comunica que revisaria.
                      A tarde termina, e, chegada a hora, todos seguem até a biblioteca, no mesmo andar. O professor ficou por pouco tempo, saindo em direção a um compromisso inadiável, não sem antes pedir algo a ele. Era estranho como todos obedeciam à ordem de permanecerem na biblioteca até o horário de saída do terceiro turno, até as oito e meia daquela noite, isso por não haver ninguém para os impedir. Pesquisavam alguns pontos importantes para um trabalho recentemente proposto.
                       Pouco depois da partida do professor, o estudante faz o que ele havia ordenado: vai até a porta do último andar, onde ficava o gerador do prédio, levando a chave. Em um instante sobe, com um certo temor, abre rapidamente a porta e levanta uma alavanca próxima, em algum lugar onde nada era visível. Retorna, mais calmo, pelas escadarias fracamente iluminadas.
                       A biblioteca era imensa. Ele não lia, apenas observava sua imensidão, sem um pingo de admiração, e a única janela, que havia no recinto, do tamanho de uma pessoa grande. Estava localizada bem no fundo, obscurecida, entre duas estantes parecidas com dois grandes guardiões de uma suposta liberdade. Do lado de fora, o clima daquele inverno era ainda frio, as nuvens estavam ameaçadoras. A única imagem apresentada era conhecida pelo estudante, trazia apenas o breve pátio, uma visão distante de uma estrada mal asfaltada, com poucas matas paralelas naquele fim de mundo e, muito próximo, uma árvore bem alta.

                         Apenas pouco daquela biblioteca era iluminada, uma área próxima da saída. Sua maior parte permanecia coberta pela escuridão. Não utiliza a imaginação, não perderia energia, não poderia, pega um dos livros localizado naquela pilha e folheia. Não poderia, mas fez.


CONTINUA...
Autor: João Batista Firmino Júnior.

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