Primeiro,
a falta de contato com a Terra; depois, a epidemia dos sintéticos. Homens
artificiais cujos tecidos entraram em necrose e, tal qual antigas narrações
milenares, passaram a se comportar como “zumbis” agitados. Estraçalharam tudo nas quatro estações anteriores.
O contato com a Estação Quatro perdeu-se há dois dias. Quanto a Estação Cinco,
apenas o globo central, parcialmente separado do resto da estação em forma de
anel, resistia.
O comandante
Douglas Firmus, apesar do estresse, naquele dia ou turno artificial, parecia
feliz. Os cento e vinte sobreviventes encastelados, sem comida suficiente e com
a gravidade desregulada para metade do peso humano, certamente estranhariam se
o vissem naquele momento.
O
quarto daquele homem de meia-idade, com uma barba malfeita, tinha uma ligação
com o seu escritório. Enquanto se arrumava, e enquanto os mais próximos achavam
que ele havia enlouquecido, Doc Morbius, o atual vice-comandante, o abordou,
enquanto ele estava frente a um espelho em seu amplo escritório:
- Senhor, se me permite a indiscrição, mesmo com os
problemas que enfrentamos, o seu comportamento…
- Quer saber o que há comigo, não?
- Sim, o que há de tão especial hoje? O senhor não
pretende abandonar tudo, não?
Após
uma pausa, amarrando sua gravata, o comandante Firmus sentou-se em sua poltrona
e, com um sorriso estranho no rosto e olhando para seu rústico relógio de
pêndulo próximo à porta, disse.
- Eu vou explicar. Mas, é mais urgente você me
informar o que ocorreu na última noite.
Doc
Morbius, com aquela voz rouca que lhe era peculiar, engoliu em seco e falou:
- Nossos homens estão sem moral. Há quase um ano não
temos contato com a Terra, há semanas perdemos contato com Térphilas e há dois
dias não sabemos mais de nada sobre as outras quatro Estações exo-galácticas.
Os recursos só durarão… bem, costumamos dizer à tripulação que temos um mês.
Estamos perdidos, se me permite a palavra.
Uma
batida na porta.
- Entre. – disse o comandante.
A
idosa Mag, a mãezona do grupo, apareceu querendo informar algo. Não houve o
“bom dia” de sempre. Sentou-se jovial, como se o peso de mais de um século de
existência tivesse evaporado com a gravidade artificial defeituosa.
- Olá, garotos. Vim informar que aquelas “coisas”
arranjaram uma forma de vagar pelo espaço, como temíamos. Eles são fortes e
estão amassando a nossa “crosta” desde ontem.
- Uma versão mais forte dos sintéticos? - perguntou o
engravatado Firmus.
- É. Eles estão usando, como sabemos, um comando
remoto com os corpos de nossos tripulantes. E esses corpos, bem como os deles,
estão se metamorfoseando ainda mais. Agora são resistentes aos efeitos rigorosos
do vácuo.
- Estamos há semanas separados do anel da Estação, da
periferia. Não é hora de começarmos a mobilizar nossas naves auxiliares? -
interrompeu Doc.
O comandante
ficou mais pensativo que de costume. Depois, como se estivesse fora de si, ele
perguntou:
- Você sabe em que ano estamos, Mag?
- Seiscentos e…
- Não, não. Você sabe,
senhora. Você, que já foi a comandante antes de mim.
- Você se refere, filho,
ao Calendário Pré-Galáctico?
- Do que é que vocês estão falando? Temos pouco tempo
antes que tudo estoure de vez! – irritou-se Doc.
- Calma, amigo. Mag, sim, é a isso que eu me refiro.
Tecnicamente, estaríamos a dez mil anos do nascimento de Jesus.
- Quem é esse, comandante?
- Eu e Mag sabemos. Estudamos História Antiga. Jesus
ajudou a formar todo um código moral que, a despeito de seus erros eventuais,
solidificou a base, a organização necessária, a disciplina que, em dois mil
anos, nos levou ao primeiro voo além da Terra.
- É verdade. – disse ela, agora também pensativa.
- Doc. Vá lá. Reúna o pessoal na garagem. Diga que
eles têm vinte minutos e os informe sobre o ritual.
Sabendo
o que, finalmente, o comandante iria fazer, e extremamente incomodado, em
profundo nervosismo, Doc partiu para uma saleta de comunicações, do outro lado
do corredor, ao lado da entrada para a Sala de Comando e chamou a todos.
- Atenção,
tripulação. O comandante conclama todos para a garagem. Ele tem algo a dizer.
Vocês têm vinte minutos.
***
O
corredor estava repleto de sujeira e lamparinas de pústulas verdes,
bioluminescentes, espalhadas no segundo terço das paredes a cada cinco metros.
Um homem estava fora da reunião. Gordo, velho, alto e branco, ele não tinha
pelos em nenhuma parte do corpo, mas tinha uma função naquilo que restou da
humanidade espacial: verificava, numa sala repleta de sensores, a resistência
das paredes da Ala Oriental. Era uma das poucas resistências, aquelas paredes
sem campos de força, contra os sintéticos, androides, mutantes, zumbis ou o que
quer que fossem… que se aproveitavam da ausência de um motor potente naquele
setor central da Estação Cinco - praticamente uma estação espacial dentro da
estação espacial.
Com
seu cachecol vermelho e roupa térmica, entrou em sua sala gelada, paralela a
uma parte do canal lacrado que outrora ligava aquela área da Central ao anel
externo daquelas instalações outrora excepcionais.
- Ala Oriental? Alguém ligou?
Um
homem albino, de estatura diminuta, apareceu.
- Não há nenhum intercomunicador ou Minitom ligado,
chefe.
Envergonhado,
o chefe respondeu:
-
Ah, Phillips, que susto! Oh, oh, oh! Que termo antiquado, “minitom”.
Mas… quer dizer que estão todos reunidos para uma novidade?
- Isso já aconteceu. Terminou há meia hora. O comandante,
preciso confessar, não está bem. Você sabe… só temos um mês pela frente até
decidirmos escolher menos de cinquenta sortudos para escapar nas naves
auxiliares. E, mesmo assim, escapar para onde? Térphilas não responde, e as
outras estações espaciais estão muito longes.
- O que foi dito lá?
- O comandante falou de uma tradição antiga, mantida
por uma seita que desapareceu há sete séculos, chamada “A Congregação”. Ele
falou no nascimento de um tal “Jesus” há cerca de dez mil anos… como se isso
fosse fundamental. Uma espécie de herói, entende? Um “herói da moral”… que
seja. E toda uma baboseira sobre um sacrifício que “virá”, mas não ouvi tudo
porque Mag cortou meu contato e me obrigou a vir aqui. Como está a nossa
resistência?
- Bem, estou fazendo a minha parte. Ah, espere… Sim,
agora com certeza é o intercomunicador. - ele apertou um botão - Fale.
- ENGENHEIRO-CHEFE, DEIXE PHILLIPS EM SEU LUGAR POR
HOJE E VENHA ATÉ A O SALÃO DE CONTROLES. IMEDIATAMENTE! PONTO ALPHA, DESLIGO.
- Phillips… - virou-se o chefe. O pequenino já estava
a postos para o trabalho.
***
- Comandante?
Em
meio àquele lugar quase sem iluminação, sujo, com algumas cabanas improvisadas
ao redor de poltronas reviradas e monitores centrais, dos quais só um estava
ligado com medições hipotérmicas dos infectados, Douglas Firmus, ao lado de Mag
e de Doc, falou:
- Olá, Engenheiro. Sente-se, por favor.
Ele sentou-se,
desajeitado, prestes a ouvir seu superior:
- Você não sabe do que se trata. Jesus, Natal, etc.
Mas… vivemos numa época estranha, cheia de monstros, onde sempre estamos sós.
Engenheiro-Chefe Nikolai Angus, precisamos melhorar a moral de nosso povo…
- Comandante, se me permite dizer, parece não haver
chance de escapar. E não são lendas, das quais só tomo conhecimento agora, que
vão mudar algo, se me permite a franqueza.
- Doc, chame o pessoal. Isso terá que ser rápido. -
virou-se, o comandante. Doc, pálido, foi até os controles e chamou todos, menos
os dez vigilantes daquele turno, todos engenheiros.
O comandante
prosseguiu:
- Nikolai, estamos vivendo um dia perdido. Não o dia
de nossa morte, mas o dia de nosso encontro com uma faceta da Humanidade há
muito esquecida entre a História Antiga e boatos obscuros.
- Não temos um mês, temos nove horas. – Mag
interrompeu.
- Psiu, querida Matrona. Sim, é isso. Não se espante
demais, Engenheiro-Chefe Nikolai. Vamos reunir todos aqui. Entretanto, antes…
Controles
foram acionados por um rapazinho de aspecto hindu, e os vigilantes ficaram
presos.
- Comandante! - Nikolai percebeu quais controles
haviam sido acionados.
- Calma, Nikolai. Segundo as regras do Tankathros,
antes de nos sacrificarmos, precisaremos de um sacerdote simbólico.
- O Grande Pai Vermelho? Mas isso já foi abandonado
há muitas gerações, comandante.
- Faça como eu mando. Vamos todos morrer de qualquer
jeito. Mas, morramos relembrando o nascimento de nossa MORAL, de tudo aquilo
que nos permitiu resistir até as últimas horas! Faça o papel do Grande Pai
Vermelho ou morra em desonra!
Nikolai
não teve saída, teria que bancar o sacerdote de uma antiga seita que, eis algo
que ele não tinha como saber, era o mais próximo do Cristianismo, perdido na
História. Mal teve tempo para refletir sua própria morte.
***
Phillips
assistiu ao derradeiro fim.
- O gás virá logo, sim… - ele disse para si mesmo
O
sono veio lentamente, enquanto o Grande Pai Vermelho, celebrador de algo como
“nascimento de Jesus”, em meio àqueles mais de cem desesperados, falou palavras
do bem preservado Inglês Antigo ou Proto-Intercosmos. E, sob o olhar de Douglas
Firmus e a idosa Mag, acionou a auto-destruição, que começaria com um gás
venenoso provido por uma gambiarra feita recentemente nos dutos de ventilação.
Os
vigilantes da estrutura daquele pedaço de Estação Espacial - que observavam os
infectados que vagavam vigorosamente pelo vácuo, tentando, com as mãos,
rasgarem o metal - partiram primeiro para a doce Senhora. O grosso da
tripulação só foi depois, cantando um hino antigo e louvando o nascimento de um
deus, naquele supremo presente natalino para aquelas circunstâncias trágicas: a
Morte.


Nenhum comentário:
Postar um comentário