5- Além da
Eternidade
Dor. Dor por várias articulações e ossos, e no
ventre. Fruto da exposição forçada à gravidade do planeta natal dos
urizenianos? Talvez. Mas… era a lembrança de uma dor, de um esforço físico, que
não fora tão forte durante o seu momento exato. Ele podia relembrar a dor que
não era do peso gravitacional tipicamente urizeniano, porém algo relacionado ao
que acabara de ocorrer.
No espaço imponente da escuridão inconsciente, o
Andarilho sentiu um fogo negro que se lhe insurgia como se ele fosse parte
daquele vazio. Aquela coisa saía de seu plexo solar e tinha sua origem no mais
completo breu. Uma sensação estranha na boca do estômago, uma nuca adormecida,
e, como se nada tivesse acontecido, lá estava ele aparentemente no mesmo lugar,
com sua roupa de astronauta urizeniana adaptada para suas medidas, o corpo de
um velho comandante desmaiado, e o chiado do seu intercomunicador. Quarto
imenso era o lado interno de seu capacete. Reunindo novamente os seus
pensamentos e tornando à lucidez, o Andarilho, sentindo-se numa agradável
leveza, ficou de pé.
***
Nagara
N’Kebeker estava apreensiva. Sua cabeleira negra não podia escondê-la da
situação, em sua cabine-residência. A U1 ainda tremulava fortemente, e a
temperatura caía. Por ser assessora de atividades militares, ainda tentou
entrar em contato com o Prelado Odarkan. Nada. O comunicador de pulso
parecia-se, mais do que nunca, um mero brinquedo.
Do
alto de seus três metros e meio de altura, só a missão, a necessidade da
missão, que deveria trazer inúmeros benefícios para sua civilização não decair
na falta de fontes energéticas e raras matérias-primas de uso essencial, mexia
realmente com sua cabeça.
Os tremores diminuíam, mas a porta permanecia
trancada. Horas se passaram até que sua porta começou a queimar e derreter,
ordeiramente. Eram robôs de emergência. Finalmente.
***
A
bolha artificial estava totalmente destruída. Em meio ao terreno que permanecia
inalterado em plena noite, e à visão de distantes focos de incêndio naquela
base provisória, Tamarkan se levantava. O Andarilho havia sumido. Ao lado
daquela percepção, a visão dos corpos de seus companheiros. Ele não morrera,
estivera suficientemente próximo do Andarilho para não perecer.
Tudo havia sido transportado. Ou quase tudo. Mas
poucos haviam sobrevivido. Vários passos adiante, o comandante só pôde se
deparar com cinco ou seis sobreviventes dentre dezenas. Levou horas para
encontrá-los. E, mais algum tempo depois, reencontrou o Andarilho.
***
Quase
vinte e quatro horas depois, Nagara finalmente pôde ver a situação na U1 ser
estabilizada. O Prelado Odarkan, porém, morreu. Numa reunião urgente, com
outros nove altos tripulantes, a assessora militar conheceu o substituto de seu
chefe, um sujeito perto da calvície, bem trajado.
A
reunião foi rápida, durou menos de duas horas, e correu sem contrariedades, no
escritório do comandante.
- Prelado Geold Nad’Lanner. - dizia o novo
subcomandante, um ex-piloto chamado Hant Veick. - assessores militares e os
dois dos sete doutores sobreviventes da zona mais destruída, Don Carpar e Inom
Gabak Root… sejamos urgentes. O relatório dos danos desta nave já me foi
entregue e encaminhado para nossos engenheiros, pilotos, e enfermeiros. O que
interessa aqui, agora, é salvar o comandante. Estamos trabalhando no conserto
prioritário de nossos intercomunicadores e antenas, porém, isso não nos impede
de mandarmos três naves auxiliares, imediatamente,e salvarmos o comandante e os
nossos homens e mulheres. Vamos nos empenhar.
Os
dois principais médicos da U1 se prepararam, sem demora, e, com Nagara
N’Kebeker, partiram, horas depois. Vendo as estrelas e nebulosas com alguns
formatos diferentes, indicando que estavam no mesmo lugar, mas uma realidade
paralela, ela mal percebia o chiado que brotava do intercomunicador da nave
auxiliar. Era a voz de Tamarkan. O comandante não morrera, nem parecia
gravemente ferido.
***
-… esperamos por vocês. Esta parte da missão, mesmo
com esses contratempos, com essas mortes e a destruição da U2… deu certo.
Quando eu chegar, espero por mais informações sobre os danos do setor médico. –
finalizava o comandante, para o novo subcomandante, que só conseguia pensar em
problemas. Se não fosse a sobrevivência dos médicos, ele não saberia o que
fazer com os feridos, e com o impacto psicológico de uma nave sem assistência
especializada. Por outro lado, perdera metade dos engenheiros. Bem, o que
importava agora era trabalhar no conserto da central de pilotagem.
***
Tamarkan,
ao lado de um silencioso Andarilho e alguns sobreviventes, muitos deles
feridos, finalmente viram chegar as naves auxiliares de ajuda. Tudo foi feito
ordeiramente, mas o comandante e o Andarilho voltaram para a U1 logo na
primeira leva de feridos. O espécime, pensava o comandante, confirmava as suas
expectativas… não demoraria para que, naquela realidade, naquele novo universo
em que estavam, eles conseguissem encontrar o santuário cósmico. Ou demoraria?
Na central de comando, tudo ainda parecia caótico. Em conversa com o novo
subcomandante, ficou sabendo que demorariam semanas para um vôo confiável. De
qualquer forma, ainda não sabiam para onde iriam.
Nenhuma
pista. Mas, Tamarkan estava resoluto a, em pelo menos uma única semana, partir
para vôos simples de mapeamento daquela área específica de Andrômeda. Nagara
estivera na central, e presenciara tudo.
De
volta ao seu escritório, próximo ao do novo Prelado, ela fez as suas anotações
através de um comando de voz e da imagem mental que ela fazia de uma refinada
escrita. Também estava apreensiva, mas não podia deixar de lado aquela fome
pelo desconhecido, que a fizera escolher aquela carreira.
Em
um corredor distante, o Prelado Geold também pensava sobre os próximos
desdobramentos. E sentia aquela típica ansiedade de alguém que se achava com
baixa auto-estima, subitamente, ocupar um cargo importante, acima de todas as
suas ambições. Ele suava pela gola de seu uniforme, encaminhava-se do
refeitório até o seu escritório. Teria um longo trabalho lendo tudo o que o
falecido Prelado Odarkan fizera.
***
Dois
dias depois, em seus aposentos, enquanto tudo se desenrolava na central de
comando, o Andarilho, em meio àquelas cólicas que insistiam em seu ventre,
rememorava o que havia sentido, mas não lembrava, durante sua inconsciência. Ou
teria sido uma hiperconsciência? Em um dado momento, ele foi ao banheiro
interno aos seus aposentos, trocou-se, lambeu as feridas, e, tomando um pouco
mais fôlego, de confiança e lucidez, ele começou a se olhar ao espelho, um
objeto côncavo, flutuante, miúdo, a partir de um aparelho com inscrições em
urizeniano. Algo não estava bem com sua saúde. A dor intensa na região do
abdome ficou, de repente, mais forte, como uma onda de fogo provocado por uma
pedra vulcânica cada vez mais ecoadora de calor, uma dor delirante que… Como
tudo era filmado, ele se retorcia ao mesmo tempo em que uma equipe estava
preparada e correndo até onde ele estava.
Dezenas
de metros adiante, após a descida por um dos elevadores de carga, a
recém-inaugurada zona médica e laboratorial não passava de um improviso
grosseiro no que havia sido uma área de cargas. Dois enfermeiros chegavam, com
um robô médico em forma de esfera flutuante, esbaforidos, numa maca
antigravitacional, com o tamanho adequado para os pequenos 1,72 metro daquele
espécime, daquele Andarilho.
Um
dos médicos sobreviventes estava lá, ao lado de um especialista em xenobiologia.
Eram eles o Dr. Gabak e o jovem cheio de olheiras Dr. Norgis N’Vonuk. Não
demorou muito para que eles percebessem a existência de um corpo estranho
perdido nos intestinos do espécime.
A
cirurgia foi rápida, mesmo com muitos equipamentos quebrados.
***
- O que é isto? Nenhum dos feridos havia apresentado
objetos no interior de seus corpos, até agora. - questionava Tamarkan,
manuseando uma pedrinha com o desenho do que parecia ser uma asa em um dos seus
lados.
Com
um pigarro, o xenobiólogo só tinha a dizer:
- Com o escaneador destruído, não podemos dizer tudo
o que isso é, nem se emite alguma radiação. Apenas que sua composição é
idêntica a de uma pedra comum, e que o desenho em baixo-relevo certamente
provém de alguma raça de seres cuja mente funciona de forma parecida com a
nossa e com a dos humanos.
- Sei. E como vai a saúde do nosso espécime?
- Recuperando-se melhor do que podíamos imaginar.
Mas visitas só amanhã. - respondeu o Dr. Gabak.
- Tudo bem. – terminava Tamarkan, achando haver encontrado
a sua pista, sabendo onde guardar seguramente aquele objeto
Em
mais alguns dias, distante de tudo isso, a nave já estava iniciando os seus
vôos de mapeamento. No turno da noite daquele primeiro dia de recuperação
parcial da U1, que sacolejava como se fosse uma primitiva nave dos humanos,
Tamarkan estava insone, comendo uma barra de cereal frente a imensa tela a
visualizar em 3D Andrômeda, apresentando aquilo que satélites-robôs e naves
auxiliares poderiam fazer caso ele não tivesse sido tão energético. Mas, é bom
lembrar que quase todos os satélites-robôs estavam danificados, e que apenas
três naves auxiliares, com pouco combustível, estavam a disposição. Na central,
além dele, só vinte e dois profissionais (números tirados de um Manual cheio de
recomendações), fazendo aquilo andar numa velocidade e controle que só uma
grande quantidade de profissionais poderiam fazer, algo que aqueles andróides
não puderam fazer pelo espécime…
Voltou
ao seu escritório, e se topou com a presença do Andarilho, como sempre cansado
devido à gravidade alta mesmo para seu corpo ultra-resistente, manuseando a
pedra, com a saúde aparentemente em ordem, sentado na poltrona de Tamarkan.
Levantou-se, indicando que queria conversar. Sentou em outra cadeira. O
comandante foi até o seu lugar, e o Andarilho começou:
- Precisamos conversar.
***
- Precisamos conversar? Você descobriu alguma coisa?
– insistiu Tamarkan.
- Agradeço pela reconstrução de meu ventre, e pela
oportunidade que tive de enxergar melhor o contexto disso tudo. Mas, preciso
saber: o que vocês pretendem com o santuário? - o Andarilho sondou.
- Sobrevivência… Não somos “senhores da guerra”,
queremos apenas poder manter o nosso estilo de vida por mais alguns milênios.
Para isso, precisamos de energia e conhecimento.
- Entendo. Não sei no que acreditar, mas, também
preciso chegar até lá. E só vocês possuem as condições necessárias…
- O que você viu?
- O que eu vi está nesta mesma galáxia. E é só um
dos pontos de contato com o santuário, dentre milhões espalhados pelo
multi-universo. Um sol amarelo, um sistema com seis planetas, no que vocês
chamam de Quadrante 29 de Andrômeda. É o único sol amarelo daquele lugar. Um
sol com dimensões muito próximas as do sistema solar da Terra que eu conheço.
Posso confiar minimamente em vocês?
A pergunta ficou no ar. Após a conversa, Tamarkan
reuniu-se com seus melhores homens, e chegou a descobrir a distância necessária
a ser percorrida: 30 anos-luz, aproximadamente. As coordenadas eram inexatas,
mas era possível achar o lugar, e, respeitadas as condições da U1, chegariam ao
destino em dois ciclos de três horas. Contudo, só após mais algumas semanas de
manutenção.
***
O
mar estrelado estendia-se, indicando horizontes tão distantes quanto belos. A
U1 ainda não estava em posição de enviar mensagens a Estação mais próxima dos
urizenianos, localizada a mais de duzentos mil anos-luz, mas o comandante não
tinha essa preocupação de forma tão marcante.
Durante
o mês em que se passou, a assessora militar Nagara conseguiu se aproximar mais
de Tamarkan, tornando-se a preferida para acompanhar determinadas missões, sob
o aval do Prelado. Próximos, os dois permaneceram na central da nave, enquanto
ela voava aqueles trinta anos-luz.
O
Andarilho foi chamado dos seus aposentos, logo que a nave terminou o segundo
ciclo de três horas. Procurando demonstrar segurança, e mantendo a sua lucidez,
adentrou a sala de reuniões do comandante. Estavam lá o comandante Tamarkan, o
subcomandante Veick, o novo Prelado, e Nagara N’Kebeker. Além de um relatório
visível numa tela holográfica em 3D, sobre a mesa escura. Nenhum outro
especialista havia sido convidado.
O
subcomandante começou, sem apresentações, dizendo resumidamente o que constava
na tela:
- Sistema de seis planetas, de sol amarelo… o
planeta ainda está sendo analisado, mas, já podemos dizer que ele possui
atmosfera limpa, gravidade abaixo dos padrões urizenianos, densas zonas
florestais espalhadas por três grandes continentes. Os dias são um pouco longos
para os padrões de nosso povo, 26 horas… nenhuma espécie inteligente viva,
apenas traços milenares de algum tipo de civilização sem escrita… e não
detectamos nenhuma radiação especial. Ou não conseguimos.
O
comandante interrompeu, questionando o Andarilho:
- O que procuramos exatamente? Outra pedra?
Precisaremos fazer uma longa varredura por todo o planeta ou você pode nos
dizer qual continente é o correto?
O
Andarilho respondeu:
- Uma ilha, a nordeste do continente mais a oeste. A
única ilha naquelas redondezas.
O
Prelado pareceu desconfiado:
- Um momento… como você pode ter tanta certeza?
- Não tenho certeza absoluta. Tenho lembranças de um
período de hiperconsciência pelo qual eu passei durante a passagem… fora isso,
possuo um elo com essa pedra que vocês tiraram de mim. A origem dela é de uma
velha muralha localizada nessa ilha. – diz o viajante interdimensional.
As
especulações continuaram mais um pouco, até que foi decidido um plano simples,
envolvendo Tamarkan, o Andarilho, e Nagara, além de outros dois especialistas e
cinco soldados, que, numa nave auxiliar, seguiriam para o lugar.
***
Aquela
nave auxiliar era especial. A preferencial do comandante, e a única auxiliar
com capacidade de voar acima da velocidade da luz. Tinha quase noventa metros
de diâmetro, poltronas luxuosas, e a impressão de que seu interior era maior
que seu exterior.
A
viagem foi curta e a nave pousou. Para o Andarilho, era hora de agir… Com uma
força imensa, transformou todo o excesso de gravidade que o machucava desde o
início de sua abdução pelos urizenianos em energia capaz de enviar cada um
daqueles militares para fora da dimensão alternativa em que se encontravam.
Nagara não pôde gritar e, durante o processo, Tamarkan foi jogado violentamente
contra a parede, devido a explosão de energia que se seguiu ao desaparecimento
dos militares.
Com uma pesada arma urizeniana, que sobrou, o
Andarilho nocauteou a assessora militar e os dois especialistas, jogando-os
fora da nave e amarrando-os. Em seguida, escondeu o cadáver do comandante. Após
isso, ele desligou a gravidade artificial da nave auxiliar… um alívio.
Teria que ser rápido. O subcomandante não ficaria de
braços cruzados, em períodos de quinze minutos ele deveria entrar em contato.
***
Rochas
de até cinco metros de altura formavam uma complexa estrada de gramíneas e
terra, em meio ao cantarolar fino de pássaros exóticos escondidos. Sulcos
sinuosos revelavam palácios submersos pelas areias do tempo. O céu azul
resplandecente também mostrava padrões em baixo-relevo, em conjuntos
aparentemente desorganizados de pequenas muralhas com desenhos de asas, olhos,
círculos, e humanóides. Infelizmente, o Andarilho não teria tempo para ver
tudo. Tinha que seguir com pressa até um círculo de pedras do tamanho de
urizenianos, ornamentadas com desenhos em alto-relevo de flores que lembravam
jacintos, de cores vívidas. Os quinze minutos iriam terminar.
Ele
expandiu a sua consciência, sem se transportar, para, pelo menos, cinco versões
paralelas daquele mesmo lugar, todas com paisagem quase idêntica. Cinco se
tornaram cinco mil, e, em transe, ele acessou algo que havia sido gravado em um
bolsão quântico transdimensional. Era o caminho.
Voltou
a si. Ainda era dia. Os quinze minutos estavam terminados. Vendo outras duas
naves auxiliares pousando, o Andarilho correu o máximo que pôde, ferindo as
suas pernas naqueles espinhos, evitando tropeçar no chão irregular,
trespassando plantas baixas. Entrou na nave vazia, de onde viera, sem geração
de gravidade artificial. Na leveza do peso daquele mundo, ele decolou a nave,
em meio a tiros de ondas eletromagnéticas insuportavelmente poderosas - já que,
numa missão predominantemente científica, esse era o principal armamento dos
urizenianos para aqueles dias. Atingiu, com dificuldades, a exosfera e,
digitando as coordenadas espaciais e concentrando-se nas coordenadas
interdimensionais, em meio ao tagarelar do subcomandante em seu
intercomunicador, fez com que a nave partisse… uma fração de segundo depois,
transportou o próprio percurso para um universo paralelo. Era a localização do
santuário, a pista definitiva, de toda uma série de dados que só existiam, até
então, virtualmente, em sua mente.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem o próximo capítulo.


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