Os melhores blogs estão aqui

sábado, 19 de julho de 2014

Capítulo 03 O NÚCLEO

3-      Solidão


            Acordei com uma dormência e frio na nuca. Boca seca e olhos com um leve ardor. Soltei-me de tudo o que me prendia e me alimentava, com calma. A penumbra cobria. Além de mim, só Paul e Rimbaud já haviam despertado.
            Durante o período em que eu me limpava, familiarizando-me novamente ao uso dos sentidos, e vestia meu surrado uniforme outrora furtado de uma realidade alternativa em uma daquelas minhas viagens, procurei me orientar. Onde estaríamos?
            Mais tarde, lembro-me de que nos reunimos todos em uma espécie de refeitório com móveis fora dos padrões de medida, um cheiro de mingau, e começamos a ouvir Rimbaud e sua percepção de onde estávamos:

- Um braço externo de Andrômeda. Faltam ainda alguns anos-luz para o alvo. Infelizmente.

            O que ele dizia estava de acordo com os aparelhos, cujas leituras eram transmitidas para meu ciclocomputador de pulso. Não sabíamos mais para onde partir.

- Apesar de tudo, sabemos o que procurar. Um Portal? Uma nova coordenada? Ou talvez não tão exatamente, mas suficientemente. – prosseguia Rimbaud.

            Continuamos monitorando a zona espacial de um braço externo daquela galáxia. Quando, alguns dias depois, Galbamestt atrasou-se para o seu turno. Uma das moças foi procurá-lo no quarto, não lembro qual delas, abriu a porta, tentou acordá-lo, mas… nada. Fui até lá, com Dina, e vimos que ele balbuciava.
           
- Um estado de sonambulismo? – perguntei.

            Na enfermaria, nenhum diagnóstico conclusivo. Causa desconhecida, e conseqüências incertas. Em algum momento, Galbamestt começou a balbuciar. Foram algumas palavras, ou “quase palavras”, que, coincidentemente ou não, ocorreram um milésimo de segundo antes dos meus outros seis tripulantes e companheiros perderem a consciência!


***


             Arrastei os corpos como se fosse uma criança solitária enfileirando os seus bonecos. Infelizmente, não tinha por perto os meus ciclocomputadores centrais, salvo aquela coisinha de pulso. Passei um momento dramático tentando usar os aparelhos daquela enfermaria e o auxílio de meus servorrobôs. E, a cada gota de suor, um deles parava de funcionar… de viver.
            Estava só outra vez. Aliás, pior: só e longe de casa.


***


            Estou aqui, neste momento, relatando tudo no tempo presente. Já faz um dia em que tudo se passou. Saio agora da enfermaria e me encaminho para a central. Ando naquele elevador anti-gravitacional ruminando sobre tudo o que me acontecera. A partir deste ponto, prefiro não contar mais nada. De agora em diante, deixarei que o Destino continue a contar a história.


***


            O Andarilho não sabia, mas, em meio àquela imensidão tão vasta, os sete andróides, com suas memórias parcialmente falsas, tiveram o seu fim programado, após reunir as informações necessárias da relação entre aquele andarilho interdimensional e o que seus construtores buscavam. Era hora dos urizenianos entrarem em ação. Tudo devidamente manipulado, bem como a sua psique e padrões telepáticos, para que, de longe, outras duas naves urizenianas, do mesmo porte e características, pudessem chegar.

- Sabemos há muito tempo que ele é a chave. E, sobretudo com os dados vindos da “unidade Galbamestt”, creio que já sabemos como utilizá-lo, ampliando o seu dom de forma a que nossas naves possam partir juntas. A combinação daqueles sete receptáculos energéticos, daqueles andróides, foi um gasto necessário. - dizia o barbudo Prelado Odarkan, líder-tático, ao lado do seu comandante, Tamarkan, e outros conselheiros.

            Sob o comando de Tamarkan - do alto de seus quase quatro metros de altura, faces largas, pele alva, longa testa e olhos negros, trajado com seu uniforme a indicar, pela cor azul-escura, a sua alta posição hierárquica - a abdução foi ordenada. E, enquanto a outra nave, a U2, cuidava disso, ele poderia seguir com a U1 para o sistema solar e planeta corretos - um sol moribundo para um planeta deserto e gelado.


***


Deprimido, o Andarilho ainda teve ímpeto de passar para seu ciclocomputador de pulso todo o trabalho daquelas gêmeas que tanto o encantaram, e que sabiam muita coisa de Física e suas mais diversas especialidades, sobretudo os assuntos especialmente caros para a navegação espacial. Se iria morrer ali, seria uma morte bem informada, regada a boas leituras. Afinal, ele iria sair de lá? Se ele se teleportasse para qualquer dimensão paralela, muito, mas muito dificilmente ele não apareceria no espaço sideral vazio. E nem poderia ter a companhia de supostos sósias alternativos, já que ele, ao que percebera desde há muito, parecia ser único e original. Mas, não vamos nos distrair…
Sem perceber de imediato, o Andarilho viu. Uma indicação de uma das telas de medição. Uma flutuação da energia. A típica coisa que chamaria a atenção de Galbamestt, que parecia ter tino para sentir essas coisas. Ele, sozinho, procurou inteirar-se das medições, e ainda pôde ver uma nave sendo localizada… quando sentiu um estalo mental, uma vertigem… e desabou.


***


            Os portais da garagem, tal qual um diafragma de máquina fotográfica, abriam-se na U2, enquanto outras portas se fechavam contra o vácuo. Uma nave menor descia, em seu formato alongado, com uma equipe médica urizeniana esperando, com um médico, ajudantes, e um tipo arredondado, compacto, e acinzentado de robô médico flutuante e silencioso. A partir dali, numa esteira anti-gravitacional o espécime, conhecido como Runner ou Andarilho, foi levado, claramente em sono induzido, até uma sala especial de contenção de organismos estranhos. Seria rapidamente estudado, em todos os seus padrões subatômicos, enquanto a U2 seguia até onde estava a nave-líder. Paralelo a isso, a Gulliver sofreu um processo de auto-destruição.
Em outra nave, posteriormente, vieram os sete corpos dos andróides, levados com todo o cuidado para uma outra sala, um outro laboratório.

- Tudo pronto, Subcomandante Byz N’gsek. Algo mais? - questionava o adido-chefe do setor de laboratórios, pelo seu intercomunicador.

- Certo. Continue seguindo o protocolo. Estarei aí nas próximas horas. – encerrava o gordo e baixo Byz, com seus meros três metros e vinte de altura, de seu escritório.


***


Aquela zona espacial exibia-se resplandecente, vista de longe como uma espécie de anel vazio de uma nuvem de asteróides. Uma ilha em meio a um mar de caos. Porém, uma ilha depauperada, como os homens e mulheres da U1 podiam verificar, há poucos dias-luz de lá.

- As medições conferem, Comandante Tamarkan. - dizia um dos engenheiros, pessoalmente, na central de comando.

O comandante anuiu com a cabeça. Ótimo. Agora, só teriam que esperar a “chave”.



Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem o próximo capítulo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário