3- Solidão
Acordei
com uma dormência e frio na nuca. Boca seca e olhos com um leve ardor.
Soltei-me de tudo o que me prendia e me alimentava, com calma. A penumbra
cobria. Além de mim, só Paul e Rimbaud já haviam despertado.
Durante
o período em que eu me limpava, familiarizando-me novamente ao uso dos
sentidos, e vestia meu surrado uniforme outrora furtado de uma realidade
alternativa em uma daquelas minhas viagens, procurei me orientar. Onde
estaríamos?
Mais
tarde, lembro-me de que nos reunimos todos em uma espécie de refeitório com
móveis fora dos padrões de medida, um cheiro de mingau, e começamos a ouvir
Rimbaud e sua percepção de onde estávamos:
- Um braço externo de Andrômeda. Faltam ainda alguns
anos-luz para o alvo. Infelizmente.
O que ele dizia estava de acordo com
os aparelhos, cujas leituras eram transmitidas para meu ciclocomputador de
pulso. Não sabíamos mais para onde partir.
- Apesar de tudo, sabemos o que procurar. Um Portal?
Uma nova coordenada? Ou talvez não tão exatamente, mas suficientemente. –
prosseguia Rimbaud.
Continuamos
monitorando a zona espacial de um braço externo daquela galáxia. Quando, alguns
dias depois, Galbamestt atrasou-se para o seu turno. Uma das moças foi
procurá-lo no quarto, não lembro qual delas, abriu a porta, tentou acordá-lo,
mas… nada. Fui até lá, com Dina, e vimos que ele balbuciava.
- Um estado de sonambulismo? – perguntei.
Na
enfermaria, nenhum diagnóstico conclusivo. Causa desconhecida, e conseqüências
incertas. Em algum momento, Galbamestt começou a balbuciar. Foram algumas
palavras, ou “quase palavras”, que, coincidentemente ou não, ocorreram um
milésimo de segundo antes dos meus outros seis tripulantes e companheiros
perderem a consciência!
***
Arrastei os corpos como se fosse uma criança
solitária enfileirando os seus bonecos. Infelizmente, não tinha por perto os
meus ciclocomputadores centrais, salvo aquela coisinha de pulso. Passei um
momento dramático tentando usar os aparelhos daquela enfermaria e o auxílio de
meus servorrobôs. E, a cada gota de suor, um deles parava de funcionar… de
viver.
Estava
só outra vez. Aliás, pior: só e longe de casa.
***
Estou
aqui, neste momento, relatando tudo no tempo presente. Já faz um dia em que
tudo se passou. Saio agora da enfermaria e me encaminho para a central. Ando
naquele elevador anti-gravitacional ruminando sobre tudo o que me acontecera. A
partir deste ponto, prefiro não contar mais nada. De agora em diante, deixarei
que o Destino continue a contar a história.
***
O
Andarilho não sabia, mas, em meio àquela imensidão tão vasta, os sete
andróides, com suas memórias parcialmente falsas, tiveram o seu fim programado,
após reunir as informações necessárias da relação entre aquele andarilho
interdimensional e o que seus construtores buscavam. Era hora dos urizenianos
entrarem em ação. Tudo devidamente manipulado, bem como a sua psique e padrões
telepáticos, para que, de longe, outras duas naves urizenianas, do mesmo porte
e características, pudessem chegar.
- Sabemos há muito tempo que ele é a chave. E,
sobretudo com os dados vindos da “unidade Galbamestt”, creio que já sabemos
como utilizá-lo, ampliando o seu dom de forma a que nossas naves possam partir
juntas. A combinação daqueles sete receptáculos energéticos, daqueles
andróides, foi um gasto necessário. - dizia o barbudo Prelado Odarkan,
líder-tático, ao lado do seu comandante, Tamarkan, e outros conselheiros.
Sob
o comando de Tamarkan - do alto de seus quase quatro metros de altura, faces
largas, pele alva, longa testa e olhos negros, trajado com seu uniforme a
indicar, pela cor azul-escura, a sua alta posição hierárquica - a abdução foi
ordenada. E, enquanto a outra nave, a U2, cuidava disso, ele poderia seguir com
a U1 para o sistema solar e planeta corretos - um sol moribundo para um planeta
deserto e gelado.
***
Deprimido, o Andarilho ainda teve ímpeto de passar
para seu ciclocomputador de pulso todo o trabalho daquelas gêmeas que tanto o
encantaram, e que sabiam muita coisa de Física e suas mais diversas
especialidades, sobretudo os assuntos especialmente caros para a navegação
espacial. Se iria morrer ali, seria uma morte bem informada, regada a boas
leituras. Afinal, ele iria sair de lá? Se ele se teleportasse para qualquer
dimensão paralela, muito, mas muito dificilmente ele não apareceria no espaço
sideral vazio. E nem poderia ter a companhia de supostos sósias alternativos,
já que ele, ao que percebera desde há muito, parecia ser único e original. Mas,
não vamos nos distrair…
Sem perceber de imediato, o Andarilho viu. Uma
indicação de uma das telas de medição. Uma flutuação da energia. A típica coisa
que chamaria a atenção de Galbamestt, que parecia ter tino para sentir essas
coisas. Ele, sozinho, procurou inteirar-se das medições, e ainda pôde ver uma
nave sendo localizada… quando sentiu um estalo mental, uma vertigem… e desabou.
***
Os portais da garagem, tal qual um
diafragma de máquina fotográfica, abriam-se na U2, enquanto outras portas se
fechavam contra o vácuo. Uma nave menor descia, em seu formato alongado, com
uma equipe médica urizeniana esperando, com um médico, ajudantes, e um tipo
arredondado, compacto, e acinzentado de robô médico flutuante e silencioso. A
partir dali, numa esteira anti-gravitacional o espécime, conhecido como Runner
ou Andarilho, foi levado, claramente em sono induzido, até uma sala especial de
contenção de organismos estranhos. Seria rapidamente estudado, em todos os seus
padrões subatômicos, enquanto a U2 seguia até onde estava a nave-líder.
Paralelo a isso, a Gulliver sofreu um processo de auto-destruição.
Em outra nave, posteriormente, vieram os sete corpos
dos andróides, levados com todo o cuidado para uma outra sala, um outro
laboratório.
- Tudo pronto, Subcomandante Byz N’gsek. Algo mais?
- questionava o adido-chefe do setor de laboratórios, pelo seu
intercomunicador.
- Certo. Continue seguindo o protocolo. Estarei aí
nas próximas horas. – encerrava o gordo e baixo Byz, com seus meros três metros
e vinte de altura, de seu escritório.
***
Aquela zona espacial exibia-se resplandecente, vista
de longe como uma espécie de anel vazio de uma nuvem de asteróides. Uma ilha em
meio a um mar de caos. Porém, uma ilha depauperada, como os homens e mulheres
da U1 podiam verificar, há poucos dias-luz de lá.
- As medições conferem, Comandante Tamarkan. - dizia
um dos engenheiros, pessoalmente, na central de comando.
O comandante anuiu com a cabeça. Ótimo. Agora, só
teriam que esperar a “chave”.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem o próximo capítulo.


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