Introdução
A
corrida foi rápida. Mas, chegaram a tempo, longe da multidão furiosa de
terranos. Mereciam a salvação?
O
interior daquela nave estava também tumultuado. Havia humanos e alguns poucos
alienígenas parecidos com humanos. Uma voz que se espalhava por todo aquele
espaço que mais parecia fazer com que aquelas pessoas, aquelas milhares de
pessoas, fossem gado ou formigas, soou. Um dos trechos dizia:
- …em 18 fisiohoras, conforme o Tempo que corre
aqui. Por favor, acomodem-se calmamente. O Nuc da Zona 89721 nos espera.
Todos
se calaram. As pessoas estavam apreensivas, amontoadas, sem conforte, e com a
gravitação artificial mal regulada. O que importa é que, segundo diziam as
autoridades, eles, os eleitos, iriam sobreviver… Será?
As 18 fisiohoras, conforme eles chamavam,
nunca passaram rápido o suficiente. As avarias no meio da viagem eliminaram
pelo menos um quarto dos passageiros.
Milhares
de anos-luz depois, um disco prateado que nada mais era que um gigantesco campo
de força, protegendo uma construção igualmente gigante. Eles chegaram,
alquebrados, feridos, quando o experimento começou.
- Sintam-se em casa e… - dizia uma voz coletiva, que
se unia a todos como num burburinho.
O
espaço ao redor, aquela escuridão distante e vertiginosa, mostrava que os
poucos brilhos das estrelas e de outros fenômenos cósmicos iam desaparecendo.
Os
cientistas humanos nunca souberam dizer ao certo o que era aquilo, como começou
e, muito menos, como impedir. O que importava é que tudo aquilo era um fato, um
processo de decadência seguidora de uma lógica desconhecida, que ia carcomendo
cada fio da Existência.
O
tempo para a preparação das mentes foi rápido. Ou, ao menos, apressado. Aquelas
inúmeras mentes foram sendo guardadas em… algum lugar, enquanto tudo desabava
“lá fora”. O universo ia se apequenando, limitando-se, compactando-se,
devorando os desfavorecidos que ficaram perdidos em seus planetas.
- …preparem-se! Todos vocês que aqui chegam, deitem-se
onde puderem e conectem-se ao psicofusor. – soava outra voz por um ampliador de
sons.
Quem
não podia ouvir, alguns corpos muito feridos da viagem, foram sendo eliminados
por robôs. Sem ninguém saber ou desejar saber sobre isso. Era uma eliminação
que parecia ser necessária.
Tudo
ia se acalmando, todo o vendaval de pensamentos. Como uma noite eterna que caía,
cada corpo foi sendo declarado morto, em uma daquelas salas de meditação do
novo local prestes a recebê-los enquanto mentes conscientes. Tudo revelando um
alto grau de organização, talvez, pelos calmantes e outras drogas mais
específicas aplicadas em cada um daqueles sobreviventes.
O
som silente do Nada ecoava bem longe. O universo encolhia e separava-se,
mantendo-se existente apenas em algumas dezenas de milhares de centros de
realidade concentrada, núcleos esparsos pelo universo decadente.
I.
O
Adimensional
1- Kuiper
As velharias acumulavam-se pelo armazém. Mofo,
escuridão, quilômetros de armas, ao lado de peças de todo tipo de aparelhagem,
enfileiravam-se por aquele insólito espaço. Tudo muito típico da década de
oitenta anterior ao século atual. E havia eu, um catador de antiguidades,
praticamente perdido em busca daquele armamento, localizado no asteróide
Hollins, um dos muitos do Cinturão de Kuiper, bem próximo à órbita de Plutão.
Tudo em mais um dos mundos alternativos que eu investigo em busca de suprimentos
e conhecimento.
Alguns me conhecem por “Runner”, outros como
“Andarilho”. Em meus séculos de existência, pulo de versão em versão do sistema
solar da Terra em busca, primordialmente, de algo que explique de onde vim e
quem criou minha estação de pesquisas nesse asteróide. É a partir dele que eu
visito todos os mundos, cuja existência naquela órbita é praticamente fixa.
Nos últimos meses, uma pista me fez seguir para esse
mundo que eu chamo de Universo-188. Aqui, diferente do mundo de onde venho, a
Terra tornou-se um planeta fértil, com uma raça de seres parecida comigo, ainda
que não falante do meu intercosmos. E, em “meu” asteróide, ao invés de minha
base surgiu um armazém espacial abandonado. O Tempo? Geralmente o quarto
milênio, mas, em alguns casos, o tempo passa numa velocidade, numa ordem
diferente.
Eu estava
atrás, além de suprimentos, de algumas medições as quais um ser remoto não
poderia realizar. Tive que ir pessoalmente, a partir do recinto em que apareci
com minha velha roupa de astronauta: uma seção abandonada de hard disks em
formato de cristais.
Os discos
cristalinos eram modelos antigos. Mas, nenhuma informação me interessava. Fui
atrás das armas. Aproveitei para recolher algumas e, concentrando-me, mandei-as
para o meu mundo, num simples processo de teleportação de objetos. Tudo muito
comum, rotineiro, simples e cotidiano.
Em algum momento durante o meu trabalho, contudo,
ouvi presença humana. Imaginei que fossem, talvez, duas pessoas. Vozes baixas e
barítonas. Escondi-me. Durante horas, aqueles monstros de metal em forma
humanóide, fizeram a guarda controlando uma série de pequenas câmeras voadoras.
Apesar de tudo minha tecnologia venceu; passei despercebido.
Passado o susto, copiei rapidamente os dados que me
pareciam úteis, com um instrumento que me permitia escanear dados simplesmente
passando o objeto pelos cristais.
Finalmente, ao final de um corredor sem saída, e
antes de ser encontrado por qualquer dispositivo, concentrei-me e voltei ao meu
mundo.
***
Lar. Não sei dizer se vivo num verdadeiro lar. Minha
pequena base em Hollins não possui nada de luxuoso. O básico se impõe:
climatização, gravidade artificial, oxigênio, unidade médica quase nunca
explorada, uma central de ciclocomputadores cujos monitores apresentam
diferentes cenários do sistema solar e um pouco do que há após a Nuvem de Oort,
um espaço total de oitocentos metros quadrados, água e ração. Vivo nesse lugar
há mais de quatrocentos anos segundo a translação do terceiro planeta desse
sistema solar, e só possuo lembranças dele e das minhas viagens em busca do que
já salientei: a minha origem e a de minha residência espacial.
A Terra-188 foi a decepção que eu esperava. Nenhuma
pista sobre mim. Tudo acabava ali, por enquanto. Pensando nisso, tentei dormir,
mas só rolei pela cama (um beliche improvisado), de vez em quando só olhando
para o teto e sentindo a tênue refrigeração sob a minha pele. Lembro-me como se
fosse ontem quando, subitamente, um curto alarme tocou, vindo da sala de
ciclocomputadores. Levantei-me com calma e me dirigi até lá.
Ao chegar, vi, para meu espanto, em um dos
monitores, na órbita de Netuno, uma nave desconhecida. Sua estrutura oval, com
um brilho branco ao seu redor, não era nada comparada a simples menção de seu
tamanho: um quilômetro e meio entre os seus pólos!
Com o passar das horas, meu principal
ciclocomputador apresentou dados mais concretos? Nada. Absolutamente mais nada.
Algo camuflava a nave contra meus pequenos satélites e sensores. Pensei, então,
se não seria interessante se eu fosse até lá. Imediatamente, tentei contato por
meu intercomunicador, mas… também nada.
Segui até a garagem, com uma única e pequena nave de
vôo sub-luz. Dei os comandos necessários e fui até onde eu queria.
***
Em meio à vastidão de estrelas, a leveza do espaço
sideral, enquanto a nave alienígena, recoberta por um manto energético tênue,
apresentava uma fuselagem cheia de defeitos visíveis, fruto de impactos antigos
naquele metal de procedência desconhecida.
Segundo a medição de meus ciclocomputadores de
bordo, aquele campo de força possuía diversos buracos. Aproveitei e me pus
caminhando por um deles. Minhas botas magnéticas funcionavam corretamente,
minhas medições seguiam incólumes, bem como o frio na barriga - afinal, era a
primeira vez em quatrocentos anos que uma das minhas sondas captava algo como
uma nave alienígena abandonada.
Num ponto indicado pelos meus aparelhos de pulso, e
respirando fundo aquele oxigênio semi-rarefeito de meu capacete, comecei a usar
uma arma magnética para abrir um círculo de entrada perfeito para mim. Sem
nenhum som visível, o metal foi se retorcendo, perto de meus pés. Em pouco
tempo, consegui criar uma entrada do meu tamanho. Ótimo. Deixei tudo preparado para
a exploração do dia seguinte. Precisei voltar.
***
Gravando Caso 0/Observação 1: “Nave
não-identificada, classe M, fuselagem de um milênio indicando rupturas
superficiais, metal enfraquecido, tênue campo de força de fabricação
desconhecida, sem contatos.”
Encerrada a curta gravação, naquela sala com seis
monitores holográficos de um conjunto de ciclocomputadores, eu me encaminhei,
após verificar se estava tudo em ordem na garagem e no meu estoque de insumos,
aos meus aposentos. E tive sonhos agitados.
Em um primeiro momento, eu me via pilotando aquela
nave desconhecida, carregada de tripulantes eficientes, numa missão de meu
mundo decadente, rumo a um objetivo, a uma espécie de tesouro fundamental que
salvaria nossa versão da Terra.
Em outro momento, eu era um faxineiro numa
repartição pública de um país subdesenvolvido, vendo, numa certa manhã de
trabalho, o céu entrar em chamas e, em seguida, a escuridão.
Mais adiante, eu era um homem aprisionado em algum
lugar, parecido com minha própria base espacial, porém muito mais vasto e
luminoso, com vozes em minha cabeça e visões cansativas de oponentes
desafiadores, impedindo-me de achar uma saída… Acordei no meio do turno da
noite.
Sozinho como sempre, encaminhei-me até a minha sala
de observação, e passei horas mirando aquele objeto voador não identificado.
Qual era a minha missão?
***
Resolvi
chamar aquela nave de “Gulliver”. Não sei por que. Conhecia essa estória de uma
de minhas viagens a uma versão da Terra onde o Império Britânico se estendia
firme e forte em pleno quarto milênio.
Gulliver pairava, gigantesca de meu ponto-de-vista.
Enquanto isso, com meus equipamentos, eu penetrava por aquela abertura que
fizera no dia anterior, ao perfurar uma fuselagem de várias camadas. Preparado
com meu oxigênio, com minha roupa astronáutica, e minha mente lúcida e determinada,
parti por o que parecia ser a sala de máquinas.
Pouca coisa, desde o dia anterior, havia sido sugada
pelo buraco. Pouca. Não vi nenhum resíduo saído daquele chão de malha de aço. A
escuridão, contudo, só era rompida pelas luzes de meu capacete e luvas, e pelas
estrelas vívidas que apareciam pelo buraco. Eu caminhava com um ciclocomputador
de pulso, catalogando resíduos microscópicos e, ao mesmo tempo, mapeando um
caminho.
Segui por um ambiente de escuridão cada vez mais
densa, em meio a paredes feitas de engrenagens que só um engenheiro espacial do
século XXXVIII entenderia. Não era bem o meu caso. Eu só via bugigangas, as
quais meu ciclocomputador ia mapeando. E, em algum momento, quando usei a
iluminação noturna de meu capacete, com a qual eu seguiria a partir de então,
vi algo parecido com uma miniatura daqueles primitivos aceleradores de
partículas. Enquanto isso, mais e mais coisas vagavam pela atmosfera ausente,
por todo aquele lugar.
***
Gravando Caso 0/ Observação 05: “Temperatura
variando em alguns cômodos de -180 graus Celsius a +5 graus, possível defeito
no medidor; nenhum resquício de gravidade; nenhum agente biológico detectado… Término
da avaliação do que eu chamo de ‘sala de máquinas’”.
Subi pelo vão de um elevador, em meio a metal velho
numa atmosfera miasmática. Aliás, voei, com ajuda da energia cinética liberada
artificialmente pelo meu equipamento. Em pouco tempo, deparei-me, no final
daquele dia, daquele turno, diretamente com o entroncamento central de uma
série de corredores menores do que me pareceu ser uma espécie de ala militar ao
lado de uma ala médica. Aquelas duas alas, coligadas, pareciam ocupar pelo
menos três pavimentos.
Enquanto andava, não olhava apenas para minha
aparelhagem de pulso. Ficava atento, naquela escuridão, ao que, através de
iluminação noturna, eu via como portas gigantescas. Cheguei a abrir uma delas,
uma luz fraca se acendeu, vinda de algum tipo de grumo orgânico no teto, bioluminescente.
Primeiro sinal de vida. Coletei uma amostra, um pequeno pedaço, e a luz apagou.
Mas, mesmo de volta a minha iluminação noturna, pude ver uma vasta sala
administrativa, com poltronas que dariam, segundo meus cálculos, para pessoas
de três metros a três metros e meio de altura.
Debaixo do teto distante e inclemente daquela mansão
de metal abandonada pelos cosmos, saí do recinto e tentei me reorientar para
voltar para casa. Tive uma vertigem… não, minha atmosfera interna, minha
roupagem, estava em perfeitas condições. Pensei, pensei, e, em algum momento,
segui para uma determinada direção. Em frente. Meu ciclocomputador calculava um
ponto de retorno por ali. Comecei a me mexer por alguns minutos, caminhando
rapidamente com a ajuda de minhas botas magnéticas, da forma como podia correr,
quando o meu equipamento detectou um barulho sutil. Não vinha de mim.
***
Apenas -10 graus Celsius. Uma surpresa. A partir da
origem do som, meu ciclocomputador de pulso me guiou até uma sala imensa, sem
portas. Tudo na minha cabeça vinha acelerado pelo medo. Afinal, não tinha
armas. Não trouxera nenhuma. Teria que tomar cuidado da forma como me surgisse
em mente.
Tentei pegar uma imagem completa daquele recinto,
mas só captei móveis gigantescos misturados. Fora isso, uma parede. Tateei.
Tateei e segui com a mão até me deparar com uma câmara feita de algum tipo de
vidro. Tentei prestar mais atenção… um corpo!
Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem o próximo capítulo. E relevem as imperfeições.


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