9- Entendimentos
Com a ajuda de um projetor
mental, as palavras do chefe da
missão exeker foram discorrendo pacientemente:
-
Nossos antepassados já foram como os humanos. Quando éramos numerosos, vivíamos
em constantes crises entre nossos povos. Entramos em inúmeras guerras. Mas,
também, esses mesmos antepassados, dedicaram-se, em tempos de paz, a tentar
reconstituir a origem deste universo enquanto entidade física, e não
necessariamente enquanto uma das realidades alternativas.
Nesse momento, ele virou-se rapidamente
para Murion. Em seguida, continuou:
-
Há seiscentas gerações, criamos um túnel para outro universo físico, uma outra
bolha contendo, também, inúmeras galáxias. Não me perguntem como, apenas, na
época, tínhamos uma teoria de que este universo em que vivemos não passa de uma
versão mais complexa e maior de uma galáxia comum; ou, tudo se trata de uma
questão de nomeação.
Nagara estranhou, mas não
interrompeu. E o chefe da missão prosseguiu:
-
O essencial é que descobrimos um universo intacto, com muito mais diversidade
de energia e inteligências que o nosso. Isso aparentemente porque toda a força
da Criação, ao invés de se espalhar apenas por realidades alternativas,
condensou-se em inúmeros outros conglomerados de conglomerados de galáxias.
Mas, sem fugir do discurso, digo que criamos um excelente laço com os seres
mais poderosos e sábios daquele outro universo. São aqueles a que os humanos e
outras espécies humanóides chamavam, ou chamam, de “anjos”. Eles sofreram uma
guerra que durou centenas das nossas gerações, contra uma superinteligência
limítrofe…
- E qual a nossa ligação com o caso? -
questionou Murion.
Calmamente, ele respondeu:
-
Você, Andarilho, possui a habilidade de viajar, sem o uso de nenhuma
tecnologia, por dimensões alternativas deste mesmo universo. E nos é útil por
ser o único ser vivo já encontrado capaz de reunir o mesmo tipo de energia necessária
para o que faremos. Nagara, por outro lado, nos será competente para fazer algo
cuja habilidade nós perdemos, irás decifrar a mente estratégica dessa
superinteligência masculina, de nome “Rama”, que vive no limite entre este
universo e o outro, no Grande Vazio. Por fim, Antônio Kosnow também será útil,
por, desde a infância, ter sido acompanhado por nós, que atualizamos, evoluímos
o seu cérebro sutilmente, fazendo dele um meio de transporte potencial para
esses akashes que vieram, segundo eles mesmos nos comunicaram antes desta
missão, com o intuito de espionar Rama, mas foram descobertos, atacados, e se
perderam…
-
Espere, eu fui condicionado desde a infância? Como isso aconteceu? - insistia
Kosnow.
Sem nenhuma consideração, Arith não
respondeu e recomendou:
-
Aceitem por bem o fato de que eu não tenho muito o que revelar. Já sofremos
muito com nós mesmos, a ponto de termos que viver neste casulo cósmico. Mas, se
vocês não ajudarem os akashes, perderão a chance de evitar que Rama domine
todos os oráculos cósmicos que construímos através de inúmeras realidades
alternativas, e, com tal força, em sua loucura, faça com que um universo se
choque com outro… É isso o que Rama quer: destruição, vingança. Ainda não
sabemos o porquê, os akashes também não nos dizem muito, mas o principal é que
o risco existe, e queremos evitar.
“E,
por favor: Nagara e Murion, tentem não deixar que o passado de vocês interfira.
Sabemos que Nagara participou da equipe que o abduziu, Murion. Mas, aquilo já
passou. Você descobriu o seu nome, o seu criador, e mistérios que estão fora de
nossa alçada. Além disso, como sempre tentou atuar com justiça em suas missões
particulares, acreditamos que…”
-
Tudo bem. Correto. Para onde iremos?
-
Iremos até Andrômeda. Lá, diremos o que virá.
Kosnow, sem entender nada desse
suposto “passado” entre os dois, como um condenado, teve que aceitar o seu
destino. Quanto aos motivos de Nagara para aceitar aquilo pareciam se resumir a
curiosidade científica e militar, que lhe era inerente. Ela pretendia, então,
esquecer aquela missão, aquela em que ela e seu povo tentaram achar um
santuário cósmico e foram derrotados por um único homem sob circunstâncias que
não vem mais ao caso. Mesmo assim, ela ainda fez uma exigência:
-
E quanto aos meus companheiros que ficaram para trás? E quanto à minha equipe?
Arith, querendo encerrar, disse:
-
Quando você retornar, você saberá que nós os devolvemos ao seu mundo de origem,
são e salvos. Acredite em mim.
Ela permaneceu calada. O evento, com
o testemunho de dez outros exekers, terminou, e eles foram conduzidos de volta
por onde vieram. Muitas dúvidas ainda persistiam. Entretanto, pouco antes de
voltarem, Thle informou:
-
Chegaremos, daqui a quatro horas, a Andrômeda. Fiquem preparados. E boa sorte.
O que fariam em Andrômeda? Por certo
não tinham os recursos necessários para chegarem a tempo a essa “fronteira”. Também
se poderia questionar como seria aberta a passagem para o outro universo.
Kosnow tinha essa dúvida, que, em seu quarto, foi prontamente respondida pelos
akashes.
“Você
fará isso com a ajuda de Murion. Mas, antes, terá que lidar com Rama.”
A mensagem silenciou.
***
Uma das trinta e seis luas do oitavo
planeta do sistema Seik destacava-se por sua vermelhidão, por seu aspecto
árido, e por seus lagos ácidos para humanos, exekers, e urizenianos. Nagara
observava tudo aquilo da nave auxiliar, ao lado de Murion e Kosnow, e só
lembrava de sua missão também em Andrômeda, no passado. Mas, aquilo foi em
outra realidade alternativa.
Antônio Kosnow não prestava a
atenção nisso. Como elemento mais importante da missão, duvidava de sua própria
essencialidade naquilo tudo, e não sabia o que iriam fazer ali.
Mais abaixo, à medida que a nave
cilíndrica, auxiliar, pousava no chão desértico, dava para perceber que, apesar
do clima árido e do ar seco, tudo parecia seguro para os três. Havia uma
mini-estação subterrânea para onde seriam levados, e comida, água pura, ar
climatizado.
Separadamente, o brasileiro foi
levado, com seus quatro akashes, até uma sala, recoberta por paredes
envidraçadas, transparentes. Do outro lado de uma delas, havia um conjunto de
três aparelhos retangulares e uma esfera negra pequena, aparentemente sem
ligação física entre eles, que formavam um arco sobre um ponto vermelho no
chão.
-
Espere aqui. Os akashes se regenerarão mais rapidamente com esse gerador. – disse
Thle, que se foi.
Enquanto isso, a esfera negra ia
adquirindo uma cor branco-amarelada, de pequena intensidade, mas de força
constante. Kosnow não sabia como aquilo funcionava, e, em determinado e
impreciso momento, o tranqüilo Murion e a estupefata Nagara foram postos juntos
a ele.
Finalmente, os quatro “vaga-lumes”
voltaram a sua forma anterior, a de quatro humanóides brilhantes, grandiosos.
“Preparem-se.
Será agora.”
Não apenas Kosnow “ouviu” aquilo; a
telepatia, dessa vez, foi direcionada aos três. E, tal qual uma lâmpada que se
apaga, simplesmente se foram.
***
Os satélites tangerianos tinham
aspecto rudimentar, mas cobriam uma boa área da minúscula galáxia Gangi,
distante bilhões de anos-luz da Terra, e tinham a tecnologia necessária para
captar grandes aportes de energia relativos a viagens feitas acima da
velocidade da luz, com o uso de tecnologia baseada em matéria escura. Porém,
nesse caso, Ippor’aka, um hermafrodita de rosto vermelho e anguloso, em sua
estação quase toda ocupada por autômatos e localizada nos limites de Gangi, bem
do alto de sua solidão, via se tratar de um episódio urgente. Teria que levar
esse caso aos seus superiores. Tudo se resumia a “eles”: os akashes, que
estavam chegando.
10 - Perdidos
Uma gota caía, e outra, e outra. O
ambiente parecia calmo, enquanto, aos poucos, os três iam abrindo os olhos.
Kosnow foi o primeiro a se por de pé. Estavam numa gruta, um local quase
totalmente escuro, um fato que fazia o brasileiro supor que grutas e demais
locais subterrâneos eram os locais preferidos para os akashes se teleportarem,
considerando seu histórico com eles.
A gravidade e a qualidade do ar,
felizmente, estavam adequadas aos três, devido a ação dos akashes, pois, Kosnow
viu logo o exotismo daquele lugar, recoberto por uma manta verde de vegetais, e
uma variedade de flores bioluminescentes, parecidas com tulipas, porém muito
maiores e embebidas em algum tipo de gosma transparente.
Nagara se pôs a frente, para
procurar uma saída. E Kosnow tentou consultar, mentalmente, os akashes, que
lhes informaram:
“Vamos
ficar bem para o próximo salto. Este mundo está cheio da energia que precisamos
para recarregar e vocês estão seguros. Talvez daqui a 20 horas estejamos
prontos, mas… alertamos: Rama possui seguidores nesta galáxia. Estamos em
Gangi.”
Os quatro pontos luminosos ficaram
mais fracos, emudeceram, enquanto Murion ligava a lanterna de seu
ciclocomputador de pulso e Nagara acendia uma lanterna convencional, que ela
sempre trazia consigo. Kosnow, por sua vez, tinha o fraco brilho dos akashes,
flutuando em seus ombros.
***
A ração trazida e carregada por
Nagara não tinha gosto, mas era nutritiva. Pastilhas e barras de alguma coisa
verde. Eles, por outro lado, não dormiram nada. Haviam seguido por vários quilômetros,
com todo o cuidado para não se perderem naquele labirinto. Chegaram, até, a
cogitar se a habilidade de Murion não poderia tirá-los daquela missão… mas, o
homem adimensional descartou logo a hipótese. Ele tinha interesses nessa
missão, e não pensava em fugir.
-
Então, Nagara, parece que o seu povo não conseguiu ter acesso ao que eu
consegui. E, ao mesmo tempo, sinto dizer que não havia nada demais… - disse
Murion, acocorado, após comer.
-
Não vou perder tempo com meu intercosmos, mas, isso não interessa mais.
Oráculos cósmicos, o Santuário, são páginas viradas. Apenas seguia ordens,
queria juntar algum tipo de credibilidade que me permitisse sustentar a minha
filha. Não sei se eu a verei algum dia. - confessou Nagara.
Murion ficou calado. Agora, ouvia
passos. Kosnow também. Avançaram com calma, tentando agarrar quem quer que
fosse, mas só se depararam com um… brinquedo?
***
Parecia um brinquedo, um bípede
metálico, com fios soltos, empoeirado. Murion usou seu ciclocomputador de pulso
e chegou à seguinte conclusão:
-
Estamos próximos de algum tipo de fábrica abandonada. Fábrica de robôs e,
talvez, de computadores. Seus rastros… Vamos seguir por aqui. - apontou para
uma galeria a oeste, com um teto suficientemente alto para, finalmente, Nagara
poder se esticar.
Mais à frente, cadáveres
desconhecidos, antigos, além de rochas fechando passagens, e um chão metálico
com paredes parcialmente rochosas e parcialmente artificiais. Sem pararem para
descansar, avançaram por um caminho estreito, e se depararam com um pavilhão.
Um lugar imenso cheio de pontos escuros, rachaduras dando a profundezas
obscuras, um cheiro ruim, e uma luz azul. Finalmente, um computador, algo
contendo informações!
***
Em contato sem fio com o
ciclocomputador de pulso de Murion, vieram informações sobre a galáxia, não
pertencente a nenhuma constelação conhecida, porém com visibilidade para a
Constelação de Peixes. Seu formato parecido com o da Via Láctea, e um tamanho
equivalente a um centésimo dela.
A raça dominante naquele mundo,
segundo a descrição de Murion com base no que ele retirava por meio de seu
ciclocomputador, eram o Conglomerado Zalat, formado por cerca de sessenta povos
da mesma espécie “zalat”, seres hermafroditas, ligeiramente altos, pele
avermelhada e, em alguns casos, de olhos puxados. Eram uma civilização um nível
abaixo dos exekers, ocupando dezenove sistemas solares e vinte e oito colônias.
O supercomputador era deles, e não tão avançado quanto sua imagem poderia
aparentar.
Nenhuma informação a mais pôde ser
retirada ou deduzida. Salvo o fato de que eles sabiam onde estavam: no
planeta-colônia Rategash VI, mais precisamente numa ilha a poucas milhas
náuticas de seu único continente.
Dessa vez foi fácil imaginar que
eles teriam pouco tempo. Garatujas sombrias começavam a aparecer com seus
dardos. Não estavam seguros. Veio a inconsciência.
***
Kosnow mal se levantou e bateu a
cabeça no teto. Era uma cela propositalmente minúscula, sem cama, e com,
apenas, um buraco ao fundo. A porta parecia porta de submarino, mas sem nenhum
tipo de trinco. As paredes, o chão e o teto eram uma mistura de metal com
rochas, o que poderia indicar que ele estava no mesmo planeta, e nos mesmos
subterrâneos. Antônio Kosnow mantinha-se sob controle, devido a isso, e por ainda
possuir os quatro pontos brilhantes flutuando acima de seus ombros.
No topo da porta, uma janela
circular se abriu. Ele se aproximou. Estava escuro do lado de fora. Veio uma
voz em idioma reconhecível:
-
Acorde!
De repente, ele se viu numa cadeira
branca, inclinada, amarrado por forças invisíveis. Era uma sala grande, cheia
de cientistas. Seus parceiros estavam ao seu lado esquerdo, mas não podia
enxergar se os akashes estavam por perto.
A luz, amarela, tremulava. O ar estava
relativamente frio. Tentou falar, mas nada saía de sua boca. Foi quando ele
sentiu uma mão fria e amolecida em seu antebraço esquerdo. Era um ser escuro,
alto para os padrões da Terra e baixo para os padrões de Nagara, sem rosto,
recoberto por um manto branco, ladeado por dois daqueles seres hermafroditas os
quais Kosnow não lembrava o nome.
-
Sou Gameht, mensageiro de Rama. Não tenhas medo.
***
As camas foram separadas. Nagara
ainda não enxergava direito, mas sabia estar sendo colocada num lugar mais
fechado, com paredes de aparência envidraçada. Mas, algo ia surgindo em sua
mente.
“Por
favor, não faça nada que chame a atenção. Somos os akashes.”
Mais interessada, ela prestou a
atenção:
“O
mensageiro de Rama veio para iludir. Nós nos escondemos, nos transferindo para
você.”
E, mais adiante, duas mensagens:
“Entre
em contato com Murion. Consiga uma maneira, você não está sendo vista.”
“Não
pudemos nos transferir até ele antes. Através dele, de seu poder, poderemos
criar uma situação nova.”
Nagara ainda tentou perguntar mais,
em pensamentos, mas eles se calaram. Nenhuma luz por perto, nem nada além de
seus batimentos cardíacos. O diferencial é que ela percebeu que as correntes de
campo de força invisível, que mantinham seu corpo preso, estavam bem menos resistentes.
Com calma, ela levantou-se. Agora,
enxergava melhor. Um pouco tonta, tateou a sua cela extremamente pequena para
suas proporções. Deveria encontrar alguma saída rapidamente. E havia uma.
O duto de ventilação parecia
primitivo. Compacto, minúsculo, mas útil. Nagara conseguiu abrir sua grade, sem
muito esforço. Naquele momento, os akashes sumiram.
***
Sentado mais confortavelmente, ao
invés de deitado, em uma sala fechada recoberta por vidros e metal de aspecto
plastificado , Antônio Kosnow começou a
ouvir o relato de Gameht, sentado do outro lado da mesa:
-
Não vim aqui para enganar você. Tenho, entretanto, que alertar sobre o que
esses akashes fizeram contra a civilização que criou Rama, e o porquê de eu
precisar que você me revele para onde os seus guias foram.
“Os
ramas, surgidos no princípio deste universo, eram um povo humanóide inteligente
e com boas perspectivas. Foram os primeiros a colonizar um sistema exossolar
limítrofe, nos confins deste continente de galáxias. Queriam, somente, seguir
com os seus instintos científicos, filosóficos e religiosos, descobrirem de
onde todos nós viemos e de que forma tudo surgiu.”
As imagens iam surgindo e passando
pela mente de Kosnow, que via tudo impressionado. O mensageiro continuou, com
sua voz fleumática:
-
Descobrimos a morada dos anjos, a casa dos deuses, a fonte de nossas crenças.
Mas, meu amigo, eles nos enganaram. Trocávamos recursos, porém eles sempre
queriam mais. Visitavam o nosso lar, mas nós não podíamos visitar o deles.
Buscavam informações detalhadas sobre este universo e suas realidades
alternativas, nós dávamos sem ganhar nada em troca. Até chegar o dia em que
resolvemos nos fechar, cortar relações, desistir da empreitada. Sabe o que
aconteceu?
Após uma pausa, ele continuou:
-
Eles não permitiram, e nós entramos em guerra. Tivemos que atacar para nos
proteger. E, ao primeiro sinal de nossas bombas para o universo deles, formado
por outro tipo de big bang, um grande lastro energético surgiu de volta e nos
atingiu. Fomos exterminados. Entretanto, eles não contavam com a Iniciativa
Pós-Vida. Através dela, seres artificiais como eu foram criados por indústrias
espalhadas por outras galáxias, em acordo com civilizações como esta aqui… há
muito tempo, porém, a maior parte de nós fundiu suas forças psíquicas e criou
Rama. Eu e uns poucos ficamos, viramos mensageiros.
Tudo aquilo, toda aquela conversa de
menos de dez minutos, havia transcorrido, na mente de Kosnow, como se tivesse
durado anos. Com imagens, emoções, como uma monumental novela de milhões de
gerações. Aquelas poucas palavras sem imaginação haviam ganhado o mundo no
subconsciente de Kosnow.
-
Então, onde estão os seus guias? Onde estão os akashes que viviam sobre seus
ombros?
O brasileiro, ainda chocado com a
narrativa, que na verdade não passara de uma explanação rápida, sem saber estar
sendo induzido, sem saber estar sofrendo algum tipo de lavagem cerebral, disse
a verdade:
-
Eu não sei.
As mãos do mensageiro se fecharam.
Olhos invisíveis marcaram os olhos de Antônio Kosnow, que caiu num pesadelo sem
volta.
-
Ele realmente não sabe. – o mensageiro indicou aos oficiais de Rategash VI.
***
A viagem por aquela rede de dutos de
ventilação, interligando uma seção inteira de celas-túmulos, não era capaz de detectar
a presença dos akashes, que se movimentavam através do vôo e de eventuais
microteleportações.
Murion estava em sono profundo,
induzido por sedativos, e estava numa cela-túmulo mais bem vigiada. Os akashes,
entretanto, foram rápidos.
Longe dali, uma sala com um homem
desmaiado sobre a mesa. Fora dela, os oficiais daquele planeta se preparavam
para receber mais encaminhamentos sobre o que deveriam fazer com aqueles três.
Gameht voltaria em menos de um dia. E Ippor’aka já estava onde deveria estar,
frente aos seus superiores, naquele planeta.
A reunião, para ele, foi tensa. Uma
longa análise e discussões sobre seus relatórios, em uma sala localizada a
menos de cem metros daquela em que se encontrava o desacordado Kosnow. Queriam
dados matemáticos daquelas medições, avaliar o poder daqueles três espécimes,
daqueles três corpos. Mesmo assim, eles puderam ouvir…
Uma onda escura se aproximava
rapidamente, englobando pessoas e objetos, e fazendo-os desaparecer. Alguma
coisa estranha vinha da cela-túmulo de Murion. Sons de objetos e pessoas se
retorcendo e sendo engolidas por um tipo de portal interdimensional que se
alastrava como um manto negro. Isso atraiu os militares. E a reunião de
Ippor’aka foi interrompida.
O acesso a Kosnow estava
interrompido, as luzes haviam se apagado, e um feixe eletromagnético danificava
mesmo as armas mais distantes. Sirenes não tocavam, e o silêncio vinha se
tornando mais pesado após os gritos iniciais. Ippor’aka permaneceu naquela
sala, sentado, assustado. Num dado momento, ele viu uma sombra por detrás da
porta. Passou rápido.
Do lado de fora, uns poucos
oficiais, alferes, médicos, e dois comandantes, amontoavam-se numa nave, para
fugir da ilha. Dentro, porém, o ar frio, algumas salas e corredores congelados,
nenhum fogo, nenhum circuito a mostra.
-
Kosnow?
Lentamente, ele foi recobrando a
consciência.
-
Kosnow? Sou eu, Nagara.
-
Sim? O que houve?
-
Temos que sair daqui logo.
-
Você não é…?
Ele estava amolecido, meio fora de
si, e teve que ser quase carregado por Nagara, até o espaçoporto. Murion estava
logo atrás deles, com uma imensa sensação de ressaca. Subiram muitas escadas,
rapidamente, e, quando chegaram onde queriam, Kosnow já estava normal outra
vez. Andando com as próprias pernas e pensando com os próprios miolos. Pararam.
E, naquele instante, os akashes retornaram ao velho dono.
-
Livre, finalmente. – disse Murion, satisfeito, sorrindo internamente como um
homem cansado.
***
Uma nova dificuldade começava a
surgir abaixo daquele sol que se punha: os três não tinham como entrar em uma
das pequenas naves que sobraram no espaçoporto, nem tinham idéia de como fazer
uma delas funcionar. Decidiram se aventurar nas matas periféricas, e voltar a
rede de grutas para se esconderem.
“Nós
temos uma idéia melhor” - pronunciaram-se, telepaticamente, os akashes.
Fazendo-se “ouvir” pelos três.
“Temos
forças suficientes para irmos a uma galáxia vizinha. Mas, de lá, vocês terão
que ser rápidos. Teremos que ficar pouco tempo, e… sim, percebemos os seus
pensamentos Kosnow. As dúvidas serão tiradas quando estivermos seguros.”
Enquanto uma frota de espaçonaves
retornava, prestes a criar um campo de força ao redor de toda aquela ilha, eles
desapareceram a tempo.
Bem longe, na órbita daquele
planeta, uma estação espacial.
-
Então, o único sobrevivente foi você… - dizia o subchefe daquele setor
espacial, numa sala claríssima, banhada por uma luz amarela.
-
Bem, Gameht tem planos para você. – ele continuou.
Ippor’aka ouvia aquele final de
conversa, e sentia-se glorificado pela possibilidade de ser aperfeiçoado e
ajudar à Rama. Quem sabe, ele se tornaria um mensageiro, com direito a vida
eterna e amplos poderes de teleportação, cura, e telepatia. A glória o
aguardava - ou a perdição.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem os próximos capítulos.


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