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terça-feira, 22 de julho de 2014

O NÚCLEO (Caps. 9 e 10)

9- Entendimentos

            Com a ajuda de um projetor mental, as palavras do chefe da missão exeker foram discorrendo pacientemente:

- Nossos antepassados já foram como os humanos. Quando éramos numerosos, vivíamos em constantes crises entre nossos povos. Entramos em inúmeras guerras. Mas, também, esses mesmos antepassados, dedicaram-se, em tempos de paz, a tentar reconstituir a origem deste universo enquanto entidade física, e não necessariamente enquanto uma das realidades alternativas.

Nesse momento, ele virou-se rapidamente para Murion. Em seguida, continuou:

- Há seiscentas gerações, criamos um túnel para outro universo físico, uma outra bolha contendo, também, inúmeras galáxias. Não me perguntem como, apenas, na época, tínhamos uma teoria de que este universo em que vivemos não passa de uma versão mais complexa e maior de uma galáxia comum; ou, tudo se trata de uma questão de nomeação.

            Nagara estranhou, mas não interrompeu. E o chefe da missão prosseguiu:

- O essencial é que descobrimos um universo intacto, com muito mais diversidade de energia e inteligências que o nosso. Isso aparentemente porque toda a força da Criação, ao invés de se espalhar apenas por realidades alternativas, condensou-se em inúmeros outros conglomerados de conglomerados de galáxias. Mas, sem fugir do discurso, digo que criamos um excelente laço com os seres mais poderosos e sábios daquele outro universo. São aqueles a que os humanos e outras espécies humanóides chamavam, ou chamam, de “anjos”. Eles sofreram uma guerra que durou centenas das nossas gerações, contra uma superinteligência limítrofe…

 - E qual a nossa ligação com o caso? - questionou Murion.

            Calmamente, ele respondeu:

- Você, Andarilho, possui a habilidade de viajar, sem o uso de nenhuma tecnologia, por dimensões alternativas deste mesmo universo. E nos é útil por ser o único ser vivo já encontrado capaz de reunir o mesmo tipo de energia necessária para o que faremos. Nagara, por outro lado, nos será competente para fazer algo cuja habilidade nós perdemos, irás decifrar a mente estratégica dessa superinteligência masculina, de nome “Rama”, que vive no limite entre este universo e o outro, no Grande Vazio. Por fim, Antônio Kosnow também será útil, por, desde a infância, ter sido acompanhado por nós, que atualizamos, evoluímos o seu cérebro sutilmente, fazendo dele um meio de transporte potencial para esses akashes que vieram, segundo eles mesmos nos comunicaram antes desta missão, com o intuito de espionar Rama, mas foram descobertos, atacados, e se perderam…

- Espere, eu fui condicionado desde a infância? Como isso aconteceu? - insistia Kosnow.

            Sem nenhuma consideração, Arith não respondeu e recomendou:

- Aceitem por bem o fato de que eu não tenho muito o que revelar. Já sofremos muito com nós mesmos, a ponto de termos que viver neste casulo cósmico. Mas, se vocês não ajudarem os akashes, perderão a chance de evitar que Rama domine todos os oráculos cósmicos que construímos através de inúmeras realidades alternativas, e, com tal força, em sua loucura, faça com que um universo se choque com outro… É isso o que Rama quer: destruição, vingança. Ainda não sabemos o porquê, os akashes também não nos dizem muito, mas o principal é que o risco existe, e queremos evitar.

“E, por favor: Nagara e Murion, tentem não deixar que o passado de vocês interfira. Sabemos que Nagara participou da equipe que o abduziu, Murion. Mas, aquilo já passou. Você descobriu o seu nome, o seu criador, e mistérios que estão fora de nossa alçada. Além disso, como sempre tentou atuar com justiça em suas missões particulares, acreditamos que…”

- Tudo bem. Correto. Para onde iremos?

- Iremos até Andrômeda. Lá, diremos o que virá.

            Kosnow, sem entender nada desse suposto “passado” entre os dois, como um condenado, teve que aceitar o seu destino. Quanto aos motivos de Nagara para aceitar aquilo pareciam se resumir a curiosidade científica e militar, que lhe era inerente. Ela pretendia, então, esquecer aquela missão, aquela em que ela e seu povo tentaram achar um santuário cósmico e foram derrotados por um único homem sob circunstâncias que não vem mais ao caso. Mesmo assim, ela ainda fez uma exigência:

- E quanto aos meus companheiros que ficaram para trás? E quanto à minha equipe?

            Arith, querendo encerrar, disse:

- Quando você retornar, você saberá que nós os devolvemos ao seu mundo de origem, são e salvos. Acredite em mim.

            Ela permaneceu calada. O evento, com o testemunho de dez outros exekers, terminou, e eles foram conduzidos de volta por onde vieram. Muitas dúvidas ainda persistiam. Entretanto, pouco antes de voltarem, Thle informou:

- Chegaremos, daqui a quatro horas, a Andrômeda. Fiquem preparados. E boa sorte.
            O que fariam em Andrômeda? Por certo não tinham os recursos necessários para chegarem a tempo a essa “fronteira”. Também se poderia questionar como seria aberta a passagem para o outro universo. Kosnow tinha essa dúvida, que, em seu quarto, foi prontamente respondida pelos akashes.

“Você fará isso com a ajuda de Murion. Mas, antes, terá que lidar com Rama.”

            A mensagem silenciou.


***

            Uma das trinta e seis luas do oitavo planeta do sistema Seik destacava-se por sua vermelhidão, por seu aspecto árido, e por seus lagos ácidos para humanos, exekers, e urizenianos. Nagara observava tudo aquilo da nave auxiliar, ao lado de Murion e Kosnow, e só lembrava de sua missão também em Andrômeda, no passado. Mas, aquilo foi em outra realidade alternativa.
            Antônio Kosnow não prestava a atenção nisso. Como elemento mais importante da missão, duvidava de sua própria essencialidade naquilo tudo, e não sabia o que iriam fazer ali.
            Mais abaixo, à medida que a nave cilíndrica, auxiliar, pousava no chão desértico, dava para perceber que, apesar do clima árido e do ar seco, tudo parecia seguro para os três. Havia uma mini-estação subterrânea para onde seriam levados, e comida, água pura, ar climatizado.
            Separadamente, o brasileiro foi levado, com seus quatro akashes, até uma sala, recoberta por paredes envidraçadas, transparentes. Do outro lado de uma delas, havia um conjunto de três aparelhos retangulares e uma esfera negra pequena, aparentemente sem ligação física entre eles, que formavam um arco sobre um ponto vermelho no chão.

- Espere aqui. Os akashes se regenerarão mais rapidamente com esse gerador. – disse Thle, que se foi.

            Enquanto isso, a esfera negra ia adquirindo uma cor branco-amarelada, de pequena intensidade, mas de força constante. Kosnow não sabia como aquilo funcionava, e, em determinado e impreciso momento, o tranqüilo Murion e a estupefata Nagara foram postos juntos a ele.
            Finalmente, os quatro “vaga-lumes” voltaram a sua forma anterior, a de quatro humanóides brilhantes, grandiosos.

“Preparem-se. Será agora.”

            Não apenas Kosnow “ouviu” aquilo; a telepatia, dessa vez, foi direcionada aos três. E, tal qual uma lâmpada que se apaga, simplesmente se foram.
  

***

            Os satélites tangerianos tinham aspecto rudimentar, mas cobriam uma boa área da minúscula galáxia Gangi, distante bilhões de anos-luz da Terra, e tinham a tecnologia necessária para captar grandes aportes de energia relativos a viagens feitas acima da velocidade da luz, com o uso de tecnologia baseada em matéria escura. Porém, nesse caso, Ippor’aka, um hermafrodita de rosto vermelho e anguloso, em sua estação quase toda ocupada por autômatos e localizada nos limites de Gangi, bem do alto de sua solidão, via se tratar de um episódio urgente. Teria que levar esse caso aos seus superiores. Tudo se resumia a “eles”: os akashes, que estavam chegando.

10 - Perdidos


            Uma gota caía, e outra, e outra. O ambiente parecia calmo, enquanto, aos poucos, os três iam abrindo os olhos. Kosnow foi o primeiro a se por de pé. Estavam numa gruta, um local quase totalmente escuro, um fato que fazia o brasileiro supor que grutas e demais locais subterrâneos eram os locais preferidos para os akashes se teleportarem, considerando seu histórico com eles.
A gravidade e a qualidade do ar, felizmente, estavam adequadas aos três, devido a ação dos akashes, pois, Kosnow viu logo o exotismo daquele lugar, recoberto por uma manta verde de vegetais, e uma variedade de flores bioluminescentes, parecidas com tulipas, porém muito maiores e embebidas em algum tipo de gosma transparente.
                       
            Nagara se pôs a frente, para procurar uma saída. E Kosnow tentou consultar, mentalmente, os akashes, que lhes informaram:

“Vamos ficar bem para o próximo salto. Este mundo está cheio da energia que precisamos para recarregar e vocês estão seguros. Talvez daqui a 20 horas estejamos prontos, mas… alertamos: Rama possui seguidores nesta galáxia. Estamos em Gangi.”

            Os quatro pontos luminosos ficaram mais fracos, emudeceram, enquanto Murion ligava a lanterna de seu ciclocomputador de pulso e Nagara acendia uma lanterna convencional, que ela sempre trazia consigo. Kosnow, por sua vez, tinha o fraco brilho dos akashes, flutuando em seus ombros.


***


            A ração trazida e carregada por Nagara não tinha gosto, mas era nutritiva. Pastilhas e barras de alguma coisa verde. Eles, por outro lado, não dormiram nada. Haviam seguido por vários quilômetros, com todo o cuidado para não se perderem naquele labirinto. Chegaram, até, a cogitar se a habilidade de Murion não poderia tirá-los daquela missão… mas, o homem adimensional descartou logo a hipótese. Ele tinha interesses nessa missão, e não pensava em fugir.

- Então, Nagara, parece que o seu povo não conseguiu ter acesso ao que eu consegui. E, ao mesmo tempo, sinto dizer que não havia nada demais… - disse Murion, acocorado, após comer.

- Não vou perder tempo com meu intercosmos, mas, isso não interessa mais. Oráculos cósmicos, o Santuário, são páginas viradas. Apenas seguia ordens, queria juntar algum tipo de credibilidade que me permitisse sustentar a minha filha. Não sei se eu a verei algum dia. - confessou Nagara.

            Murion ficou calado. Agora, ouvia passos. Kosnow também. Avançaram com calma, tentando agarrar quem quer que fosse, mas só se depararam com um… brinquedo?


***

            Parecia um brinquedo, um bípede metálico, com fios soltos, empoeirado. Murion usou seu ciclocomputador de pulso e chegou à seguinte conclusão:

- Estamos próximos de algum tipo de fábrica abandonada. Fábrica de robôs e, talvez, de computadores. Seus rastros… Vamos seguir por aqui. - apontou para uma galeria a oeste, com um teto suficientemente alto para, finalmente, Nagara poder se esticar.

            Mais à frente, cadáveres desconhecidos, antigos, além de rochas fechando passagens, e um chão metálico com paredes parcialmente rochosas e parcialmente artificiais. Sem pararem para descansar, avançaram por um caminho estreito, e se depararam com um pavilhão. Um lugar imenso cheio de pontos escuros, rachaduras dando a profundezas obscuras, um cheiro ruim, e uma luz azul. Finalmente, um computador, algo contendo informações!


***


            Em contato sem fio com o ciclocomputador de pulso de Murion, vieram informações sobre a galáxia, não pertencente a nenhuma constelação conhecida, porém com visibilidade para a Constelação de Peixes. Seu formato parecido com o da Via Láctea, e um tamanho equivalente a um centésimo dela.
            A raça dominante naquele mundo, segundo a descrição de Murion com base no que ele retirava por meio de seu ciclocomputador, eram o Conglomerado Zalat, formado por cerca de sessenta povos da mesma espécie “zalat”, seres hermafroditas, ligeiramente altos, pele avermelhada e, em alguns casos, de olhos puxados. Eram uma civilização um nível abaixo dos exekers, ocupando dezenove sistemas solares e vinte e oito colônias. O supercomputador era deles, e não tão avançado quanto sua imagem poderia aparentar.
            Nenhuma informação a mais pôde ser retirada ou deduzida. Salvo o fato de que eles sabiam onde estavam: no planeta-colônia Rategash VI, mais precisamente numa ilha a poucas milhas náuticas de seu único continente.
            Dessa vez foi fácil imaginar que eles teriam pouco tempo. Garatujas sombrias começavam a aparecer com seus dardos. Não estavam seguros. Veio a inconsciência.
           
 
***

            Kosnow mal se levantou e bateu a cabeça no teto. Era uma cela propositalmente minúscula, sem cama, e com, apenas, um buraco ao fundo. A porta parecia porta de submarino, mas sem nenhum tipo de trinco. As paredes, o chão e o teto eram uma mistura de metal com rochas, o que poderia indicar que ele estava no mesmo planeta, e nos mesmos subterrâneos. Antônio Kosnow mantinha-se sob controle, devido a isso, e por ainda possuir os quatro pontos brilhantes flutuando acima de seus ombros.
            No topo da porta, uma janela circular se abriu. Ele se aproximou. Estava escuro do lado de fora. Veio uma voz em idioma reconhecível:

- Acorde!

            De repente, ele se viu numa cadeira branca, inclinada, amarrado por forças invisíveis. Era uma sala grande, cheia de cientistas. Seus parceiros estavam ao seu lado esquerdo, mas não podia enxergar se os akashes estavam por perto.
A luz, amarela, tremulava. O ar estava relativamente frio. Tentou falar, mas nada saía de sua boca. Foi quando ele sentiu uma mão fria e amolecida em seu antebraço esquerdo. Era um ser escuro, alto para os padrões da Terra e baixo para os padrões de Nagara, sem rosto, recoberto por um manto branco, ladeado por dois daqueles seres hermafroditas os quais Kosnow não lembrava o nome.

- Sou Gameht, mensageiro de Rama. Não tenhas medo.
           

***

            As camas foram separadas. Nagara ainda não enxergava direito, mas sabia estar sendo colocada num lugar mais fechado, com paredes de aparência envidraçada. Mas, algo ia surgindo em sua mente.

“Por favor, não faça nada que chame a atenção. Somos os akashes.”

            Mais interessada, ela prestou a atenção:

“O mensageiro de Rama veio para iludir. Nós nos escondemos, nos transferindo para você.”

            E, mais adiante, duas mensagens:

“Entre em contato com Murion. Consiga uma maneira, você não está sendo vista.”

“Não pudemos nos transferir até ele antes. Através dele, de seu poder, poderemos criar uma situação nova.”

            Nagara ainda tentou perguntar mais, em pensamentos, mas eles se calaram. Nenhuma luz por perto, nem nada além de seus batimentos cardíacos. O diferencial é que ela percebeu que as correntes de campo de força invisível, que mantinham seu corpo preso, estavam bem menos resistentes.
            Com calma, ela levantou-se. Agora, enxergava melhor. Um pouco tonta, tateou a sua cela extremamente pequena para suas proporções. Deveria encontrar alguma saída rapidamente. E havia uma.
            O duto de ventilação parecia primitivo. Compacto, minúsculo, mas útil. Nagara conseguiu abrir sua grade, sem muito esforço. Naquele momento, os akashes sumiram.


***


            Sentado mais confortavelmente, ao invés de deitado, em uma sala fechada recoberta por vidros e metal de aspecto plastificado    , Antônio Kosnow começou a ouvir o relato de Gameht, sentado do outro lado da mesa:

- Não vim aqui para enganar você. Tenho, entretanto, que alertar sobre o que esses akashes fizeram contra a civilização que criou Rama, e o porquê de eu precisar que você me revele para onde os seus guias foram.

“Os ramas, surgidos no princípio deste universo, eram um povo humanóide inteligente e com boas perspectivas. Foram os primeiros a colonizar um sistema exossolar limítrofe, nos confins deste continente de galáxias. Queriam, somente, seguir com os seus instintos científicos, filosóficos e religiosos, descobrirem de onde todos nós viemos e de que forma tudo surgiu.”

            As imagens iam surgindo e passando pela mente de Kosnow, que via tudo impressionado. O mensageiro continuou, com sua voz fleumática:

- Descobrimos a morada dos anjos, a casa dos deuses, a fonte de nossas crenças. Mas, meu amigo, eles nos enganaram. Trocávamos recursos, porém eles sempre queriam mais. Visitavam o nosso lar, mas nós não podíamos visitar o deles. Buscavam informações detalhadas sobre este universo e suas realidades alternativas, nós dávamos sem ganhar nada em troca. Até chegar o dia em que resolvemos nos fechar, cortar relações, desistir da empreitada. Sabe o que aconteceu?

            Após uma pausa, ele continuou:

- Eles não permitiram, e nós entramos em guerra. Tivemos que atacar para nos proteger. E, ao primeiro sinal de nossas bombas para o universo deles, formado por outro tipo de big bang, um grande lastro energético surgiu de volta e nos atingiu. Fomos exterminados. Entretanto, eles não contavam com a Iniciativa Pós-Vida. Através dela, seres artificiais como eu foram criados por indústrias espalhadas por outras galáxias, em acordo com civilizações como esta aqui… há muito tempo, porém, a maior parte de nós fundiu suas forças psíquicas e criou Rama. Eu e uns poucos ficamos, viramos mensageiros.

            Tudo aquilo, toda aquela conversa de menos de dez minutos, havia transcorrido, na mente de Kosnow, como se tivesse durado anos. Com imagens, emoções, como uma monumental novela de milhões de gerações. Aquelas poucas palavras sem imaginação haviam ganhado o mundo no subconsciente de Kosnow.

- Então, onde estão os seus guias? Onde estão os akashes que viviam sobre seus ombros?

            O brasileiro, ainda chocado com a narrativa, que na verdade não passara de uma explanação rápida, sem saber estar sendo induzido, sem saber estar sofrendo algum tipo de lavagem cerebral, disse a verdade:

- Eu não sei.

            As mãos do mensageiro se fecharam. Olhos invisíveis marcaram os olhos de Antônio Kosnow, que caiu num pesadelo sem volta.

- Ele realmente não sabe. – o mensageiro indicou aos oficiais de Rategash VI.


***
           
            A viagem por aquela rede de dutos de ventilação, interligando uma seção inteira de celas-túmulos, não era capaz de detectar a presença dos akashes, que se movimentavam através do vôo e de eventuais microteleportações.
            Murion estava em sono profundo, induzido por sedativos, e estava numa cela-túmulo mais bem vigiada. Os akashes, entretanto, foram rápidos.
            Longe dali, uma sala com um homem desmaiado sobre a mesa. Fora dela, os oficiais daquele planeta se preparavam para receber mais encaminhamentos sobre o que deveriam fazer com aqueles três. Gameht voltaria em menos de um dia. E Ippor’aka já estava onde deveria estar, frente aos seus superiores, naquele planeta.
            A reunião, para ele, foi tensa. Uma longa análise e discussões sobre seus relatórios, em uma sala localizada a menos de cem metros daquela em que se encontrava o desacordado Kosnow. Queriam dados matemáticos daquelas medições, avaliar o poder daqueles três espécimes, daqueles três corpos. Mesmo assim, eles puderam ouvir…
            Uma onda escura se aproximava rapidamente, englobando pessoas e objetos, e fazendo-os desaparecer. Alguma coisa estranha vinha da cela-túmulo de Murion. Sons de objetos e pessoas se retorcendo e sendo engolidas por um tipo de portal interdimensional que se alastrava como um manto negro. Isso atraiu os militares. E a reunião de Ippor’aka foi interrompida.
            O acesso a Kosnow estava interrompido, as luzes haviam se apagado, e um feixe eletromagnético danificava mesmo as armas mais distantes. Sirenes não tocavam, e o silêncio vinha se tornando mais pesado após os gritos iniciais. Ippor’aka permaneceu naquela sala, sentado, assustado. Num dado momento, ele viu uma sombra por detrás da porta. Passou rápido.
            Do lado de fora, uns poucos oficiais, alferes, médicos, e dois comandantes, amontoavam-se numa nave, para fugir da ilha. Dentro, porém, o ar frio, algumas salas e corredores congelados, nenhum fogo, nenhum circuito a mostra.

- Kosnow?

            Lentamente, ele foi recobrando a consciência.

- Kosnow? Sou eu, Nagara.

- Sim? O que houve?

- Temos que sair daqui logo.
           
- Você não é…?

            Ele estava amolecido, meio fora de si, e teve que ser quase carregado por Nagara, até o espaçoporto. Murion estava logo atrás deles, com uma imensa sensação de ressaca. Subiram muitas escadas, rapidamente, e, quando chegaram onde queriam, Kosnow já estava normal outra vez. Andando com as próprias pernas e pensando com os próprios miolos. Pararam. E, naquele instante, os akashes retornaram ao velho dono.

- Livre, finalmente. – disse Murion, satisfeito, sorrindo internamente como um homem cansado.


***


            Uma nova dificuldade começava a surgir abaixo daquele sol que se punha: os três não tinham como entrar em uma das pequenas naves que sobraram no espaçoporto, nem tinham idéia de como fazer uma delas funcionar. Decidiram se aventurar nas matas periféricas, e voltar a rede de grutas para se esconderem.

“Nós temos uma idéia melhor” - pronunciaram-se, telepaticamente, os akashes. Fazendo-se “ouvir” pelos três.

“Temos forças suficientes para irmos a uma galáxia vizinha. Mas, de lá, vocês terão que ser rápidos. Teremos que ficar pouco tempo, e… sim, percebemos os seus pensamentos Kosnow. As dúvidas serão tiradas quando estivermos seguros.”

            Enquanto uma frota de espaçonaves retornava, prestes a criar um campo de força ao redor de toda aquela ilha, eles desapareceram a tempo.
            Bem longe, na órbita daquele planeta, uma estação espacial.

- Então, o único sobrevivente foi você… - dizia o subchefe daquele setor espacial, numa sala claríssima, banhada por uma luz amarela.

- Bem, Gameht tem planos para você. – ele continuou.

            Ippor’aka ouvia aquele final de conversa, e sentia-se glorificado pela possibilidade de ser aperfeiçoado e ajudar à Rama. Quem sabe, ele se tornaria um mensageiro, com direito a vida eterna e amplos poderes de teleportação, cura, e telepatia. A glória o aguardava - ou a perdição.



Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem os próximos capítulos.

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