Os primeiros
quinze minutos
As paredes da sala eram brancas,
sem imperfeições, enquanto uma luz clara espalhava-se como que vinda de
milhares de pontos invisíveis. Dos dois lados, duas portas com o lado superior
arqueado. Abaixo, um buraco; acima, outro - ambos com uma escada.
Ela
desceu, com seu longo macacão laranja. Aliás, foi jogada, caiu do teto. Devido
à gravidade momentaneamente reduzida, não se machucou. Quando a gravidade
voltou ao usual, acocorou-se, ergueu-se e olhou para a tela de vidro. Um olhar
nervoso, amedrontado, naqueles sapatinhos de pano.
Eram
quarenta por dez metros, com, ao fundo, um barril de água e outro de “pasta”
alimentar. Um colchão de penas sintéticas, ao lado. Cadeira, escrivaninha, um
lápis resgatado da Antiguidade e uma única folha de papel celulose.
A
moça que chamávamos “Jakarta”, com seus curtos cabelos loiros, havia sido
abduzida de Térphilas, um asteroide distante, há algum tempo. Perdeu sua
memória, como queríamos. E, agora, lá estava, à nossa frente, apenas nos encarando
até, finalmente, virar-se para o colchão, os barris, e os demais objetos. Olhou
de novo para nós. Nós? Não, claro que não, era só eu.
A primeira hora
O que passou foi apenas uma
preparação. Jarkarta, de vez em quando, continua a bradar, diante das portas
fechadas e dos buracos, tanto do chão como do teto, igualmente obstruídos.
Quanto tempo ela resistiria?
Aproximou-se
do barril d’água, afastou a tampa e começou a cheirar a água. Aos poucos, foi
posicionando a língua e, finalmente, passou a beber alguns tragos. Olhou para a
tela (que, do lado dela, certamente é escura), falou mais alguma coisa até que
algo lhe chamou a atenção na escrivaninha. Ela passou valiosos minutos em pé,
encarando aquela folha de papel e o lápis (provavelmente, ela não sabia muito
bem o que era aquela antiguidade).
As primeiras
doze horas
Eu assistia ao que podia
assistir, comendo meu alimento e bebendo minha água. Ninguém poderia me
substituir. E eu via: a mulher finalmente estava sentada, escrevendo algo, de
costas, após ter comido um pouco daquela gosma que nós deixamos.
Aproveitei
para pensar em mim mesmo e, sinceramente, não conseguia me lembrar de onde eu
sou, quem eu sou… eu só narro, eu só vejo e falo. Aliás, meu falar é a minha
visão e minha visão é a minha fala.
Jakarta
passou para o outro lado da folha. O que ela escrevia? Um mistério. Eu não
podia ver. Acionei as outras câmeras, os outros ângulos, mas não consegui! Ok,
pensei, vou deixar isso de lado, pois ela deixou isso de lado. Após horas
escrevendo o que quer que fosse, ela olhou rapidamente para uma das câmeras,
para a tela principal, depois sentou-se em posição budista no colchão, fechou
os olhos e relaxou.
O
tempo passou, mais e mais. Minhas pernas ficavam dormentes. Levantei-me, fui ao
banheiro, olhei-me no espelho… nada vi, nem uma sombra da realidade! Retornei,
tentando ficar lúcido. Jakarta estava dormindo, finalmente. Aproveitei aquelas
horas para jogar Brashka, que consistia em cento e oito cartas virtuais
dispostas numa tela de platinum, a qual eu poderia, jogando sozinho, criar uma
narrativa com as figuras contidas em cada carta, aleatoriamente.
As primeiras
quarenta e oito horas
Quando eu acordei, no turno da
manhã (uma mera convenção conforme as 24 horas da Terra), pensava no jogo da
noite anterior. Sentei-me em meu lugar, cocei meus olhos e, com aquela aquele
rosto de quem dormiu mal, surpreendi-me: a garota havia sumido! Mas não,
espere… ah, sim, ela estava lá, deitada abaixo da altura da tela principal. Só
pude ver através da angulação nova da câmera secreta do teto. Por acaso
Jakarta, o espécime, queria me assustar? Prometi a mim mesmo que isso não
ficaria barato, entretanto, o fundamental para mim ainda era ler o que ela
escreveu. Isso era importantíssimo para o experimento.
Silenciosa,
ela foi até o barril d’água e bebeu pouco. Mas, recusou a comida. Olhou para o
papel sobre a escrivaninha e olhou-me, como se fosse bem nos meus olhos, com um
sorriso sardônico, como quem dissesse: “hei, você acha mesmo que vai conseguir
ler o que escrevi?”.
Resolvi
continuar tendo paciência, e a acompanhei falando sozinha, andando para lá e
para cá, até que resolveu comer. Em seguida, foi para um canto, urinar e
defecar. Não vou descrever isso, porém.
O
primeiro dia já havia passado. Na realidade, mais de trinta horas haviam
transcorrido. Baseando-me na quantidade de água e comida disponível para ela,
eu só pude supor que meu chefe “invisível” exigiria apenas uma semana de
confinamento. Enquanto eu, como perfeito androide, iria gravando tudo em minha
mente.
Distraído,
pensei no dia em que “nasci”. O laboratório estava cheio de “homens” e
“mulheres” sendo despertados por máquinas pequenas, que pareciam mosquitos
brilhantes, jorrando impulsos nervosos para que nos mexêssemos e para que
pensássemos. Passamos semanas confinados, separadamente, até que um solicitador
apareceu e me levou daquilo que chamavam de Estação Quatro. Eu iria para a
famosa Estação Nebulosa, a Cinco.
Cuidaram
de mim e eu cuidei dos meus donos, obedecendo-os ao usar o meu cérebro como
“gravador”. Com o passar de um ano, fui preparado para este experimento em
Térphilas, até que, nos últimos dias, fui enviado para esta nave de aspecto
sujo, com metade do tamanho de uma Arca Espacial, dotado com uma zona
recentemente construída com dois corredores e duas salas, além de dutos de
ventilação igualmente caiados naquela brancura “medicinal” que, a mim,
tranquilizava.
Bem,
voltemos ao experimento. Aquilo começava a ficar entediante, mas eu tinha que
fazer. Perto das primeiras quarenta e oito horas, recebi uma mensagem em meu
computador de pulso: era hora de baixar a temperatura de vinte e cinco graus
Celsius para zero. Não entendi o porquê, mas obedeci.
Os últimos
cinco dias
O frio inundou minha sala! Não
havia percebido que o mesmo sistema que esfriava a sala do experimento também
atingiria o meu cubículo, humildemente recheado com banheiro, cama e um sistema
de recolhimento de comida (basicamente arroz encharcado em sopa de carne) e
água. Procurei informações em meu
próprio sistema, tanto em meu computador de pulso quanto em minha mente.
De
pé fiquei, vendo Jarkarta encolhida, usando o colchão como um casaco enorme e
pesado. Desobedeço ou não? Diante daquela situação, resolvi evadir-me. Fui até
a porta… Trancada!
Pisando
aquele chão que se confundia com as paredes e o teto, gritei, bati contra o
vidro tentando chamar a atenção de Jakarta. Nada acontecia.
Acalmei-me,
agasalhei-me melhor do que ela, e prometi a mim mesmo que iria esperar. Em
minha mente, começaram a surgir imagens sobre como aquilo deveria acabar. Mas não
acabava, prosseguia sem fim… todavia, ainda não dormia, e mal me alimentava.
Faltando quatro dias para o término oficial do experimento, cujo objetivo eu
desconhecia, as luzes do lado de Jakarta apagaram-se, junto com o áudio. Mais
uma surpresa. Mais uma. E o som, o som de algo rastejando pelas tubulações de
ar.
Com
minhas olheiras visíveis, procurando não me desgastar demais, aproximei a vista
da tela principal, da grande tela que nos separava. E ouvi. Era um esguicho,
era sangue! As câmeras secundárias foram se apagando uma a uma (o que não
interferia muito, pois estava tudo escuro mesmo), restando-me apenas aquela
visão manual de uma tela transparente, que transparecia o escuro.
Passei
outra noite insone. Teria que esperar só mais três dias. Três dias! Foi quando
eu ouvi um roçar, e vi: um rosto cadavérico, uma face vaga, rastejando pela
tela da sala escura, como uma máscara sendo brincada por algum demônio irônico.
Desapareceu.
Faltando
dois dias para o fim daquilo tudo, minha porta, graças ao Santo Sol,
destravou-se. Eu a abri, e me deparei com uma vasta escuridão, entremeada por
luzes vermelhas e baças. De um lado, a parte velha da nave, que não me interessava;
perto da minha porta, à esquerda de quem sai, uma porta de aço-plástico
arredondada. Passei o meu cartão e ela se abriu. Peguei minha faca de
estimação, um bisturi, e segui pelo curto corredor iluminado, enquanto a porta
fechava-se atrás de mim.
Meu
medo não me engoliu. Avancei até a origem do barulho que começava a me atingir.
Era um som gutural, por trás de uma das portas que levavam ao recinto do nosso
experimento com Jakarta, um nome que pululava em minha mente desde o início da
missão.
Fiquei
temeroso em abrir aquela porta. Os trincos estavam bem presos, a espessura era
grande, mas aquele som continuava…
Cogitando
sobre como eu iria me defender e sobre o que seria aquele monstro, ou o que me
parecia ser um animal selvagem, uma mão tocou em meu ombro esquerdo.
Os policiais do
onírico
A mão era fofa como a de um
travesseiro. Fui tocado pelo meu dono, que disse:
- Você está prestes a descobrir a sua função neste
lugar.
Eu
inquiri com os olhos e falei:
- Senhor Archibald, ainda bem que o senhor veio!
Alguma coisa aconteceu com o experimento. Tenho permissão para fugir ou devo
continuar explorando?
- Ah, isso? Você tem medo do dono desses sons? É a
intrusão de outro pensamento.
Ele
fez um gesto de estalo com sua mão esquerda e os sons pararam. As luzes ainda
diminuíram um pouco, mas, aparentemente, tudo se acalmou.
- Como o senhor fez isso?
- Enviei um auxiliar para transferir a criatura ao
outro quadrante. Venha, vamos à parte velha da nave.
Eu o
segui até um elevador abandonado, em meio a um amplo salão disposto na parte
oposta em relação ao local onde se conduzia o experimento. Foi quando eu me
deparei com as figuras mais monstruosas, mais feias que eu já vi!
Meu
senhor Archibald apresentou uma mulher-boneca, feita de pano, azul e com um
olho rasgado, naquela cabeça recoberta por um capacete espacial de brinquedo.
Porém, com toda em pose séria. Havia também um homem incrivelmente alto, tão
alto que pensei que não havia teto na nave, com olhos negros, pequeninos,
calças curtas com suspensórios, e mãos e pernas curtas, compridas e cheias de
veias muito salientes. Por último, o mais assustador: um anão bem velhinho, com
rosto de pergaminho, mas sem olhos, ouvidos, nariz, nem boca; ao invés disso,
um desenho a lápis que indicava um buraco entre o que deveria ser o queixo e o
pescoço.
Eu
balbuciava:
- O quê…
- Veja, meu criado… não somos monstros. Somos
tuteladores. Policiais, talvez.
O
mais espantoso disso tudo foi quando Jakarta apareceu incólume! Ela disse,
sorrindo:
- Olhe o bolso da sua camisa, por favor.
Verifiquei.
Havia uma folha de papel celulose.
Eu
li.
A descoberta
Não
sou um androide. Sou a memória de um homem sintético que, há muito, faleceu. Eu
era Naven. Mais do que isso, na folha de papel estava escrito: “…Mais do que
isso, na folha de papel estava escrito:…”. O eco infinito me deu dor de cabeça.
- O experimento foi com você, não comigo.
Entendia,
agora. Estava morto e minha mente estava sendo usada. Mas, onde seria? Na
Terra? Na Estação? Em Térphilas?
Com
um gesto na mão, ela pediu que os outros se afastassem. Sumiram. Ela disse:
- Eu tive a ideia de vigiá-lo, entender as ações de
um observador, de um voyeur… quis ser voyeur do voyeur. E escrevia sobre você e
sobre tudo. Era meu “relatório”. Mas, não entendo, algo está errado…
- Você viu aquelas aberrações? - questionei.
- Aberrações? Mas eram apenas os homens de Archibald.
O que…
A segunda
descoberta
- Eu sou você, Naven.
- E você sou eu, Jakarta.
Eu,
Jakarta, percebi. O espírito de um androide morto não estava me usando como
experimento, nem eu estava usando-o como experimento com base em um aparelho de
realidade virtual militar… eu estou, apenas, sonhando, um sonho lúcido e sem
drogas, e sem tecnologia… Que coisa fantástica! Estou aqui, agora, vendo um
espelho, o espelho de um morto cuja morte me pesou muito…
- Sim, acorde, querida.
A
psiquiatra fez com que Jakarta Elis Gruber despertasse.
- Melhor agora?
Jakarta
a olhou, espantada. Depois, se acalmou e tirou um cochilo. Enquanto isso, os
homens e mulheres do asteroide Térphilas continuavam a trabalhar, olhando para
o brilho distante que indicava Andrômeda e, bem mais perto, uma estação
espacial.


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