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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Conto: A Experiência


Os primeiros quinze minutos

            As paredes da sala eram brancas, sem imperfeições, enquanto uma luz clara espalhava-se como que vinda de milhares de pontos invisíveis. Dos dois lados, duas portas com o lado superior arqueado. Abaixo, um buraco; acima, outro - ambos com uma escada.
            Ela desceu, com seu longo macacão laranja. Aliás, foi jogada, caiu do teto. Devido à gravidade momentaneamente reduzida, não se machucou. Quando a gravidade voltou ao usual, acocorou-se, ergueu-se e olhou para a tela de vidro. Um olhar nervoso, amedrontado, naqueles sapatinhos de pano.
            Eram quarenta por dez metros, com, ao fundo, um barril de água e outro de “pasta” alimentar. Um colchão de penas sintéticas, ao lado. Cadeira, escrivaninha, um lápis resgatado da Antiguidade e uma única folha de papel celulose.
            A moça que chamávamos “Jakarta”, com seus curtos cabelos loiros, havia sido abduzida de Térphilas, um asteroide distante, há algum tempo. Perdeu sua memória, como queríamos. E, agora, lá estava, à nossa frente, apenas nos encarando até, finalmente, virar-se para o colchão, os barris, e os demais objetos. Olhou de novo para nós. Nós? Não, claro que não, era só eu.
           
A primeira hora


            O que passou foi apenas uma preparação. Jarkarta, de vez em quando, continua a bradar, diante das portas fechadas e dos buracos, tanto do chão como do teto, igualmente obstruídos. Quanto tempo ela resistiria?
            Aproximou-se do barril d’água, afastou a tampa e começou a cheirar a água. Aos poucos, foi posicionando a língua e, finalmente, passou a beber alguns tragos. Olhou para a tela (que, do lado dela, certamente é escura), falou mais alguma coisa até que algo lhe chamou a atenção na escrivaninha. Ela passou valiosos minutos em pé, encarando aquela folha de papel e o lápis (provavelmente, ela não sabia muito bem o que era aquela antiguidade).


As primeiras doze horas


            Eu assistia ao que podia assistir, comendo meu alimento e bebendo minha água. Ninguém poderia me substituir. E eu via: a mulher finalmente estava sentada, escrevendo algo, de costas, após ter comido um pouco daquela gosma que nós deixamos.
            Aproveitei para pensar em mim mesmo e, sinceramente, não conseguia me lembrar de onde eu sou, quem eu sou… eu só narro, eu só vejo e falo. Aliás, meu falar é a minha visão e minha visão é a minha fala.
            Jakarta passou para o outro lado da folha. O que ela escrevia? Um mistério. Eu não podia ver. Acionei as outras câmeras, os outros ângulos, mas não consegui! Ok, pensei, vou deixar isso de lado, pois ela deixou isso de lado. Após horas escrevendo o que quer que fosse, ela olhou rapidamente para uma das câmeras, para a tela principal, depois sentou-se em posição budista no colchão, fechou os olhos e relaxou.
            O tempo passou, mais e mais. Minhas pernas ficavam dormentes. Levantei-me, fui ao banheiro, olhei-me no espelho… nada vi, nem uma sombra da realidade! Retornei, tentando ficar lúcido. Jakarta estava dormindo, finalmente. Aproveitei aquelas horas para jogar Brashka, que consistia em cento e oito cartas virtuais dispostas numa tela de platinum, a qual eu poderia, jogando sozinho, criar uma narrativa com as figuras contidas em cada carta, aleatoriamente.


As primeiras quarenta e oito horas


            Quando eu acordei, no turno da manhã (uma mera convenção conforme as 24 horas da Terra), pensava no jogo da noite anterior. Sentei-me em meu lugar, cocei meus olhos e, com aquela aquele rosto de quem dormiu mal, surpreendi-me: a garota havia sumido! Mas não, espere… ah, sim, ela estava lá, deitada abaixo da altura da tela principal. Só pude ver através da angulação nova da câmera secreta do teto. Por acaso Jakarta, o espécime, queria me assustar? Prometi a mim mesmo que isso não ficaria barato, entretanto, o fundamental para mim ainda era ler o que ela escreveu. Isso era importantíssimo para o experimento.
            Silenciosa, ela foi até o barril d’água e bebeu pouco. Mas, recusou a comida. Olhou para o papel sobre a escrivaninha e olhou-me, como se fosse bem nos meus olhos, com um sorriso sardônico, como quem dissesse: “hei, você acha mesmo que vai conseguir ler o que escrevi?”.
            Resolvi continuar tendo paciência, e a acompanhei falando sozinha, andando para lá e para cá, até que resolveu comer. Em seguida, foi para um canto, urinar e defecar. Não vou descrever isso, porém.
            O primeiro dia já havia passado. Na realidade, mais de trinta horas haviam transcorrido. Baseando-me na quantidade de água e comida disponível para ela, eu só pude supor que meu chefe “invisível” exigiria apenas uma semana de confinamento. Enquanto eu, como perfeito androide, iria gravando tudo em minha mente.
            Distraído, pensei no dia em que “nasci”. O laboratório estava cheio de “homens” e “mulheres” sendo despertados por máquinas pequenas, que pareciam mosquitos brilhantes, jorrando impulsos nervosos para que nos mexêssemos e para que pensássemos. Passamos semanas confinados, separadamente, até que um solicitador apareceu e me levou daquilo que chamavam de Estação Quatro. Eu iria para a famosa Estação Nebulosa, a Cinco.
            Cuidaram de mim e eu cuidei dos meus donos, obedecendo-os ao usar o meu cérebro como “gravador”. Com o passar de um ano, fui preparado para este experimento em Térphilas, até que, nos últimos dias, fui enviado para esta nave de aspecto sujo, com metade do tamanho de uma Arca Espacial, dotado com uma zona recentemente construída com dois corredores e duas salas, além de dutos de ventilação igualmente caiados naquela brancura “medicinal” que, a mim, tranquilizava.
            Bem, voltemos ao experimento. Aquilo começava a ficar entediante, mas eu tinha que fazer. Perto das primeiras quarenta e oito horas, recebi uma mensagem em meu computador de pulso: era hora de baixar a temperatura de vinte e cinco graus Celsius para zero. Não entendi o porquê, mas obedeci.



Os últimos cinco dias


            O frio inundou minha sala! Não havia percebido que o mesmo sistema que esfriava a sala do experimento também atingiria o meu cubículo, humildemente recheado com banheiro, cama e um sistema de recolhimento de comida (basicamente arroz encharcado em sopa de carne) e água. Procurei informações em meu próprio sistema, tanto em meu computador de pulso quanto em minha mente.
            De pé fiquei, vendo Jarkarta encolhida, usando o colchão como um casaco enorme e pesado. Desobedeço ou não? Diante daquela situação, resolvi evadir-me. Fui até a porta… Trancada!
            Pisando aquele chão que se confundia com as paredes e o teto, gritei, bati contra o vidro tentando chamar a atenção de Jakarta. Nada acontecia.
            Acalmei-me, agasalhei-me melhor do que ela, e prometi a mim mesmo que iria esperar. Em minha mente, começaram a surgir imagens sobre como aquilo deveria acabar. Mas não acabava, prosseguia sem fim… todavia, ainda não dormia, e mal me alimentava. Faltando quatro dias para o término oficial do experimento, cujo objetivo eu desconhecia, as luzes do lado de Jakarta apagaram-se, junto com o áudio. Mais uma surpresa. Mais uma. E o som, o som de algo rastejando pelas tubulações de ar.
            Com minhas olheiras visíveis, procurando não me desgastar demais, aproximei a vista da tela principal, da grande tela que nos separava. E ouvi. Era um esguicho, era sangue! As câmeras secundárias foram se apagando uma a uma (o que não interferia muito, pois estava tudo escuro mesmo), restando-me apenas aquela visão manual de uma tela transparente, que transparecia o escuro.
            Passei outra noite insone. Teria que esperar só mais três dias. Três dias! Foi quando eu ouvi um roçar, e vi: um rosto cadavérico, uma face vaga, rastejando pela tela da sala escura, como uma máscara sendo brincada por algum demônio irônico. Desapareceu.
            Faltando dois dias para o fim daquilo tudo, minha porta, graças ao Santo Sol, destravou-se. Eu a abri, e me deparei com uma vasta escuridão, entremeada por luzes vermelhas e baças. De um lado, a parte velha da nave, que não me interessava; perto da minha porta, à esquerda de quem sai, uma porta de aço-plástico arredondada. Passei o meu cartão e ela se abriu. Peguei minha faca de estimação, um bisturi, e segui pelo curto corredor iluminado, enquanto a porta fechava-se atrás de mim.
            Meu medo não me engoliu. Avancei até a origem do barulho que começava a me atingir. Era um som gutural, por trás de uma das portas que levavam ao recinto do nosso experimento com Jakarta, um nome que pululava em minha mente desde o início da missão.
            Fiquei temeroso em abrir aquela porta. Os trincos estavam bem presos, a espessura era grande, mas aquele som continuava…
            Cogitando sobre como eu iria me defender e sobre o que seria aquele monstro, ou o que me parecia ser um animal selvagem, uma mão tocou em meu ombro esquerdo.
           

Os policiais do onírico
           

            A mão era fofa como a de um travesseiro. Fui tocado pelo meu dono, que disse:

- Você está prestes a descobrir a sua função neste lugar.

            Eu inquiri com os olhos e falei:

- Senhor Archibald, ainda bem que o senhor veio! Alguma coisa aconteceu com o experimento. Tenho permissão para fugir ou devo continuar explorando?

- Ah, isso? Você tem medo do dono desses sons? É a intrusão de outro pensamento.

            Ele fez um gesto de estalo com sua mão esquerda e os sons pararam. As luzes ainda diminuíram um pouco, mas, aparentemente, tudo se acalmou.

- Como o senhor fez isso?

- Enviei um auxiliar para transferir a criatura ao outro quadrante. Venha, vamos à parte velha da nave.

            Eu o segui até um elevador abandonado, em meio a um amplo salão disposto na parte oposta em relação ao local onde se conduzia o experimento. Foi quando eu me deparei com as figuras mais monstruosas, mais feias que eu já vi!
            Meu senhor Archibald apresentou uma mulher-boneca, feita de pano, azul e com um olho rasgado, naquela cabeça recoberta por um capacete espacial de brinquedo. Porém, com toda em pose séria. Havia também um homem incrivelmente alto, tão alto que pensei que não havia teto na nave, com olhos negros, pequeninos, calças curtas com suspensórios, e mãos e pernas curtas, compridas e cheias de veias muito salientes. Por último, o mais assustador: um anão bem velhinho, com rosto de pergaminho, mas sem olhos, ouvidos, nariz, nem boca; ao invés disso, um desenho a lápis que indicava um buraco entre o que deveria ser o queixo e o pescoço.
            Eu balbuciava:

- O quê…

- Veja, meu criado… não somos monstros. Somos tuteladores. Policiais, talvez.

            O mais espantoso disso tudo foi quando Jakarta apareceu incólume! Ela disse, sorrindo:

- Olhe o bolso da sua camisa, por favor.

            Verifiquei. Havia uma folha de papel celulose.
            Eu li.


A descoberta

           
            Não sou um androide. Sou a memória de um homem sintético que, há muito, faleceu. Eu era Naven. Mais do que isso, na folha de papel estava escrito: “…Mais do que isso, na folha de papel estava escrito:…”. O eco infinito me deu dor de cabeça.

- O experimento foi com você, não comigo.

            Entendia, agora. Estava morto e minha mente estava sendo usada. Mas, onde seria? Na Terra? Na Estação? Em Térphilas?

            Com um gesto na mão, ela pediu que os outros se afastassem. Sumiram. Ela disse:

- Eu tive a ideia de vigiá-lo, entender as ações de um observador, de um voyeur… quis ser voyeur do voyeur. E escrevia sobre você e sobre tudo. Era meu “relatório”. Mas, não entendo, algo está errado…

- Você viu aquelas aberrações? - questionei.

- Aberrações? Mas eram apenas os homens de Archibald. O que…


A segunda descoberta


- Eu sou você, Naven.

- E você sou eu, Jakarta.

            Eu, Jakarta, percebi. O espírito de um androide morto não estava me usando como experimento, nem eu estava usando-o como experimento com base em um aparelho de realidade virtual militar… eu estou, apenas, sonhando, um sonho lúcido e sem drogas, e sem tecnologia… Que coisa fantástica! Estou aqui, agora, vendo um espelho, o espelho de um morto cuja morte me pesou muito…

- Sim, acorde, querida.

            A psiquiatra fez com que Jakarta Elis Gruber despertasse.

- Melhor agora?

            Jakarta a olhou, espantada. Depois, se acalmou e tirou um cochilo. Enquanto isso, os homens e mulheres do asteroide Térphilas continuavam a trabalhar, olhando para o brilho distante que indicava Andrômeda e, bem mais perto, uma estação espacial.


Autor: João Batista Firmino Júnior.







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