6- O Santuário
Aquela velha coceira no ventre o incomodava.
Instigante, terminou fazendo-o se levantar da cama. Ao se levantar da cama, um
tropeção. E o segundo acordar.
O Andarilho, debruçado em meio a telas apagadas,
contemplava a escuridão da nave. Ligou o sistema de emergência, com uma espécie
de backup de tudo o que a nave precisava. A tela fina e côncava, quase mole,
voltara a funcionar.
A escuridão lá fora era muito maior. Ele se via em
algum lugar entre uma galáxia gigantesca, que naquela realidade paralela
parecia ser uma fusão de Andrômeda com a Via Láctea, e duas pequenas galáxias
próximas. Nada mais, a não ser brilhos distantes não de estrelas, mas de
galáxias.
Com pouco esforço, foi detectado um asteróide. Cem
mil quilômetros quadrados. Com aparência porosa. O Andarilho fechou o capacete
de seu uniforme urizeniano prepara sob medida para ele, e, com aquela comichão
no estômago, só sabia pensa: “Consegui!… consegui, não sei como vou conseguir
voltar, mas não posso desistir agora”.
Os dados sobre aquele corpo estelar eram poucos,
mas, ainda antes de pousar e sair da nave, ele detectou uma de uma série de
flutuações eletromagnéticas em pontos específicos, em zonas que sugavam a luz
das galáxias distantes e outras radiações. A caminhada, enfim, começava, árdua.
***
A sede não era o que mais o incomodava, mas aquelas
persistentes dores musculares, fruto da longa exposição a gravidade dos
gigantes urizenianos. Em algumas horas, ele atingiu uma zona de repulsão
gravitacional e de luz, mas passou adiante, parando à beira de uma profunda
cratera.
Ele mirava o abismo. Havia um caminho, uma trilha,
porém, que descia, uma rampa. Aumentando a intensidade da luz de seu capacete,
e sentindo a gravitação se estabilizar, ele adiantou-se.
Pensava em seu primeiro dia em Hollins… aliás,
pensava num dia que nunca existiu em suas lembranças. Não houve um primeiro
dia, mas um primeiro despertar de sua condição de não-nascido e imortal. Era o
fruto de uma alma que produziu o seu próprio corpo, o seu conhecimento
científico, e o seu habitat com a tecnologia apropriada. Algo o havia enviado
como uma espécie de vigilante, alguém que existia para evitar o contato de
seres como os urizenianos com coisas “grandes” demais para eles.
Murion, eu criei você.
Um
nome em sua mente… Ele lembrava, descendo aquela rampa, com sua oxigenação
cronometrada, do seu NOME.
Chegou
ao fundo. Uma parede de algum tipo de metal-líquido brilhoso, branquíssimo.
Bolhas pequeninas saltavam de lá. Ele estendeu a sua mão. Não, o santuário
cósmico não era algo visível, não era um castelo flutuante nem nada do gênero.
Apenas uma parede. Um toque. E um longo sonho. Aquilo durou segundos, mas era
como se fossem dias… ou eras. O santuário era uma narração. O Andarilho - ou
seria Murion - sentia tudo aquilo que lhe seria narrado em minutos que lhe
pareceriam anos.
***
Abriu
os olhos. Estava novamente naquela nave urizeniana, tendo as dificuldades de
sempre para operá-la de volta ao sistema solar da Terra, na Via Láctea, após
ter transportado tudo, por meio de sua mente, para a realidade alternativa
correta.
Sentia
algo estranho no ar, como se tivesse vivido eras e mais eras, mas não
conseguisse lembrar… espere, o Santuário! O que ele viu no Santuário? Não
lembrava totalmente. As coisas lhe vinham embaralhadamente, quando alguma coisa
soou as luzes vermelhas do console de pilotagem. Era um raio-trator.
Pelos
seus controles, nada havia para ser detectado. Entretanto, para a sua visão,
centrada na larga tela principal, lá estava uma nave alienígena. E uma voz soou
em sua mente:
Não temas. Estamos em contato neuropsíquico delicado. Precisamos de você.
- Quem são vocês? Foram mandados pelos urizenianos?
Somos conhecidos como exekers. Não temos nada a ver com essa espécie.
Precisamos tanto da sua participação física quanto de suas lembranças-chave.
Adormeças, pois serás preparado psiquicamente.
II.
Desvio
de Percurso
7 – Contato
Fortuito
O pôr-do-sol aproximava-se com
lentidão, naquele céu alaranjado, donde, com certa atenção, se poderia avistar
a estrela da Terra. Enquanto isso, o trabalho em Arquimedes IV resumia-se a uma
série de escavações preliminares para a construção do que parecia ser uma rede
de salas, armazéns, corredores, formando os subterrâneos do principal edifício
de uma colônia, cujo nome seria o mesmo do planeta.
Homens de aspecto sujo, em meio
àquele ar seco, iniciavam o turno da noite. Talvez uns cem, dos quais alguns
responsáveis por configurar as máquinas, medir as substâncias do solo, detectar
possíveis falhas no chão daquele amplo vale recoberto por um mato rasteiro de
um verde apagado.
Havia, também, dezenas de tendas de um
material sintético branco-acinzentado, e uma pequena construção geodésica, de
onde Karl, o administrador-geral, e o velho calvo Leeland, o engenheiro-chefe,
podiam centralizar todas as ações, bem como ficarem sempre de olho nas antenas
e do espaçoporto improvisado, feito exatamente para a vinda de provisões
bimestrais, além dos fiscais que por lá apareciam até quatro vezes por ano, sem
data marcada.
Antônio Kosnow também fazia parte
daquela missão colonizadora multinacional. Um sujeito de meia-idade, estatura
mediada, e barba densa e grisalha, responsável pelo conserto das grandes
escavadeiras movidas através de primitivas pastilhas de material fóssil e uma
bateria complementar. Sua farda, seu macacão marrom confundia-se com o universo
de rochas e terra, há, pelo menos, um ano da Terra, ou onze meses pela contagem
desse planeta.
Com sua velha caixa de ferramentas,
nos arredores daquele vale, ele e dois ajudantes, o negro Alf Truman e a
porto-riquenha Alice, mal se entendiam em inglês. Mas, entendiam-se o
suficiente para o trabalho. O primeiro, era um homem sério, de uma pele escura
contrastando com estranhos olhos verdes; já a porto-riquenha, geralmente pouco
falante, tinha, a sua disposição, uma aranha-robô para o conserto de uma
escavadeira de laser branco, sem contar a série de dez servorrobôs anões que,
ao comando de Kosnow cuidavam dos casos mais ou menos delicados. De qualquer
forma, eles não costumavam ter muito serviço, e muito do que quebrava possuía
seu próprio meio de concerto através de um kit.
O importante é que estava previsto para, num futuro próximo, a vinda de
uma equipe de consertos maior, compatível à carga de operários que tentavam
fazer nascer uma colônia de exploração.
No ritmo do trabalho diário, um
computador de pulso, com rádio, permitia que aquele homem barbado mantivesse o
controle. Um controle virtual, mas nada irreal, em um planeta silencioso, sem
pássaros, e com seus répteis distantes, em locais pantanosos, a centenas de
quilômetros.
Orquestrando tudo aquilo, Kosnow parou
para beber água, quando sentiu tremores leves, aumentando lentamente.
Aparentemente, nada sério, até que a supervisora pronunciou-se via rádio:
-
Senhor Kosnow? Está escutando? Precisamos de sua equipe aqui, na Zona F…
O som foi interrompido. O rádio
chiou. Um estrondo, para surpresa daqueles três seres isolados. Um distante
estrondo e uma coluna de fumaça. Eles saíram do prédio e sua garagem
improvisada e sentiram os tremores.
-
Meu Deus!… - disse Alf. Depois de um breve intervalo, continuou:
-
Vamos lá! Vamos…
O rádio, a essa altura, já estava
completamente mudo. E, sem que eles soubessem, o satélite estava inutilizado,
mesmo que ainda em órbita.
***
Ao redor daquela cratera de vários
quilômetros, a partir do espaçoporto ainda inteiro, o grupo de Kosnow
aproximava-se, após descerem de um veículo condutor, parecido com um jipe
primitivo, depois de percorrerem uns quinhentos metros.
-
Deus, o que houve? Onde está a equipe de reparação? - perguntava-se Alice.
-
Um terremoto, um feixe eletromagnético de grandes proporções, ou algo assim. -
Alf revelava seus pensamentos.
Apenas eles, e uma ou outra equipe
de xenobiólogos, atuavam longe do centro do que seria uma colônia de
exploração, por uma mera questão de comodidade e silêncio, algo já acertado com
o administrador-geral desde os primeiros dias, considerando que a parte pesada
do serviço da equipe de Kosnow resumia-se ao trabalho de servorrobôs.
Um jet apareceu de longe, em forma
de gota branca, cambaleantes. Deveria ser de alguma equipe que se aprofundara
no continente, voltando para o centro… Caíram, e a nave explodiu. Uma explosão
moderada, mas estrondosa.
Kosnow e sua equipe, ao verem a
devastação, tentaram, desesperadamente, buscar algum sinal de vida, algum
ferido que estivesse próximo, não muito soterrado. Desceram o barranco e
passaram a procurar, sem se preocuparem com qualquer sinal de fogo ou radiação.
Corpos podiam ser encontrados, mas
nenhuma alma viva. A noite tornava-se total, e trovões rugiam ao longe, quando
Alf avistou um alçapão, a quase quinze metros abaixo do solo. Algo se debatia.
Kosnow também ouviu, ao encostar a cabeça no alçapão de pedra.
Com algum esforço, os três tentaram
arrastar aquela espécie de porta de pedra. Não demoraram muito tempo e, ao
virar aquilo, depararam-se com um buraco negro. Ninguém ali.
-
Amanhã a gente continua. Talvez tenha sido algum animal… O principal é que
temos que parar e arranjar alguma forma de acomodação. Ainda faltam algumas
noites até a chegada dos próximos suprimentos. - dizia Kosnow.
-
Se a rede de satélites já estivesse pronta, e se a Estação Arquimedes tivesse
saído do papel, não teríamos que esperar tanto… - divagava Alice.
A realidade, para eles, era aquela.
Aparentemente, ninguém havia escapado àquele desastre misterioso. Nem mesmo os
xenobiólogos, que se viram atraídos pela catástrofe até serem abocanhados por
ela.
Conseguiram pegar algumas partes do
que eles chamavam de tenda. Apenas pedaços. E improvisaram um lugar coberto
para dormir, ao lado do chão do espaçoporto sem torre.
O que eles não esperavam é que os
tremores fossem voltar. E muito mais violentos.
Tentando se proteger, os três viram
uma longa e larga rachadura ser aberta, e uma luz extremamente clara ser capaz
de fazer tremer os ventos e os sons. Durante o fenômeno, Alice escorregou para
algum lugar dessa rachadura. Quando Alf tentou ajudar, uma chuva de pedras
pequeninas, que, no ar, iam se transformando em pedaços de vidro, cravejaram
rosto e pescoço dele. Kosnow, por outro lado, estava desmaiado desde o início,
após uma concussão. Durante o desmaio, parte de seu corpo feriu-se com os
cacos.
***
Antônio Kosnow não parecia, mas era
brasileiro. Muito jovem, foi trabalhar em Curitiba, na macro-zona do Sul; mais
tarde, inscreveu-se na versão brasileira de uma colonização espacial, o que o
levaria, mais tarde, a um empreendimento internacional. Ao ser chamado, meses
depois, largou a namorada, e imaginava que tal oportunidade, no sistema
Arquimedes, faria sua carreira - como um tipo de técnico em motores e
nanomotores - progredir. Após Brasília, mal se despedindo dos seus parentes,
viajou para um grande espaçoporto chileno, e, a partir daquele ponto…
Ele acordou no meio da terra,
coberto de sangue e molhado de suor. Assustado, e só com alguns arranhões e
cortes superficiais, viu-se em uma espécie de mina ou gruta, numa escuridão
entrecortada, somente, por uma luz amarelada que vinha de um dos lados.
Levantou-se.
-
Alf! Alice! Onde vocês estão?
Desorientado, avançou para a luz.
8 - Encontros
O ambiente claustrofóbico não
intimidava aquele que visitava, acidentalmente, aquela rede de túneis
subterrâneos. Frente a uma galeria de rochas que tampavam a saída, encravados
naqueles vãos escuros, resplandeciam quatro seres humanóides, do tamanho de
dois homens altos, esquálidos, com um brilho laranja nos olhos e uma onda de ar
quente e luz branco-azulado saindo, como que em ondas, de suas costas. E eles
estavam conscientes.
Kosnow não sabia o que pensar.
Estava preso, longe de seus parceiros de trabalho, vivendo a maior tragédia de
sua vida, com a morte da colônia recém-nascida. A ajuda? Demoraria algumas
semanas para que o problema fosse notado. Os contatos radiofônicos, ampliados e
transmitidos com o auxílio da manipulação de um determinado tipo de radiação
cósmica, eram limitados, preferindo-se sempre a economia de contatos e de
palavras, o que deixava tudo para os períodos de entrega de suprimentos, e uma
a periódica fiscalização anual, semestral… tanta coisa inundava a mente do
brasileiro. Voltando a prestar atenção às criaturas, que pareciam ter chegado
de uma longa viagem, ele as viu perscrutando o seu ser. Elas vinham se
aproximando como que flutuando acima do solo, e servindo de luzes para o
ambiente com seus próprios corpos.
“Você
nos entende?”
Aquilo se repetia na sua mente, mas
ele não havia reparado. Simplesmente respondeu meio baixo:
-
Acho que sim.
O que ele não havia notado é que
havia pensado isso antes de dizer, e só assim as criaturas o entenderam.
“Precisamos
partir… e precisamos de você. O seu tipo nos parece útil.”
Imediatamente, os pensamentos deles
se misturaram, e desapareceram. Kosnow estava assustado, e, paralisado de medo,
teve seus braços tocados pelas criaturas, que pareciam funcionar como um ser
coletivo. A sensação era a de dedos ossudos, e um cheiro bom, um ar morno
exalado, e bons pensamentos. O pavor decresceu e veio a paz.
“Temos
que ir.”
Sem perceber logo, Kosnow sentiu-se
tonto, sem contato com o chão e só enxergando borrões. Parecia que seu próprio
corpo se tornara mole, esticado. Aquilo era algum tipo de abdução, ele pensava.
Perdeu a consciência em instantes, e, quando voltou a si, aqueles mesmos seres
estavam perto dele, mas o lugar era outro.
***
A extensão daquelas árvores gigantes
dava a falsa impressão de um ar sadio e respirável. Não era assim. Kosnow teve
que ser ajudado por algum tipo de campo de força invisível, disponibilizado por
aqueles seres. Só após isso é que ele começou a reparar melhor no novo lugar em
que estava.
O cenário consistia em árvores de
mais de cinqüenta metros de altura, coníferas, de aspecto violeta, num chão recoberto
por mato e pequenas plantas anis. E havia sons que pareciam ser de pássaros
desconhecidos, silvos, e a existência de outros animais, distantes.
Encostado em uma das árvores, ele
resolveu se sentar.
“Precisamos
de você.”
-
C-como?
“Lamentamos
o incidente. Foi o nosso pouso neste Universo.”
-
Onde estou?
“Estamos
em uma célula de vida orbitando um sistema nos limites do que você chamada de
Via Láctea.”
“Queremos
voltar para casa.”
Mais e mais pensamentos
avolumaram-se em sua mente. Obviamente, não eram dele, e não explicavam como
ele havia terminado ali. Ao que parecia, a viagem foi aleatória.
-
Por que precisam de mim? – Kosnow lembrou-se de perguntar.
“Nosso
combustível. Você é nosso combustível. Quando pensa. Não podemos explicar
agora, temos que nos recarregar. Os exekers irão te guardar.”
-
Que exekers?
Aqueles seres, subitamente, viraram
quatro pontos luminosos, como que quatro vaga-lumes ao redor da cabeça do
brasileiro. E ele não sabia para onde ir. Entretanto, havia um ponto positivo,
até então: os seus ferimentos haviam sumido.
***
Horas se passaram. A única troca que
houve foi a de um sol para outro. Nesse meio termo, um período de cerca de meia
hora de penumbra. Foi nessa penumbra, num ambiente rodeado por ratazanas parecidas
com porcos-espinhos, que um silvo agudo e facilmente identificável como sendo
artificial soou baixinho. Sem entender se tudo aquilo não passava de um sonho,
Kosnow seguiu até uma clareira.
O silêncio absoluto. A brisa
tranqüila, até a subida do outro sol. E uma série de sons completamente
naturais enchiam aquela floresta de vida. Foi quando, olhando para cima, ainda
com o eco daquele silvo em sua mente, que Kosnow viu a imensa nave cilíndrica,
negra, que pairava por perto. Os exekers.
A nave cilíndrica, a primeira vista
com seus um quilômetro de altura, parecia pulsar, mudando constantemente de
dimensões, mas sem perder o formato cilíndrico, por vezes hexagonal.
Uma mão nas costas de Kosnow. Ele se
vira. Era ela! Parecia-se muito com ela! Sua ex-namorada Patrícia, vestida com
uma espécie de uniforme, sem capacete, e com seus cabelos castanhos bem curtos.
-
Antônio Kosnow? É assim que você se chama, não?
***
-
Não se assuste. Sou uma imagem projetada conforme suas memórias.
Ele permaneceu em silêncio. E, ela:
-
Os akashes, que é como chamamos esses seus companheiros, estão se recarregando.
Foram eles que nos informaram sobre você.
Raciocinando febrilmente, Kosnow
falou:
-
Aliens, que interessante… Mas, por que eu?
Um vento forte foi cortado pela
nave, e uma parte daquele ar passou pelos dois.
-
Venha comigo. Precisamos partir rápido. - ela disse, e sumiu, com ele e os
quatro pontos luminosos que pairavam, que se recarregavam.
***
O chão daquela nave era irreal,
parecido com madeira de lei e carpete aveludado. O ar era puro e úmido. As
paredes eram de um verde cintilante. Logo ao lado, a central de comando. Sem
ninguém.
Sozinho, mas com os quatro
“vaga-lumes” ladeando seus ombros, Kosnow viu o chão se tornar transparente.
Chegou a ver uma espécie de garagem abaixo, sem muitos detalhes, formatos de
fios e minerais desconhecidos por entre cada chão translúcido e paredes, e, por
fim, o planeta se distanciando. Ele caminhou até a central, com um console
imenso, ocupado por corpos também translúcidos, e sentiu que deveria sentar em
uma das cadeiras da periferia daquele recinto. Nenhum solavanco.
De olho no espaço sideral que
aparecia a sua frente, por meio de uma parede invisível, e tentando não se
assustar, ele viu que estava, agora, nos limites daquele sistema solar
desconhecido, mas ainda não podia ver em que parte exata da Via Láctea ele
estava. De repente, uma grande nave escura, um disco negro com dezenas de
quilômetros, pulsante, e sua superfície lisa, cheia de pontas, de cilindros
estacionados. A nave auxiliar pousou.
Ao seu lado, Patrícia.
-
Venha, vamos.
Eles caminharam por uma rede de
corredores. Pararam em um pavilhão cheio de saídas. Havia um ponto vermelho no
chão. Ao pisarem ali, imediatamente foram transferidos para a nave principal. E
Kosnow, para sua surpresa, teve, como primeira impressão, a idéia de estar
dentro de um intramundo, um intra-universo, estupendamente grande,
estranhamente sem luz, rodeado por rochas, um céu púrpura, e construções
cilíndricas que, do que parecia ser um observatório, ele via: milhares de
colinas, planaltos, planícies, edifícios baixos, casas, em toda aquela
vastidão!
***
-
Isto não é apenas um meio de transporte, mas toda uma civilização. Como você
pode ver. Mas, vamos aos seus aposentos. Temos uma longa viagem até a galáxia
vizinha, a que sua raça chama de “Andrômeda”… - ia dizendo Patrícia, até, do
alto daquele cume parecido com um observatório, Kosnow interrompeu:
-
Espere. Prefiro que você se revele. Você não é Patrícia e não respondeu às
minhas perguntas.
Não aconteceu nada, nenhuma
revelação. Ele, simplesmente, apareceu num quarto grande e bem mobiliado,
parecido com algo saído de um hotel 05 estrelas. Só que ele não estava sozinho.
***
Para o espanto de Antônio Kosnow, perto
da bandeja de comida, do outro lado da sua cama, vindo da porta de entrada,
aberta, apareceu uma criatura pequena, de cabeça calva e grande, pele enrugada,
azul-escuro, e rosto humano, com olhos miúdos. Vestia-se, em seus 1,20m, com um
macacão recoberto por um manto branco, e tinha, em seu pulso esquerdo, uma
espécie de bracelete escuro.
-
Sou Thle. Vim dar as boas-vindas. E apresentar-lhe aos convidados. Venha.
Foram ao corredor. Havia dois
quartos vizinhos, sendo um deles com uma entrada imensa, e um portal ao fundo
do corredor, à esquerda. À sua frente, vinha um homem estranho, soturno,
vestido com um macacão que se parecia com o dele, calmo, e, por trás, uma
mulher… imensa. Uns quatro metros de altura.
Thle, antes de partir
sorrateiramente, disse:
-
Eles são Murion e Nagara. Mais tarde, discutiremos o que vocês farão e o nosso
papel nisso tudo.
Para o brasileiro, era estranha a
frieza aparente de Murion, e a altura e o nome “terrano” de Nagara.
***
Após o que poderia ter sido uma
noite, sobre a cama, aqueles “vaga-lumes” voltaram a emitir pensamentos.
“Kosnow?
Kosnow? Está na hora. Você precisa de algumas informações.”
Ele acordou com isso. Mas, não se
inquietou. Comeu alguma coisa, tomou um banho, e, vestindo uma das peças de
roupas novas - uma versão mais resplandecente e branca de seu antigo uniforme
-, fez o que tinha que fazer. Seguiu para o corredor. Lá estavam aqueles dois.
E o homenzinho, acompanhado por outros dois e uma bola negra voadora, que
parecia os vigiar e inquirir. Andaram pelo portal e foram parar num grande
pavilhão, com janelas grandiosas apontando para uma montanha. Tudo artificial,
mas bem realista.
Naquilo que parecia ser um hangar
vazio, de chão limpíssimo, atingiram uma nova marca vermelha, um ponto no chão.
Subitamente, estavam todos numa espécie de grande central, em um primeiro
andar, rodeado por uma espécie de árvore, ou torre imensa, cujas raízes e
galhos eram grossos fios azuis, com cristais aparentemente de quartzo e ônix
reluzindo como frutos. Centenas de exekers pareciam estar trabalhando
febrilmente, nos outros setores daquela espécie de central de comando. Os três
visitantes, ao que parece, estavam em um primeiro andar, com visão para um
jardim, e uma grande esfera holográfica, por onde vários daqueles seres estavam
conectados com as mãos.
Ao largo de tudo isso, Nagara N’Kebeker,
cuja altura parecia variar ilusoriamente entre três metros e meio e quatro
metros, ainda se sentia confusa. Há até pouco tempo, ela se via amarrada,
amordaçada, num lugar estranho, por quem ela conhecia como “Andarilho”, mas que
se chamava Murion… até, simplesmente, ser chamada por um estranho que parecia
alguém que ela tinha conhecido no passado, levada, e tratada de seus
ferimentos.
Murion, por outro lado, havia sido
convidado a estar naquele lugar quando havia sido achado por aqueles seres, ao
tentar voltar para casa numa nave auxiliar do povo de Nagara. Uma vítima dos
urizenianos estava ali, desconfiando que, diante das adversidades, teria que se
unir àqueles dois.
O silêncio foi quebrado. Um dos
exekers se pronunciou, com uma vozinha ligeiramente rouca:
-
Sou Arith, chefe da atual missão. Como amigos e colaboradores de longa data dos
akashes, nos sentimos honrados em, mais uma vez, ajudar um contingente dessa
raça. Quanto a vocês três, humano Kosnow, urizeniana Nagara, e adimensional
Murion, preciso que me escutem.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem os próximos capítulos.


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