Os melhores blogs estão aqui

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Conto: Necro


            Havia um cheiro forte de álcool. O recinto que se tornaria um Laboratório permanecia limpo com recursos primitivos, porém eficientes. Nada melhor, para aquele faxineiro de quase dois metros de altura, ralos cabelos loiros e maçãs salientes no rosto; um homem insone, fazendo hora-extra. Enquanto lustrava as torres vidrificadas que enfeitavam o lugar, seu crachá balançava com um nome: “Osorius”.
           
- Tudo certo, tudo certo. - disse para si mesmo, enquanto anotava algo em seu computador de mão, virava-se para a entrada e passava o aparelho num detector. Uma vez confirmado o seu trabalho, suas cinco horas de trabalho noturno, a porta se abriu.

            Ele, que era dos poucos funcionários de nível mais baixo, fazia parte de um programa que tentava restituir a importância do trabalhador humano frente aos inúmeros séculos de automatização. Além disso, havia sido aceito por ter QI inferior a cento e oitenta.
            Antes de chegar ao seu quarto, topou com alguns cientistas. Homens cultos, que entendiam de coisas que ele nunca entenderia. Eram tipos estranhos, de “mente torta”. Bem, ele não iria pensar muito nisso, eram seis horas da manhã artificial, e, chegando agora ao seu cubículo, Osorius não pensou nem em tomar banho - pulou direto na cama.
            Fora de seu quarto, cerca de um quilômetro e meio a oeste, oito andares acima, o Marco Central. O lugar fervilhava de humanos que mais pareciam bonecos; ao largo, robôs de rostos maquiados para a bonança e o sorriso educado com a única função de assessoramento psicológico entre todos. Enfim, humanos-bonecos e robôs vívidos e carismáticos, mesmo que com pernas e tentáculos tão primitivos quanto as velhas e milenares estorinhas de ficção-científica.
            Mas, vamos ao Marco Central propriamente dito. Trata-se de uma Torre, basicamente, cuja parte Central, composta por várias camadas esféricas do mais resistente metal, comporta um computador capaz de regular os mais de trezentos motores de gravitação artificial e de órbita espalhados naquela estação científica. Nas pontas de cima e de baixo, com vinte andares cada um, as duas partes de uma Central supervisora com as sedes das chefias de cada seção científico-militar, a subcentral de sensores e satélites internos, e a coordenação em um único ponto com dois pilotos-chefes a organizar as quatro equipes de quatro pilotos que assumiam nos pontos Norte, Sul, Leste e Oeste, localizados nas extremidades do disco que rodeava o Marco Central, e por ele interligado por túneis que singravam pelo espaço numa distância de menos de quinhentos metros.
            Fora, naquele disco que todos chamavam de Anel, várias seções de laboratórios, espaçoportos, armazéns, refeitórios, tudo num raio de mais de dez quilômetros de chão enrodilhado naquela plataforma anelar. E, entre uma reentrância e outra, o sono de Osorius sendo incomodado por um bipe de seu computador de mão. Eis as mensagens: “Reunião na Sala 11 da Logística” e “Você tem trinta minutos”.
            Achar a sala, após ter escovado rapidamente os dentes, em meio ao mapa virtual que Osorius construía em sua mente, não era difícil. O difícil era descobrir o motivo para aquilo que ele considerava uma comoção excessiva. Provavelmente, temia ele, a sua demissão ocorreria naquele momento.
***


            A Sala 11 do Bloco Ômega, situada em um dos pontos convencionados como “sudoeste” do Anel, era um misto de biblioteca de cristais em forma de minidiscos ao lado de folhetos arcaicos feitos de papel-plástico em estantes de resina, e um ponto de reunião, composto por uma mesa de doze lugares bem iluminada. Estavam, naquela hora, seis homens e mulheres fardados, um homem gordo e mal barbado que era o supervisor daquele time, e a Chefe da Seção de Logística e Almoxarife, de corpo esguio e finíssimo, olhos amendoados e sérios, e idade superior a setenta anos. Não, aquele não seria um momento que envolvesse demissões.

- Que bom que estão todos aqui. Bem, a senhora Cruz, nossa superior, quer distribuir o plano de trabalho para o Laboratório Central de Medicina, que acabou de receber uma encomenda… é um trabalho para daqui a seis horas.

- Vamos apressar logo isso, supervisor Jim… apenas deixo aqui o plano que deverá ser dividido por suas mentes, e espero - disse, já se levantando - que não haja nenhum transtorno para o trabalho de amanhã, que exige certa especialidade e apuro.

            Num depositório que parecia um sutil equipamento contido na mesa, estava uma pequenina esfera negra e um controle remoto sob a forma de uma luva na mão direita de Jim. O que viria a seguir explicaria a saída rápida da Chefa. Todos deram as mãos e colocaram um aparelho em suas orelhas, inclusive Osorius. Jim apenas disse, tão baixo como se fosse apenas para ele mesmo:

- Começar!

            Todo o plano entrou em suas mentes, com detalhes cenográficos de como tudo deveria acontecer. Também havia pausas convenientes, onde os faxineiros poderiam discutir e ouvir o que fosse discutido sobre algum pormenor. No final, Jim apenas disse:

- Vocês são raros e poucos. Se tudo correr bem nesse trabalho, vocês sabem que o projeto de humanização das estações espaciais estratégicas do Governo (sobretudo esta, que é a principal da Zona Nula regida de longe por um Parlamento independente) precisa ver, claramente, que valerá a pena gastar recursos de lugares como este na manutenção de vidas humanas no lugar dos mais baratos robôs, que não comem nem respiram.


***

            Osorius, soltando as mãos, levantou-se, com os outros e, antes de se ausentar para comer, foi abordado, nos corredores, por aquele que seria o seu parceiro de trabalho nas horas seguintes. Andando, eles conversavam:

- Uma chance para uma promoção, não? - perguntava o homem de pele escura e testa enrugada.

- Uma chance para poucos, Alcacer. - respondeu Osorius.

- E tudo isto por mais um corpo vindo da Terra. Imagine!… direto do planeta-matriz!

            Continuaram caminhando até o refeitório, enquanto, a quadras dali, um único robô-esteira mantinha o caixão bem equilibrado, descendo pela rampa de um contêiner espacial emanado de uma espaçonave-armazém.


***

            Osorius finalmente estava em um grande laboratório de Medicina, diante do resultado de milênios de pesquisas e desenvolvimento. Ao lado de seus colegas de trabalho, ele se via entre dois cadáveres dispostos em tubos transparentes e parcialmente cobertos por áreas opacas. As telas touchscreen, destacadas em toda a majestade branca daquele lugar, soltavam-se em 3D, vigorosas em tom verde-claro. Havia, obviamente, muitas outras coisas que Osorius poderia olhar, ferramentas estranhas, um computador central com dezenas de monitores descentralizados e pontos de conexão neural, aparelhos e salas internas de utilidade desconhecida para aquele pobre homem, e fiscais do trabalho, no caso robôs de aspecto humanoide, que fiscalizavam a limpeza.
            Tantas coisas que enchiam aquela humilde existência ativavam os pensamentos de Osorius, um homem sem sobrenome. Ele ainda usava álcool, mesmo que não fosse o mesmo álcool de milênios atrás. Álcool naquela época, bem como a maior parte das coisas, eram só nomes de um tempo antigo usados para coisas novas. Por outro lado, as vassouras continuavam com o mesmo design, porém eram minúsculas, leves, e levavam partículas de sujeira para algum tipo total fragmentação, de total destruição.
            Sem divagar mais que o necessário, vemos o nosso personagem ficando naquele trabalho até as últimas horas, enquanto os outros iam se recolhendo. Aquele dia havia sido longo, mesmo que, na mente do faxineiro, poucos minutos tivessem se passado com aquelas máquinas fiscalizando o seu trabalho e, eventualmente, algum funcionário indo verificar algo guardado naquelas telas brilhantes.
            Após todo o trabalho, ele se virou, para longe da salinha onde estava guardado o caixão, o primeiro de vários. Na verdade, todo o trabalho fora de rotina foi feito visando tudo o que viria depois, e para servir para o que Osorius imaginava sobre o trabalho dele e de outros: algum tipo de pesquisa da área de Ciências Humanas a fim de comprovar qualquer coisa específica, e desconhecida para ele, da relação entre o modo antigo de trabalhar e o novo. Era só uma desconfiança, e, no meio dela, um baque no caixão.
            Curioso, Osorius voltou um pouco os olhos e sua cabeça, enquanto carregava suas coisas e via-se pronto para assinar o seu ponto, e viu que todos os trincos haviam sido abertos violentamente. Olhando para a origem do som de um respirar rápido e vigoroso, um homem com um macacão mortuário, de olhos miúdos e avermelhados, imensamente sujo, flexível e em posição de aranha pregada no teto prestes a atacar, abrindo a boca para emitir um guinchado.
            Pensando sem qualquer coerência, o faxineiro correu por todo aquele laboratório, cujas portas estavam fechadas. Mesmo assim, conseguiu sair de lá e pedir ajuda. Imediatamente, Jim apareceu e disse, nervoso que:

- O programa está suspenso! O que é isso…?

            Foi atacado por aquela coisa semi-morta, pelo pescoço. O sangue esguichou e foi dado o alarme.


***

            Mark Taylor e Horeb Garcia, os chefes da pesquisa transdisciplinar, foram informados naquela madrugada que alguma coisa havia entrado em choque com o trabalho deles.

- Inferno! O que está acontecendo?! – questionava Mark a um supervisor de segurança estrábico apelidado de “Light”.

- A Seção de Medicina foi lacrada. A coisa partiu de uma equipe… - ouvindo sua escuta, que parecia uma pedra de ímã presa à parte de trás de sua orelha direita, uma novidade - Espere. Eles pedem um encontro no Marco Central.

            Horeb olhou para Mark e perguntou:

- “Eles” quem?

- O Comando e uma equipe de… nanogênese quântica. Algo assim. 


            Começaram a se apressar até o Metrô, ao chegarem aos seus lugares, naquele que era um transporte que os levaria por um dos poucos lugares de acesso ao Marco Central, estava Osorius e seis homens armados.
            Antes que fizessem qualquer pergunta, Light respondeu:

- Acharam uma testemunha, do projeto de vocês. Não se preocupem que ele não foi contaminado por nada.

            Em seis minutos, o Metrô parou. Estavam no Marco Central, uma Estação dentro da Estação. Andaram por mais cem metros de corredores largos, cheios de gente apressada, até chegarem ao local da reunião.
            Paralelo a isso, havia Osório, “desligado”, sereno. Havia seguido por toda rápida viagem mantido apenas em sua programação básica; em sua qualidade como ser sintético, porém vivo.
            Longe de onde ele, agora, estava “guardado”, seus superiores discutiam o que fazer com o fruto do outro projeto…

-…a premissa sempre foram “seres sintéticos VIVOS”, para entender certas relações… - dizia Horeb.

            Discutiam em uma sala de projeções, que imitava o interior de um edifício da Terra, intermediados por Gruber, o porta-voz sintético do Parlamento das cinco estações espaciais exo-galácticas do Reino Unido da Terra.

- O que interessa é o que vamos fazer… o espécime é resistente… - falava um tal de Dr. Linus.

            Decidiram mandar Osorius manter um contato inter-mentes com o espécime apelidado de “Necro”, de forma a substituir uma mente pela outra tal qual um vírus de computador que nada mais seria que a Consciência.


***


            Necro estava afoito com aquele gosto de sangue na boca, um sangue de um humano de verdade, natural, como Jim. Infelizmente, não havia mais humanos nem nada parecido, pois todas as portas daqueles corredores da Seção de Medicina estavam selados.
            O zumbi seguiu ativo, farejando, esperando, por horas, em estado de repouso, entocado como num ninho em meio ao canto exterior à porta do Laboratório Central. Foi quando recebeu aqueles impulsos que pareciam vir de muito longe. Nele, havia:

Fome, medo, raiva.

            Do outro lado vinha:

Quem sou? Quem sou? Sou…

            Sonhos de uma infância nos velhos casarões de Mars City tentavam impressionar aquela forma pouco cultivada. Era algo que brotara inconscientemente de Osorius.

Sou.

            Ele começava a analisar aquele corpo estranho em sua mente, quase esquecendo do gosto de carne humana ainda em sua boca.

Osorius Necro.

            O gosto de sangue era um filete incompreensível, porém forte. Osorius, em seu canto, sentia, e sentia-se inundado por tudo aquilo, por aquele maravilhoso mundo do instinto animal. O embate, o embate ocorria agora entre o caçador e a caça, que se confundiam, mentes engalfinhadas.


***

- Osorius? Osorius? Terminou?

            Por um momento, aqueles olhos semicerrados exprimiram um brilho animalesco, como se aquela mente do Necro o tivesse contaminado. Mas, aquilo passou…

- Sim, terminou.

            A confirmação real veio de longe. Seguranças armados entraram no corredor do Laboratório Central de Medicina, e viram uma criatura bem mais calma, balbuciando algo. O espécime terminou sendo sacrificado.

- Parece que exageramos. O mal não foi tão contundente. - dizia Mark, ao lado de Osorius.

            O faxineiro sintético seguia cabisbaixo, em seu canto, afastando-se do expansor neural. Queria ficar sozinho. Tinha fome… alguma coisa o havia infectado… alguma coisa que não terminou ainda…




 Autor: João Batista Firmino Júnior.








Nenhum comentário:

Postar um comentário