Hollow
e Naven jogavam cartas naquela sala apertada, cheia de caixotes, esperando pela
chegada àquela estação conhecida vulgarmente como “Nebulosa”.
- Quer dizer que você conheceu a
Terra? - perguntou Hollow, perto do autômato-ventilador que mais parecia um
brinquedo exótico e ambulante.
- A matriz? Sim. Austrópolis é
muito poluída, cheia da raça dos sintéticos… você sabe o que eles são, né? O
jogo agora são as nossas centenárias estações exo-galácticas, nosso parlamento…
- respondia Naven, deixando as cartas de lado.
- Não havia nada que prestasse na
Antártida?
- Tanto quanto na América.
Sintéticos e mais sintéticos. Quase não há humanos na nossa terra-matriz. O que
eu trouxe foi, apenas, uns cartões-postais neurais e, no Museu Estacionário do
eixo Marte-Terra, sementes… ah, e isto aqui.
Desistindo
das cartas, Naven, um sujeito baixo e atarracado, foi até sua mochila e pegou
uma caixinha escura. Hollow observava bem, mas parecendo não levar a sério.
- Bem, estou vendo. Uma caixa…
Algum minidisco?
- Ainda não abri. E, sim, é um
minidisco artesanal. Feito por uma senhora de cujo nome não me recordo… Ela
disse que isso, num terminal de computador de seiscentos anos atrás, de antes da
primeira Estação exo-galáctica, sabe? Antes de tudo o que nos interessa para
ficarmos longe daqueles homens sintéticos…
- O quê? O que há nisso aí?
- Ela me disse se tratar de um
mapa do ponto do universo onde estaria escondido um tesouro de uma raça de
seres inteligentes anterior aos humanos. Soa poético, não? Coisa de ficção.
Nesses dois mil anos de exploração espacial, segundo os canais oficiais, nunca
nos deparamos com vida inteligente que pudéssemos compreender, ou eles são
muito tímidos. Sobre isto aqui, certamente deve ser nada mais que algum
filminho mal-feito de alguém que só queria me vender arte de má qualidade.
- Ah, colega… Valeu a pena?
Antes
que Naven pudesse responder, tocou um sino baixinho.
- Parece que estamos chegando a
Estação Cinco… É o fim de uma missão. - disse Naven, de rosto sereno e, talvez,
um pouquinho triste.
Era
a Estação Cinco o nome oficial da “Nebulosa”. Imensa, magnífica e a mais
isolada dentre as cinco estações exo-galácticas. Diariamente, em dias que eram
divididos em três turnos artificiais, naves de pequeno porte iam e voltavam com
suas medições de matéria escura, radiações diversas e, ocasionalmente, restos
de rochas. Aquele era o caso da S-229, cujas características estavam visíveis
para Erick Danuro, um agente espaço-portuário, cedido pela Central para
acompanhar a chegada daquele transporte. Ele, dispensando seu sanduíche, lia o
informe cuidadosamente, na fina tela que, como uma bolha, flutuava em suas mãos
enquanto estava sentado naquele panorama terrificante de portões abertos num
frenesi constante de naves, médias e pequenas, pelas dezenas de portais seguros,
perfeitamente tapados por um tênue campo de força que ora abria, ora fechava.
Quanto ao fato de ter sido cedido pela Central, isso era possível perceber
pelos robôs maltrapilhos, parecidos com brinquedos (diziam que era para
“liberar o espírito” de humanos que se sentiam subjugados pelos homens
sintéticos) que liam seu código de segurança impresso em sua aura celular.
Mas,
falemos de Erick Danuro. Diz o seu Perfil, guardado na Central, que ele nasceu
na Estação Quatro, há trinta e nove anos, pela contagem translatória da Terra,
dentro de um “programa do filho único”. Era mais uma das Estações fielmente
fiscalizadas para o Parlamento que, anualmente, visitava, a partir da Estação
Um, todas as outras.
A
partir daquele funcionário exemplar e seus inconfundíveis olhos saltados abaixo
de um cabelo escuro repartido ao meio, poder-se-ia ver a parte interna de uma
segura e espaçosa torre de controle, uma das quatro daquele lugar. Ele via que
a S-229 era bem manobrada e bem posicionada nos trilhos quentíssimos que
resistiam a tudo lá embaixo. O barulho foi ensurdecedor por um tempo, até ficar
suficientemente baixo para o conforto humano.
- Mercadoria entregue. - disse um
auxiliar, aparecendo à porta, conforme ele exigiu para aquele caso específico.
Agora,
depois de ter descido alguns degraus, Erick via aquilo mais clinicamente e
apressava-se para receber a carga, ao lado de um robô-esteira fiscalizador e
cinco homens-sintéticos suficientemente habilidosos para retirar o material.
Um
pouco mais tarde, algo exigiu a atenção de Erick. Abaixo, dos três tripulantes,
Naven não estava por perto e, antes que Hollow pudesse se preocupar com sua
estranha ausência, ele e a pouco falante chefa da missão da S-229 foram
chamados ao escritório daquele todo-poderoso “funcionário cedido do Marco
Central”.
***
Hollow,
com tez preocupada, entrou no escritório do Armazém 06 para acompanhar a chefa
daquela missão, uma mulher com cabelos parcialmente loiros e curtos, de idade
indefinida, conhecida como Jakarta conforme o nome que constava em seu uniforme
escuro e bem composto. As câmeras de segurança mostraram detalhadamente o
encontro com Erick.
- Algum problema? – ela
perguntou.
- Quem é esse? Seu procurador?
Hollow
respondeu por ela com um aceno. E os três se sentaram. Erick continuou:
- Encontramos isto aqui, entre o
que vocês trouxeram, essa…
- São os pertences pessoais de
Naven, nosso guia. – respondeu a chefa da missão.
- E onde ele está?
Jakarta
tentou contatá-lo por meio de uma versão minúscula dos ativadores de
neuro-rádios, capazes de realizar troca de informações entre as mentes
conectadas. Em um instante, ao invés de uma resposta, seus olhos se dilataram,
seu corpo enrijeceu-se, nada saía de sua boca. Hollow exigiu um médico, mas
Jakarta logo recobrou sua consciência cotidiana.
- Ele está morto. - como se
fosse a última coisa que dissesse.
- Morto?! - Hollow questionou.
- Era a hora dele. - ela falou,
apenas.
***
Naven
não deixou nada. Ou quase nada. O inventário, lido às pressas em uma das salas
mais obscuras da Estação, ainda naquele mesmo dia, só citava algumas peças de
roupa e um neurocomputador particular, fora alguns objetos de menor
importância. Psicologicamente distante do momento, Jakarta, frente ao ambiente
de pessoas ríspidas, mal tinha tempo para observar aquela caixinha. Mas, mesmo
assim, pegou-a e ficou pensativa.
O
médico encarregado do caso teve que interromper aquele raro momento de
contemplação tola e, baixinho, chamou-a para um canto e falou:
- Você sabia?
Sem
surpresa, ela respondeu, sem perceber que aquilo era o início de um pequeno
interrogatório:
- Sim, ele era um… um sintético.
Sua hora já estava próxima, conforme sua programação genética.
- Isso poderá causar problemas
para os seus negócios, não?
- O que você está querendo?
- Isso. – o médico apontou para a
caixinha.
- E você, por acaso, sabe o que é
isto?
O
médico deu um sorrisinho, com seus dentes impecáveis, recebeu o objeto e
partiu. Hollow aproximou-se, em seguida, soando como um eco ao perguntar:
- O que ele queria?
A
sensação de perda daquele objeto pareceu maior para Jakarta, bem intimamente,
que a morte daquele “ser sintético”. No final daquele compromisso, em um
quartinho provisório para descanso, a qual ela passaria cronometradamente sete
horas, ela conseguiu, por interfone, falar com seu ex-marido, que trabalhava na
Central da estação.
***
O
Comandante Douglas Firmus sabia há um bom tempo da chegada de sua ex-esposa, e
da morte de um de seus contratados. Sozinho, em seu escritório espartano ao
lado de um sujeito estranho vestido de branco, e a quilômetros de onde ela
estava “pernoitando”, ele teria que mentir mais uma vez, justo para ela,
acalmá-la… e foi o que fez. A caixinha de veludo escuro estava ali, em sua
mesa.
- Para onde isso aponta, “homem
de lata”? – questionou o falso médico com uma expressão antiquíssima e que
perdera seu potencial discriminador de séculos atrás.
Com
o semblante tenso, após o contato neural que só um sintético poderia ter com
aquilo, ele respondeu:
- Comandante, as informações que
eu recebi são confusas… Há muitos “marcos”, escoadores cósmicos, atrapalhando a
descriptogração da mensagem…
- Ou isso ou a sua programação
está desatualizada… Droga! Os fiscais do Parlamento virão daqui a seis dias e
não conseguimos nada.
O
falso médico retirou-se, deixando o comandante sozinho em sua mesa, segurando a
caixinha que mais parecia o receptáculo de um anel. Algumas horas se passaram.
Quando ele ia
caindo num leve cochilo, algo pareceu ter soado do objeto. Assustado, pensando
em guardar aquilo, mesmo sendo humano, naturalmente humano, ele conseguiu
enxergar o passado… Não! Eram só suas lembranças. Lembrou-se de quando começou
a mentir para si mesmo e para seus servos sintéticos mais próximos dispostos a
missõezinhas sem nexo… lembrou-se de quando sua ex-mulher perdeu seu filhinho há
muito tempo, na Estação Quatro. A sala da Ala Familiar onde ficaria seu futuro
filho tinha um nome que brilhava em sua mente… um flat que correspondia a um
sonho dolorosamente partido mesmo com todas as ilusões distraidoras daquele
mundo sofisticado… um flat cujo número era “39”.
Subitamente,
com aquele número em mente, ele entendeu o que havia naquela caixinha neural,
ele conhecia os fatos sem que Jakarta soubesse. Ela havia tido um caso com o
sintético disfarçado Naven, e lhe dera aquele objeto que eles haviam recebido
de presente de uma idosa que tinha nascido na Terra e que vivia naquela velha
Estação. Naquele mimo, guardaram suas lembranças sobre o bebê que viria.
Toda
aquela desculpa para se livrar do servo sintético escondia apenas uma mórbida
curiosidade pessoal ou a saudade presente num sonho perdido. Aquilo era um
sonho guardado numa caixa. Douglas pensava “Ela era uma sintética da Terra,
criada para um já morto e rico engenheiro de comunicações. Deu-nos esse
presente típico dessa espécie”. Para depois dizer a si mesmo, baixinho, com os
olhos marejados:
- Um campo neural guardou nossa
alegria… um campo neural nessa forma, cujo indicador de sintonia era “39”.
Marco 39, para ser mais exato… ah, sim, a sintonia necessária, a chave do
quebra-cabeças a ser resolvido a partir do escoadouro cósmico com esse número
de frequência.
E,
como ele bem sabia, para recuperar o objeto infelizmente teve que enganar, fingir
uma investigação que não existia. Mas, aquilo estava acabado. O problema é que
ele não tinha coragem de chamar o seu servo sintético e pedi-lo para modular a
radiação neural para seu próprio cérebro humano. Não. Aquilo seria doloroso
demais. Aquelas lembranças… Ele queria ter o objeto, ele queria guardar a
felicidade em sua gaveta ou em seus bolsos, mas ele não suportaria sentir tudo
aquilo de novo. O Comandante não queria esmorecer, enlouquecer de dor nem, em
contrapartida, perder a fonte daquelas emoções guardadas.
***
De
volta a sua nave, Jakarta e Hollow retornariam, com tudo abastecido, para um
sistema solar limítrofe à Via Láctea chamado “Casulo” e repleto de planetas
gasosos e muita matéria dispersa. Lá, eles iriam garimpar, em qualquer que
fosse a zona criteriosamente escolhida, para depois descansarem na Estação
Quatro.
Tudo
iria correr bem agora. A saudade não abalaria aquela mulher. Concentrada na
nave, com a ajuda do seu colega e pensando em contratar outra pessoa, ela não
percebeu, no canto de seu quartinho, em cima da cama, a vinte metros da cabine
de pilotagem, uma tulipa branca e uma carta de despedidas de seu ex-marido.


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