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terça-feira, 15 de julho de 2014

Conto: O Marco


            Hollow e Naven jogavam cartas naquela sala apertada, cheia de caixotes, esperando pela chegada àquela estação conhecida vulgarmente como “Nebulosa”.

- Quer dizer que você conheceu a Terra? - perguntou Hollow, perto do autômato-ventilador que mais parecia um brinquedo exótico e ambulante.

- A matriz? Sim. Austrópolis é muito poluída, cheia da raça dos sintéticos… você sabe o que eles são, né? O jogo agora são as nossas centenárias estações exo-galácticas, nosso parlamento… - respondia Naven, deixando as cartas de lado.

- Não havia nada que prestasse na Antártida?

- Tanto quanto na América. Sintéticos e mais sintéticos. Quase não há humanos na nossa terra-matriz. O que eu trouxe foi, apenas, uns cartões-postais neurais e, no Museu Estacionário do eixo Marte-Terra, sementes… ah, e isto aqui.

            Desistindo das cartas, Naven, um sujeito baixo e atarracado, foi até sua mochila e pegou uma caixinha escura. Hollow observava bem, mas parecendo não levar a sério.

- Bem, estou vendo. Uma caixa… Algum minidisco?

- Ainda não abri. E, sim, é um minidisco artesanal. Feito por uma senhora de cujo nome não me recordo… Ela disse que isso, num terminal de computador de seiscentos anos atrás, de antes da primeira Estação exo-galáctica, sabe? Antes de tudo o que nos interessa para ficarmos longe daqueles homens sintéticos…

- O quê? O que há nisso aí?

- Ela me disse se tratar de um mapa do ponto do universo onde estaria escondido um tesouro de uma raça de seres inteligentes anterior aos humanos. Soa poético, não? Coisa de ficção. Nesses dois mil anos de exploração espacial, segundo os canais oficiais, nunca nos deparamos com vida inteligente que pudéssemos compreender, ou eles são muito tímidos. Sobre isto aqui, certamente deve ser nada mais que algum filminho mal-feito de alguém que só queria me vender arte de má qualidade.

- Ah, colega… Valeu a pena?

            Antes que Naven pudesse responder, tocou um sino baixinho.

- Parece que estamos chegando a Estação Cinco… É o fim de uma missão. - disse Naven, de rosto sereno e, talvez, um pouquinho triste.

            Era a Estação Cinco o nome oficial da “Nebulosa”. Imensa, magnífica e a mais isolada dentre as cinco estações exo-galácticas. Diariamente, em dias que eram divididos em três turnos artificiais, naves de pequeno porte iam e voltavam com suas medições de matéria escura, radiações diversas e, ocasionalmente, restos de rochas. Aquele era o caso da S-229, cujas características estavam visíveis para Erick Danuro, um agente espaço-portuário, cedido pela Central para acompanhar a chegada daquele transporte. Ele, dispensando seu sanduíche, lia o informe cuidadosamente, na fina tela que, como uma bolha, flutuava em suas mãos enquanto estava sentado naquele panorama terrificante de portões abertos num frenesi constante de naves, médias e pequenas, pelas dezenas de portais seguros, perfeitamente tapados por um tênue campo de força que ora abria, ora fechava. Quanto ao fato de ter sido cedido pela Central, isso era possível perceber pelos robôs maltrapilhos, parecidos com brinquedos (diziam que era para “liberar o espírito” de humanos que se sentiam subjugados pelos homens sintéticos) que liam seu código de segurança impresso em sua aura celular.
            Mas, falemos de Erick Danuro. Diz o seu Perfil, guardado na Central, que ele nasceu na Estação Quatro, há trinta e nove anos, pela contagem translatória da Terra, dentro de um “programa do filho único”. Era mais uma das Estações fielmente fiscalizadas para o Parlamento que, anualmente, visitava, a partir da Estação Um, todas as outras.
            A partir daquele funcionário exemplar e seus inconfundíveis olhos saltados abaixo de um cabelo escuro repartido ao meio, poder-se-ia ver a parte interna de uma segura e espaçosa torre de controle, uma das quatro daquele lugar. Ele via que a S-229 era bem manobrada e bem posicionada nos trilhos quentíssimos que resistiam a tudo lá embaixo. O barulho foi ensurdecedor por um tempo, até ficar suficientemente baixo para o conforto humano.

- Mercadoria entregue. - disse um auxiliar, aparecendo à porta, conforme ele exigiu para aquele caso específico.

            Agora, depois de ter descido alguns degraus, Erick via aquilo mais clinicamente e apressava-se para receber a carga, ao lado de um robô-esteira fiscalizador e cinco homens-sintéticos suficientemente habilidosos para retirar o material.
            Um pouco mais tarde, algo exigiu a atenção de Erick. Abaixo, dos três tripulantes, Naven não estava por perto e, antes que Hollow pudesse se preocupar com sua estranha ausência, ele e a pouco falante chefa da missão da S-229 foram chamados ao escritório daquele todo-poderoso “funcionário cedido do Marco Central”.
           

***


            Hollow, com tez preocupada, entrou no escritório do Armazém 06 para acompanhar a chefa daquela missão, uma mulher com cabelos parcialmente loiros e curtos, de idade indefinida, conhecida como Jakarta conforme o nome que constava em seu uniforme escuro e bem composto. As câmeras de segurança mostraram detalhadamente o encontro com Erick.

- Algum problema? – ela perguntou.

- Quem é esse? Seu procurador?

            Hollow respondeu por ela com um aceno. E os três se sentaram. Erick continuou:

- Encontramos isto aqui, entre o que vocês trouxeram, essa…

- São os pertences pessoais de Naven, nosso guia. – respondeu a chefa da missão.

- E onde ele está?

            Jakarta tentou contatá-lo por meio de uma versão minúscula dos ativadores de neuro-rádios, capazes de realizar troca de informações entre as mentes conectadas. Em um instante, ao invés de uma resposta, seus olhos se dilataram, seu corpo enrijeceu-se, nada saía de sua boca. Hollow exigiu um médico, mas Jakarta logo recobrou sua consciência cotidiana.

­- Ele está morto. - como se fosse a última coisa que dissesse.

- Morto?! - Hollow questionou.

- Era a hora dele. - ela falou, apenas.

***


            Naven não deixou nada. Ou quase nada. O inventário, lido às pressas em uma das salas mais obscuras da Estação, ainda naquele mesmo dia, só citava algumas peças de roupa e um neurocomputador particular, fora alguns objetos de menor importância. Psicologicamente distante do momento, Jakarta, frente ao ambiente de pessoas ríspidas, mal tinha tempo para observar aquela caixinha. Mas, mesmo assim, pegou-a e ficou pensativa.
            O médico encarregado do caso teve que interromper aquele raro momento de contemplação tola e, baixinho, chamou-a para um canto e falou:

- Você sabia?

            Sem surpresa, ela respondeu, sem perceber que aquilo era o início de um pequeno interrogatório:

- Sim, ele era um… um sintético. Sua hora já estava próxima, conforme sua programação genética.

- Isso poderá causar problemas para os seus negócios, não?

- O que você está querendo?

- Isso. – o médico apontou para a caixinha.

- E você, por acaso, sabe o que é isto?

            O médico deu um sorrisinho, com seus dentes impecáveis, recebeu o objeto e partiu. Hollow aproximou-se, em seguida, soando como um eco ao perguntar:

- O que ele queria?
           
            A sensação de perda daquele objeto pareceu maior para Jakarta, bem intimamente, que a morte daquele “ser sintético”. No final daquele compromisso, em um quartinho provisório para descanso, a qual ela passaria cronometradamente sete horas, ela conseguiu, por interfone, falar com seu ex-marido, que trabalhava na Central da estação.


***

            O Comandante Douglas Firmus sabia há um bom tempo da chegada de sua ex-esposa, e da morte de um de seus contratados. Sozinho, em seu escritório espartano ao lado de um sujeito estranho vestido de branco, e a quilômetros de onde ela estava “pernoitando”, ele teria que mentir mais uma vez, justo para ela, acalmá-la… e foi o que fez. A caixinha de veludo escuro estava ali, em sua mesa.

- Para onde isso aponta, “homem de lata”? – questionou o falso médico com uma expressão antiquíssima e que perdera seu potencial discriminador de séculos atrás.

            Com o semblante tenso, após o contato neural que só um sintético poderia ter com aquilo, ele respondeu:
           
- Comandante, as informações que eu recebi são confusas… Há muitos “marcos”, escoadores cósmicos, atrapalhando a descriptogração da mensagem…

- Ou isso ou a sua programação está desatualizada… Droga! Os fiscais do Parlamento virão daqui a seis dias e não conseguimos nada.

            O falso médico retirou-se, deixando o comandante sozinho em sua mesa, segurando a caixinha que mais parecia o receptáculo de um anel. Algumas horas se passaram.
Quando ele ia caindo num leve cochilo, algo pareceu ter soado do objeto. Assustado, pensando em guardar aquilo, mesmo sendo humano, naturalmente humano, ele conseguiu enxergar o passado… Não! Eram só suas lembranças. Lembrou-se de quando começou a mentir para si mesmo e para seus servos sintéticos mais próximos dispostos a missõezinhas sem nexo… lembrou-se de quando sua ex-mulher perdeu seu filhinho há muito tempo, na Estação Quatro. A sala da Ala Familiar onde ficaria seu futuro filho tinha um nome que brilhava em sua mente… um flat que correspondia a um sonho dolorosamente partido mesmo com todas as ilusões distraidoras daquele mundo sofisticado… um flat cujo número era “39”.
            Subitamente, com aquele número em mente, ele entendeu o que havia naquela caixinha neural, ele conhecia os fatos sem que Jakarta soubesse. Ela havia tido um caso com o sintético disfarçado Naven, e lhe dera aquele objeto que eles haviam recebido de presente de uma idosa que tinha nascido na Terra e que vivia naquela velha Estação. Naquele mimo, guardaram suas lembranças sobre o bebê que viria.
            Toda aquela desculpa para se livrar do servo sintético escondia apenas uma mórbida curiosidade pessoal ou a saudade presente num sonho perdido. Aquilo era um sonho guardado numa caixa. Douglas pensava “Ela era uma sintética da Terra, criada para um já morto e rico engenheiro de comunicações. Deu-nos esse presente típico dessa espécie”. Para depois dizer a si mesmo, baixinho, com os olhos marejados:

- Um campo neural guardou nossa alegria… um campo neural nessa forma, cujo indicador de sintonia era “39”. Marco 39, para ser mais exato… ah, sim, a sintonia necessária, a chave do quebra-cabeças a ser resolvido a partir do escoadouro cósmico com esse número de frequência.

            E, como ele bem sabia, para recuperar o objeto infelizmente teve que enganar, fingir uma investigação que não existia. Mas, aquilo estava acabado. O problema é que ele não tinha coragem de chamar o seu servo sintético e pedi-lo para modular a radiação neural para seu próprio cérebro humano. Não. Aquilo seria doloroso demais. Aquelas lembranças… Ele queria ter o objeto, ele queria guardar a felicidade em sua gaveta ou em seus bolsos, mas ele não suportaria sentir tudo aquilo de novo. O Comandante não queria esmorecer, enlouquecer de dor nem, em contrapartida, perder a fonte daquelas emoções guardadas.
             

***

           
            De volta a sua nave, Jakarta e Hollow retornariam, com tudo abastecido, para um sistema solar limítrofe à Via Láctea chamado “Casulo” e repleto de planetas gasosos e muita matéria dispersa. Lá, eles iriam garimpar, em qualquer que fosse a zona criteriosamente escolhida, para depois descansarem na Estação Quatro.
            Tudo iria correr bem agora. A saudade não abalaria aquela mulher. Concentrada na nave, com a ajuda do seu colega e pensando em contratar outra pessoa, ela não percebeu, no canto de seu quartinho, em cima da cama, a vinte metros da cabine de pilotagem, uma tulipa branca e uma carta de despedidas de seu ex-marido.




 Autor: João Batista Firmino Júnior.

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