2- Estranhos
Odeio ser pego de surpresa. E não sei por que, já
que sempre fui suficientemente só para me assegurar de nunca levar um susto. Eu
estava naquele recinto, atrás de um barulho que só eu tinha ouvido, e prestes a
me deparar com um corpo de um indivíduo em uma câmera de conservação típica
para viagens acima de um ano-luz, quando, na entrada, deparo-me com outro
homem, com uma roupa de astronauta diferente da minha, interferindo em meu
rádio para pedir ajuda. Após isso, caiu quase sobre mim.
***
Tentei carregá-lo, mas, em algum momento, ele falou,
em intercosmos:
- Se for para me levar, não esqueça… não esqueça de
voltar e salvar os meus companheiros.
Baseado
nisso, passei os três dias seguintes ocupado com esse sujeito, e mais três
casais que estavam em estase naquelas caixas de metal envidraçado por sobre uma
plataforma oca facilmente deslocável, para os quais precisei da ajuda de dois
autômatos extremamente úteis. Humanos, certamente, e de estatura normal. Um
homem negro, dois homens brancos, uma ruiva e duas asiáticas que pareciam
gêmeas idênticas.
Ao
término de tanto trabalho, naquele fim de turno diurno, fui atrás desse que
passou a se identificar como “Rimbaud”, internado em minha humilde enfermaria.
***
Gravando
Caso 0/Observação 09: “Indivíduo atarracado, completamente sem pelos, de
aspecto árabe. Sedado e sob alimentação e hidratação reforçados
intravenosamente. Fala intercosmos. Definitivamente não pertence a espécie dos
criadores da nave. Possui alguma ligação com os outros indivíduos encontrados.”
Meu
servorrobô médico passou-me todo o seu relatório para o meu ciclocomputador em
forma de tablet. Sem nenhum microorganismo perigoso, eu não precisaria de toda
aquela roupa protetora. Ademais, tentei despertar o estranho.
Ainda
sonolento, ele pouco se mexeu. Olhou ao redor fixamente, até parar em mim.
- Onde estamos mesmo?
- No asteróide Hollins, meu lar. Quem é você
realmente?
Ele
não respondeu, pois voltou a dormir.
***
Voltei-me
para os “encapsulados”. Em meu laboratório, ao lado de onde eu mantinha
Rimbaud, utilizei-me de meus conhecimentos básicos, nanotecnologia, e toda a
sorte de teorias. Teriam vindo eles de outra dimensão, como eu? Teriam vindo
desta realidade em que vivo? Iria descobrir. E não tardou a acontecer: um deles
começava a despertar, com a influência de meus aparelhos. Os outros também
começavam a se mexer. Mas foi o homem negro quem realmente acordou primeiro.
Em
um bocado de horas, aquele homem que já se sentava na cama e se dizia chamar
“Paul”, finalmente me revelou quem eram os seus companheiros.
- Fomos recrutados pelos urizenianos.
Mas,
ele não parecia lembrar muita coisa. Não sabia de onde viera nem para quê teria
sido “recrutado”. Enquanto isso, num intervalo de dias medidos artificialmente
sob a forma de turnos de vinte e quatro horas, um homem fino, pálido, miúdo,
que, segundo Paul, chamava-se Galbamestt, despertou com um gemido leve. Parou.
E seguiu numa quase catatonia. Horas mais tarde acordaram Ang, um homem alto,
loiro, de meia-idade e nariz protuberante; as asiáticas gêmeas Iana e
Anastacia; e, por último, a jovem ruiva Dina. Não diziam nada, e, quando
diziam, não passava de balbúcias.
Enquanto
esses se recuperavam, o servo-robô médico me trazia a notícia que Rimbaud
estava perambulando pela enfermaria, falando só, talvez exigindo respostas.
***
Ele
estava disposto a me trazer dúvidas e perguntas. Enquanto os outros
descansavam, Rimbaud, já restabelecido, conversou comigo.
- Temos lendas sobre você: o Runner, o Andarilho.
- E de onde vocês são?
- Terra.
- Uma das Terras?
Ele desandou a falar meio que para si mesmo e para
mim:
- A única Terra. A do meu mundo. Onde mais
estaríamos? Apenas fomos recrutados para irmos até você. Você mesmo, por ser
muito rudimentar e penosa uma viagem interdimensional com os recursos dos
nossos parceiros… Mas, não lembro de muita coisa… Havia uma cooperação entre a
Federação e aqueles que nós chamávamos de urizenianos. Só não pensei que
fôssemos ser reduzidos a “mercadoria” viva em transporte, ou que fôssemos os
únicos sobreviventes… Alguma coisa, certamente, deu muito errado. Porém,
novamente: onde estamos? Nunca ouvi falar desse asteróide Hollins.
Durante os dias seguintes, segui confabulando com
Rimbaud e recuperando os danos neurológicos dos outros seis. Ele me falou de
uma espécie de santuário cósmico, a origem de todo o multi-universo, enquanto
eu tentava explicar minha habilidade de viajar por realidades alternativas sem
nenhum tipo de equipamento tecnológico específico; Rimbaud, por sua vez, quando
não falava sozinho em seu idioma nativo, tentava explicar sua habilidade de se
situar em grandes pontos do Universo, como se por um momento pudesse se tornar
um gigante e ver todo o panorama. Enfim, podia saber quando estava fora da
galáxia, do sistema solar, perto de uma nebulosa, mesmo sem instrumentos. Uma
verdadeira vantagem.
Fui, aos poucos, me afeiçoando aos novos
companheiros, conhecendo as suas dificuldades de recuperação e passando a
treinar minhas amadoras habilidades interpessoais. Em um dado ponto, passamos a
fazer refeições juntos. As descobertas sobre eles vinham aos poucos. E assim o
tempo passou, como num sonho.
Com
o passar de um rápido ano, de acordo com minha orientação no tempo, já
formávamos uma família. Uma família a qual eu e Rimbaud éramos os chefes. E
havia tempo em que eu não viajava para fora daquela realidade, daquela minha
realidade principal, original. Uma âncora havia se formado em meu ser.
Galbamestt
falava, ainda, com dificuldades. Era o mais circunspecto. Por vezes recluso, e
limitado a atividades de limpeza manual e verificação de dados superficiais,
uma espécie de zelador com alguma noção básica do maquinário ao redor. Paul
parecia o mais normal, coerente, e entendia os meus ciclocomputadores. Ang era
aquele que contava piadas sobre a nossa estranha condição, sobre sua estranha
condição; fora isso, entendia de engenharia espacial, elétrica, e comunicações.
Era o faz-tudo. As três moças, por sua vez, sem se identificarem com nenhum de
nós, pareciam entender tudo de Física teórica; com exceção de Dina, que parecia
entender mais do que eu pensava sobre Medicina.
Aquele
ano foi bem produtivo. Até certo ponto. Até surgirem as primeiras “situações”.
***
Gravando
Caso 0/Observação 108: “Os sete elementos continuam estáveis, com exceção de
alguns pesadelos e dores de cabeça. Bom condicionamento interpessoal da maioria
deles. Usar essa aproximação como forma de penetrar sonhos e lembranças, e,
finalmente, resgatar informações sobre a nave e os seres que fizeram deles
servos ou ‘recrutas’. Ponto extra: ‘Optando por encerrar os Observações’.”
Certo
dia, após semanas de pesadelos e lembranças desconexas, Rimbaud e o restante
quiseram ter uma conversa comigo.
- Falo contigo em nome deles e de mim mesmo. Acho
que sei dizer, que sabemos, para quê seria aquela nave. - dizia Rimbaud,
esperando alguma reação minha.
A partir desse ponto, Dina prosseguiu:
- Antes de tudo, precisamos dizer que estamos
agradecidos pelo resgate. Mas, creio que já tenhamos agora pistas, ou
lembranças, mais concretas das coordenadas dimensionais de nossa casa e sobre a
natureza de nossa missão.
Paul, então, pronunciou-se, com sua voz grave:
- Fomos criados, como você já deve ter notado, como
seres apagados, depois que fomos adotados, abduzidos, ou recrutados, ainda
quando éramos fetos, da Terra. Com exceção de Rimbaud, que foi voluntário… Vou
resumir: viemos do que você chama de Terra-01, fomos abduzidos com a ajuda da
Federação Solar e de Rimbaud, que trabalha para a Secretaria Espacial da União
Européia. Estamos, com os urizenianos, atrás do que consideramos ser um
santuário cósmico, detentor de uma fonte imensa de conhecimento e de energia limpa,
que seria útil para a nossa Terra e para o grupo de raças chefiadas por esses
extraterrestres.
Dina,
então, retomou, enquanto o restante permanecia em absoluto silêncio:
- Nossos corpos iriam guardar parcelas dessa
energia. Não sabemos detalhar como, mas pressentimos que é isso mesmo. E para
isso fomos preparados.
Rimbaud
a interrompeu:
- Pedimos a você que, antes de nos deixarmos em
casa, nos permita seguir até Andrômeda, nesta mesma realidade em que estamos,
para que possamos pescar uma pista. Temos uma coordenada até lá. E só. Então…
você nos ajuda? Quem sabe descubramos algo sobre suas origens…
Eram
muitas informações desencontradas. Pedi tempo para analisar aquelas mentes, com
meus recursos. De fato, como pude ir comprovando nos dias seguintes, eles
diziam a verdade. A questão não era mais o que eu ganharia com um caso que
pudesse me revelar minhas origens - ou, ao menos, dar-me alguma diversão contra
o tédio -, mas quando iniciar a busca. Eu sabia que seria logo. Iríamos nos
preparar.
***
A auto-reparação da nave, a que chamamos de
“Gulliver”, vinha ocorrendo perfeitamente. Minhas medições indicavam
normalidade.
Sem movimentos translatórios em relação a Netuno,
mas sempre rodando lentamente sobre seu próprio eixo, a Gulliver parecia mais
compacta, mais densa, naquela espaço sideral de sonho. Ang e dois servo-robôs
verificavam aquele setor que eu chamava de sala das máquinas. Rimbaud e eu,
porém, permanecíamos na Sala de Comando, e Paul, com seu sevo-robô, sozinho,
numa sala vizinha, repleta de estranhos cristais, adaptando aquilo tudo aos
meus ciclocomputadores. Um conjunto de tarefas nada fáceis. Mantínhamos a nós
mesmos bem conectados com nossos intercomunicadores.
Dispensando o palavreado técnico, minha conversa com
Rimbaud foi a seguinte, num dado momento, começando por mim:
- O que há mesmo em Andrômeda?
- É para onde estávamos viajando. - respondia um
ocupado Rimbaud. - Há uma pista… em um sistema solar ocupado por um sol
moribundo, numa parte intermediária da galáxia… Acreditamos se tratar de algum
tipo de achado arqueológico ou algo de natureza subatômica, sutil, e
fragmentada. Algum tipo de radiação a qual, com nossos medidores, poderíamos
chegar às coordenadas da realidade alternativa correta.
- E quem teria produzido “tal” pista?
- Tivemos evidências desta realidade alternativa.
Sua realidade. Quando chegamos, algo em minha mente foi acionado em direção a
Andrômeda, a um dado local. Há um planeta cujas leis da Física, em uma escala
muito sutil, são frágeis. Há outros locais também, mas esse é o mais próximo e
o menos atribulado para esta nave.
***
O que seria um punhado anos-luz ou trilhões de
quilômetros? A única coisa que tínhamos era um conjunto de pressentimentos e
sensações. E algumas coordenadas. Fora isso, todo o resultado de um duro
trabalho de recuperação da Gulliver.
Estávamos de mudança, dessa vez uma mudança mais
permanente. Por enquanto, nada de viagens interdimensionais, apenas o comum, o
simples… não tão simples.
Naquele meu turno ao lado do silencioso Galbamestt,
pouco antes de partirmos, observávamos as estrelas que apareciam por uma grande
tela. Tudo filmado, nenhuma visão direta do espaço sideral.
- Ainda com náuseas? - perguntei.
Ele,
absorto na contemplação daquela janela para o universo, respondeu, baixinho:
- Um pouco.
Não havia percebido, contudo, que próximos a nós
estava Rimbaud com uma xícara de café, além de Paul e Ang.
- Bela surpresa.
Galbamestt,
porém, interrompeu, avisando que iria voltar aos seus aposentos até que fosse
dada alguma ordem. E eu aproveitei para mandá-lo verificar nossa reserva de
água, com muito esforço construída através de algumas explorações que
antigamente eu fizera em algumas luas.
Pouca
gente faria aquilo demorar a andar. Mas, tínhamos paciência. A operação inicial
seria nos levar a um determinado ponto além da Nuvem de Oort. E comecei, com
Rimbaud, com as manobras básicas. Foram vinte horas de muito esforço e pouco
pessoal. Nada mais de café.
Ao
final dessa primeira etapa, mal tive tempo para me alimentar de ração e engolir
algumas pílulas que me manteriam acordado por mais vinte horas. O mesmo com
Rimbaud. A próxima fase seria capitaneada por Ang e as nossas físicas
asiáticas. Não os vi trabalhar, passei as horas seguintes verificando as
rotinas internas da nave com Galbamestt, que não falava nada, dormi muito e,
com o passar de alguns dias, Ang se comunicou com nossa mini-equipe da Central
da Gulliver:
- Acho que pode dar certo.
As
coisas correram rapidamente. Uma cronometragem começou a se fazer funcionar.
Iríamos atingir uma velocidade bem acima da luz, numa viagem de quinze anos.
Enquanto
nos preparávamos para a hibernação, Galbamestt me confidenciou, com seu
estranho linguajar:
- Sinto tudo fluir, toda essa energia… muita
ansiedade…
Dina
ouviu isso e, de alguma forma, levando-o para perto dela, conseguiu ir
acalmando-o. O nervoso, agora, era eu. Nunca havia estado num “túmulo”
daqueles, envidraçado. Conectei todos os cabos necessários ao meu corpo. Paul
sondava a aparelhagem que nos faria dormir, na mesma sala em que estávamos.
Deixou tudo no automático e, como nós, deitou-se. Fechei os olhos, e caí num
sono sem sonhos.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem o próximo capítulo.


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