4- Trilha pelo
Infinito
Tamarkan há anos havia passado por toda uma
aprendizagem sobre o que seriam andróides exercendo a função de receptáculos de
radiação cósmica e seus padrões. Seria inútil listar detalhadamente que tipo de
radiações seriam essas, mas, poderíamos dizer que…
-… o mapa interdimensional para alcançar outra
realidade sem riscos demais seria através da correlação entre os sentimentos do
espécime superdotado e seus poderes. Daí incluem-se o ódio, a decepção, o
desespero, que são capazes de um aumento substancial das habilidades. - dizia
seu antigo professor e palestrante de incontáveis encontros
científico-militares.
Porém,
atualmente, o comandante sabia haver mais do que isso. Esse espécime conhecido
como “Andarilho” ou “Runner”, não era - pelo que ele aprendera em sua fase de instrução
antes da missão - apenas um humano superdotado, mas uma criação única do
multi-universo, sendo que ele não teria apenas quatro séculos, mas quatro
séculos na forma humana.
O
experimento é antigo, sabia Tamarkan. Ele pensava: “Em algum momento, o
espécime foi descoberto vivendo na mesma realidade que nós, com sua tecnologia irrisória
e ultrapassada… em seguida, os sete agentes, receptáculos e retransmissores de
informações e medições, fizeram o ajuste necessário no subconsciente dele,
durante o longo sono de quinze anos… temos tudo em mãos, e espero que tenhamos
algo na mente.”
Tamarkan
tinha duradouras preocupações, era muito velho, com seus quase cento e
cinqüenta anos de idade, caso seguisse a contagem terrana. Contudo, ainda forte
e determinado. Ele era um patriota e, acima de tudo, um amante da Ciência.
Aquele experimento seria absolutamente essencial para a descoberta de como foi
a origem do multi-universo, e de como se obter uma quantidade infinita de
energia utilizável. Uma nova revolução tecnológica estava para chegar, e tudo
calcado numa complexa teia criada para mudar a forma de o Andarilho perceber as
relações interpessoais.
***
Planeta
sólido, orbitando um pequeno sol amarelo e moribundo. Com dimensões
ligeiramente menores que as da Terra, o ar era denso e venenoso, e o frio
imenso. Normalmente, zero absoluto. O realmente estranho estava apenas na
gravidade, diferente em pontos diferentes do planeta, o que permitiria um pouso
numa gravidade agradável para um urizeniano em algum lugar próximo ao pólo sul
do planeta levemente achatado.
A
U2 havia chegado há pouco tempo, para se juntar a nave principal, através de
uma simples e silenciosamente através de um salto em velocidade acima da luz.
Em algum lugar do principal pavilhão daquela nave, estavam, à espera de
Tamarkan, o subcomandante Byz, um especialista em robótica chamado Cak Lemnr e
uma bela médica-chefe, de meia-idade e curtos cabelos castanhos, a Dra. Naral
N’Thorzen. O comandante, ansioso, aproximava-se, ao lado de sua nave auxiliar
recém-pousada, com quatro guardas sérios. Conversou com eles, mas logo seguiu
adiante. Queria ter um contato direto com o Andarilho. Uma conversa.
***
Um
despertar abrupto fez com que o Andarilho abrisse os olhos. Estava numa espécie
de cadeira de dentista do tamanho de um humano, em ambiente asséptico de
paredes verdes. Nenhum som. Imagens embaçadas. Ele não conseguia ordenar
direito seus pensamentos e temores. Demorou um tempo, até que ele se viu numa
sala com um grande olho envidraçado a sua frente.
A
voz entrava em sua mente a partir daquela grande lente. Era calma, porém firme.
- Sou o Comandante Tamarkan N’torg, e represento o
povo Bhakker da raça urizeniana. Você não pode me ver, mas precisa se acalmar,
acostumar-se ao novo peso de nossa gravidade, e me ouvir.
Mudo,
porém mais relaxado, o Andarilho meneou a cabeça, fez que sim. E Tamarkan
voltou a falar:
- Você é algo poderoso, de origem desconhecida e adimensional.
Assumiu a forma humana há quatro séculos terrestres… a partir daí, nós
assumimos e o vigiamos. Você já deve saber agora, baseado em sua experiência e
conhecimentos, que seus amigos eram seres artificiais. Eles tinham que alterar
os seus sentimentos, fazer com que seus poderes viessem a se revelar como
realmente são: imensos. E precisamos de sua ajuda não apenas para uma viagem
interdimensional com a transportação de muita matéria. Não sei como dizer, mas
você é aquilo que o Santuário pede para nos revelar a origem dos universos e a
localização de incontáveis bolsões de energia. Saber e Poder - queremos os
dois. E você irá nos ajudar. Como ficamos sabendo de tudo isso? Através de
nossos próprios oráculos espalhados pela nossa galáxia natal.
- Façamos o seguinte. – continuou – Você pode
continuar como um prisioneiro, ou se tornar um ajudante precioso.
Ele respondeu, mostrando-se capaz de se adaptar
rápido:
- Tudo aquilo
falso… deixe-me pensar… se é sobre minha origem… sim… eu ajudo. Mesmo assim, eu
tenho duas condições: reative Rimbaud e Dina, com seus dons ou conhecimentos de
telelocalização e medicina, e nos deixe livres para trabalhar. Antes… me tire
daqui. Cadê meu ciclocomputador de pulso?
- Excelente. Você estará livre em alguns minutos.
Sozinho,
novamente, o Andarilho descobria algo de sua personalidade: era vingativo. Iria
tirar os urizenianos do seu encalço e prejudicar aquela missão mesquinha. Porém,
realmente tinha interesse em entender sua origem. Ainda não lhe cabia muito bem
aquela ideia de que sempre fora um ser vivo mesmo antes de ser humano, devido
ao seu materialismo, contudo, abriria a sua mente.
***
As
luzes do sol moribundo, batizado com uma sigla alfanumérica ininteligível,
invadiam fluidamente o pavilhão de observatório da nave U1, um recinto
localizado vários andares acima da garagem e da central de comando. O Andarilho
tivera permissão de passear por lá enquanto seus dois companheiros ainda
estavam sendo reativados, bem como outros preparativos para a exploração do
planeta desconhecido. Ele imaginava cada satélite lançado entrando em pane,
cada perscrutação caindo em dúvidas, e toda a tenacidade da busca se perdendo
diante dos mistérios do universo infinito. O que seriam os gigantes
urizenianos no meio disso tudo se não
insetos?
No
espaçoso observatório, apenas alguns urizenianos vigiavam ele, de longe, em
meio a um exíguo jardim-estufa, um grande parapeito com lentes flutuantes em
direção ao espaço sideral, cadeiras e sofás, e uma mini-central geodésica com
um grande telescópio e o controle de alguns dos satélites de monitoração
daquele sistema. Fora isso, dois grandes elevadores antigravitacionais em algum
ponto lá para trás.
Em
meio ao ar levemente frio, sem qualquer tipo de brisa feita artificialmente,
passos retumbantes foram sentidos. Eram dois urizenianos de porte militar
acompanhando um casal. Rimbaud e Dina.
Logo,
os guardas se puseram mais longe. Os três tinham o que falar. Mas falaram
pouco. Rimbaud e Dina não se lembravam do que ocorreu durante a convivência com
o Andarilho. Nem se quisessem. Mantinham, todavia, o conhecimento em Medicina
por parte de Dina, e aquela percepção extra-sensorial de telelocalização constante
típica de Rimbaud.
Em
algum momento, um dos guardas, após ouvir o seu telecomunicador embutido no
ouvido, aproximou-se dos três e disse em intercosmos:
- Venham conosco.
***
Durante
a partida para aquele planeta incógnito, mais especificamente para uma zona de
gravidade estabilizada para padrões urizenianos, bem acomodado em sua grande
poltrona, o Andarilho questionava a si mesmo, a sua outrora tão segura
tecnologia (incapaz de ter detectado aquelas sete pessoas como andróides), e
toda a extensão da manipulação daqueles seres agigantados que queriam ser Deus.
Numa armadilha espacial sem janelas, próximo aos silenciosos Rimbaud e Dina, e
alguns daqueles alienígenas sérios e parrudos, o estranho sem idade pensava em
uma forma de frustrar os planos dos urizenianos e deixar os mistérios do
multi-universo e de sua origem apenas para ele mesmo, o merecedor.
Depois,
enquanto os convidados pousavam, o comandante já se encontrava adiantado, em um
acampamento improvisado em meio a uma bolha de temperatura e oxigênio, além de
uma gravidade artificial gerada especialmente para aqueles gigantes, mesmo sob
um ambiente de constantes alterações gravitacionais. Sob seu olhar austero,
cientistas-chefe, sobretudo geólogos e arqueólogos tentavam achar pistas sobre
algum tipo de local sagrado ou artefato. Por outro lado, quatro físicos se
debruçavam com os escritos das andróides gêmeas, de aparência asiática, que
tanto encantaram seus criadores.
- Elas chegaram a essas coordenadas, mas… ainda
nada. De qualquer forma, tivemos pouco tempo… – dizia o chefe-de-operações,
Marz N’Troff, ao comandante Tamarkan, resumindo os trabalhos.
- Não temos todo tempo do mundo, Marz. Você sabe que
essas coordenadas não se referem apenas a um lugar ou artefato específico, mas
à um tempo também, um momento digamos raro.
Ao
lado deles, já dentro da bolha protetora, uma nave auxiliar da U1 acabava de
pousar, silenciosamente, a ponto de ficar flutuando a um metro do chão, como
que ancorada, agora sem movimentos desestabilizadores. “Finalmente, as coisas
vão andar”, pensava Tamarkan, de braços cruzados, ao lado de Marz.
***
O
espaçoporto improvisado não era nada apoteótico. Uma única torre de controle,
montada às pressas por robôs, nanorrobôs, indivíduos, em poucas semanas, não
revelava tanto quanto poderia daquela paisagem tecnocrata para os três
convidados que acabavam de chegar.
Rimbaud
demonstrava alguns pressentimentos sobre aquele lugar - um planeta único àquela
realidade tal qual o próprio Andarilho. Tamarkan, aproveitando-se disso, deixou
que tudo se conduzisse a partir de Marz, que os levou, com uniformes adequados,
até a parte baixa do que de há muito tempo teria sido uma montanha e, hoje,
reduzia-se a um planalto cravejado de buracos, que se estendia por milhares de
quilômetros.
As
crateras só escondiam pedras, e, talvez, raramente, algum gelo. Um robô, a
serviço dos geólogos, com sua imensa crosta e rodas dentadas, tentava abrir uma
mina. Marz apresentava tudo, Rimbaud não pressentia mais nada, Dina ficava de
lado com um aparelho monitorando o corpo do Andarilho, e… um leve tremor.
***
O
leve tremor teria passado em branco, se não fosse o mal-estar cada vez mais
presente em Rimbaud. Socorrido por Dina, ele foi levado à barraca médica.
Enfim, dois andróides se ajudando.
Fora
daquela bolha, o Andarilho continuou sendo de vez em quando sabatinado por Marz
e seus olhinhos vivos, sobre como se sentia, se era capaz de perceber algum
fluxo de energia ou uma série de sensações ligadas a todo um palavreado
científico, como se ele mesmo fosse um daqueles “bonecos sem caixa”, um
daqueles andróides.
Aparentemente
nada, porém, lhe ocorria, ainda que uma coisa ele não contasse a ninguém:
estava de volta aquele leve formigamento gélido em sua nuca… e um tremeluzir de
imagens, uma vertigem. O chefe-de-operações, durante novos abalos, parecia
mudar de estatura, de características físicas, e, em alguns casos, a própria
localização da redoma que constituía toda aquela base tecnológica montada
apressadamente. O pior: a percepção de que várias semanas haviam se passado
desde que fora capturado, mesmo que sua sensação fosse de poucas horas ou de
alguns dias. Estava tudo mudando.
Na
U1, os medidores começavam a enlouquecer. Não se sabia a origem de tudo aquilo,
mas os contatos com a U2 foram totalmente desativados. Ao mesmo tempo, os
técnicos não tinham como avisar o seu comandante que, sem perceber muito disso
fora os abalos sísmicos, seguia cautelosa e minuciosamente o seu trabalho,
vestindo-se com seu uniforme de astronauta e indo até o Andarilho e Marz, com
aquela sua desconfiança de sempre frente aos abalos.
Foi
quando tudo mudou.
***
Começava
a se tornar visível para todos o mal-estar do Andarilho, bem como para
Tamarkan, que se aproximava, tentando contato por rádio, segurando-o no ombro,
e… um som forte de algo grave roçando. Não um sino, mas alguma coisa gutural,
parecido com o choro de inúmeras focas. Todos os sentidos do homem sem idade e
do comandante ficaram resumidos apenas à percepção daquele som.
Não
havia dado tempo de usar os andróides, de ampliar nada. Um relâmpago pareceu
partir do Andarilho, passando pelo comandante, ultrapassando a bolha e
atingindo os dois andróides que, imediatamente, entraram em contato, formando
uma ponte com os outros cinco desativados e, por hora, guardados na U1;
enquanto a U2, muito perto da primeira nave, esvaía-se internamente numa
temperatura de milhares de graus, mesmo sem afetar nada aos seu redor
relevantemente.
O monumental
é que, mesmo imperfeitamente, aconteceu. O Andarilho, Tamarkan, e a U1,
passaram para uma realidade alternativa desconhecida, enquanto a U2 e os sete
andróides, em intenso brilho e calor, se desfaziam - o que acarretou na
destruição de todo o setor médico da U1.
A
passagem havia sido aberta, e usada.
Autor: João Batista Firmino Júnior.
Aguardem o próximo capítulo.


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