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domingo, 20 de julho de 2014

O NÚCLEO (Capítulo 04)

4-      Trilha pelo Infinito


Tamarkan há anos havia passado por toda uma aprendizagem sobre o que seriam andróides exercendo a função de receptáculos de radiação cósmica e seus padrões. Seria inútil listar detalhadamente que tipo de radiações seriam essas, mas, poderíamos dizer que…

-… o mapa interdimensional para alcançar outra realidade sem riscos demais seria através da correlação entre os sentimentos do espécime superdotado e seus poderes. Daí incluem-se o ódio, a decepção, o desespero, que são capazes de um aumento substancial das habilidades. - dizia seu antigo professor e palestrante de incontáveis encontros científico-militares.

            Porém, atualmente, o comandante sabia haver mais do que isso. Esse espécime conhecido como “Andarilho” ou “Runner”, não era - pelo que ele aprendera em sua fase de instrução antes da missão - apenas um humano superdotado, mas uma criação única do multi-universo, sendo que ele não teria apenas quatro séculos, mas quatro séculos na forma humana.
            O experimento é antigo, sabia Tamarkan. Ele pensava: “Em algum momento, o espécime foi descoberto vivendo na mesma realidade que nós, com sua tecnologia irrisória e ultrapassada… em seguida, os sete agentes, receptáculos e retransmissores de informações e medições, fizeram o ajuste necessário no subconsciente dele, durante o longo sono de quinze anos… temos tudo em mãos, e espero que tenhamos algo na mente.”
            Tamarkan tinha duradouras preocupações, era muito velho, com seus quase cento e cinqüenta anos de idade, caso seguisse a contagem terrana. Contudo, ainda forte e determinado. Ele era um patriota e, acima de tudo, um amante da Ciência. Aquele experimento seria absolutamente essencial para a descoberta de como foi a origem do multi-universo, e de como se obter uma quantidade infinita de energia utilizável. Uma nova revolução tecnológica estava para chegar, e tudo calcado numa complexa teia criada para mudar a forma de o Andarilho perceber as relações interpessoais.


***


            Planeta sólido, orbitando um pequeno sol amarelo e moribundo. Com dimensões ligeiramente menores que as da Terra, o ar era denso e venenoso, e o frio imenso. Normalmente, zero absoluto. O realmente estranho estava apenas na gravidade, diferente em pontos diferentes do planeta, o que permitiria um pouso numa gravidade agradável para um urizeniano em algum lugar próximo ao pólo sul do planeta levemente achatado.
            A U2 havia chegado há pouco tempo, para se juntar a nave principal, através de uma simples e silenciosamente através de um salto em velocidade acima da luz. Em algum lugar do principal pavilhão daquela nave, estavam, à espera de Tamarkan, o subcomandante Byz, um especialista em robótica chamado Cak Lemnr e uma bela médica-chefe, de meia-idade e curtos cabelos castanhos, a Dra. Naral N’Thorzen. O comandante, ansioso, aproximava-se, ao lado de sua nave auxiliar recém-pousada, com quatro guardas sérios. Conversou com eles, mas logo seguiu adiante. Queria ter um contato direto com o Andarilho. Uma conversa.


***


            Um despertar abrupto fez com que o Andarilho abrisse os olhos. Estava numa espécie de cadeira de dentista do tamanho de um humano, em ambiente asséptico de paredes verdes. Nenhum som. Imagens embaçadas. Ele não conseguia ordenar direito seus pensamentos e temores. Demorou um tempo, até que ele se viu numa sala com um grande olho envidraçado a sua frente.
            A voz entrava em sua mente a partir daquela grande lente. Era calma, porém firme.

- Sou o Comandante Tamarkan N’torg, e represento o povo Bhakker da raça urizeniana. Você não pode me ver, mas precisa se acalmar, acostumar-se ao novo peso de nossa gravidade, e me ouvir.

            Mudo, porém mais relaxado, o Andarilho meneou a cabeça, fez que sim. E Tamarkan voltou a falar:

- Você é algo poderoso, de origem desconhecida e adimensional. Assumiu a forma humana há quatro séculos terrestres… a partir daí, nós assumimos e o vigiamos. Você já deve saber agora, baseado em sua experiência e conhecimentos, que seus amigos eram seres artificiais. Eles tinham que alterar os seus sentimentos, fazer com que seus poderes viessem a se revelar como realmente são: imensos. E precisamos de sua ajuda não apenas para uma viagem interdimensional com a transportação de muita matéria. Não sei como dizer, mas você é aquilo que o Santuário pede para nos revelar a origem dos universos e a localização de incontáveis bolsões de energia. Saber e Poder - queremos os dois. E você irá nos ajudar. Como ficamos sabendo de tudo isso? Através de nossos próprios oráculos espalhados pela nossa galáxia natal.

- Façamos o seguinte. – continuou – Você pode continuar como um prisioneiro, ou se tornar um ajudante precioso.

Ele respondeu, mostrando-se capaz de se adaptar rápido:
           
 - Tudo aquilo falso… deixe-me pensar… se é sobre minha origem… sim… eu ajudo. Mesmo assim, eu tenho duas condições: reative Rimbaud e Dina, com seus dons ou conhecimentos de telelocalização e medicina, e nos deixe livres para trabalhar. Antes… me tire daqui. Cadê meu ciclocomputador de pulso?

- Excelente. Você estará livre em alguns minutos.

            Sozinho, novamente, o Andarilho descobria algo de sua personalidade: era vingativo. Iria tirar os urizenianos do seu encalço e prejudicar aquela missão mesquinha. Porém, realmente tinha interesse em entender sua origem. Ainda não lhe cabia muito bem aquela ideia de que sempre fora um ser vivo mesmo antes de ser humano, devido ao seu materialismo, contudo, abriria a sua mente.


***


            As luzes do sol moribundo, batizado com uma sigla alfanumérica ininteligível, invadiam fluidamente o pavilhão de observatório da nave U1, um recinto localizado vários andares acima da garagem e da central de comando. O Andarilho tivera permissão de passear por lá enquanto seus dois companheiros ainda estavam sendo reativados, bem como outros preparativos para a exploração do planeta desconhecido. Ele imaginava cada satélite lançado entrando em pane, cada perscrutação caindo em dúvidas, e toda a tenacidade da busca se perdendo diante dos mistérios do universo infinito. O que seriam os gigantes urizenianos  no meio disso tudo se não insetos?
            No espaçoso observatório, apenas alguns urizenianos vigiavam ele, de longe, em meio a um exíguo jardim-estufa, um grande parapeito com lentes flutuantes em direção ao espaço sideral, cadeiras e sofás, e uma mini-central geodésica com um grande telescópio e o controle de alguns dos satélites de monitoração daquele sistema. Fora isso, dois grandes elevadores antigravitacionais em algum ponto lá para trás.
            Em meio ao ar levemente frio, sem qualquer tipo de brisa feita artificialmente, passos retumbantes foram sentidos. Eram dois urizenianos de porte militar acompanhando um casal. Rimbaud e Dina.
            Logo, os guardas se puseram mais longe. Os três tinham o que falar. Mas falaram pouco. Rimbaud e Dina não se lembravam do que ocorreu durante a convivência com o Andarilho. Nem se quisessem. Mantinham, todavia, o conhecimento em Medicina por parte de Dina, e aquela percepção extra-sensorial de telelocalização constante típica de Rimbaud.
            Em algum momento, um dos guardas, após ouvir o seu telecomunicador embutido no ouvido, aproximou-se dos três e disse em intercosmos:

- Venham conosco.


***


            Durante a partida para aquele planeta incógnito, mais especificamente para uma zona de gravidade estabilizada para padrões urizenianos, bem acomodado em sua grande poltrona, o Andarilho questionava a si mesmo, a sua outrora tão segura tecnologia (incapaz de ter detectado aquelas sete pessoas como andróides), e toda a extensão da manipulação daqueles seres agigantados que queriam ser Deus. Numa armadilha espacial sem janelas, próximo aos silenciosos Rimbaud e Dina, e alguns daqueles alienígenas sérios e parrudos, o estranho sem idade pensava em uma forma de frustrar os planos dos urizenianos e deixar os mistérios do multi-universo e de sua origem apenas para ele mesmo, o merecedor.
            Depois, enquanto os convidados pousavam, o comandante já se encontrava adiantado, em um acampamento improvisado em meio a uma bolha de temperatura e oxigênio, além de uma gravidade artificial gerada especialmente para aqueles gigantes, mesmo sob um ambiente de constantes alterações gravitacionais. Sob seu olhar austero, cientistas-chefe, sobretudo geólogos e arqueólogos tentavam achar pistas sobre algum tipo de local sagrado ou artefato. Por outro lado, quatro físicos se debruçavam com os escritos das andróides gêmeas, de aparência asiática, que tanto encantaram seus criadores.

- Elas chegaram a essas coordenadas, mas… ainda nada. De qualquer forma, tivemos pouco tempo… – dizia o chefe-de-operações, Marz N’Troff, ao comandante Tamarkan, resumindo os trabalhos.

- Não temos todo tempo do mundo, Marz. Você sabe que essas coordenadas não se referem apenas a um lugar ou artefato específico, mas à um tempo também, um momento digamos raro.

            Ao lado deles, já dentro da bolha protetora, uma nave auxiliar da U1 acabava de pousar, silenciosamente, a ponto de ficar flutuando a um metro do chão, como que ancorada, agora sem movimentos desestabilizadores. “Finalmente, as coisas vão andar”, pensava Tamarkan, de braços cruzados, ao lado de Marz.


***


            O espaçoporto improvisado não era nada apoteótico. Uma única torre de controle, montada às pressas por robôs, nanorrobôs, indivíduos, em poucas semanas, não revelava tanto quanto poderia daquela paisagem tecnocrata para os três convidados que acabavam de chegar.
            Rimbaud demonstrava alguns pressentimentos sobre aquele lugar - um planeta único àquela realidade tal qual o próprio Andarilho. Tamarkan, aproveitando-se disso, deixou que tudo se conduzisse a partir de Marz, que os levou, com uniformes adequados, até a parte baixa do que de há muito tempo teria sido uma montanha e, hoje, reduzia-se a um planalto cravejado de buracos, que se estendia por milhares de quilômetros.
            As crateras só escondiam pedras, e, talvez, raramente, algum gelo. Um robô, a serviço dos geólogos, com sua imensa crosta e rodas dentadas, tentava abrir uma mina. Marz apresentava tudo, Rimbaud não pressentia mais nada, Dina ficava de lado com um aparelho monitorando o corpo do Andarilho, e… um leve tremor.


***


            O leve tremor teria passado em branco, se não fosse o mal-estar cada vez mais presente em Rimbaud. Socorrido por Dina, ele foi levado à barraca médica. Enfim, dois andróides se ajudando.
            Fora daquela bolha, o Andarilho continuou sendo de vez em quando sabatinado por Marz e seus olhinhos vivos, sobre como se sentia, se era capaz de perceber algum fluxo de energia ou uma série de sensações ligadas a todo um palavreado científico, como se ele mesmo fosse um daqueles “bonecos sem caixa”, um daqueles andróides.
            Aparentemente nada, porém, lhe ocorria, ainda que uma coisa ele não contasse a ninguém: estava de volta aquele leve formigamento gélido em sua nuca… e um tremeluzir de imagens, uma vertigem. O chefe-de-operações, durante novos abalos, parecia mudar de estatura, de características físicas, e, em alguns casos, a própria localização da redoma que constituía toda aquela base tecnológica montada apressadamente. O pior: a percepção de que várias semanas haviam se passado desde que fora capturado, mesmo que sua sensação fosse de poucas horas ou de alguns dias. Estava tudo mudando.
            Na U1, os medidores começavam a enlouquecer. Não se sabia a origem de tudo aquilo, mas os contatos com a U2 foram totalmente desativados. Ao mesmo tempo, os técnicos não tinham como avisar o seu comandante que, sem perceber muito disso fora os abalos sísmicos, seguia cautelosa e minuciosamente o seu trabalho, vestindo-se com seu uniforme de astronauta e indo até o Andarilho e Marz, com aquela sua desconfiança de sempre frente aos abalos.
            Foi quando tudo mudou.


***


            Começava a se tornar visível para todos o mal-estar do Andarilho, bem como para Tamarkan, que se aproximava, tentando contato por rádio, segurando-o no ombro, e… um som forte de algo grave roçando. Não um sino, mas alguma coisa gutural, parecido com o choro de inúmeras focas. Todos os sentidos do homem sem idade e do comandante ficaram resumidos apenas à percepção daquele som.
            Não havia dado tempo de usar os andróides, de ampliar nada. Um relâmpago pareceu partir do Andarilho, passando pelo comandante, ultrapassando a bolha e atingindo os dois andróides que, imediatamente, entraram em contato, formando uma ponte com os outros cinco desativados e, por hora, guardados na U1; enquanto a U2, muito perto da primeira nave, esvaía-se internamente numa temperatura de milhares de graus, mesmo sem afetar nada aos seu redor relevantemente.
            O monumental é que, mesmo imperfeitamente, aconteceu. O Andarilho, Tamarkan, e a U1, passaram para uma realidade alternativa desconhecida, enquanto a U2 e os sete andróides, em intenso brilho e calor, se desfaziam - o que acarretou na destruição de todo o setor médico da U1.
            A passagem havia sido aberta, e usada.


 Autor: João Batista Firmino Júnior.
 Aguardem o próximo capítulo.








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