São várias as questões "ocidentais". Uma delas é a relação de gêneros masculino e feminino nas sociedades deste lado do hemisfério. Sobre o assunto, vejamos a seguinte ideia: há gerações, havia uma protagonização maior do gênero masculino nas sociedades ocidentais. O que não entendo? Explico: o que não consigo entender não é como tudo mudou para o "hoje em dia", mas como tudo se tornou como era.
Havia influência de um imaginário religioso, imagino. Mas, o problema é decair numa simplificação, numa confusão, até mesmo numa espécie de preconceito. Religião não é uma categoria mágica, que existe por si só. Há, em verdade, um imaginário ligado ou não a uma determinada religião - ou melhor: antes de qualquer prática religiosa, há o conjunto de outros costumes e imaginários de uma civilização. É tudo muito mais embaraçado que aquela imagem de indivíduos "puros" que são "contaminados" pela Ciência, pela Ideologia ou pela Religião.
Ok. Vejamos: como o Ocidente se formou? O que entendemos por "ocidente" parece só fazer sentido a partir de uma configuração cristã, latino/helênica e, nesse entremeio, judaica. Como eram, então, as civilizações europeias pré-latinas? Como viviam as mulheres em cada uma das possíveis fases que possamos classificar e em cada tribo, reino ou o que for?
Seja como for, aparentemente, não houve, até hoje, algum tipo de predeterminação cuja origem tenha iniciado puramente de um período pré-latino ou pré-cristão. O que quero dizer? Não reconheço, não sei se há, algum costume ou imaginário muito fortes que tenham surgido e permanecido de um período pré-latino ou pré-cristão, da Europa antiga, até hoje.
Partindo de um imaginário judaico-cristão, então, e de uma ambiência latino-helênica, tem-se um mundo fruto de fusões de diferentes civilizações - e, certamente, com alguma pitada da Europa anterior ao poder romano cristianizado.
Daí, vamos dizer assim, um poder "patriarcal" em contraposição a um ideal "matriarcal". Mas, só isso determinou a formação de um poder masculino no Ocidente? É que só aquela formação dos patriarcas bíblicos ou a força física da média dos homens sobre a média das mulheres não justifica. Algo está faltando aí.
De qualquer forma, entendo que, com a Democracia, naturalmente as coisas foram seguindo um caminho de: com liberdade, alguma igualdade.
Enfim, têm-se diferentes grupos representativos de minorias numa democracia ocidental. E tais agrupamentos devem levar em conta, ao menos, a priorização do indivíduo e sua complexidade frente a qualquer categoria generalizante. É reducionista, é uma zona de conforto, por exemplo, julgar, por contraposição "todos os homens" para que se fale de "todas as mulheres"; de todos os "héteros" para que se fale de todos os "homossexuais"; de todos os supostamente azuis para que se fale de todos os supostamente vermelhos.
Não existe "o" Homem, nem existe "a" Mulher, no que diz respeito a um universo prático. Evidente. Existem indivíduos. Indivíduos que se juntam e, no esquematismo da imaginação, criam ou determinam, ou descobrem, categorias para se classificarem - só que não se confundem eles ou elas mesmas com as próprias categorias.
Em meio ao Indivíduo há um mar rico de práticas e imaginários, e funções sociais, ao redor e no interior: certos fundamentos que ditam para onde vai ou não vai a Cultura. Um deles seria uma "lógica tradicional" na composição de tarefas entre homens e mulheres e famílias. Essa lógica parte, naturalmente, de uma ideia de continuidade. Sem continuidade, sem perspectiva, não há esperança - e o presente se torna como que inútil. Para a preservação de algo, para o uso de uma perspectiva, a ideia de família que, no mínimo, envolva adultos e crianças; a ideia de homens e mulheres vistos através de funções "naturais" no sentido de que, em origem, é com os dois que há uma gravidez.
O pensamento mais tranquilo é pelo caminho mais curto, sem complicações. E isso é tido, creio, como "conservadorismo" (no que diz respeito ao âmbito que queremos atingir neste texto: a família). Às vezes, em sentido pejorativo (não entendo o porquê). De uma forma ou de outra, se, por um lado, deve haver tolerância e direitos respeitados; deve haver alguma determinação minimamente objetiva do que é um homem, uma mulher, o que for, dentro de algum papel. Não se trata de esperar que os indivíduos vivam em confusão para que, eventualmente, num dado momento, se descubram de um jeito ou de outro. Isso seria tolice. Por outro lado, não se trata de reafirmar "preconceitos", que gerariam "intolerâncias". Certas coisas precisam de categorizações, porque, simplesmente, as categorizações sempre existirão, e fingir que elas não existem, tentar impor esse fingimento, só levaria à criação de novos preconceitos, predeterminações e categorias - ainda que de outra ordem e natureza. Por isso a tolice de que falei.
A via mais simples é a mais prática, daí um pensamento "conservador", tradicional mínimo, "de base", sobre os papeis das pessoas na vida e sobre o que é uma família. A partir do tradicional, ou seja, considerando que ANTES deve vir o tradicional, é que faz sentido considerar outras alternativas. Partir para outras alternativas sobre qualquer coisa sem entender o "bêabá", não é revolução alguma, mas mera imposição de uma nova tradição (que sequer apareceria como nova, mas como "a" tradição... e que teria de ser superada para... a tradição anterior, vista como algo erroneamente novo).
O mais fundamental sobre todas as questões ocidentais: papeis do homem, da mulher, das minorias em geral, das famílias etc, etc, etc., dependem do fato de que nenhum dos indivíduos é imortal. Há uma noção de TEMPO na cultura, nas práticas, na "homo/hétero/bi/a/trans/tran/normatividade". Aliás, há um tempo em qualquer conjunto normativo de práticas. E tempo pressupõe continuidade; continuidade envolve gerações necessariamente sucessivas; gerações sucessivas envolvem assuntos que se aprendem e sua transmissão; para tudo isso, uma forma simples ou "tradicional".
Não podemos escolher mudar tudo de qualquer forma. Tudo tem um limite. E esse limite, para além do Ocidente, é a condição humana da mortalidade (secundariamente, o que for relativo às formas de reprodução: natural ou por meios artificiais, levando a como será uma família ou que tipo de "projeto" poderá ter aplicação).
Em suma: não há como esquecer, deixar de lado, mesmo para a mais libertária ou revolucionária das mentes, os elementos mais básicos e "tradicionais" dos papeis das categorias de pessoas e das famílias. Não apenas porque, antes de mudar, é preciso haver o estado anterior que ainda vai (ou não) ansiar pela mudança; mas porque ainda morremos, ainda precisamos, para nossas vidas fazerem sentido, de uma tradição e sua noção de transitividade de uma geração para outra. Ainda que sejam mudadas formas de concepção, por exemplo, ainda persiste a ideia do mais velho e do mais novo - e ainda persiste que haja categorias-base, fundamentos, não necessariamente "preconceitos", para que se possa iniciar uma passagem pela vida.
Não cortemos os fundamentos.
Assinado: João Batista Firmino Júnior.


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