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domingo, 15 de junho de 2014

Nem patriota, nem anti-Brasil

É como me defino, conforme o título.

Suponho que muita gente seja assim, muitos brasileiros.

Afetivamente, o que ganha, o que muda em mim, vivendo a odiar ou a amar o mero fato de fazer parte de um país? Claro que é importante, reconheço. Afinal, há certos acordos internacionais, bem como uma ordem interna, que me beneficiam, evitando que eu viva em um limbo.

A Copa está aí, é por isso que toco no assunto. E não, não acompanho muito esse evento.

Eu vejo algumas fotos de notícias, imagens de televisão, todas essas coisas sobre um país exultante. Não me identifico.

Não é que não me identifique como brasileiro, mas vou sempre por partes. Cada imagem isolada, cada programa, ou opiniões que vejo por aí contra os que falam mal do Brasil "e tudo o mais", para mim é nada. Por outro lado, se, diante das imagens, pessoas, notícias e detalhes eu nada sinto (ou não consigo perceber se sinto algo), eu mantenho o respeito.

Quanto menos afeto, mais respeito - nesse caso da brasilidade. Há outros assuntos cujo respeito aumenta com o afeto, mas estou falando de um caso específico. (e mesmo assim é "respeito de convívio", como parte da civilização e da legalidade)

Sou da parte nordeste do Brasil e, já aqui no Nordeste, não me sinto representado por "todo o Nordeste". O Ceará é outro lugar, a Bahia é outro lugar, por exemplo. E só.

Mais longe: imagens do Rio, filmes e novelas da Globo, jovens, adultos, idosos no Leblon. Tenho respeito, mas confesso - sem despeito - que não me identifico como se tudo aquilo fosse "extensão de quem eu sou". Não são extensões de mim nem o Rio, nem São Paulo, nem Goiânia, nem Manaus, nem Brasília, nem o Sul.

E, para demonstrar esse "não-afeto", eu não "odeio" nada, não tenho aversão a nada que diga respeito a Estados e Regiões. Eu sou um mero e anônimo "receptor" de produtos midiáticos que "pretendem" ser nacionais, mas são apenas algo por exemplo do Rio de Janeiro espalhado pelo resto do país. Ou seja, é algo regional com pretensões nacionais o que vejo em filmes produzidos por brasileiros e no Brasil, em uma grande quantidade de casos (não em todos).

Com notícias, claro, é o mesmo. Não me interessa, aqui em João Pessoa, nem o trânsito de Recife, muito menos o trânsito de São Paulo. Isso não é nada. E as manifestações populares, e mais: e o cotidiano? Talvez o cotidiano de Recife, vá lá.

Outra coisa: não há ódio, mas também não atribuo por exemplo ao Sul, a São Paulo ou ao Rio de Janeiro, nenhum tipo de "exotismo". Esses locais não são exóticos para mim. Nem são cotidianos. São partes do Brasil. Mas todos desprovidos de memórias, desprovidos de afetos, desprovidos de contatos. Diferente da crença de uma pessoa ou outra, por ser nordestino não tenho parentes próximos, ou que eu conheça, em nenhuma das grandes cidades brasileiras. Sobre certas abordagens que já vi em redes sociais durante discussões "bairristas" eu uso o termo "não há por onde". Não há por onde eu tomar uma posição que me coloque próximo, cotidianamente próximo, a certos lugares-comuns envolvendo certos bairros de São Paulo, por exemplo

É por essas coisas que às vezes não entendo algumas formas de aversão a tudo que tenha procedência nordestina por parte de alguns. Oras, se tal sujeito não tem identificação nem afeto pelos estados da parte nordeste do país, não faz sentido odiar. Odiar, amar, ter afeto ou aversão ao que não está no seu radar cotidiano? Esse tipo de coisa, particularmente, está mais para ocupar um vazio, uma falta do que fazer e sentir, bem como a vontade de pertencer ao que quer que seja por exclusão do Outro. Que seja.

Entretanto, há assuntos sobre a vida brasileira que verdadeiramente têm a ver com meus interesses e são aqueles que mais se aproximam de algum desnutrido patriotismo meu: se as instituições funcionam, se produzimos, se somos decentes como nação. Ninguém tem que ter amor ou afeto a nada do mundo cultural ou do cotidiano de localidades específicas do Brasil, nem se essas localidades forem RJ ou SP. Amor (que é sinônimo de "responsabilidade") e afeto devem existir para as instituições, o resto é a vida pessoal de cada um.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.


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