Não, não vou falar aqui, agora, nesta postagem, de nenhum produto cultural. Deixarei minhas literaturas, filmes e etc, para outros posts.
Antes de quaisquer discussões, ou proto-discussões, anuncio o fundamento para qualquer ser humano antes de lidar com o mundo revelado pela sua consciência: a crítica. Crítica, auto-crítica, a dúvida bem discutida, a desconfiança saudável, infinita e eterna - bem como a desconfiança sobre a própria desconfiança.
É uma tremenda neurose? Não sei se uso corretamente o conceito de neurose. Mas há uma angústia "eterna" enquanto dura e após ou antes de sua duração. Uma angústia necessária para que as coisas não se tornem mais cegas do que já são.
Diante disso, vamos aos conceitos de LIBERDADE e de IGUALDADE.
Começo com o que me parece mais simples: a IGUALDADE.
Ela deve ser questionada, desconstruída, reconstruída; deve ter padrões reconhecidos, desfeitos, em total bricolagem. O que é ela? Somos iguais?
Não interessa desesperadamente o questionamento, para mim, de se somos iguais sem que entendamos minimamente o que é IGUALDADE. A igualdade nada mais é que uma EQUIVALÊNCIA e só. Uma sociedade, através do Estado e de outras instituições, deve criar condições para que a origem das ações seja EQUIVALENTE.
Somos iguais? Não. Somos equivalentes.
Com a individualidade, fruto de um cérebro mais desenvolvido (ou de uma alma), tornamo-nos mais "desiguais" tanto em relação aos outros como em relação a nós mesmos. Somos diferentes até de nós mesmos, como poderíamos ser "os mesmos" em relação aos outros?
Não existe o tipo de IGUALDADE superficial, pouco discutida, "feita como slogan", que propagandeiam por aí. Levar a igualdade pelas aparências é aumentar a percepção das diferenças e separar as pessoas, confundir tudo, aumentar ressentimentos. Uma sociedade sadia, além de sempre duvidar de tudo, é uma sociedade que não força "igualdades aparentes", mas que permite equivalências em prol de uma liberdade de ser e de ação de todos os outros e de si mesma.
A partir de um ponto de partida conceitual, a partir de uma equivalência para a luta, vem o arbítrio (no caso, o arbítrio possível, o arbítrio "de acordo com" cada limitação de cada indivíduo e de cada momento). Vem a prática da LIBERDADE. Ela é feita com a luz da lanterna do questionamento, da dúvida, do raciocínio. Daí, seguimos pela via da vida com olhos mais acesos.
A liberdade é o exercício da criatividade, é a construção de algo (nunca sua destruição vulgar), é o aproveitamento das várias possibilidades de moldagem de formas e conteúdos legitimados, coerentes consigo mesmos e com um senso de fraternidade.
Liberdade não é a velha enrolação de um criminoso que tenta legitimar um estupro ou um homicídio, reclamando que deveria ter "liberdade" para fazer o que quiser, inclusive a de oprimir. Isso não é liberdade, sobretudo por se basear não numa equivalência civilizatória da identidade humana, mas numa desigualdade entre "quem pode" e "quem não pode" - a semente do pensamento covarde.
Também fazer "qualquer coisa", com o intuito meramente de chocar "por chocar", não é coisa alguma. Qualquer atrocidade pode chocar. Destruir por destruir, por exemplo, é esse "chocar por chocar". Não vale qualquer coisa. Chocar sem proposta, ou sem saber comunicar essa proposta, ou tendo uma proposta muito subjetiva, abstrata e pessoal, não funciona. Apenas são criadas brigas entre as pessoas, gerando coisas ainda mais "chocantes" (ainda que talvez agora com alguma "proposta" inteligível).
A liberdade só existe com a equivalência mínima dos vetores que constituirão o vasto espaço do fazer. Sem isso, ela haverá apenas subordinada ao Poder, o que significa um capricho ao invés de liberdade.
O capricho, esse sim, não tem nada de liberdade. Nem faz sentido com igualdade. É essencialmente egoísta, fugindo de quaisquer fraternidades. Só se dá bem com seus eventuais "iguais". Quer sempre um "sim senhor" da sociedade, e fica ranzinza quando a realidade se lhe impõe. No capricho, a culpa é sempre dos outros e, quanto pior o caprichoso for, pior são os "outros", sempre denominados por expressões-clichê como a batida palavra "hipócrita" (não se sabe mais o que significa, é como uma tossida, um suspiro, um som qualquer), moralista, legalista (como se seguir as leis fosse errado) e uma série de expressões que só serão entendidas como "más" pelos que são da tribo do caprichoso, e não pelos alvos ideais dos impropérios.
Eu diria que todo e qualquer pensamento patologicamente extremista é "caprichoso". Tem uma noção distorcida do que são limites e nenhuma noção do que é auto-crítica. Seja porque o autor do pensamento patologicamente extremista é muito fraco para realmente se ver no espelho, seja porque só enxerga os outros olhando por uma chapa de vidro opaco. Distorce a verdade de que as pessoas são diferentes... mas, como assim? Distorce por defender diferenças que CONFIRMEM uma igualdade interna. Por exemplo, o supremacista racial: se o sujeito crê numa diferenciação hierárquica e moral de pessoas de acordo com seus fenótipos, de acordo com a aparência, geralmente vê-se crendo numa igualdade entre integrantes de uma única raça. No final, o sujeito é mais alegremente igualitarista que os próprios igualitaristas dos quais ele prefere se afastar. E o nacionalista doente? Seu país aparece como a nação suprema, mais que uma nação, eis que o ápice da Civilização. Ok. Por isso seu país é diferente dos outros, mas seus integrantes, internamente, em prol de uma "solidariedade" de povo, de cultura, são submetidos a uma forçosa igualdade interna.
Havia uma quantidade maior de "caprichosos" na URSS, na Itália e na Alemanha da década de 30. Para manter a diferença perante os outros, nada como a homogeneidade interna. Daí... onde está a propalada criatividade, defendida como o fundamento de um poder? Ela não pode ser exercida, pois seus frutos podem virar armas contra o próprio regime. Sociedades "ideais" na mente de extremistas nada mais são que simulacros da mediocridade (por mais que certas construções pareçam luxuosas e elegantes, elas nunca irão além de uma determinada condição mediana, de uma praticidade, de um funcionalismo para a guerra, para a reprodução, para a manutenção de uma "filosofia de vida", sem surpresas).
Um simulacro que se excita com eternos auto-elogios, mas não põe os pés do "nojento e desprezível" chão, terra das cinzas não dos seus inimigos e alvos, mas das cinzas de "todos os outros". Nesse simulacro não existe criatividade, e jamais florescerá a honra - essa filha da sabedoria.
Liberdade não existe, portanto, sem equivalência das partes e sem responsabilidade. É preciso disciplina tanto dos atos do corpo como no dos atos da moral, da mente, de cada pensamento. É preciso sempre olhar para si mesmo, ver-se realmente sem medo de estar sendo fraco, e questionar a si como se fosse um astuto inimigo fazendo isso mesmo.
Assinado: João Batista Firmino Júnior.


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