Passei um período assistindo aos longas do Studio Ghibli e seus desenhos japoneses. E queria ter mais o "que escrever que aquilo que aqui" escrevo.
Trata-se de um conjunto de filmes, produzidos e lançados no decorrer da década de 1980 para cá, e capitaneados por Hayao Miyzaki. Não sei muito dele, o que me importa são as produções atribuídas a ele.
Vamos aos padrões: personagens femininos fortes e o simbolismo do ar, do vento. Há outros que não percebi.
Além desses padrões, uma característica: o que eu chamaria de um excelente aproveitamento topográfico ou "geográfico" de cômodos e seus detalhes, territórios, organização de objetos e pessoas pelo espaço. Você pode se sentir efetivamente em um mundo a parte. Não percebi quebras de continuidade, "ruídos" entre um espaço e outro, descontinuidades, erros dessa natureza, jamais.
Há também uma boa caracterização de personagens inumanos, fantasmas, bruxas, animais, e períodos de silêncio rico em acontecimentos, que permitem a contemplação. Não temos nenhum dos estereótipos possíveis associáveis aos desenhos japoneses mais populares no Brasil.
O vento está sempre presente, livre, dominando os espaços, cujos vazios são sempre alguma coisa. Máquinas voadoras, vassoura de bruxa, dragão, seguindo livremente em alguma missão, em algum objetivo, em alguma fuga ou encontro.
Há um detalhamento dos pensamentos e atos possíveis entre personagens e figurantes. Como que um cotidiano excelentemente produzido em cada animação. Não percebi um "dirigismo" pela ação, ou a ação pela ação; não notei um foco forçado para que determinado conjunto de acontecimentos chegasse a um determinado clímax, mas um processo aparentemente natural.
Gostei especialmente da personagem Nausicaa. Ela parece resolver tudo o que lhe for possível e impossível, sem preocupações, sem medo. Enquanto a Chihiro, aparentemente, é tão mimada quanto um gigante bebê encapsulado em seu quarto, até ter que lidar com a ausência dos pais e superar esse problema no decorrer da duração do filme.
Tal multiplicidade de universos é perfeitamente adaptável para uma realidade ficcional ocidental, como pude notar em Contos de Terramar. Há uma terra ignota, isolada, doente, com alguma grande cidade despencando moral e fisicamente, e um subjugamento em relação a uma bruxa. E, em outro filme, gatos mágicos e um rei louco; portais e rotina colegial; uma nova experiência de vida, uma visão além do cotidiano, uma libertação do ciclo da rotina e dos problemas de adolescente.
O que me importa necessariamente não são os detalhes, mas como os detalhes - sobretudo de objetos num dado espaço e localidades bem dispostas - conseguem segurar toda uma narrativa. É tudo muito vívido, mais que em filmes com atores "reais". Tudo vale, tudo é aproveitável como parte do insondável mistério dos cenários e dos seres míticos em seu interior e/ou além.
Mitos interessantes, que nunca vira antes, e poderes insondáveis. Como um sonho bem-feito, de uma noite bem dormida. Como aqueles sonhos bem narrados que muitos podem ter tido em alguma fase da infância, com uma perfeita lembrança de grande parte dos acontecimentos ao acordar. Nada se perde; todas as escadas têm para onde dar.
Assinado: João Batista Firmino Júnior.


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