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terça-feira, 17 de junho de 2014

Palavras que tropeçam em palavras

A dificuldade não está em escrever, mas em tornar um texto viável. Palavras se atropelam em muitos textos cotidianos, feitos por muitos de nós. Elos não são feitos, nem padrões aparecem.

É preciso saber pensar para escrever. É preciso, diante do ato de escrever, saber o que se quer. O que quero responder? O que quero perguntar? Aonde quero chegar?

Há cascas que levam ao cerne da fruta. Um autor não deveria se perder na confusão de cascas e nunca saber que está numa fruta ou que há um cerne, um centro, uma essência.

Mas, claro, muita coisa boa é boa também por ser difícil. A dificuldade revela a contínua disciplinarização da mente e do pensamento.

Escrever é uma busca por aquilo que se pode dizer da percepção versus existência das coisas. Alguma sabedoria não se dá pela mera existência; é preciso saber dizer. É essa a grande diferença entre ser um animal que mais percebe que concebe e ser um animal que é mais cônscio que capaz de "sentir por sentir".

Ser é fazer.

Claro que, para fazer, é preciso estudo, disciplina, técnica, aprendizado e causa. Nada como estudar como subproduto de uma tentativa de resolver uma questão importante para o próprio pesquisador. É assim que se faz num Mestrado, por exemplo. Há algo que você quer entender, ao menos entender. Você não estuda apenas para assimilar alguma coisa, mas para discernir ao menos como algo funciona.

Pegue um autor. Estude. Mas, não estude apenas para repetir o que foi lido e fichado. Use. Use como uma forma para se chegar a alguma coisa. E escreva como uma forma para se chegar a alguma coisa pela própria escrita.

Um texto é como um fazer artístico, de certa forma. E, como tal, penso que não termina quando o braço cansa. Termina quando o que foi buscado ao menos é abrangido. Como você sabe que terminou? Quando termina a problemática. A extensão da problemática deve ter terminado, e não, evidentemente, sua superfície.

E escrever é sempre um momento. Há treino do pensamento, mas isso não reduz todo momento a um só, de perfeição e bem-feitura de algo. Não é sempre que o mais experiente vai acertar. Cada momento dita se um texto vai existir, se será minimamente bem feito, ou não.

Uma vida só toma forma quando relatada.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.


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