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domingo, 15 de junho de 2014

Bairrismo

Lembro-me que, em tempos "antigos", em meu contato com sites de redes sociais, vi muitas coisas. Uma delas foi a questão do bairrismo, variando da simples oposição entre regiões e estado ao pensamento separatista.

Bem, de longe, já deu para perceber que cada caso é um caso. Há uma complexidade no meio, e uma variedade de correntes de pessoas que apoiam seus estados e regiões.

O curioso, sobre a temática do separatismo, por exemplo, é que nunca bati de frente por ter a preocupação real com isso, mas pelo sentimento em alguns grupos mais de aversão aos outros (ou a um grupo específico) ser superior ao amor-próprio. Seria uma questão de isolamento, autonomia ou separatismo não por valorização de seu próprio lugar, de sua própria terra, mas por ódio contra todos os outros.

Bem, desconheço e não tenho laços, por exemplo, com São Paulo ou com a Região Sul. Tenho respeito, e só. Mas, uma coisa deve ser levada em conta se quero considerar uma das origens da discórdia original: a falta de um planejamento de país realmente "nacional" (até mesmo nossas TVs abertas, supostamente nacionais, nada mais são que Rio ou São Paulo "derramados" para o resto do país), levando a um estranhamento natural.

O que há? O que percebo? Um histórico de pensamento falsamente nacional. Na verdade, há um pensamento que nasce de um "localismo", mais ao centro do Brasil, ou mais a leste, que anunciam o "nacional" em verdade como uma visão particular desses locais do que é o Brasil.

Claro que temos elos, mas no que diz respeito a muitos discursos midiáticos, talvez políticos, brasileiros, não são discursos midiáticos ou políticos "brasileiros". Há uma localidade que fantasia sobre o Brasil, e usa sua realidade local para identificar cada parte do país, condensa tudo em um discurso e chama isso de "nacional".

Ao menos o bairrismo real é bem mais óbvio nisso. Você percebe do que se trata, sem se enganar, até porque sabe claramente que não faz parte daquilo e nem que aquilo faz parte de você, no que diz respeito a puras questões regionais (e não nacionais ou humanas). E, quando não fazemos parte, se há a desvantagem de não desfrutarmos dos benefícios de uma herança específica há a vantagem de alguma liberdade, de uma falta de patrulhamento para nosso lado, uma falta de olhar que permite o sossego (sim, o sossego, a falta de peso histórico jogado sobre, por exemplo, minha pessoa e sobre os que me são próximos no que diz respeito a determinado povo, local, estado, região, fato etc).

Em suma, vi comunidades contra o nordeste, também percebi comunidades contra outras regiões e estados, além de comunidades separatistas e algumas em busca de uma integralização. Isso há dez anos ou um pouco menos. Também percebi justamente o que já descrevi aqui: a invenção do Outro através da realidade específica de cada um. Por exemplo: havia quem falasse contra as pessoas de minha região se apoiando numa imagem de um bairro específico da cidade de São Paulo. Eu não tenho nada com isso. No final, o sujeito dá um soco no ar. Cria o espantalho, com base em uma experiência de sua própria vida? Natural. Mas o não-natural está em achar, ou ao menos parecer achar, que a realidade EXATA do mundo exterior é a extensão daquilo que se viveu.

E não é.

Daí, o que seriam agressões permaneciam agressões sem se tornarem ofensas. Eram socos contra o ar, que me fazem perguntar se a origem dos socos também não seria o ar. Se o Nordeste era aquela coisa imaginada, longe de minha realidade cotidiana aqui em João Pessoa, será que aquilo que muitos pensavam de sua própria terra em algum lugar do Centro-Sul brasileiro era/é real?

Enfim, o bairrismo será ainda uma realidade mesmo daqui a diversas gerações. E ele em si não é algo errado, um problema nem um erro, desde que realmente seja verdadeiro: baseado em amor-próprio e não no ódio contra outros que, muitas vezes, surgem como imagens-espantalho, como uma categoria sem materialização suficiente na realidade. O paulista que ama SP, por exemplo, é honrado; o paraibano que ama a Paraíba, é honrado; mas basear esse amor no ódio contra os outros, é um desvio (sequer é bairrismo mesmo, apesar de parasitar essa ideia).

P.S.:Toquei nesse assunto e lembro de um "susto de batismo" que levei quando me vi deparado com uma hostilidade (por eu ser nordestino e gostar de determinado tema de ficção-científica que alguns achavam restrito ao seu universo particular e fora do estereótipo do que eu "deveria" ser) em um fórum de um período anterior à popularização dos sites de redes sociais. Há muito tempo. Não entendi. Achei uma coisa desconexa. Como se um discurso e um imaginário muito específico tivesse tentado me golpear. Foi algo tão fora da realidade, da minha realidade, do que eu convivo e convivia no dia a dia, que não ofendeu. Mas, com o tempo, vi que teria que tomar alguns cuidados, ao menos para não me surpreender com o zoológico da vida cotidiana.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.

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