Parece que a interligação de tudo, aparelhos, programas, smartphones e redes sociais, tablets, computadores, tudo, ao invés de facilitar, apenas nos prende mais.
Prender não apenas no sentido comum do sujeito que não abandona as "telas", mas na fragilidade que isso provoca - bem como a uma nova burocracia.
Fragilidade e burocracia. Você não pode mais se dar ao luxo de deletar um perfil de rede social sem que um serviço seja inutilizado devido a isso. Se quiser ter um determinado serviço que envolva alguma nova modalidade de acesso ao celular (mesmo que essa modalidade seja o básico, e não um luxo), "não pode" deletar perfil, nem pode perdê-lo.
Além disso, vem a profusão de smartphones que escondem ou eliminam as possibilidades de tirar o acesso fácil, em seu próprio produto, a redes sociais, emails e companhia. Basta um furto, uma perda de celular, e uma série de páginas pessoais, blogs, contas de email, podem cair por terra - caso não se chegue a tempo ao computador e se altere todas as senhas.
Ah, e sobre as senhas? Diversas. Cada atividade, seja entretenimento ou "coisa séria", exige uma senha - que deve ser complicada, comprida e alterada a cada três dias (de preferência, a cada cinco minutos).
A tecnologia pode ser um elemento facilitador, mas não é algo perfeito - claro. São centenas de senhas para milhares de mudanças de senhas; aparelhos que não se desconectam - ou cuja desconexão é difícil - de redes sociais, deixando tudo aberto a um furto; e o mais conhecido transtorno obsessivo-compulsivo no ato constante de, a cada 30 segundos, verificar o surgimento de algum email novo, alguma mudança de status, algum comentário, alguma bobagem qualquer.
Muita coisa. Muito barulho. E, ainda por cima, pouca proteção. Como a quantidade grandiosa de cartas de baralho para um material fácil de rasgar; para castelos de cartas que não aguentam um único suspiro.
É diante dessa fragilidade que construímos perfis, contas de email e blogs. E o pior é que nada pela internet é realmente nosso. Um game, por exemplo: hoje em dia, há alguns títulos cuja posse não é nossa - com exceção da chave de entrada para nossa "conta".
Primeiro, a digitalização. Papeis, documentos físicos, tudo trocado para o 0 e o 1 armazenados em Hard Disks. Basta um pulso eletromagnético, ou água, ou queda, para tudo se perder. E ficou "pior". Sim. Veio a distribuição de dados pela internet.
Sou contra o computador e a internet? Não. Apenas aponto a fragilidade do conceito de "posse" em prol, paradoxalmente, do conceito de "acesso". O acesso surge em detrimento da posse. Não possuo nada realmente, em termos de internet. Há um acesso, um passatempo, um trabalho - mas nada a ser guardável em cofres, ou mesmo no bolso.
O que são as coisas? Tudo é informação. Está certo que, em um nível muito pequeno, tudo com que temos contato é ilusão. São apenas conceitos ambulantes que formam átomos, que mais parecem conceitos que formam coisas. Mas, ainda assim, uma ilusão mais consistente que a falta de corpo de um dado na internet ("na" não, "pela").
E a realidade brasileira? Uma realidade ainda menos segura. Oh, doce paranóia! Ideal para este mundo. É fácil nossos dados se perderem, é fácil demais a "casa cair". O que vale é o acesso constante, o acesso possível, a permissão, a chave, o código - nunca a posse, o controle real, concreto.
E não adianta ter tanto medo. Mas, aproveitar o momento - o momento do acesso.
Que seja.
Assinado: João Batista Firmino Júnior.


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