
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Realidade de João Pessoa
Como se sabe, falo um pouco aqui da capital paraibana.
Não tenho notícias aqui, nem verdadeiras novidades. A cidade mantem um razoável grau de organização, em geral (ao menos para mim). O que me parece ter maior destaque negativo recentemente diz respeito à violência. Mas, como se dá isso?
O que se vê, sem que haja um convívio na cidade, é um alto índice de homicídios. Bem, não posso ir contra e dizer que está errado. Não tenho competência para isso. Mas, sei que violência é um conceito que vai além (não que homicídios não sejam suficientemente ruins).
Vai além. Porém, no dia a dia de muita gente, tem-se um cotidiano de acordo com o porte da cidade. Naturalmente, uma cidade grande, por mais baixo que seja proporcionalmente o índice de homicídios, será mais perigosa para quem não está acostumado com seus riscos tradicionais. Seguindo uma rotina comum, de classe média urbana nordestina, não há uma preponderância de assaltos a torto e direito. As abordagens criminosas, ao menos aparentemente, são de acordo com o nosso porte - inferior ao tamanho e à complexidade de megalópoles como Rio e SP.
Ainda é possível passar por uma péssima experiência, naturalmente. Mas há alguns fatores que percebi. Primeiramente, pontos da cidade em que há uma coexistência "forçada" entre ao menos dois bairros de condições financeiras opostas.
Também há aqueles casos em que indivíduos são mais visados devido a alguma crença de acordo com aparência e rotina.
O fundamental é naturalmente apontar que a criminalidade não é correlata à determinada "classe social" ou bairro. Em parte, depende de certos choques que são consequência de algum tipo de alienação entre grupos humanos diferentes, quebrando a ideia de homogeneidade, de identidade conjunta de 99 porcento dos moradores. Quando isso acontece, o crime que não existia passa a existir; e o que era com menos violência, torna-se com mais violência.
Quebrar a homogeneidade, a identidade que une cada indivíduo para lutar, através de seus méritos e a partir de um mínima equivalência de condições enquanto "ponto de partida", em prol da uma alienação, é como quebrar o espírito de uma cidade, estado, bairro ou nação - ou não reconhecer o próprio espírito.
É uma situação ideal que João Pessoa se torne menos como algumas das maiores cidades nordestinas e se torne, por assim dizer, com um espírito de contribuição interna, independente de variações culturais, individuais, econômicas e sociais, equivalente a uma localidade "milenar". Claro, somos recentes. Nossa cidade formalmente só tem meio milênio de existência e menos ainda no que diz respeito à identidade de minha geração.
Também é claro que se faz necessário todo tipo de ação legítima e legal por parte de autoridades formais e informais, por parte de especialistas. Mas, acrescento uma pitada de orgulho que diga respeito a uma mistura de contribuição interna aliada a uma auto-crítica preventiva (e até certo ponto resolutiva). Primeiramente, começando pelos bairros e, em seguida, unindo os bairros.
Creio que em João Pessoa a maioria de nós tenhamos as mesmas origens (ou, ao menos, antepassados de mesmas origens, sem ir muito longe), independente da condição atual de cada um. Será que isso não seria um fundamento e um motivo que nos faça ter um pouco mais aquela postura civilizada entre nós mesmos? Não vejo divisões - ainda - abismais entre o pedreiro, o padeiro e o funcionário público. Não vejo nenhum "grande estranhamento". Há, claro, exceções, de pessoas que provêm de uma "dinastia" política ou empresarial, ou de pessoas vindas recentemente de fora e ainda prestes a se tornarem a par da situação. Mas, o que nos importa aqui, e o que realmente é válido no presente texto é: não vejamos nossa cidade com os olhos de outras cidades e outras vidas brasileiras.
Vejamos João Pessoa como pessoenses - e usemos isso para, de alguma forma, mantermos não um complexo planejamento de como devemos agir ou nos sentir, mas para que, em momentos-limite, de alguma forma, esse dado seja mais valorizado e destacado. Partimos de um mesmo ponto (não todos, mas a maioria); possuímos características e padrões que nos são próprios. Temos uma construção histórico-social particular. Temos um desenvolvimento que segue apenas e tão-somente nossos próprios passos. Então, passemos a observar a realidade dos telejornais, da Web e das ficções nacionais apenas como a realidade de outro ou outros brasis. A nossa realidade é e sempre será o encontro cotidiano e comum de nós conosco mesmos em um contexto local, sempre será também nosso contato com familiares e com outras pessoas de nosso próprio mundo, fora da amplitude de um site de rede social. Vendo dessa forma, temos um pouco mais de condições para nos mobilizarmos contra a violência e a corrupção. E, mesmo que fique ainda na promessa, ainda é algo que temos para lutar.
Assinado: João Batista Firmino Júnior.
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