O que há por trás de todos os nossos sonhos, de todas as ideologias, de todas as religiões, de todas as narrativas?
Estruturas, nexos, um mundo onírico de histórias que são partes de histórias em um imenso e interminável sistema, espraiado por milhares de diferentes folclores.
Quais as pulsões mais básicas por trás de um ídolo lendário? O que atravessa a psicanálise, os contos de todos os povos, o instrumento do rito que, não sendo por si uma história, não deixa de revelar humores, tendências, um rico universo em um ainda mais rico inconsciente coletivo - ou fragmentado, mas com pontos em comum, como parte de uma lógica que espelha, de alguma forma, aquilo que nos torna humanos mais que como integrantes de uma espécie (sim, o humano é uma coisa, o "sapiano", de Homo sapiens, é outra categoria).
Para quem se interessar, recomendo as publicações brasileiras e portuguesas de Gilbert Durand. Para mim, ele serve de porta de entrada para um mundo inexplorado de maravilhas para a pesquisa e para a fruição pessoal.
Imaginem, primeiramente, um mundo "fácil", o nosso. Tão óbvio que nada é óbvio, e nos leva aos sonhos e às lendas. Mas, mesmo os sonhos e as lendas são versões "acabadas", "evoluídas", de uma complexa "sensação", pulsão, tendência lógica geral que leva um aglomerado, uma constelação de imagens-ideias, a um determinado caminho - conforme um anterior esquema de orientação.
Muito complicado, mas encantador. E, no final, muito mais interessante que a mais pura Física Quântica.
Em um dado momento, em Durand, enxergamos um pouco do que ele se refere como um campo esquizomórfico, um campo de luz, de bipedismo, do alto, do além e adiante, do mundo ao ar livre, no topo da montanha e na ponta da espada, acima de quaisquer subterrâneos e contra os aspectos pantanosos da existência.
Em seguida, um campo nictomórfico e outro catamórfico. Entendo, em minhas palavras, o primeiro como uma estética da escuridão, da caverna, da água e do ponto antes de nascermos. Entendo o segundo como a morte, como o fim de fato, no lugar do "endeusamento" do claustro, da noite e do frio úmido.
Tantas ideias incompletas, tantas coisas incompreensíveis por mim. E tanta coisa útil para a pesquisa!
Se eu entendi 30 porcento das ESTRUTURAS ANTROPOLÓGICAS DO IMAGINÁRIO, de Durand, na época em que li, foi muito. E se, hoje em dia, só me lembro de uns 10 porcento, então... é um prêmio. Mas, ainda assim, todo esse campo é capaz de produzir excelentes imagens-ideias para poemas (aliás, não poemas, apenas poesias), meus velhos poemas não-metrificados, minhas velhas linhas tortas.
Aliás, com efeito, em Neil Gaiman encontrei o Sonhar, o mundo de um ser Eterno, Morpheus. Entretanto, apenas em Durand pude ir além e descobrir - apesar de não entender - que há muita mas muita coisa mesmo por trás de cada história, deuses, espíritos, criaturas mitológicas mais as mais diversas, totens, segredos e mistérios presentes nesse mundo do escritor Neil Gaiman.
É isso... um verdadeiro enlevo. Além de Gilbert Durand, recomendaria Todorov, Cassirer e Bachelard. Em seguida, fazer uma pequena e deliciosa sopa com as tradições cristãs e judaicas da Idade Média para a Antiguidade. Isso para começar a complicar com o folclore russo e o japonês.
Infelizmente, porém, e desconhecendo o regime (do Imaginário) em que vivo, vivo como muitos de nós: num mundo corrido, bagunçado, onde os pensamentos não se reúnem de forma a criar algo. Não sonhamos mais, temos "espasmos"; não escrevemos mais que parágrafos, se queremos escrever; tendemos, nem que um pouco, todos nós, em graus variados, a uma parcela do analfabetismo funcional que é a essência - ainda! - deste país; pois é tudo corrido, tudo rápido, barulhento e bagunçado. Mas não é por isso que, nesse cotidiano infernal, desejaríamos o claustro, a ilha deserta, o silêncio exterior... o que muitos de nós buscamos, neste Brasil, neste Ocidente, nesta terrível humanidade, é justamente o retorno à própria humanidade, à quietude interna, ao sentido não das coisas comuns, mas ao sentido de nossa percepção do correr do mundo, do correr do tempo, da construção de micro-cotidianos. Isso nos livraria bastante da ansiedade, da depressão, dos dissabores, da sensação de que a vida passa, da sensação de que tudo passa, e no final nada conseguimos agarrar. Vivemos como num suspiro e logo morremos... não por falta de religião, de ideologia, de contos, de livros, de ideias dos outros, mas porque não conseguimos ordenar nossa própria consciência.
Talvez tendamos todos a uma solidão no topo de uma colina de sons, de cheiros, de angústias, de projetos inacabados e ritmos interrompidos. Talvez tendamos, como representantes deste século XXI, ao isolamento em relação à multidão de pensamentos que não são nossos, que são do mundo, do mundo todo, sem que nada consigamos organizar e fruir. Comemos mas não saboreamos.
Assinado: João Batista Firmino Júnior.


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