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domingo, 18 de maio de 2014

Instinto, saber e bobagens

Eu fico vendo, continuamente, sobretudo lendo, as incríveis proezas de como alguns brasileiros entendem o que é Democracia.

Há polêmicas de toda sorte, tal qual os diversos sabores de doces em um pacote. Um dos casos ilustrativos foi o barulho formado entre nossos portentosos formadores de opinião. O caso da jornalista Rachel Sheherazade.

Não me informei sobre o que realmente aconteceu. O que me interessa ver aqui são as "sobras" de uma polêmica. A atitude de anônimos e de pouco conhecidos. Contra, a favor, sabendo exatamente do que falam ou apenas pensando saber exatamente do que falam.

Por não possuir tamanha erudição e conhecimento dos fatos (mas sabendo, minimamente, separar fatos de outras coisas), por instinto chego a conhecer algo do comportamento humano.

Uma das coisas mais irônicas é que muitos se opunham, por exemplo, a algo, cometendo a mesma coisa que diziam combater. Isso acontece frequentemente, sobre diversas coisas. E, infelizmente, muitos de nós corremos esse risco, seja na condição de algoz ou de vítima.

Indo um pouco mais adiante sobre a temática do "linchamento", fui percebendo que certas posições públicas eram tomadas muito mais no sentido de fazer uma "tomada de território" ideológica, indo além da condição humana.

Há sempre uma estrutura por trás de quaisquer ações, mas o que interessa nesses assuntos entre Direita e Esquerda na discussão do que se deve opinar e do como se deve agir, está em outro tipo de combate, que dá nome aos bois muito mais enfaticamente, que é mais preciso: uma oposição entre uma forma de ver o mundo centrada na dúvida/descoberta e no indivíduo em detrimento de uma forma de ver o mundo como "ilustração" ao invés de argumentação,  "massa" ao invés de indivíduo; grito ao invés de fala. Isso pelos extremos, claro. (Mais adiante, serei mais claro)

Você pode, por um lado, enxergar o próximo, e permitir que este cresça e se desvencilhe de princípios e instituições totalizantes, salvo se desejar, por livre e espontânea vontade, buscar, através desses princípios e instituições, algo de muito mais individual e além da vida comum; ou pode, ao contrário, imaturamente, desejar forçar (eis o problema, a imposição) o seu padrão - ou que quaisquer padrões sejam impostos por um Estado, por uma Tendência, por algo que sirva a um "senso de dever" voltado a conceitos abstratos que, no final, só vão servir para ocupar a mente eternamente egoísta, descrente da condição humana livre (que é diferente de "abandonada"), ressentida (ao buscar a vingança ao invés da justiça), narcisística e generalizadora ou simplificadora.

Onde são encontradas essas características desagradáveis ao que é verdadeiramente a Democracia (centrada na tolerância, bem como na mínima harmonia ou igualdade-base para a meritocracia)? Em extremos ideológicos. Por isso há a confusão, por parte de alguns, entre os espectros político-ideológicos da Alemanha e Itália da década de 30 e a URSS. O que interessa é a prática. Por que, no final, as coisas se assemelhavam tanto (ao menos no tocante a desacreditar a Democracia), mesmo um sendo formalmente de Direita e outro sendo formalmente de Esquerda?

Para as populações que entusiasticamente apoiavam seus respectivos regimes, creio que o que interessava era uma mistura de comodidade com nacionalismo. Se esse nacionalismo viria com uma ideologia de extrema-esquerda ou de extrema-direita, tanto fazia. No final, a verdadeira luta é entre um pensamento que começa provavelmente na democracia grega, que rege parcialmente o Ocidente "típico"; e aqueles sinais dos antigos Impérios da Antiguidade remota, que tanto fascinam. Por trás de tudo isso, indo além, há regimes do imaginário que os entendidos devem saber apontar melhor do que eu...

Em suma, pessoas que se posicionavam contra ou a favor de Rachel Sheherazade, a partir da descaracterização que faço das esquerdas e direitas formais, indiretamente, indo além do que aconteceu realmente, demonstravam tendências que iam de um a outro "universo".

Vejam que saio aqui do que realmente aconteceu sobre a jornalista. Isso não me interessa em nada, tanto que nem tenho posição sobre o que ocorreu. Não me importa. O que me importa é como as pessoas, anônimas ou "famosas", agiram em público para defender o que pensavam. Também não pretendo fazer julgamentos de natureza individual, mas apenas, instintivamente, digo que já pude perceber que a maioria do que li de comentários e de notícias sobre opiniões de outros jornalistas e políticos, revela os dizeres:

1) Uma polêmica surge como ferramenta para suscitar uma agenda própria, pouco interessando as coisas que aconteceram realmente. Melhor ainda se um indivíduo coloca determinada carreira política ou de outra natureza "acima de tudo";

2) Uma polêmica prossegue, em vários casos, como uma "novela da vida real", em que as pessoas agem como num programa de formato "Big Brother";

3) Em meio a tudo isso, tem-se uma visão imatura do que vem a ser Discussão ou Democracia. Algumas pessoas desejam "forçar" uma concordância com elas mesmas, indo além das ferramentas que qualquer cidadão possui, como uma interminável birra que nada acrescenta;

4) Uma parcela importante dessa visão ou imatura ou que nem leva em consideração o jogo limpo, diz respeito ao combate não do aspecto ditatorial das coisas, mas do conteúdo ideológico desse aspecto.

Em suma, baseado no ponto 4, a questão que abordo não é Direita e Esquerda. A realidade se mistura entre os dois, com exceção das extremas esquerda e direita e os moderados. Mas a oposição entre uma postura democrática ou ditatorial, sem que um ou outro sejam necessariamente o cerne da Direita ou da Esquerda - salvo, como já disse, de seus aspectos "extremos", se formos pelas designações formais.

O Brasil possui pessoas capazes de grandes ações (grandes, e não "melhores"). Mas, ao final do dia, tudo volta a ser o de sempre. Elas certamente poderão se gabar de terem feito muitas coisas, e concordo com ao menos uma única coisa válida: a luta em si (desde que para valores democráticos, numa realidade que ainda não chegou a se encontrar nesses valores). Todavia, esse "fazer" não é efetivo. De uma forma ou de outra, ainda que o caminhar dignifique a vida, nosso país só terá forma de gente grande, se der tudo certo, após muitas gerações. Isso vai além de lutas individuais, seja na Política ou em ONGs, ou na vida familiar, no cotidiano.

Por outro lado, como a "luta" ainda interessa, tendo valor em si, ao menos as pessoas de bem devem lutar contra a tendência de qualquer tipo de "pensamento único", que tenta reduzir a nossa condição de pessoas à condição de "categorias abstratas".

A verdadeira luta não é meramente a luta ideológica, mas a luta entre pessoas mais ou menos equilibradas e os mal-intencionados (os corruptos morais, cognitivos, ideológicos e legais).

E a Democracia? Ainda não a atingimos. Afinal, ela é um fluxo, em constante adequação a quadros específicos do cotidiano.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.

P.S.: Para quem interessar, trato de assuntos parecidos em outros pontos deste blog.

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