A característica fundamental de uma nação como a brasileira está numa origem centrada no presente e no passado não tão remoto.
O território geral, de fala lusa, certamente inicia no século XVI. Quanto ao Brasil formal, no início do século XIX, ainda que permanecendo um governo de origem portuguesa por muitas décadas.
O Brasil "de fato", em sua brasilidade, começa mais ou menos quando eu posso principiar uma identidade também regional, no que diz respeito ao Nordeste - ou seja, entre de cento e poucos anos para cá.
Ok. Surge o Brasil tal qual genericamente o conhecemos. A partir daí, os regionalismos ou estadualismos. No caso do Nordeste, o que eu chamo de "Nordeste interno" começou mesmo a ter a semelhança a que atribuo hoje a partir da década de 1890 - a meu particular ver. Isso não tem confirmação científica. É apenas uma opinião minha, calcada no evento histórico denominado "Guerra de Canudos". Trata-se do período de tempo inicial que consigo situar o que seria um "Nordeste" cultural.
Bem, saiamos dos regionalismos e voltemos ao Brasil. Há vários "países" aqui dentro, naturalmente. O elo se dá pelo idioma, pela televisão e por elementos menores porém consistentes.
O que quero dizer com essas informações e opiniões? Desejo frisar o que dispus no primeiro parágrafo, mas detalhando. Somos algo cuja constituição é de séculos e cuja "origem", em verdade, é o agora.
Como é nascer a partir do agora? Como é ter por antepassados a nós mesmos, em contínua presentificação até o limite que podemos conceber do tempo?
Naturalmente, se o tempo que nos constitui não pode ser linear, ao menos consideremos fragmentos que formam mosaicos regionais, com diferentes cotidianos atrelados a alguns elos fundamentais - como os já citados a nos formarem como "Brasil", além de tantos outros elos.
Há, como disse, "países" dentro do Brasil, mas não com o mesmo peso de uma Rússia, com o mesmo peso de uma abrupta separação entre nacionalidade e povo, como duas coisas radicalmente separadas e só mantidas por documentos e idiomas burocráticos (a exceção de determinados povos indígenas).
Etnicamente mesmo, não dá para considerar o brasileiro como algo original, no sentido tradicional do mesmo. Ou original apenas por sua constante reinvenção através das gerações. Tudo é mais flexível, porque ainda é jovem. E, por ser tão flexível, flerta um pouco com certa, digamos, bagunça. Há sempre prós e contras que se misturam tal qual os detalhes estéticos de uma cadeia de DNA.
Aliás, etnicamente, somos algo diferente a cada geração. Não todos nós, mas uma grande parte segue esse caminho. E quanto a Portugal?
O Brasil é formado "originalmente", se falarmos em uma origem forçosamente no passado (desde um passado mais antigo até um mais recente), por portugueses, dentre outros povos. Mas, são diferentes gerações ou "eras" de portugueses, ou diferentes "Portugais". Não se pode considerar que um lugar seja o mesmo ao longo de cinco séculos.
Essa origem há muito está apartada da condição atual do Brasil e de suas regiões, por exemplo, em relação às variedades do idioma.
E é disso tudo que nasce o momento exato para, por falta de um passado consistente, fincar raízes agora nesta terra, em busca de, a partir delas, projetar e implantar o futuro. Se esse futuro será um interminável fracasso ou um finito sucesso... creio que será um pouco dos dois. Mas, ao menos, que sejamos mais "uma coisa só", que nossos elos se fortaleçam independente do conceito de Estado-nação. E que sejamos mais cuidadosos com nós mesmos e nossa relação com cotidiano, política, família e tantos outros assuntos.
Um dia seremos menos "bagunçados", provavelmente. Porém, também acredito que nos tornaremos melhores que simplesmente "organizados".
Assinado: João Batista Firmino Júnior.


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