[Eis um Mini-Conto]
Lembranças de um universo inacabado
Relato
protocolar:
“Eu nunca havia visto nada igual,
nem nos tempos em que estudava História Primitiva. Era um planeta cinza,
repleto de lixo espacial ao redor, de diferentes eras, e uma única “lua” que
não passava de uma estação espacial abandonada.
-
Daqui vamos para onde? – perguntei.
A bordo da Arca-Brana, meu pai
parecia preocupado, enquanto ficávamos lá, sentados numa praça com plantas
artificiais, em meio a dezenas de passageiros.
-
Vamos para um lugar seguro. – resumiu.
Tentei não me preocupar,
principalmente com as notícias de que as estrelas estavam desaparecendo. E
continuei olhando aquele espaço vazio entre a Terra e Marte, planetas do
sistema-matriz da Humanidade.
Uma
voz soou em nossas mentes: Cientistas
Nível 1, preparem-se para o último salto. Que o Parlamento esteja convosco!
No segundo seguinte, chegamos a uma
parte da Via Láctea com longos mantos coloridos de matéria e estrelas
gigantescas. Meu pai foi chamado, enquanto eu fiquei num recinto vigiado por
uma mulher sintética e que me parecia tola. Não entendia esse tratamento
dispensado a mim, pois, ainda que eu tenha sido criado há menos de dois anos-padrão,
eu tinha aspecto de adulto.
O tempo passou. Demorou. Até que meu
pai voltou com um pouco de ânimo que lhe restava desde a morte do resto da
nossa família. Segui com ele até o espaçoporto da Arca-Brana, uma nave muito
grande que, segundo meu pai, viajava por entre algumas das dimensões
existentes, perfurando a Realidade para que chegássemos aos lugares em
velocidade mais rápida que a luz. Mesmo assim, os nossos passos até uma zona
que parecia aberta – um espaçoporto com aquela eventual atmosfera invisível –pareceram
durar muito tempo.
Ao chegarmos, havia humanos e
humanoides, bem como homens e mulheres sintéticos tratados como cidadãos de
segunda classe e feitos para nos servir (não como eu, que sempre fui
dignificado como humano). Antigamente, segundo meu pai, eles lutavam por seus
direitos, até que houve uma mudança política, e de programação, depois da
notícia sobre o apagamento das estrelas.
Com a cabeça cheia de coisas,
entramos numa nave muito pequena, com quatro lugares. Meu pai e eu, que éramos
os passageiros. Ficamos quietos até que, num dado momento, após quase cochilar,
revelou:
-
Finalmente estaremos num local seguro.
-
Vamos viver para sempre? – questionei.
Ele ficou calado. Mas, depois,
disse:
-
Nossas consciências estarão bem guardadas.
-
Nos sintéticos?
-
Sim…
-
E se não funcionar?
-
Vai dar certo. E, mesmo que não desse, temos três sintéticos 'superpoderosos' que vão guardar o que sobrar das consciências humanas e de outras espécies. –
ele riu.
Eu nunca entendi isso direito. Se eu
estou aqui, como poderia continuar vivo na mente de outra pessoa? Acho que meu
criador queria dizer que viveríamos na lembrança dos sintéticos, que iriam
herdar o mundo após o fim de tudo.
-
E quanto a mim, vai funcionar no meu caso? – perguntei, relembrando de minha
origem distinta…
Seguimos adiante e entramos num
lugar estranho ao sairmos do jet. Meu pai foi bem recebido em outro grande
lugar, talvez até maior. Assustava-me. Mas, gostei da acolhida.
Antes de ficar numa das alas
residenciais, protegido pela “babá” sintética, ouvi meu pai dizendo aos homens:
-
Quarenta e oito fisiohoras de controle espaço-temporal serão necessários.
Margem de segurança… Como vão as coisas? Dentro do esperado?
Um dos homens, enquanto seguíamos
até a minha nova casa, lhe dizia:
-
Tudo vai excelentemente bem, senhor.
Em seguida, só me restavam os
psicojogos do meu quarto, dividido com três humanoides que me metiam medo. Eram
compridões e tinham a pele azulada. Como eu disse, eram estranhos e
silenciosos.
***
Meu criador fez com que eu
acordasse. Ele parecia cálido, com uma tranquilidade inquietante, puxando-me
para perto. Não havia mais ninguém no meu quarto, nenhum daqueles seres
compridos. Ele disse:
-
Isso vai terminar logo, meu filho. Vai dar tudo certo.
-
Vai dar certo o quê? – perguntei sonolento.
-
Usamos um conjunto de técnicas que vai nos salvar. Um psicofusor definitivo
colocará nossas consciências em cérebros sintéticos, administrados por três
androides. Tudo e todos capazes de resistir às mudanças da Realidade.
Tínhamos algumas horas. Durante esse
tempo, na cama, pensei nos meus últimos anos em uma fazenda velha em um planeta
chamado Camaleão, um nome vindo de um
idioma antigo da Terra.
Lá, eu brincava com meus três irmãos
humanos e minha mãe. Todos pareciam bem, enquanto meu pai trabalhava na
principal metrópole do principal planeta do Reino Unido da Terra, ou do que
havia restado desde as revoluções separatistas das últimas décadas, cujo tempo
era contado como se todos nós vivêssemos na Terra – o ‘tempo-padrão’, ‘ano-padrão’,
‘dia-padrão’ etc.
Eu estudava História Primitiva.
Sabia da dinâmica econômica da Terra do século XXII, segundo a velha tradição.
Também tinha lido muito sobre as guerras do século XX e os filósofos dos
séculos anteriores. Tempos complicados, mas nada parecido com o que vivíamos.
Mas, bem, foram naqueles tempos na
fazenda em que eu soube que algo estava errado com o Universo. Minha mãe
desenvolveu uma doença, um câncer, e nenhuma das nossas técnicas foi suficiente
para salvá-la. Não só ela morreu, mas a maior parte das pessoas que habitavam
os arredores da fazenda. “A Realidade está doente”, dizia meu pai.
No último ano, foram meus irmãos
quem morreram e, para evitar que eu adoecesse, meu pai me levou até a
Arca-Brana, uma nave de dezenas de quilômetros de comprimento – segundo eu
aprendi como aluno aplicado –, capaz de atravessar metade do próprio Universo
devido a uma tecnologia importada, vinda de fora. Essa mesma tecnologia
importada havia gerado muitos e muitos Núcleos, Arcas ainda mais valiosas e
imóveis que, segundo papai, nos deixariam em paz, seguros contra o Fim.
Saindo dos meus devaneios, meu pai
disse que tínhamos que ir. Andamos pelo corredor lotado, entramos num elevador
silencioso com outras pessoas, até chegarmos a uma sala escura, fria,
diretamente ligada ao elevador. Sem perceber, meu pai sumiu e picaram-me no
pescoço. Eu dormi.
***
-
Onde estou?! Pai?
Aquilo não era um sintético, mas um
robô flutuante, em forma de ovo, que parecia controlar o caixão que me
acomodava. Eu não sabia que as coisas seriam assim!
-
Papai?! Pai?!
Ninguém me escutava. Eu estava
paralisado, com a mente consciente, mas sem poder me mexer. Chorava por dentro,
me desesperava. E uma voz dizia em minha mente: Religiosos ou ateus, vamos esperar. Fomos os escolhidos. Temos que nos
preservar. O tecido da Realidade está sendo desafiado. Mesmo assim, em sessenta
segundos-padrão todos estaremos seguros. Acalmem-se e pensem nessas imagens-pensamento
reconfortantes.
Um roteiro de psicojogo passava
na minha mente como se fosse um sonho. Nele, me distraí. Até que um clique
soou.
***
Bem-vindos à Fonte das Almas! Bem-vindos
à Unidade 38!
Meu pai não estava por perto, mas
eu nem lembrava do nome dele. Naquele instante, sem corpo e sem estar
necessariamente flutuando, senti-me entorpecido.
Vasculhei meu próprio Infinito, e
passei a entender o que era aquilo tudo, o que era aquele apocalipse e quais
eram os reais criadores da tecnologia das Arcas-Brana, que penetravam as membranas
da Realidade.
Depois de uma eternidade, vi que
tinha um corpo. Estava em casa, na minha fazenda, mas estava só e o céu estava
escuro. De repente, estava longe da casa. No topo de uma árvore eu tentava
buscar ajuda, alguém… mas, minha mente ia se apagando… e agora estou aqui,
relatando.
Onde estou?
Não lembro mais quem sou. Não sei
onde estou. Entretanto, parece que todas as mentes humanas e humanoides se
uniram, simplesmente se uniram. Somos um. Sou um. E… Um véu vermelho, distante,
vaporoso. Vi mamãe. Só lembrava dela.
Não sou sua Mãe.
Sou a sua Guia.
Fiquei temeroso. E, pensei: ‘Nunca
fui humano!’
Você foi humano
sim. E ainda o é.
Tentei falar:
-
Para onde vou?
Ela não me respondeu. Sumiu.
Acordei. O psicofusor deu certo. Sou uma nova identidade. Alguma coisa deu
errado. Os cérebros sintéticos não funcionaram, por isso a psicofusão ter sido
tão severa. Agora, não sou mais uma invenção, sou um substrato de milhares de
mentes humanas e humanoides. Preciso seguir minha programação. Preciso achar as
outras duas unidades.
Vou adiante para minha nova missão.
Não sou mais humano. Nunca fui humano. Sou uma forma de vida nova. Onde estou?
Num Núcleo de Realidade Estabilizada. E tenho uma missão, pois a Vida - ah! a
Vida! - continua.”
***
Após pensar tudo isso, a consciência
do sintético se apagou, para sempre. O Dr. Rach Mandrik teve sua consciência
acolhida naquele “veículo” que criara com tanto empenho.
Autor:
João Batista Firmino Júnior.


Muito bom João!!! :)
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