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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Lembranças de um universo inacabado

[Eis um Mini-Conto]


Lembranças de um universo inacabado




Relato protocolar:

            “Eu nunca havia visto nada igual, nem nos tempos em que estudava História Primitiva. Era um planeta cinza, repleto de lixo espacial ao redor, de diferentes eras, e uma única “lua” que não passava de uma estação espacial abandonada.

- Daqui vamos para onde? – perguntei.

            A bordo da Arca-Brana, meu pai parecia preocupado, enquanto ficávamos lá, sentados numa praça com plantas artificiais, em meio a dezenas de passageiros.

- Vamos para um lugar seguro. – resumiu.

            Tentei não me preocupar, principalmente com as notícias de que as estrelas estavam desaparecendo. E continuei olhando aquele espaço vazio entre a Terra e Marte, planetas do sistema-matriz da Humanidade.
            Uma voz soou em nossas mentes: Cientistas Nível 1, preparem-se para o último salto. Que o Parlamento esteja convosco!
            No segundo seguinte, chegamos a uma parte da Via Láctea com longos mantos coloridos de matéria e estrelas gigantescas. Meu pai foi chamado, enquanto eu fiquei num recinto vigiado por uma mulher sintética e que me parecia tola. Não entendia esse tratamento dispensado a mim, pois, ainda que eu tenha sido criado há menos de dois anos-padrão, eu tinha aspecto de adulto.
            O tempo passou. Demorou. Até que meu pai voltou com um pouco de ânimo que lhe restava desde a morte do resto da nossa família. Segui com ele até o espaçoporto da Arca-Brana, uma nave muito grande que, segundo meu pai, viajava por entre algumas das dimensões existentes, perfurando a Realidade para que chegássemos aos lugares em velocidade mais rápida que a luz. Mesmo assim, os nossos passos até uma zona que parecia aberta – um espaçoporto com aquela eventual atmosfera invisível –pareceram durar muito tempo.
            Ao chegarmos, havia humanos e humanoides, bem como homens e mulheres sintéticos tratados como cidadãos de segunda classe e feitos para nos servir (não como eu, que sempre fui dignificado como humano). Antigamente, segundo meu pai, eles lutavam por seus direitos, até que houve uma mudança política, e de programação, depois da notícia sobre o apagamento das estrelas.
            Com a cabeça cheia de coisas, entramos numa nave muito pequena, com quatro lugares. Meu pai e eu, que éramos os passageiros. Ficamos quietos até que, num dado momento, após quase cochilar, revelou:

- Finalmente estaremos num local seguro.

- Vamos viver para sempre? – questionei.

            Ele ficou calado. Mas, depois, disse:

- Nossas consciências estarão bem guardadas.

- Nos sintéticos?

- Sim…

- E se não funcionar?

- Vai dar certo. E, mesmo que não desse, temos três sintéticos 'superpoderosos' que vão guardar o que sobrar das consciências humanas e de outras espécies. – ele riu.

            Eu nunca entendi isso direito. Se eu estou aqui, como poderia continuar vivo na mente de outra pessoa? Acho que meu criador queria dizer que viveríamos na lembrança dos sintéticos, que iriam herdar o mundo após o fim de tudo.

- E quanto a mim, vai funcionar no meu caso? – perguntei, relembrando de minha origem distinta…

            Seguimos adiante e entramos num lugar estranho ao sairmos do jet. Meu pai foi bem recebido em outro grande lugar, talvez até maior. Assustava-me. Mas, gostei da acolhida.
            Antes de ficar numa das alas residenciais, protegido pela “babá” sintética, ouvi meu pai dizendo aos homens:

- Quarenta e oito fisiohoras de controle espaço-temporal serão necessários. Margem de segurança… Como vão as coisas? Dentro do esperado?

            Um dos homens, enquanto seguíamos até a minha nova casa, lhe dizia:

- Tudo vai excelentemente bem, senhor.

            Em seguida, só me restavam os psicojogos do meu quarto, dividido com três humanoides que me metiam medo. Eram compridões e tinham a pele azulada. Como eu disse, eram estranhos e silenciosos.
           

***
           
            Meu criador fez com que eu acordasse. Ele parecia cálido, com uma tranquilidade inquietante, puxando-me para perto. Não havia mais ninguém no meu quarto, nenhum daqueles seres compridos. Ele disse:

- Isso vai terminar logo, meu filho. Vai dar tudo certo.

- Vai dar certo o quê? – perguntei sonolento.

- Usamos um conjunto de técnicas que vai nos salvar. Um psicofusor definitivo colocará nossas consciências em cérebros sintéticos, administrados por três androides. Tudo e todos capazes de resistir às mudanças da Realidade.

            Tínhamos algumas horas. Durante esse tempo, na cama, pensei nos meus últimos anos em uma fazenda velha em um planeta chamado Camaleão, um nome vindo de um idioma antigo da Terra.
            Lá, eu brincava com meus três irmãos humanos e minha mãe. Todos pareciam bem, enquanto meu pai trabalhava na principal metrópole do principal planeta do Reino Unido da Terra, ou do que havia restado desde as revoluções separatistas das últimas décadas, cujo tempo era contado como se todos nós vivêssemos na Terra – o ‘tempo-padrão’, ‘ano-padrão’, ‘dia-padrão’ etc.
            Eu estudava História Primitiva. Sabia da dinâmica econômica da Terra do século XXII, segundo a velha tradição. Também tinha lido muito sobre as guerras do século XX e os filósofos dos séculos anteriores. Tempos complicados, mas nada parecido com o que vivíamos.
            Mas, bem, foram naqueles tempos na fazenda em que eu soube que algo estava errado com o Universo. Minha mãe desenvolveu uma doença, um câncer, e nenhuma das nossas técnicas foi suficiente para salvá-la. Não só ela morreu, mas a maior parte das pessoas que habitavam os arredores da fazenda. “A Realidade está doente”, dizia meu pai.
            No último ano, foram meus irmãos quem morreram e, para evitar que eu adoecesse, meu pai me levou até a Arca-Brana, uma nave de dezenas de quilômetros de comprimento – segundo eu aprendi como aluno aplicado –, capaz de atravessar metade do próprio Universo devido a uma tecnologia importada, vinda de fora. Essa mesma tecnologia importada havia gerado muitos e muitos Núcleos, Arcas ainda mais valiosas e imóveis que, segundo papai, nos deixariam em paz, seguros contra o Fim.
            Saindo dos meus devaneios, meu pai disse que tínhamos que ir. Andamos pelo corredor lotado, entramos num elevador silencioso com outras pessoas, até chegarmos a uma sala escura, fria, diretamente ligada ao elevador. Sem perceber, meu pai sumiu e picaram-me no pescoço. Eu dormi.


***

- Onde estou?! Pai?

            Aquilo não era um sintético, mas um robô flutuante, em forma de ovo, que parecia controlar o caixão que me acomodava. Eu não sabia que as coisas seriam assim!

- Papai?! Pai?!

            Ninguém me escutava. Eu estava paralisado, com a mente consciente, mas sem poder me mexer. Chorava por dentro, me desesperava. E uma voz dizia em minha mente: Religiosos ou ateus, vamos esperar. Fomos os escolhidos. Temos que nos preservar. O tecido da Realidade está sendo desafiado. Mesmo assim, em sessenta segundos-padrão todos estaremos seguros. Acalmem-se e pensem nessas imagens-pensamento reconfortantes.

            Um roteiro de psicojogo passava na minha mente como se fosse um sonho. Nele, me distraí. Até que um clique soou.


***


Bem-vindos à Fonte das Almas! Bem-vindos à Unidade 38!

            Meu pai não estava por perto, mas eu nem lembrava do nome dele. Naquele instante, sem corpo e sem estar necessariamente flutuando, senti-me entorpecido.
            Vasculhei meu próprio Infinito, e passei a entender o que era aquilo tudo, o que era aquele apocalipse e quais eram os reais criadores da tecnologia das Arcas-Brana, que penetravam as membranas da Realidade.
            Depois de uma eternidade, vi que tinha um corpo. Estava em casa, na minha fazenda, mas estava só e o céu estava escuro. De repente, estava longe da casa. No topo de uma árvore eu tentava buscar ajuda, alguém… mas, minha mente ia se apagando… e agora estou aqui, relatando.
            Onde estou?
            Não lembro mais quem sou. Não sei onde estou. Entretanto, parece que todas as mentes humanas e humanoides se uniram, simplesmente se uniram. Somos um. Sou um. E… Um véu vermelho, distante, vaporoso. Vi mamãe. Só lembrava dela.

Não sou sua Mãe. Sou a sua Guia.

            Fiquei temeroso. E, pensei: ‘Nunca fui humano!’

Você foi humano sim. E ainda o é.

            Tentei falar:

- Para onde vou?

            Ela não me respondeu. Sumiu. Acordei. O psicofusor deu certo. Sou uma nova identidade. Alguma coisa deu errado. Os cérebros sintéticos não funcionaram, por isso a psicofusão ter sido tão severa. Agora, não sou mais uma invenção, sou um substrato de milhares de mentes humanas e humanoides. Preciso seguir minha programação. Preciso achar as outras duas unidades.
            Vou adiante para minha nova missão. Não sou mais humano. Nunca fui humano. Sou uma forma de vida nova. Onde estou? Num Núcleo de Realidade Estabilizada. E tenho uma missão, pois a Vida - ah! a Vida! - continua.”

***

            Após pensar tudo isso, a consciência do sintético se apagou, para sempre. O Dr. Rach Mandrik teve sua consciência acolhida naquele “veículo” que criara com tanto empenho.




Autor: João Batista Firmino Júnior.

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