3 – DO ENCONTRO COM UM ERMO
A noite passara fria,
Aquecida pelos arbustos de folhas comestíveis
Acrescidas à bagagem de Mendes de Nenhuma Vocação
Com sua roda de violão, segredo da arma.
Sabia que se tratava do tal dia em que
Procuraria lá, quase num sopé do Monte Escuro,
Morada onde se enterrara velho conhecido de
Épocas antigas, em que se cantava bem
Além dos males invencíveis, que mais pareciam fantasia;
Morada de Melro, ainda veloz caçador de raros viajantes,
Espreitador de meros sonhadores que
Se aventuravam pela lonjura, onde eram maravilhados
Pelo esquecimento da morte,
Mas vinha um movido por ente propulsor libertino
Que envolvia e protegia, algo que
Avisara ao velho em sonhos nítidos;
Seria Melro o portador de combustível para
Novas águas guardadas no guardião de um
Rio, ainda desordenado,
Já formado,
Seria o guardião, Mendes de Nenhuma Vocação,
Que o acordaria do motivo de sua peregrinação
Pela vigília constante da correnteza, e do tempo ao redor, do Grande Rio
Governador dos céus e da terra,
De águas desfeitas em partículas, onde toca o pico,
E das rimas de suas novas ações e preocupações,
Vítimas de uma culpa,
Era culpado o antigo Melro, deformado, manipulado
Por nova denominação,
Suposto controlador da grande montanha, a escondê-lo.
O viajante estava otimista, eis ele portador de chama vocativa
De todos os portadores de leis divinas do mundo da vida,
Temas de antigas cantigas, recentemente destruídas
Por um rio que não queria mais o prato cheio, agora enjoativo,
Daquelas rimas que o complementavam, auxiliavam um
Ser que não quer mais ser o que sempre foi.
Andava Mendes de Nenhuma Vocação, cantando em mente,
Desprezado por sua gente já sem fé,
Vem alegremente, com enigma para ser solucionado por outro,
Pelo Ermo, denominação de um velho a desprezar-se.
Caminha, montado na flecha dominada pelo astro,
Cavalgando em ser mais poderoso, subindo aos poucos,
Deliciando sua visão pelos vales distantes de lá embaixo,
Comendo seus frutos, durante o dia, preenchendo
Corpo e alma descontaminada, mas ainda insuficiente;
Atingiria, naquele mesmo dia, após ter andado
Por quilômetros, o eremita
A lhe mostrar, diante do outro lado,
O caminho para longe do
Entendimento possível da gente de sua carne,
Que comovia a terra em que Mendes pisava sem desprezar Grande
Mãe de todos aqueles fragmentos, a qual se afeiçoava,
E suava, com sua única roupa de gola molhada,
Pelas pontes que o levavam ao ponto mais rarefeito,
Para pouca gente determinada a encontrar o
Ancião, Ermo desiludido.
Interrompe o passo Mendes de Nenhuma Vocação, ao anoitecer,
Em frente da caverna certa,
A chamar:
“Senhor, Ermo sonhador,
Deves saber quem sou
E de onde venho,
Deves saber o quanto sofremos
Enquanto comidos por criatura terrível
Que nos escurece.
Volto-me não ao Ermo, mas ao Melro
Que me pegou nos braços, quando eu era pequeno,
Irmão de nossa terra, de gente que não deve
Nada, sei
Que tua vida agora é curta e sem sabores,
Mas tenho, em troca de tua ajuda na passagem,
Um enigma intransponível, mais que o portão
Que guardas, e que sabemos que transforma
Além de transportar.”
Intervalo importante pronuncia-se no vento,
Que arruma o cabelo de Mendes, que escuta
Voz forte vinda lá de dentro:
“Engana-te numa coisa, enxerido!
Posso ser rabugento, de todas as danações
De danados que, como você – e eu ouço -,
Já me desprezaram, por eu ser mais forte,
Mas reconheço gente que se acha importante demais
Como imortais absolutos, nessa fraca concretude,
Que não se aceitam como tais, seres do abstrato
Como são: fracos a mais.
Venhas e dir-te-ei o que lhes falta, o que deves,
E sei que isso é pouco.
Depois, mostre-me o enigma, e apresentar-te-ei
A paisagem do outro lado.”
Um ranger a bater nos tímpanos testemunhos de
Veredictos do Sem Nome em forma de lebre que foge ao insaciável
Melro caçador;
Mendes conhecia saga de risos imemoriais
Sobre as desventuras de uma juventude tornada Ermo.
Abre-se a porta, para frente escura, porém transponível,
E menos bela que a paisagem dominante e cheia de vitalidade
Preenchedora de arma que atirava no coração.
Vai o guardião de sangue puro e volumoso que
Saía da única chaga deste Mendes Guardião,
Em entonação ondulatória, em queda substanciosa,
Chaga que se prolongava, estranha, do pulso esquerdo
À palma forte que segura o pescoço fino do violão,
Faltando apenas que tal mão chegasse às cordas do tambor
Da boca, que assim comunicaria a todos
O avanço de sua humanidade pecadora, mas ainda positiva
E melhor, cada vez mais, a sobressair-se em tempo vindouro,
Equilibrada na mão vingativa, pelo sim
A salvar, em paixão, a essência
Daquela vida, a salvar-lhe do enrugamento de ares
Que habitam em sua terra, que se enche de garras ferinas de uma
Depressão, forte para com a pessoa que era
O humano, não humano,
Mas um todo consciente, igual a tudo,
Vestido no humano.
A entrada é breve, num labirinto
De luz vaga ao fundo que elevava
Até raro cômodo de pouco conforto,
Lugar onde se via o Ermo, de costas
Para o novo, de costas
Para a evolução anunciada, bem escondida
Na arma carregada por Mendes de Nenhuma Vocação,
Entrando silencioso, numa cela dominada
Por pensamentos tendenciosos de
Mente ociosa, mas de rara ordem.
É quando, pegando Mendes a pensar,
Vira-se o Ermo de rosto que assusta os
Mais corajosos olhos, pela estranheza de uma feição,
De rosto marcado como verdadeiro mapa de
Uma terra de vastidão imperecível,
De invencível lida por ser tão franzina como
O viajante, que não se amedronta com a dureza
De um mundo estampado ali,
Por estar vendo com os olhos da viola, arma
Que defende a si, em
Ambiguidade de dois unidos por um só laço
Que marca a trajetória daquelas vidas entrelaçadas
Como um dos lados seus…
E escuta Mendes
O dizer do velho marcado e incapaz de carregar
Uma grandiosidade demasiada mesmo para ele,
A enormidade da culpa a ser explicada ao final do
Que vem agora:
“Vejo que a situação de tua terra
Não é tão fácil,
E vejo apenas o esperado de
Muito tempo
Em que não me ouviram, lá atrás,
Pois digo que agiram a desprezar
O mundo lá fora,
Cantaram uma desgraça simplificada demais,
Atingiram o cume e pararam,
Não para ouvir que a natureza
Tem suas regras para a fraqueza de uma planta
Que cultiva, à altura de seu amor e de sua
Dedicação, de respeito que,
Se não levado em troca na evolução esperada,
Existem leis que retornam para refazer, transformando
No esperado, de mais terrível maneira…
O pior é que pode ser tarde
Para vocês, para você!
E aponto-te agora, pois és assim
Representante de um povo da larga
Nação Humana, o Sem Nome
Deve ter te feito isso,
Tua terra não existe mais lá
Sem que tu cá não te mantenhas vivo
E não só vivo como, em tempo certo,
Cumpridor de tuas tarefas,
E não só é correto
Que tu, nação do nordeste,
Filho do Norte e do Este
Talvez tenhas de achá-los em outros lugares,
Pois terás de reunir o casal
Separado que destitui o teu arsenal
Que apontas intimamente contra mim.”
Mendes, rapidamente acusado, volve-se
Ao lado de uma correção imediata a um
Engano crasso:
“Engano teu, pois
Não é de minha intenção, íntima ou não,
Usar minha arma em tua
Direção,
Meu caminho é o caminho do meu timbre,
Da minha ferramenta,
Que no seu círculo leva-me ao infinito.
Mas deixemos isso… Onde
Tais entes encontram-se?”
O velho ri, como nunca riu
Apontando suas mãos ao Norte e ao Este
Atitude que enraivece a Mendes, que não esquece.
Ermo assim percebe:
“Não te zangues
Não te enganes, e fico sério.
Sabes o que lhes falta?
Falta consciência, inexistente em
Cantorias que embalam demais!
É isso que falta para você,
Na guerra em que vivem,
O Sem Nome não lhes deu
Existência para isso!
Desgraça lebre que me atazana,
Que não domino, grau de
Aprendizagem de nenhum poder a mais,
Lebre que é ele próprio, coisa que ele criou,
Que ele estabeleceu para eliminar
Mágoa que me deu.”
Mendes de toda inquietação, em tom
Sem vocação, desfaz mais risos em
Sua argumentação, antes da solução, a dizer:
“É difícil receber menção tua, ainda a viver,
Sobre mundo que desprezastes, como líder,
Ao tentar buscar famosa Pedra Mineira…”
Ermo, nervoso ao estorvo:
“Vai calando coisa inexperiente…
Vai calando que tu não sabes o que é
Seguir um sonho,
Um sonho em que sonhei acordado.
Admito que fiz mal, pela ganância, e sei que o mal já foi feito
Aqui, pois terei de demorar mais com você. Conto
Que:
‘Revelaram-me num sonho, em juventude,
Sobre a existência de um quinhão de riquezas
Escondidas por uma gente pequena de raça antiga
E totalmente rara,
Segui os desígnios do meu sonho, tudo pelo Sem Nome.
Ao ABRE-TE PEDRA MINEIRA perdi-me
No brilho daquelas maravilhas, e as furtei, e demorei
Até mais tarde perceber que esquecera da palavra
Certa, das Palavras do Trovador, de como reabrir a porta…
Fui pego por aquela gente pequena,
Trancafiado aqui e vigiado pela lebre que me atazana
E que caço.’
Mendes não mudava o tom:
“O azar foi o teu, Senhor,
Mas confesso o meu respeito,
Confesso com meu despeito, enlaçado
Em união única que forma vida confusa.
Mas nos apressemos, revelar-te-ei o enigma…”
Ermo sonhador escuta atentamente
A tênue solução dobrada em símbolos
Nas paredes do bico daquela ave.
Melro ouve, pensa e responde, ante a pressa:
“Deixe-me pensar!
Quando eu tiver a solução,
Serás o primeiro e único a saber,
E como tenho a maneira
De te espreitar pelos confins
Dar-te-ei a origem do enigma
Pouco antes do teu fim.”
Mendes sentia-se ludibriado, não entendendo que o fim revelar-se-ia
A qualquer momento, como para todos,
E estende a viola em plena ação
De seu toque,
No timbre mais melancólico a vitimar
Ermo sonhador que implorava, e
Mendes parava ao lembrar de sua passagem.
O velho chama-o, ao menos,
Ao final de um corredor escuro, mantido
Na tocha, por onde se segue por meio tempo,
Com um visitante desesperado pelo
Encontro com novas terras para ele
Atrasadas, mas vivas
De um mito que ele não jogava fora.
E param ao encontro de uma luz maior, da maior
Tocha a revelar escuridão pior,
O caminho estendia-se até lá embaixo,
A um deserto longe, de pedras,
Porém estreito, nos dizeres de um Ermo:
Estreito nos ditames do infinito.
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Autor: João Batista Firmino Júnior.


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