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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

[Continuação do anterior]

2 – JORNADA DE UMA MULA

Parte Mendes de Nenhuma Vocação,
Armado com um violão,
Amarrado às trouxas e alimentação;
Seguro na terra de lamentações,
Seguro em seu peito completo de paixões;
Armado, com mais força, em seu teto
De inteligência de alguma sabedoria
Ligada à inspiração que, em seu caso,
Um dia surgiria.
Segue, e nem se despede
Daquelas últimas torres que não protegem,
De pedra branca e bem polida,
Com seus desenhos que avisavam a parada do invasor
Ante peito forte e guardião,
Segue e não se antecede ao astro que desce ao dia anterior
Rumo ao mais sul dos lugares, vendo surgir a manhã,
Passando por poucas árvores agigantadas que o
Levariam, em duas noites, às terras mais altas,
Indicadoras do fim daquele plano.
Vai marchando pelas horas de calor brando
Sem tocar peça chave de cavaleiro,
Peça mais cavalheira que o próprio motorista,
Do ser inteligente.
Manhã quase nublada, ainda pelo negrume lá de trás
Que se desfaz nas sombras fracas da última noite,
Sombras que ainda assustam a Mendes, que conversa
Muito consigo mesmo, ao lado de um mato pegajoso
Pisando nas raízes de determinados gigantes,
Falando muito com desembaraço,
A ruminar sobre as réstias daquela raiva
Que o conduzia, mas que não o descontrolaria,
Raiva de um orgulho maior que as árvores
E mais amedrontadora que o fundo da leve neblina
Que desaparecia,
Sentimentos que anulam a tarde de beleza certa
Num campo floreado de vegetação arbustiva e espinhenta,
Que cortava a sua mão que marcava o chão ao sangue
Que enchia as marcas,
Fazendo as montanhas tremerem perante
O início do leito da nova nação, por planaltos
Que levantarão forças de uma pátria humana em união,
Para quedas que lapidarão, dando beleza às pedras,
Tirando-as da solidão.

Após tarde de pouco descanso,
Na noite primeira, não havia tempo, ao relento, a pensar
Nas águas passadas que o erodiam,
e, para não desafinar,
Afina arma de nenhuma solidão, a minar os
Sons da noite,
Afina o toque de um canto sem voz, de quem não tem vocação,
Que só toca rimas de pouca força…
Mas, naquela noite, havia um tom único no vozeirão
Daquela viola, que atraía
Certos brilhos de estrelas que lhe
Mapeavam o caminho, como recompensa
Pela elucidação de tão púrpuro coração,
E de mãos alinhadas perfeitamente nas
Cordas da grande boca que servia de reserva
A um homem que sabia fazer valer certos tremores
Que reordenavam, em seus clamores, o
Quebra-cabeça dos brilhos, transportando ambos
Os pós – do teto e do chão – à contemplação rica
De saudade estranha que atinge também goela
De Mendes de Nenhuma Vocação.

Não era esperado, ao fim da primeira canção,
Chiado amedrontador do fundo do mato,
Que rodeava toda a boca do violão,
Fazendo seu toque sumir, enquanto deitado com o dono,
Arfando ao ouvido esquerdo, a grasnar,
A esganar, a sufocar a cabeça de cima da viola,
A puxar a quem se agarra pela direita
À raiz solta, fazendo pressão e dividindo.
E duplo olha, Mendes de Nenhuma Vocação,
Olha enquanto a possuir-lhe entonação rara
Que desmantela sua visão do céu de estrelas
Que se descaminham por um lado, em
Flecha que caminha, a roçar, a descer
Ao fundo daquelas montanhas rodeadas por outros montes
De matos medrosos, obscuros na noite.
E aproveita, um Mendes que faz vocação, na
Comunicação com o Impronunciável, segurando o Tal
Pela esquerda:

“Que queres, misteriozinho desgraçado?”

O mistério, alto pano de fundo de terra
Já insensível, responde no novo ar que
Entra no que liberta e arrebenta, na forma do vento
De uma intuição:

“Oferecer-te um dom de conhecimento.”

Conhecimento rondava, enquanto pensa,
Mendes de Nenhuma Vocação, ao levantar-se
E a deitar seu único violão
Acocorando-se ante o pio da ave
De vastas asas nos seus ouvidos a zunir,
Via-se rondado por um saber,
Perigoso se nas palmas da armadilha
Da encruzilhada próxima que
Prometia e que quase o dividiria.
Assim escorria, em aceitação existente pelo passivo Mendes,
O pio:

“      Forma-se a arena, detentora
      De armas passivas da suposta
      Vítima, da que luta contra seu fim, e perde.
      Desce, rasante, o observador vigilante,
      A catar os restos, as fagulhas daquela
      Existência.
      Vai, cata, na forma animalesca de
      Um cão, que puxa o primeiro sentido
      Resumido na orelha mais próxima;
      Sempre o vigilante, até aquela vez, da vítima
      De uma força violenta, da mão cerrada
      No metal, que esvazia o mundo daquele
      Ser disfarçado, do membro que agarra a arma
      Fria e de fogo – distinta visão do mesmo –
      Sai, ainda rasante, baixo, cheio daquele
      Vazio.
      Cheio de um calor de chama fria,
      Segmento do instinto.
      O cão, mais animalesco, sem quase poder andar,
      Com seus tantos olhos sonolentos,
      Deixa passar o vento empoeirado de uma
      Vítima, rumo ao mundo
      Subterrâneo.
      Na selva, a poeira faz o engasgo, e prende
      O pio de uma ave de invariável sentido de um
      Mesmo observador
      Percepções da fria sombra da chama acesa, do
      Fogo de luz metálica, de uma pobreza.

      Sol forte de um fogo abrasador, destruíra a poeira fraca,
      Com suas fagulhas cerradas e guardiãs
      De uma consciência.
      Nas ruas de uma grande cidade,
      Vem a sujeira do mal-cuidado,
      Cegar uma visão de um criminoso
      Cegado pela cegueira de um monstro,
      Da sociedade e de si mesmo,
      Porém, o comportamento daquele assassino
      Fora indeterminado,
      Ação de parte de um monstro que não determina…
      Mais alimento para aquela ave.

      Vem o pio, agora vivo, daquela águia,
      Fazedora do seu trabalho, que voa mais alto,
      Vem cantar o mal da imortalidade,
      A queda de um boneco, oco. Sai o grito
      Da cegueira.
      Não vê, o alimento sem gosto, sua
      Própria velhice.
      A tristeza que enche um detentor de pouca vida,
      Algo que não fez, que aflige,
      A chama fria de sua vida ataca como sombra,
      Expurga a mão piedosa do calor que entra
      Pelo pio, chamado que expulsa.
   
      Perto do fim de um processo,
      O criminoso olha, pela última vez, a arena. Ser
      Miserável, que mata ao seu semelhante, destrói a
      Mão que pôs no fogo gelado, uma manifestação que tira
      A coragem de quem luta pela vida.
      Sai tudo pelo pio
      Preso entre os dentes do cão
      Na altura do voo da águia.”

Mendes é deixado dessa maneira,
A decifrar relato enigmático proposto pelo
Impronunciável.

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Autor: João Batista Firmino Júnior.

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