ÊXODO DE UM RIO QUE SEGUE
1 – NO CHÃO DO CÉU ESCURO
Numa terra desmerecida
Bradavam os cantadores,
Em seus sermões à brisa,
Contra os quarenta dias
De céu enegrecido de
Ares não compadecidos.
Nunca, pelas praças, daquelas ruas,
Nem pelas casas de oração,
Onda vertiginosa de nuvem grossa tomara
Tão completamente a
Consumir corpo e alma de
Seus habitantes, de
Abastado chão a nordeste de
Uma nação.
Não mais imperavam as
Velhas cantigas de gente
Rara como o Quaresma,
Acatando as diferenças
De um orador como Murilo,
De respeitada índole,
De pesada viola competidora.
Novos mestres de oração reúnem-se
A escolher aquele que vai jornadear
Por campos insondáveis, distantes das
Últimas torres da pátria
Na luta contra mal
Que tira as rimas do ideal
Daquelas cantorias.
Estava tudo escuro
E mesmo sem se perceber,
Quaresma convoca Murilo, que se destitui
Ao encontrar, a empurrar, o filho do
Próprio Quaresma: Mendes de Nenhuma Vocação,
Que não pode recusar, quando vê
Sua expulsão tornar-se verdadeira, e
Obrigatório o segmento de sua jornada
Pelo Centro daquele território, suspeito
Da origem daquela desgraça, abaixo das terras do norte.
São feitos, na tenda não atingida,
Os preparativos de um caixão,
Destino prendedor, em que Mendes debatia-se
Naquele solo pertencente a um mestre, seu pai,
De uma morada particular, de chão perfumado
Pelo cheiro de carnes antigas e corroídas,
Destino pelo qual Mendes rezaria ao
Grande Rio que Seguia:
“Chamo as águas perenes, disfarçadas em nuvens de
Céu de primazia da Primeira Palavra do Trovador,
Chamo Grande Rio que Seguia, e que segue
Modificado na chuva de todo dia, e
Observador das trilhas do berço bendito, que já foi seu,
Revelador dos caminhos certos em terras incertas
Clamo para que me ouças,
Para que me livres de grande peste,
Para também que não penses que ajo
Em proveito próprio…
Que, em lugar disso,
Venhas comigo a agir pela nobre pátria
Do teu coração, onde ao teu lado segue a nação humana,
Leve-me no teu berço
Leve Mendes de Nenhuma Vocação!”.
No momento da brisa daquela hora seca,
Umedecem-se as bordas da tenda azulada
Nas gotas do rio transformado,
Grande Alma que responde:
“Não protejo a quem não quero bem,
A quem não mantém o florescimento, no berço,
Das plantas que alimentam caminhos da jovem nação
Que ali habita ainda,
E de onde vem a dileta terra de seu coração,
Que se descobre agora morta de pureza,
Que se acha podre,
Deixando de bombear antigos ares
Que sustinham as ideias que moviam
Venerável vastidão que completa a
Primeira Palavra do Trovador.”
Mendes não implora, e jura, de coração agonizante:
“Pois então partirei, ao Centro de teu leito,
De onde surge desgraça forte,
E a semearei, pelas terras de norte a sul, do
Meu caminho,
Formando novo rio, que te substituirás,
E pedirei ajuda ao Grande Rio que Segue,
Vou a destituir um mal vigente que és tu mesmo,
Pois é hora de agir mesmo com peito nu
Que preencherá nova trilha, que surgirá
A banhar sua humanidade bronzeada assim
A refletir, em teus olhos, o poder
Do teu fracasso.”
A conversa termina, no enraivecer
De um espírito que, em seu enegrecer,
Facilmente endurece seu coração,
E vinga-se logo, no embrutecimento de
Seus semelhantes, que não sabem que o
Combustível de suas cantorias, que o fazem grande,
É o responsável por aquele sofrimento verdadeiramente
Indicador do descaminho de uma nação. (Fim da Parte I)
Autor: João Batista Firmino Júnior. (Obs.: há um material que perdi com minha saída do Facebook e o fim de meu blog antigo, mas esse aqui eu tinha guardado)


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