4 - MIRAGENS NA PASSAGEM SEM ENCONTROS NA LINHA DO CHÃO
Era fina a próxima curva torta
Do chão desenhado, ainda
Visto a torre torneada de rochas
Atrás de um faminto por água escassa
Que economizaria ele, por ser ele
Mendes de Nenhuma Vocação com sua
Adaptação disfarçada num cansaço inicial;
No solo do astro que não se põe
E que não passa flecha que o leva –
Segmento de um rio que se forma
Em reta orientada, bem recebida
À fundo pela Grande Mãe esquentada.
Predominava a paisagem daquele dia
Na rima de um ser sem ter sido tão determinado,
Controle moldador de um mar de calor
Que abraça e sufoca, em amor
Ao ardor de uma pele ressecando
Na peste do cansaço constante
Da ressaca determinante do ser
E do lugar que o faz, em ciclo, agonizante;
Chão bem varrido, completo de rochas
E de formas da mente de Mendes,
Que não consegue ver o céu por uma força que o desfaz,
E o chão por um cansaço que o contrai,
E vai olhando, na passagem lenta,
já sem ver muralha suntuosa de montanhas,
Vai olhando os detalhes de visões tenebrosas
Que sua cabeça faz naquelas pedras erodidas
Que carregam os perdidos à perdição;
É quando ervas do calor de uma nova noite que se aproxima
A nunca chegar num deserto cheio de chão pedregoso,
Atenua as dores e eleva o corpo do viajante
Debaixo de cúpula infinita de teto ao brilho quente, desdita feiúra
Ao poente
Na bandeja da expatriada terra de assadeira, de morte
De metabolismo que não torna pela água, ali inexistente,
A paisagem vai fazendo um andante como o solo, filho e Mãe
Nas mãos do fundo azul do céu infinito
E novos sons vão a surgir em mente de ente fraco do que escalda
E a viola escorrega um pouco
Quando Mendes de Nenhuma Vocação
Tropeça num moribundo, no meio de sua perdição,
E fala a oferecer ao homem jovem que seca:
“Por favor, aceitas água? És o primeiro
A que encontro em meio a tanto
Caminho longo. Não respondas,
Tomes, que a vida ainda vive em ti.”
Vai Mendes a retirar água de sua única fonte,
Vendo o homem perdido a delirar no falar após o beber, enquanto ajuda-o
A se levantar para a morte:
“Oh, senhor! Já vi tantas coisas ruins em minha
Pouca vida que se esvai aqui,
Nasci em propriedade longe de ser deserto, mas deserta
Terra de meu pai,
Fui assim a arrumar variados negócios produtivos até
Me ver certo a casar.
Oh, senhor! Vi moça linda de longo véu preto,
Vi os seus cabelos negros a encobrir pescoço
E vestido longo, de rosto da mãe,
E fui logo a me preparar ao grande momento,
Que foi feito, e casei-me,
Mas nem em momentos íntimos, e fui certo a estranhar,
Ela deixava eu retirar os seus cabelos de mais atrás,
Nem tocar, nem reclamar, e deixei,
E o mais que não te disse foi sobre as primeiras refeições,
E aquela senhora sua mãe morava insistentemente conosco,
Conhecedora de muitas coisas,
A admirar e sempre a pentear cabelo lindo,
Mas voltemos às refeições, que ela quase não comia,
Fazendo, pois nunca vira, prato grande para
Quem dizia ser um empregado de nossa morada,
Mas havia um segredo, e isso não une,
Coisa que só de longe desconfiava,
E saí, certa vez a viajar, e voltei mais cedo
E observei, sem espiar, sem querer,
Ao entrar sem ninguém me notar, ao fundo do quarto,
Na fechadura a espreitar
Criatura em mulher minha, de minha perdição,
Retirar os véus longos de um cabelo bem cuidado
Chocando-me muito assim a mostrar…
Já sabia que sua boca sempre fora pequena, e sempre
A líquido entrar apenas,
Mas não era assim a coisa feia que se escondia, ainda menor,
Em seu tão por nosso povo conhecido como cangote
A mostrar
Buraco sem dentes, buraco mesmo,
Ali! No lugar da parte de trás do pescoço,
E com a outra mão, ô meu senhor! Ela
Ia a colocar uma colher de ervilhas
Lá dentro
E fazia um movimento estranho com a cabeça,
Com um barulho miúdo no estranho engolir,
Como se estivesse colocando a cabeça no lugar,
E naquele outro ponto em que via, não disse
Nem me anunciei,
Saí correndo de lá, e nunca voltei,
Saí até me encontrar cá, e aqui
Morrerei.”
Mendes estava a testemunhar
Conto mais louco a escutar e,
Quando depois de pensar, olha o pobre homem
A falar, era o tal que não falava
Mas não era o pio de sempre do bombear
Latente que fazia velho som do ouvido,
Era nada ali a lhe mangar, no riso
A lhe mostrar que nada havia.
Mendes molha o rosto com suor, sem ainda acordar,
E foge como a coisa ilusória em seu ruminar,
Ao ver monstro que fugia de seu íntimo, eis
Que pequeno Trovador, da bela Palavra
De seu bem querer de nenhum espanto, e eis também que
Vai ainda continuando o homem ao comando
Mastigando a própria língua e cantando.
Era para ser noite, mas não era,
Era o mesmo ritmo prosseguidor,
Era a rotina afiadora,
Era o Sem Nome a lhe perturbar
Em tempo indeterminado, à frente, e encontra-se,
Do grande corte na terra, do caminho do meio
Que faz um meio Mendes, quase de nenhuma vocação,
Arrodear o que podia ao vão de lá de longe,
fundo preto que nem gato preto, cortado
Por vento seco e cortante, que faz o mesmo na goela
Seca de um outro cheio de areia do mesmo fundo,
Daquela boca, boca de um
Cão desgraçado, a lhe mastigar o fígado
Que não mais transforma sua forma mais ácida
Em mais cálido e deleitoso líquido, retirado
Do sangue;
Sem o fígado, Mendes sente que o veneno aumenta
E prejudica Grande Rio que Segue,
Tem a esperançar ainda ao seu berrar:
“Vamos Mãe, me ajuda!”
Vai sangrando ali, matando-se assim em seu andar,
Pois não tinha mais aquela lida de seus antigos dias,
Pois não esperava tanta aspereza…
A Grande Mãe, antes da ajuda,
Clareia sua mente a não derreter com muita luz,
Que transforma, ou tira a máscara,
Da ave que ali se escondia, a lembrar-lhe
Do enigma enfático e profético.
Ave de asas longas, de voo alto e
Solitário, que o carrega para soltá-lo
A um ponto não tão fundo, para
Comer Mendes, que não esquece, e
A Mãe anuncia o toque que deve vir,
E Mendes triunfante toca, a águia o solta,
Cai o homem no cortante
Nunca cânion daquela
Terra nunca viva;
Ao fôlego, agüenta ao trôpego que lhe afugenta,
Águas novas enchem o Tártaro que lhe incapacitava
O caminho a lhe caminhar,
Queda-se um talzinho que traz alguma vocação
No toque do seu irmão na mão sua,
Cai num lago, chamado de Salvador, que salva um sangue
Que toma como fígado, e que carrega o ácido diluindo,
Que tira o veneno da cobra que lhe encurralava
As veias, totalizando, genéricas, artérias
Do sangue que não desbota nem deixa de respirar.
Mendes chora de alegria, ao ver seu não morrer
E agradece à Mãe, que lhe abastece, mas
Grande Rio que Seguia não cansaria, e tira-lhe
Novamente a lucidez, chovendo ao Leste zangado,
Mesmo que num deserto…
Vem um câncer insolúvel de um lago,
Que tira mais fôlego de Mendes, fá-lo
Assim criar um velho Timoneiro, das antigas, vendedor
De rapadura que não afunda,
O Timoneiro vê Mendes boiando, que o vê,
O velhinho apenas ri a dizer:
“Ei! Tu qué comprá uma, ó!”
Enfia uma na goela de um Mendes da seca, que só aceita parte,
Um sem vocação que come sem o violão,
O velhinho, ao vê-lo nadando com mais vigor,
Diz no riso:
“Eitá! Que omi danado, sô, é danado, é danado!”
Mendes não entendia o mundo de suas descrições sem métrica,
Sua boca há muito não rimava bem,
Vê vagamente o Timoneiro a colocar o cachimbo, de maneira
Mais forte, na boca, e a baforar no seu rosto. O
Velhinho agora se mostrava curioso:
“Ei! Omi! Tu num qué afundá nã, né? Inton
Me dá logo essa viola. Tchê! Num vai me dá
Nã, é? Dê-la cá, dê-la, oxente! Vamu… Isso…”
A Grande Mãe não conseguia acordar Mendes,
Que, ainda pouco alerta, só diz num quase balbucio:
“Não vai cinir não, né?”
O Timoneiro só diz, e estremece com um pouco de riso:
“Mai cumpadi, cumé que vô cinir, e o que é que
Danado é isso, ô sô!?
Mai tu num vá ficá preocupado nã, uma
Velhota que te cagô qué que eu inda demore…”
Com malícia, e mais uma baforada,
Vai velho danado a fazer pergunta variada e a contar:
“O ritmo acaba né? É… Gostô da rapadura?
Um pedacim só já foi bom, heim?
Isso dá sedi, mai ispero que isso num
Te aperrêi tanto como cum amigu meu,
Êta caçador valente! Êta burrão borrão!
Quis um dia caçá uma tar ave rara, mai
Tu num sabi, a danada era sagrada,
O bichão do meu amigu a caçô-la, caçô-la
A pobrezinha,
Êta que a danada num tinha nada de inocente nã,
Mai nã mermo, o bichão omi
Chegô im casa, viu a muié, foram prepará e cumê-la danazona…
Mai… nã, nã, cunfundi oras! Só ele que cumeu,
Foi bom, bom, como teu pedacim de rapadura…
O bichão teve uma sedi… Mai uma sedi…
Uma sedi tum sedida, que num si aguentô,
Tevi de bebê auga, e bebeu um toné,
A muié tava disisperada, o omi
Inda tinha sedi, o tar do carcará,
O omi inda tinha sedi, tumô ôtro
E ôtro, e ôtro, e ôtro;
O buchão dele já tava grande dimais,
Mai a sedi tamém, tombém danada de grande
A barrigona criscia, criscia, e ele bibia, a muié
Fugiu tamanha a aberraçãozona,
O omi sufria… A barrigona ispludiu!
Ispludiu cum tanta auga que inundô muito
A casebrinha. O tar do meu amigo, tar de cumpadi
Sebastião, morreu, e a tar da sagrada
Vuõ do istômigo dispedaçado, já cum a sedi matada dela.”
O Timoneiro deu um adeus, e foi-se,
Mendes pensava, sem saber pensar…
Deu sede! Nele também!
Olha, o Mendes de Nenhuma Vocação, e de
Nenhum violão, teria
De beber toda a água
Do lago em que nadava,
Mas não era como compadre Sebastião,
Tinha seu estômago como o tambor da sua viola perdida,
E não esconde afeição, e mesmo pouco
Acordado vai tomando toda a água
Da solidão,
Vai tomando o dia todo em sua ação,
Vai se enchendo, era de sangue forte,
E descobre o fundo de um lago, e encontra-se
Preso debaixo do chão, no fundo da escuridão,
Sem a boa viola.
Mas não estava só, estava cansado, imobilizado
Com a barriga grande, mas sem morrer, a sentir
A respiração de alguém muito cansado…
Mendes passa horas assim a observar
O varrer que dava àquela figura da penumbra,
Que ia se revelando anã.
Era anão danado a aproximar-se com uma
Vassoura minúscula, quase ao ataque, a olhar silente
Aquele volume de um corpo que lhe atrapalhava,
Era o que Mendes precisava, e vinha o estranho
Que espera, e vem barriga a decrescer,
E levanta-se Mendes a conhecer, e o faxineiro
Declarado a lhe questionar:
“Bem-vindo és tu, viajante? Se és
De boa índole não farei a ti o que
Os meus fizeram com aquele encurralado
Que prendemos,
Mas pareces saber que aqui não têm tesouros.”
Estavam os dois na penumbra de um conjunto
De cavernas, de pouco calor, de nenhuma assadeira,
Sem sufocar, foi Grande Mãe Terra a lhe ajudar, ao
Abrir novo caminho a lhe apontar.
Mesmo sem sua viola, vai Mendes de Nenhuma Vocação,
Perdido em sua nova lucidez, a deslumbrar-se
Com aquele homenzinho de túnica, de fora de sua terra,
A segurar uma ferramenta menor em metade
Que o próprio anão em dobro da vassoura, vai Mendes
A falar, de mãos à mostra:
“Vim em paz, em grande jornada
Contra mal que aflige minha nação
Lá de trás,
Vim aqui a cair, e já vou assim
Em busca de unir grandes pais:
Norte e Este, que
Se estendem longe.
Se não é incômodo, estou desprovido
De alimento e de arma e gás,
Peço, com clemência, que emprestes
Um pouco de solidariedade
Para manter tanta variedade de
Antiga terra desgastada.”
O anão examina o estrangeiro
A lhe cantar, mesmo sem a viola,
E apresenta-se sem nobreza e sem mais:
“Sou Noel, de chão distante e mais fundo,
Das Minas, terra em pluralidade, que esconde o murmúrio dos
Pássaros que lhes ensinaram a voar na forma
Do cantar.
Sou um condenado sim, por não ter
Guardado - e culpa daquele Ermo estúpido!
Maravilhosa nossa Pedra Mineira,
Pedra de misericórdia e de equilíbrio,
E fecho meu punho,
Fecho à vassoura que me mazela;
Fui condenado a varrer o deserto, maior Deserto
Do Sem Nome,
A passar dez mil tempos a preencher
Um lado de areia, e a limpar o outro;
A passar mais dez mil tempos a fazer
O oposto.
Somos dois desgraçados! Sendo aquele ainda mais…
Mas venhas, e não paro,
Venhas, entre que talvez tenha gente
Que possa te ajudar lá dentro, e aviso que não é de costume haver.
Entre, só cuidado com o velho Braz,
Amarrado pelo ventre,
Em seu também castigo devido a
Alguma antiga condenação.”
Some o anão, a lhe apontar
Lar, comida e comiseração
Pelos atos funestos do povo
Que representa a unidade
Dobrada na figura de Mendes de Nenhuma Vocação,
Que segue e entra no vão mais escuro
De pedras úmidas, num labirinto
Valoroso pelos sons à distância.
Era difícil passar sem perceber,
Num ar escuro,
Vozes praguejantes num caminho torto
Por onde passava pelas pedras das paredes,
Tateando com mão soberba,
Desbravando por metros quadrados,
Pisando com os pés mal vestidos,
E com nada na cabeça;
E o chão vai declinando, na entrada
De uma densa morada,
Era o danado de um tom melhorado
Era o seguidor ali amedrontador da Mãe
Aos pedaços, Palavra de um Trovador e formadora de
Cenários que, em conjunto, formam a Mãe.
Habitante na formação, com o filho, na ideia de céu,
Variada para Mendes a enfrentar
Os campos da realidade, fora de sua viola,
O que ele não constrói;
É lá, sem a viola, pelo poço sem fundo, que desce,
Parando ante o espetáculo do que escuta
O farfalhar do que mal veste os pés,
Que não revelam as intenções do visitante,
Espetáculo que, pela resposta, diz
Pare!
E parado fica uma vocação distorcida,
Vocação para salvar gente como ele,
Para salvar uma Palavra mais profunda
Que um cenário, do mundo de seu povo,
Amplo como o campo aberto e ventoso,
Escuro como um Mendes sem a viola,
Pelo possível nada, ou pela possível
Indiferença à coisa que nos espera lá fora;
Falso nada, nada é conflito, é tudo,
Indiferença que gera ambiguidade, um tanto faz que não satisfaz…
É conflito, isto sim!
Entre as possíveis formas que se escondem
No fundo de um futuro,
Não é escuro o que vê, é a parte preta dos olhos
De um bêbado sem bebida, ébrio gigante
Que diminui e ilumina, e diminui mais
Perante a grandeza do lugar,
E não eram só os seu olhos possuidores de umidade
Havia o mundo exterior,
Como também seu mundo interior de chama
De luz de falso molhar,
De um conjunto que reflete nova refração,
Em que aquele raio de povo montado em flecha
De brilho solar bate em pedra dura, que se comove e chora,
Conjunto harmonioso na cabeça de Mendes, laçada própria,
Vigília dele, de si próprio: passagem de um vetor, e espreita do processo.
Junta-se entrada em meio novo com o reconhecimento dela,
Que cria fenômeno grande que traz ilusão daqueles
Mundos que tremem: da palavra que faz o Trovador
Daqueles olhos do Braz, desconhecido homem de meia-idade,
Maior que Mendes, mesmo ébrio, coisa fora de seu mundo,
Bem acima: eis que portador das duas esferas, dois cenários,
Dois grandes da grande Mãe, mais que Palavra era a Boca,
Era um enigma aberto de sua mente profética,
E Grande Rio que Seguia ajudara, sem querer, como mestre disfarçado em inimigo…
Era o que representava a boca de trás da esposa monstruosa,
De hálito sulfuroso, cheio de éter, de vitalidade,
A falsa boca era, em verdade, maior do que pensava ser o original
Vestido na boca de trás,
Do que se olhava no espelho, pensando ser real,
Eram dois em um só, e o reflexo também vivia,
E o reflexo tinha condição de real, e criador do que dizia ser
Verdade, verdadeiro
Como o homem, Palavra que inventa o Criador e, os dois,
Como um só, anulam-se ante o Sem Nome, como poder que
Se esconde como fundo, mistério insondável.
O salão era um corredor, Mendes era a falsa boca de um povo,
Em criador e criação, que estampa
Pano de fundo, lá de trás, era o Braz,
Filho único do Impronunciável, masculinizado por olhos
Assim acostumados, Braz
Que não se aliava à única forma, porém por enquanto
À mesma ordem de seu conjugar,
Como, em disfarce que respeita cada terminar, novo verbo formado
Para Mendes testemunhar, em convívio, o falar:
Na manhã, era um jovem cego, mas que via num cantar
Pela tarde vinha a si um homem ébrio do mais amargo beber,
E à noite tornava-se um velho de força, que o fazia monstro em seu bramir.
Autor: João Batista Firmino Júnior.


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