SINGULARIDADE
As plantações estavam arruinadas,
Quando Horebe decidiu, finalmente,
Partir com a família para a Arca.
Santo Áriva de Plotino
1. Primeiro pouso no mistério que nos ronda
Uma lição básica antes de qualquer atitude envolve uma desmedida capacidade de calcular ações e reações em uma cadeia suficientemente finita para que possa ser útil à sobrevivência. Era assim que pensavam aquelas pessoas, em geral, enquanto desorganizadamente formavam uma fila furiosa de terranos.
A Lei ensina que tudo se originou na Terra há, mais ou menos, cinco ou dez mil anos, pela translação daquele planeta. Através da Física dos Campos Supremos (FCS) e do Projeto Alvorecer, foi desenvolvido uma forma de atravessar incontáveis anos-luz em algumas horas.
Essa revolução foi muito rápida, muito forte. A notícia demorou gerações para ser bem assimilada em todas as suas possibilidades. E, evidentemente, não era qualquer humano, de qualquer profissão, que tinha a liberdade de visitar os ares.
Para tal, surgiu um grupo de elite de cientistas e militares, que levaram adiante milênios de colonização espacial pela Via Láctea. A Terra, com o tempo, foi perdendo sua importância, e os novos acontecimentos traziam novidades provindas da matéria escura. Foi quando surgiu o pânico, que levou aos acontecimentos seguintes…
***
O interior daquela nave, tal qual lá fora, estava tumultuado. Havia humanos e alguns poucos alienígenas parecidos com humanos. Uma voz que se espalhava por todo aquele espaço que mais parecia fazer com que aquelas pessoas, aquelas milhares de pessoas, fossem gado ou formigas, soou. Um dos trechos dizia:
- 18 fisiohoras para o fechamento do Nuc da Zona Azul!
Aquilo foi fatídico. Há um século e meio já se sabia do fim do universo conhecido, da deterioração do tecido da Realidade. E uma espécie desconhecida de seres que trouxe aquela tecnologia, que soube adaptar ao cérebro humano, para que se pudesse conceber e produzir algo de útil, às novas técnicas, aliadas a velha Física dos Campos Supremos. Foi quando, depois de tudo, surgiu, algo de grande, incomensurável, e ao mesmo tempo infinitamente pequeno. Uma abrigo para o caos, uma realidade própria, feita artificialmente, em algum lugar de todo o não-lugar e de todo o não-tempo que encobria aquele monstro de metal. Foi quando ele despertou.
***
Há quanto tempo estava acordado? Deitado naquele leito em forma de concha, jazia um desconhecido, com uma aparência ligeiramente jovial e um olhar confuso para o teto. O fato é que havia acordado.
Ele sentou-se e olhou para a fria sala iluminada em que estava. Vestia um macacão limpo e, ao olhar para o emblema no peito, não viu emblemas, viu um nome.
Roy
Seu nome. Seu possível nome. A sala parecia uma cela. Sem reentrâncias, sem detalhes na passagem de uma parede para o teto, para outra parede e para o chão. Tudo parecia ao mesmo tempo frio e onírico.
- O que faço aqui? – ele se perguntou.
Não sabia quem era, a não ser o nome. Não sabia onde estava aquela cela. Seria mesmo uma cela? Ele levantou-se, andou alguns passos e foi até um formato na parede que poderia ser uma porta. Havia a marca de uma mão comprida. Instintivamente, ele colocou sua mão lá, e esperou.
A direção do ar mudou. O frio tornava-se menos frio, e uma porta rangeu para cima. À frente, um corredor de cinco metros de espaço se pronunciava com as luzes acesas. Luzes que pareciam vagar pelo teto liso cor de prata.
Roy teve a coragem necessária para dar o primeiro passo. E, quando o deu, a porta se fechou atrás dele. Silenciosamente.
- Preciso de uma saída. Não sei o que está acontecendo, mas tenho que sair. – dizia ele, espantando-se com a rouquidão de sua voz.
Ele avançava a passos lentos naquele corredor que parecia apertado. A iluminação surgia do teto e das paredes a cada passo que ele dava, e apagava-se a cada passo dado. O ar era mais quente, mas ainda suficientemente frio para que Roy se sentisse ao menos fisicamente confortável.
Andava com o coração batendo rápido, procurando novas portas, mas sem encontrar nenhuma. O nervosismo estava estampado em seu rosto, quando ele começou a ouvir algo.
Era um som vago, de ventania e… um copo caindo. Um copo de cristal. O corredor alargou-se mais e, à direita, uma abertura que não era bem uma porta. Roy entrou por curiosidade e achou-se, subitamente, num imenso refeitório.
Era um salão bem iluminado, bagunçado, com comida apodrecida em alguns dos pratos. O salão prolongava-se por mais de cinquenta metros quadrados e, ao fundo, tinha uma porta em forma de escotilha e duas entradas para o que poderia ser uma cozinha. Agora que Roy estava confuso.
- Estou em algum prédio metálico. Não. Uma nave, talvez uma estação espacial abandonada. E, pela minha roupa, devo ser algum tipo de técnico. Deve ser isso.
Ele avançou, sem ver nenhum cadáver. Apenas pratos, copos, talheres, cadeiras grandes e cadeiras infantis. Então havia famílias por lá. Seria uma estação espacial. Algo assim.
Roy foi avançando até a escotilha quando algo derrubou alguns pratos. Assustado, ele se virou e viu um vulto. Correu até a escotilha, empurrou o volante para um dos lados, e a porta se abriu. O outro lado estava completamente escuro.
***
Do outro lado da escotilha, tateando na mais completa escuridão, a ameaça parecia estar contida. Roy foi seguindo adiante até se deparar com um letreiro vermelho.
ELEVADOR RESERVA PARA NUC 05
Agora as coisas faziam sentido. Por outro lado, apesar dele entender aquele idioma, Roy não poderia dizer exatamente de que povo era. Era apenas um humano, sem lembranças. Ele entrou no elevador, um cubículo pequeno, e viu as opções. Aliás, a única opção: entre NUC 05 e REFEITÓRIO ALA B. Não sabia se estava subindo ou descendo, se o elevador ia na vertical ou na horizontal, apenas buscava uma saída daquela ratoeira.
O som leve daquela máquina o levou para outro mundo, para outro andar, para um átrio imenso, repleto de plantas, luzes e, finalmente, lá estavam: cadáveres. Em alguns setores do amplo átrio repleto de aberturas para elevadores e outras entradas, havia homens e mulheres, indiferenciados, largados pelo chão. Agora Roy entendida. Deve ter acontecido algum acidente, alguma fatalidade, naquela viagem. Sim. Ele começava a lembrar, estava numa viagem.
- Olá!
- Alguém aí?
Ele clamava mas só um vento assoprava vindo de um dos corredores. E ele viu algo. Era um estranho. Com o mesmo macacão, mas com outro nome. Era um sujeito de meia-idade, de pele escura e cabelos compridos e lisos. Ele parou e o fitou.
- Quem é você, estranho? – soou uma voz distante.
Roy perguntou a mesma coisa:
- Quem é você? O que está acontecendo?
- Roy Elmer Silva, finalmente você chegou. Deixe me apresentar: sou Avrid Nott, Mantenedor-Geral do COSMONUCLEOTÍDEO. Venha comigo.
Eles foram andando e as luzes se acendendo, seguiram enquanto Avrid falava:
- Você não sabe há quanto tempo venho te esperando, engenheiro.
- Como assim? Sou um engenheiro? De quê?
Ele parou.
- Você não lembra? Nada?
- Está tudo confuso em minha mente.
- Então vamos até o Setor Médico. Deve ter sido o trauma…
- Mas, o que houve aqui?
Avrid ficou mudo por um momento, mas sempre andando rápido. Diante de um portal imenso, uma montanha de cadáveres. Era algo horrível de se ver. Havia adultos e crianças, e havia humanoides estranhos. Eles entraram mais adiante, até uma central de controle do setor médico. (...)
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[OBS.: Esse foi o pretendido capítulo 1 de uma tentativa de romance de ficção-científica diversas vezes corrigido, alterado, baseado em texto de meu blog anterior.]
Autor: João Batista Firmino Júnior.


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