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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Resenha: "A arma escarlate" de Renata Ventura



O livro, lançado em 2012, quase me passou despercebido. Não vinha acompanhando o panorama da literatura brasileira deste milênio. Após sua leitura, pensei em realizar uma resenha simples, em primeira pessoa, sobre o que li, sobre o que a obra me passou.
Basicamente, temos um espaço fictício, comandado pela Renata Ventura, que se posiciona no mesmo universo maior da saga Harry Potter de J. K. Rowling, donde se desenvolve um panorama completamente brasileiro. Isso lhe confere originalidade, a exposição do conjunto da cultura brasileira e sua atualidade – as referências ao nosso campo nacional em termos culturais, históricos e em termos sociais.
Idá/Hugo, personagem principal, é um garoto de 13 anos, morador da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, com a mãe e a avó. Eis, assim, um dos mundos em que ele vive, mundano, violento, sem milagres. Talvez uma esfera de existência mais parecida com as obras dos jornalistas Caco Barcellos e Zuenir Ventura. Traficantes, policiais corruptos, uma sociedade indiferente, refletem-se na obra.
Porém, há outro mundo. Um mundo que considera prioritário a condição de “bruxo”, independente das origens mundanas do escolhido ou escolhida, independente da raça, da formação educacional, da região brasileira, dos defeitos e das virtudes de qualquer um. Um mundo que, como um milagre, atravessa radicalmente a inércia do cotidiano brasileiro, e, tal qual um bilhete, atinge Idá/Hugo onde quer que ele vá e onde quer que ele esteja.
O personagem principal é uma mistura. Uma mistura de criança com jovem adulto, com boas e más intenções, mas repleto de vergonha por suas origens, por aquilo que ele é ou aparenta. Idá é colonizado e adota o nome “Hugo”. Não quer ser aquele indivíduo da favela, marginalizado, com um nome original de um dos principais povos que constituiu o Brasil. O reinado de uma terra distante e dominada pela Europa passa a ser, simbólica e verdadeiramente, repudiado por ele, que tenta emular a imagem de um garoto tipicamente brasileiro, de classe média e filho de bruxos. Sim, há esse outro preconceito, essa outra “vergonha”.
O cerne da história se dá na Nossa Senhora do Korkovado. Lá, ele tem que conciliar os dois mundos em uma escola que tenta ignorar sua brasilidade (de acordo com os ditames do Conselho). Esse cenário à parte envolve personagens que tipicamente representam adolescentes, alunos, interações que vão do bullying à amizade.
Toda a narrativa é centrada nesse conflito entre dois mundos: um mundo uniforme e pretensamente europeu, e um mundo brasileiro, não-bruxo, estampado nas páginas policiais. O conflito segue por diversas camadas, até explodir em algum ponto. O que realmente mantem a sanidade é a criação de um terceiro e pequeno universo: o mundo paralelo dos Pixies, grupo formado por Viny, Caimana, Índio e Capí – além de Hugo. Não esqueçamos do professor Atlas e sua associação com o grupo. Contra eles, o Conselho e o grupo formado pelos Anjos.
Esse jogo de espelhos ao mesmo tempo conflita e conflui o real e o virtual – ou, simplesmente, duas formas de realidade. Porém, sempre com os mesmos elementos brasileiros: pressente-se corrupção das autoridades dos dois mundos, policiais claramente corruptos, vilões… mas, também, mistura de diferentes origens étnicas, morais, de classe social etc. Todo esse “jardim” se mantém bem distribuído em cenários grandiosos e amplos, cenários que se refletem tanto no chão como no céu, para mim quase tão vivos e extraordinários quanto os cenários que imaginei ao ler O Silmarillion de Tolkien. As obras, naturalmente, não são as mesmas, entretanto, o modo de fazer que permite a imaginação dos leitores não está longe dessas referências.
Apreciei a escrita, que segue aproveitando diversos aspectos daqueles universos e de seus enigmas. Ela se subdivide nos dois semestres do ano letivo da escola. A narrativa é relativamente longa, não tendo sido possível resolver muitos pequenos enigmas, dentre eles o da origem da varinha escarlate de Hugo, os mais variados segredos da floresta, o porquê da diretora Zô ser tão aérea, o mistério sobre a morte da mãe de Capí e do filho de Atlas, a história de vida do gênio contador de histórias, ou o mistério da garota por quem Hugo se apaixona. Por isso, merece continuar em diversas outras obras.
 O único ponto que me chamou logo a atenção na forma de escrever a história, diz respeito ao uso de aspas no lugar de travessões para representar diálogos. No prosseguir da leitura, porém, percebi que diversas nuances na troca de falas e de pensamentos, com a representação das emoções, teriam ficado mais claras, com a troca de falas e de tipos de manifestações de pensamento mais bem delimitadas que através do uso dos travessões. Houve, no longo prazo, uma facilitação na compreensão dos pormenores dos personagens através desse recurso não muito comum.
Também é digno de nota observar o lado psicológico do personagem principal, seus medos, suas ambições, seus ódios, seus conflitos, tudo bem narrado, de forma a dar naturalidade àquele ser que conduz a história, com seus inúmeros defeitos e fraquezas.
Por outro lado, eu poderia apontar defeitos? Seria mais adequado numa resenha que, mesmo amadora, seja neutra. Defeitos técnicos eu não apontaria, porque não sou um especialista – exceto se esses defeitos fossem muito explícitos. Eu diria, apenas, que poderia discordar de um ponto ou outro do encaminhamento da história; ou que determinados acontecimentos, mesmo num contexto bruxo, não aconteceriam na vida real salvo por muita e improvável coincidência; ou que determinadas partes da obra teriam sido dispostas mais para ganhar páginas que para fazer a narrativa andar. Uma questão que eu chamaria de “irrealidade” é a fragilidade da sociedade bruxa brasileira, seus preconceitos, a ausência de denúncias contra determinadas formas de comportamento de integrantes do Conselho da Korkovado, e a possível ausência de muitas boas referências no mundo dos não-bruxos (azêmolas ou mequetrefes). Eu penso que, na vida real, algo daquela natureza (aquela sociedade bruxa, aquela escola etc), apenas por motivos comportamentais e sociais, desabaria em pouco tempo, ao invés de durar séculos. Mas, há uma crítica negativa forte e passível de ser inferida: se a obra pertenceria ou não à categoria nada original das “ficções de fã”.
Vejamos…
Diante de todas essas especificidades, e de tantas outras que não pude dispor aqui, não posso afirmar que meramente por se situar no mesmo universo maior em que se situa Harry Potter, a história possa ser resumida à categorização de “ficção de fã”. Há suficiente originalidade, há um universo menor (em relação ao mundo fictício que pode abranger diversas e diferentes obras literárias que envolvam bruxaria coexistindo com as sociedades cotidianas), mais voltado ao tipo de magia brasileira e capaz de inferir as diferenças dos diversos “mundos bruxos” conforme nações e continentes, que realmente caracteriza a obra. Não vemos personagens de Harry Potter, nem referências específicas que não sejam, meramente, indiretas e subalternas. Também não enxerguei qualquer tipo de plágio – não que não haja alguns conceitos existentes também na saga britânica. Não basta a narrativa ser situada no mesmo universo maior de outra obra ou saga, nem possuir um outro conceito equivalente ou idêntico: é preciso que tudo aquilo que a torne única só faça sentido com a obra ou saga original. E não foi esse o caso que eu vi. Se Harry Potter não existisse, as referências culturais, de mitos e lendas, e até de conceitos, seriam plenamente úteis à obra de Renata Ventura. Ela não “precisou” dos livros do bruxo britânico para construir a história de nosso bruxo da favela Santa Marta. Mesmo certos conceitos, partem de um suporte cultural anterior a qualquer obra ficcional envolvendo bruxos adolescentes.
            E, para finalizar, se ainda se insiste que esse livro de Renata Ventura “depende” de Harry Potter, ao menos posso dizer que cabe discussão, que ainda há um espaço para discutir isso. Nada é tão simples, tão taxativo, quando se constrói uma obra que necessariamente parte da subjetividade de uma escritora para a subjetividade de tantos leitores.

Assinado: João Batista Firmino Júnior.

            

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