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domingo, 12 de outubro de 2014

(Conto) Carrossel Onírico

Andando pelo corredor do seu apartamento, um senhor de meia-idade, com sua mala de trabalho, entrou no elevador vazio. As portas se fecharam.

A iluminação, naquele início de dia, era precária naquele lugar apertado, sem câmeras e sem espelhos. Fazia calor, enquanto o homem engravatado esperava, pacientemente, a jornada de vinte andares para baixo.

Ele tossiu, sentiu aquele abafamento, alargou a gola e desfez um pouco a gravata. Olhou a hora, mas o relógio estava parado. O elevador não fazia nenhum som.

A espera foi uma constante, os vinte andares não passaram. Havia um frio na barriga e, nervoso, o engravatado, percebendo que o elevador estava parado, apertou o botão de ajuda. Nada.

Apertou várias vezes, todos os botões, atabalhoadamente, quando veio o som guinchante, de alguma coisa grande e pesada vergando para algum lado… Ele acordou em sua cama. Havia sido apenas um sonho! Mas a realidade também era estressante: estava atrasado para o trabalho novo.

Levantou-se, arrumou-se, fez tudo para não se atrasar, enquanto seu coração batia rápido, abriu a porta e… acordou no elevador!

Tudo ainda estava claudicante, o suor ocupava os seus olhos e testa. O engravatado não sabia mais o que era sonho e o que era realidade, ou se os dois cenários eram sonhos. Onde ele estaria realmente?

Tentou pedir ajuda, gritar, mas a voz não saía de sua boca. Chutou e esmurrou as paredes cada vez mais próximas, por horas e horas. Cansou-se. Na realidade, vinha se sentindo cada vez mais cansado, até abrir os olhos. Estava, agora, em um metrô vazio, voltando para casa após o fim do expediente naquela noite chuvosa. O que havia sido tudo aquilo? Bem, ele insistiu em tomar aquelas pílulas para se manter acordado, sabendo que estava finalmente vivendo no mundo desperto, conhecedor de toda a sua rotina do dia, tudo bem coeso e vívido, indicando que estava finalmente acordado. Entretanto, sua cabeça doía. O metrô parou, ele tentou sair e… após uma sucessão de tonturas e sensação de dormência, caiu. Caiu como morto, aos pés de um homem de negro, altíssimo, encapuzado, que, rapidamente, antes das pessoas aparecerem, sumiu.


***


- Foi o que eu sonhei, doutor… O pior é que eu não sabia se estava na condição de testemunha ou se eu mesmo era o homem de preto.

- Concentre-se mais um pouco e tente descobrir o que veio depois.

Eu tomei um copo de água, naquela tarde modorrenta, enquanto o ventilador do teto fazia um lento e desagradável pteco-teco. Tentei relaxar, fechei os olhos, e as imagens iam vindo até mim.


***

“As gotas caem do cano por trás do lavabo alvo, eivado de traços rococós, naquela sala extremamente imunda e escura, quase totalmente escura. Há um burburinho e restos de uma cortina vermelho-cinza. Além disso, para minha surpresa, adiante, há centenas de manequins feitos com peças desproporcionais, franksteinianos, com os mais diversos panos e roupas dos mais distantes séculos.
Eu sou eu mesmo vendo um boneco de madeira olhando suas próprias mãos ásperas de material de má qualidade, porém consistente, de pé, com as costas levemente corcundas, olhando também para tudo aquilo, para todo o cenário, e para uma janelinha que fica bem em cima, de vidro arredondado ou hexagonal, expondo um dia chuvoso.
Algo se move por trás daquela galeria, é o manequim de uma senhora com uma cesta de cascas de raízes com um xale rosado cheio de pó de serragem. Dela, começa a emanar um balbucio…”


***

Cícero parou.

- Não consigo… não quero prosseguir. O que mais me estranha é que essas imagens, que esses sonhos, nem parecem meus, doutor.

- São seus, a sua vida pagou por eles para você.

Cícero saiu de frente do espelho de sua casa, onde fingia estar falando com algum tipo de psiquiatra. Parou com tudo aquilo, ajeitou sua valise repleta de recipientes contendo pílulas para dormir, e, de um jeito meio acanhado, de ombros baixos, e chapéu preto, preparou-se para sair àquela noite.

Ao abrir a porta de casa, naquela escuridão densa que caía com força numa ruela cheia de pedregulhos, topou com uma novidade: havia uma senhora do lado de fora.

- Quer seu dinheiro de volta?

- O quê?! Não, não. Eu quero minha paz de volta. Quero voltar a dormir.

Foi quando eu acordei.


***


Lavei meu rosto, na minha pia sem espelho, e esperei que aquele balbucio sem sentido desaparecesse de minha cabeça. E, antes de acordar de verdade, pensei numa história, num Conto adequado para desenvolver minha própria capacidade de concatenação e lucidez de raciocínio... Sei que pensar a história já era a história, essa é que era a verdade, e a fiz em cinco minutos, sentado no vaso sanitário.

Uma história ou uma lembrança de algum sonho antigo?

Bem, o que me vinha à mente era uma casa velha, onde morava um homem sem idade chamado Cícero…

***

Ao sair do quarto modesto, Cícero carregava seu revólver. Não aguentava mais aquela dependência de ter que fazer os outros dependentes dele.
Distante, fora do casarão, ele sabia o que as pessoas diziam: que ele se achava o próprio Morpheus, o próprio senhor dos sonhos. O ex-vendedor de seguros acreditava estar vendendo para as pessoas de aspecto muito feliz a única coisa que realmente pertence a todos nós. Em troca? Uma mania saciada.
Uma bela noite, a casa perguntou a ele:

- Por que fazes isso?

- A venda, para mim, é fundamental. Dou sempre um sonho para essas pessoas… - dizia “pessoas” com tom de ojeriza – Elas querem um sonho, não? Agora, se são pesadelos…

- Você acha que um dia vai conseguir me vender? Logo eu que sou o guardião do pior pesadelo de sua coleção! - dizia a casa.

- Veremos.

***


Qual poderia ser o pior pesadelo de Cícero, o representante simbólico de um Humano? Eu tive a coragem, no lugar dele, de sair de meu lar e, após sua morte num sanatório, largar a parte fictícia de minha história em minúscula e mergulhar na História em maiúscula. Fui até aquele casarão de dois andares, com madeira corroída e muitas baratas e escorpiões, bem como formigas negras grandíssimas.

Vasculhei por todo o canto para saber o que poderia ser o pior pesadelo de um ser humano. Até que, em certo ponto, achei um quarto escondido no porão. O recinto era claustrofóbico, mas não me metia medo.

Havia uma caixa. Apenas uma caixa. Aliás, um baú. Arrombei-o (metaforicamente, claro, pois tudo aquilo era e é construção minha, de minha imaginação).

Nele encontrei: a Loucura, o Desespero, a iminência da Morte. Não havia NADA ali, apenas minha apreensão por não haver nada. Minha obsessão não foi saciada, eu não sabia mais exatamente o que procurar, até perceber… que aquele meu estado era o que eu próprio procurava!

Foi quando percebi, inclusive, que Cícero não era Cícero, mas algo externo a minha imaginação… e que estava vivo. Questionei em voz alta:

- Quanto você me cobrou?

Uma voz baixinha me respondeu:

- Apenas sua disposição.


Imediatamente, senti-me arrastado numa velocidade frenética até a minha cama… começava tudo de novo! Cama, elevador, metrô, psiquiatra! O senhor dos pesadelos é de cada pessoa, e cada pessoa é o seu próprio fabricante de pesadelos.

Autor: João Batista Firmino Júnior.

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