Não sou bom em criar títulos. Apenas quero falar aqui sobre o que penso de muitos de nós homens heterossexuais e suas queixas envolvendo relacionamento afetivo, romantismo ou anti-romantismo, dilemas, casos, auto-estima baixa.
O que é obviamente visível, em primeiro plano, é uma série de homens pós-modernos, que se comportam felizes num simulacro de dores e prazeres em suas relações com as mulheres, temendo uma série de coisas, sentindo-se desprezados, desejando um controle de um jeito ou de outro, queixando-se das mulheres.
Em segundo plano, pessoas como eu, enxergando diferentes dimensões da vida cotidiana (ainda que isso não seja extraordinário), e que sentem um mundo repleto de neuroses, complexos, labirintos, simulacros, em que se vive a obsessão sobre o que as mulheres vão achar, medo de rejeição, ódios e amores.
Um homem saudável, e creio que também uma mulher saudável, não vive obcecado pelo jogo entre os sexos - nem no sentido de repudiar tudo e virar eremitas, nem no sentido de viverem prostrados diante de sua própria baixa auto-estima, seu desprezo auto-depreciativo, sua misoginia, no caso dos homens (que parece só fazer sentido numa mistura de atração e repulsa, nunca de uma repulsa absoluta). Um homem saudável busca uma série de dimensões na vida cotidiana na construção de seu bem-estar e de sua sobrevivência.
Você vive, deixa viver. O mais próximo de uma obsessão é construir algo realmente, construir um sustento profissional, fomentar projetos, criar algo maior que uma lista de conquistas amorosas e sexuais. Trata-se de enxergar um projeto de vida, natural e filosófico ou sobrenatural. Ao mesmo tempo, não repudia relacionamentos amorosos. Eventualmente, namora.
Um homem saudável, uma vez que, mesmo sem procurar, termine namorando, sabe que uma mulher também é um ser humano. Ela terá a oportunidade de ser e fazer diversas coisas simultaneamente, desde que respeite as leis da Física. Não há controle. Ele, se for saudável, sabe que sua auto-estima é autônoma, e não "acredita" ou assume como parte de sua identidade o que a companheira diz sobre ele (se ele é maravilhoso, é o que ela diz; se ele é desprezível, é o que ela diz... tal qual qualquer um poderia dizer). Pois, o que esse homem é realmente ele vai saber, é somente ele quem vai determinar. Somente ele cuidará de sua auto-estima, sabendo-se uma ótima pessoa ou não.
Mas, voltando a um ponto que creio ter delineado vagamente: a mulher não é uma categoria a parte. É uma pessoa, antes de ser "mulher", tal qual um homem é uma pessoa antes de ser "homem". A mulher também não é a mãe do sujeito, e nem a mãe de ninguém será alguém sobrenatural. Um homem saudável não segue uma dependência afetiva muito forte, ainda que sempre vá existir alguma, nem se deixa levar pelos estereótipos do que deveria ser uma mulher em sua vida e cultura, e do que deveria ser, enquanto homem, para as mulheres. Saudavelmente, ele viverá uma autonomia. Há pessoas, apenas. Projeto mesmo de vida, é quando você FAZ algo, algo todo seu, algo que independa de atração ou indiferença de mulheres "poderosas" sobre ele.
Eu mesmo, satisfaço-me com a ideia de ter autonomia em minha vida, de conseguir um emprego, de exercer uma carreira, de dominar o jogo da vida (e não as mulheres, que fazem parte da vida). Eu construo minha renda, meu patrimônio, minhas crenças sobre o mundo natural ou sobre um mundo sobrenatural todo meu (sem impor isso a ninguém, até porque ter crédito dos outros ou não sobre suas crenças não deveria interferir na auto-estima de ninguém). Eu construo meus textos, onde eu posso ser um demiurgo - imperfeito, mas ainda assim um criador. Eu vivo numa missão de exploração da vida, do cotidiano, espero pela morte não esperando por ela, e, após ela, quem sabe, tenha uma continuidade.
Eu, apenas, vivo em paz, sem tantas neuroses, sem tantos dilemas que são perdas de tempo. Eu assumo apenas os dilemas verdadeiros. Vivo melhor. Não dependo de me preocupar com apreço nem desapreço de ninguém. Não aumento nem diminuo as mulheres. Não quero nada de ninguém, salvo o que faz parte das trocas do dia a dia (e mesmo assim sem ser algo que me doa tanto).
Se eu estudo, eu não me distraio. Se eu trabalho, eu não penso em ninguém. Eu faço, eu existo, aproveito cada refeição. Não preciso ser amado, não preciso ser odiado. Se alguém, muito "zeloso" sobre minha pessoa, quiser olhar para meu exemplo, poderá, assim, talvez, me desprezar como um fracassado, ou me julgar como um complexado - mas somente à primeira vista. A segunda vista ideal é que esqueça de me analisar.
A verdadeira entrega no Amor não é eu me entregar totalmente a uma mera paixão (isso é capricho). Não é eu ser carne da carne de uma companheira. Não é eu "consumir", antropofagicamente, as mulheres que quero que me elogiem e que façam tudo o que quero e que adivinhem o que quero e façam. Mulheres são pessoas. Eu também sou uma pessoa, é o que importa. A verdadeira entrega no Amor é aproveitar o que possuir de autonomia em meus pensamentos e em minha vida. Observar o que puder observar, o que for interessante, sem que isso seja um peso para mim. Porque as pessoas "consomem" o mundo; não olham para ele. Eu quero olhar para o mundo, mas leve como uma pluma, sem "consumir" nada.
Assinado: João Batista Firmino Júnior.


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